A Descoberta da Voz - Claudio Parreira

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A DESCOBERTA DA VOZ 

Claudio Parreira

 


 

No século passado (sim, faz tempo) eu trabalhava num pequeno jornal em São Paulo cujo forte eram as publicações forenses (editais, citações, et cetera) e os balancetes comerciais de diversas empresas. Jornalismo mesmo, pouca coisa, 10% — no máximo. Mas eu não estava lá à toa: batalhava uma coluna de literatura e também tentava convencer o editor de fotografia e copidesque (uma função que hoje nem existe mais, e que acabei exercendo, mesmo contra a minha vontade) a me dar o cargo de fotógrafo do jornal. O Motta, esse era o nome do cara, não queria nem saber: ele mesmo fazia as poucas fotos e pronto. O restante das matérias e fotos vinha diretamente da Agência Brasil, órgão oficial do governo, hoje EBC, se não me engano.

Naquela época os jornais eram “montados” mesmo: cada um fazia uma parte: os dois únicos jornalistas freelas apareciam algumas vezes por semana, o diagramador passava parte do dia no bar em frente, eu organizava as publicações para o dia seguinte, fazia o copidesque das matérias magras dos jornalistas e também o editorial, que me era entregue toda noite pelo editor geral. Lá pelo meio da tarde aparecia o cara que fazia o fotolito (todas essas palavras podem parecer estranhas, mas existiam sim, eu garanto).

Eu andava muito envolvido com microcontos naquele tempo.  Minha primeira publicação em um jornal literário ocorrera pouco antes e isso me animou. O poeta Cláudio Willer, que editava a coluna Inéditos do extinto jornal “Leia”, observou que os meus contos tinham uma característica estranha, o que me animou mais ainda. Mas eu sabia (bem, não exatamente) que não era só isso. Meus contos pendiam mais para o lado do fantástico, mas eu mesmo nem tinha ideia de que aquilo tinha um nome e era um gênero específico.

Como me sobrava algum tempo vago, e eu aproveitava para escrever. Geralmente mostrava os pequenos contos para o dono do jornal, na expectativa de que ele me desse a tão sonhada coluna. Ele não dizia nem que sim, nem que não, e eu seguia escrevendo. Um dia tomei a liberdade de mostrar um conto para o jornalista que estava de plantão. O sujeito me parecia bacana, trabalhava também para o Estado de São Paulo e trazia consigo sempre um livro ou dois. Ele leu rapidamente, olhou pra mim, leu de novo. E largou essa frase: “O seu estilo me lembra muito Julio Cortázar. Conhece?” Eu disse que sim, é claro — mas era mentira: eu não tinha a menor ideia de quem se tratava. Pouco tempo depois eu comprei Bestiário, primeiro livro de contos do autor argentino. É difícil descrever aqui o efeito que esse livro exerceu sobre mim; só sei dizer que, depois da leitura desse livro, eu nunca mais fui o mesmo. E nem os meus contos.

Passei a devorar tudo de Cortázar, e daí conheci também Borges & Bioy Casares, outros argentinos que me impressionaram demás, e logo em seguida o colombiano Gabriel Garcia Márquez, entre outros tantos que faziam parte do que se convencionou chamar Realismo Mágico ou Fantástico na América Latina.  Como uma coisa leva a outra, acabei conhecendo também Murilo Rubião e J.J. Veiga, estes últimos brasileiros e igualmente geniais.

Eu já não me sentia mais tão sozinho no mundo literário: mais gente fazia literatura “estranha”. Mais gente fazia literatura fantástica. Cortázar, no entanto, continuou no meu caminho: eu não me contentava apenas em ler os seus contos: eu queria escrever como ele! Isso, de certa forma, acabou virando um problema: eu estava tentando imitar o estilo do argentino, e os resultados nunca eram satisfatórios. Cada conto escrito terminava em frustração: eu não conseguia atingir aquele grau de excelência, e mesmo quando escrevia alguma coisa próxima, faltava algo: a minha personalidade não estava lá, e muito menos a dele. A minha literatura deixou de ser um prazer para se transformar em obsessão.

Passei muito tempo tentando encontrar a fórmula Cortázar, mas sem sucesso, naturalmente. Por outro lado, prosseguia com os meus contos, lidando com minhas limitações e curtindo os progressos alcançados. Como disse acima, eram microcontos, uma prática que veio das minhas experiências anteriores com os haikais japoneses, que acabei adaptando à prosa.

Quando tentava escrever algo mais longo e elaborado, lá vinha Cortázar de novo e a pretensão de fazer algo parecido.  Não funcionava. Até que um dia, de repente, um estalo: eu jamais conseguiria escrever como o autor de Rayuela — e por motivos bem simples: éramos diferentes, eu e ele, com vivências e experiências distintas, referências e preferências literárias diversas, enfim, dois homens que tinham em comum apenas a paixão pela literatura fantástica.

Esse foi, confesso, um momento libertador: quando deixei Cortázar seguir o seu caminho, pude finalmente seguir o meu, no qual permaneço até agora. Foi o momento em que descobri a minha própria voz.

E é com essa voz que saúdo todos vocês aqui, neste nosso primeiro encontro. 

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