De Poemas, Contos e Romances - Claudio Parreira

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De Poemas, Contos e Romances

Claudio Parreira

 

O meu encantamento inicial, é claro, foi por um poema. Não aqueles crássicos que éramos obrigados a ler na escola. Refiro-me ao Poema Sujo, de Ferreira Gullar, que plantou em mim a possibilidade de escrever além das regras estabelecidas pelo bom comportamento. Após aquela leitura eu descobri que havia todo um novo universo a ser explorado. E foi isso mesmo o que eu fiz.

A minha curiosidade adolescente me levou por muitos caminhos e poetas os mais variados, mas quis o destino que eu tropeçasse bem cedo nos bigodes de Leminski e aí, mais uma vez, outros universos se abriram, estes mais amplos e complexos do que eu jamais chegara a imaginar.

Via Leminski, conheci Matsuó Bashô, poeta japonês dedicado ao hai kai, um mestre da concisão. Confesso que gostei da parada, e tentei eu mesmo me transformar em poeta de hai kai — sem sucesso, devo admitir. Nunca tive, aliás, nenhum talento para a poesia, embora ainda hoje leia e admire quem se mantém fiel à tradição.

A concisão, no entanto, a síntese, sempre me interessaram. Era um desafio: como escrever o máximo com o mínimo de recursos? No capítulo IV de ABC da Literatura, Ezra Pound diz o seguinte: “Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível. Dichten = condensare”. Como eu não me dava lá muito bem com os instrumentos da poesia, parti, meio às cegas, para o conto, outro território desconhecido pelo qual me aventurei.

O que eu queria, de fato, com os contos, era expandir a estrutura dos hai kais: não sair muito de perto, sem tampouco ir tão longe. Na verdade, eu queria fazer hai kais em prosa. E foi assim que passei a escrever contos de cinco, dez linhas, que hoje são conhecidos como minicontos ou microcontos. Isso tudo foi popularizado pela internet, mas eu já fazia essas experiências em 1985, numa época em que os recursos tecnológicos eram escassos e longe do alcance de garotos como eu que queriam, ao mesmo tempo, mudar o mundo e a literatura.

A coisa ficou loka quando caiu em minhas mãos um pequeno volume de contos de Franz Kafka: Descrição de uma luta, publicado aqui pela Editora Nova Fronteira. É uma coletânea vasta de breves contos, e um deles me chamou imediatamente a atenção. Sintam aí:

 

Desista!

 

Era de manhã muito cedo, as ruas limpas e desertas, eu a caminho da estação. Comparei o relógio da torre com o meu e vi que era muito mais tarde do que pensava. Precisava me apressar. O choque dessa descoberta me fez hesitar quanto ao caminho a seguir: não conhecia bem a cidade. Felizmente vi um policial, corri para ele e, ofegante, perguntei-lhe qual o caminho para a estação. Ele sorriu e disse:

— Está me perguntando qual o caminho?

— Sim — respondi —, pois não consigo achá-lo.

— Desista! Desista! — disse ele e, com um movimento brusco, voltou-se como se quisesse ficar sozinho com o próprio riso.

Tradução de Aulyde Soares Rodrigues

 

Essa pequena peça pode até não parecer muito significativa, mas a sua importância foi crucial para que eu passasse a escrever pequenos contos nesse tom. Aí estava tudo o que eu queria: a brevidade, a concisão, não como poema, mas em prosa.

Fiquei anos repetindo esse modelo, ora mais concisos, ora mais dilatados, mas sempre cuidando para que o conto não ultrapassasse uma página de texto. Vinte, trinta linhas para mim era algo longo demais. E os contos, naturalmente, tinham que conter o estranhamento de Kafka e de outros autores que fui descobrindo pelo caminho. Eu então me considerava um fantástico escritor de minicontos fantásticos!

Passei anos da minha vida fiel a essa ‘fórmula’ — mas a literatura é algo dinâmico e um dia me flagrei escrevendo além das trinta linhas. Duas páginas, três, cinco. Isso me encheu de pavor. Mas os contos funcionavam, sem perder as suas características: eram estranhos, e mantinham a essência da literatura fantástica, gênero que vai me acompanhar até o fim.

Muito tempo depois, o garoto que queria apenas escrever hai kais e contos minúsculos, acabou por escrever — não sem muita resistência, é bom que se diga — o seu primeiro romance fantástico (ou de fantasia urbana, como querem alguns), Gabriel, que foi publicado em 2012 pela Editora Draco.

Foi uma longa trajetória, cheia de medos e inseguranças, erros e acertos, mas um caminho que se mostrou possível graças à persistência e à ousadia de não se conformar com a imposição de barreiras que, na verdade, nós mesmos criamos.

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