Uma visão fantástica sobre o mundo - Claudio Parreira

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UMA VISÃO FANTÁSTICA SOBRE O MUNDO

Texto

Claudio Parreira


Não sei determinar exatamente quando começou o meu fascínio pela literatura fantástica. Esse é um ponto obscuro, e talvez o maior mistério da minha vida. Minhas leituras, é claro, tiveram um papel importante nisso tudo — eu era o tipo de leitor ávido, e não tinha ainda um gênero predileto: lia desde romances água com açúcar até obras mais complexas que eu certamente não alcançava. Minha primeira leitura de Kafka, por exemplo, quase me afastou dele: eu simplesmente não entendia o que o tcheco queria dizer com aqueles castelos e processos & baratas.

O bom disso tudo, no entanto, é que esse quase acabou desempenhando um papel importante não só na minha jornada de leitor mas também na de escritor: o tal estranhamento, palavra tão comum quando o assunto é a obra do autor de A Metamorfose, ficou me cutucando por um bom tempo. Isso me abriu os olhos para outros autores circundantes, e o encontro com a literatura fantástica mais “clássica”, digamos, foi um pulo.

É claro que a Kafka se juntaram muitos outros autores que a maioria conhece e não vem ao caso agora citá-los. E foi aí, a partir dessa experiência, que uma nova visão de mundo se abriu para mim: era possível enxergar o mundo com outros olhos, menos realistas, e o campo se revelou vasto e cheio de possibilidades.

Essa abertura a que me referi acima, porém, e ao contrário do que muitos possam pensar, não foi algo gratificante. Eu diria que tudo isso acabou por me revelar um descontentamento do qual eu não tinha pleno conhecimento. O mundo me era insuficiente, e as coisas, as pessoas. Era insatisfatório pra mim, como escritor, fazer o mero espelhamento das coisas como elas eram (e são). 

A minha visão fantástica de mundo nasceu daí: da grande insatisfação com as coisas como elas estão dispostas à minha frente. Senti que precisava subverter a realidade como ela me era imposta — e acho que foi esse o grande momento da minha escrita, o insight mágico de que tudo é possível escrever, a grata epifania que me permitiu saber que repousava em minhas mãos a possibilidade de criar um outro mundo a partir deste que nunca me agradou por completo.

É evidente que levei alguns anos para entender isso tudo de maneira clara e sem mais questionamentos como agora. Tudo foi fruto da minha trajetória e observação, e também da experiência diária com a literatura e suas infinitas possibilidades. Tudo foi por perceber que havia algo errado e que eu precisava me deslocar para não ficar à mercê de uma vidinha medíocre e sem sentido. Hoje me sinto confortável em colocar um hipopótamo numa lanchonete ou um dragão embaixo da cama sem que isso fira o senso do mais comum dos leitores. Tudo é uma questão de adequar os elementos ao tema e distorcer essa realidade que não me agrada em algo que me alegre os sentidos. Uma visão fantástica sobre a vida que talvez transforme esse mundo ordinário num lugar bem melhor para viver.

 

 

Ilustração  Ricardo Solis


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