Em transe — ou O conto é um bicho grudado no peito

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Em transe — ou O conto é um bicho grudado no peito

Claudio Parreira 

 

 

Conta como se a narrativa não tivesse interesse senão

para o pequeno ambiente de tuas personagens, das quais pudeste ter sido uma.

Não há outro modo para obter a vida no conto.

Horácio Quiroga, in Decálogo do Perfeito Contista

 

 

 Não tenho a menor ideia de quando começou a minha vontade (se é que se pode dizer assim) de escrever contos. Ou melhor, tenho sim: como já escrevi aqui em outra ocasião, tudo é culpa do hai kai, pequena pérola japonesa de extrema concisão.  Pois é.

 O que saquei desde o início é que eu jamais conseguiria atingir o status de poeta, embora fossem várias as minhas tentativas nesse sentido. Havia, no entanto, essa pequena chama na poesia que me chamava a atenção (e ainda chama) que era a síntese, a precisão da linguagem, o recorte preciso de uma emoção ou um fato qualquer, real ou imaginário — ou fantástico, para restringirmos ainda mais o círculo da nossa conversa.

 O pequeno e pretensioso aprendiz de gênio aqui teve então uma ideia revolucionária: por que não aplicar a concisão da poesia à fluidez da prosa? Essa técnica era, devo confessar, um tanto cômoda também, uma vez que eu tinha preguiça de escrever. Era uma desculpa para não escrever algo mais longo e que, devido à minha pouca experiência, poderia dar em lugar nenhum. Nasceram então os meus pequenos contos, hoje tão comuns em tempos de internet, mas escritos levando em consideração tudo aquilo que eu tinha aprendido com a leitura da poesia: a busca pelas palavras exatas, os cortes precisos, o equilíbrio precário da travessia que nos acena a cada conto.

 Eis aí então o transe: qualquer um de vocês que já tenha escrito um conto sabe do que estou falando — essa experiência é mesmo um mergulho no vazio, um debater-se com circunstâncias escorregadias, uma luta quase desigual entre o objetivo e o resultado disso. Não foi por acaso que iniciei esse texto com o Decálogo do Perfeito Contista, do uruguaio Horário Quiroga (e não, não boto fé numa fórmula de Perfeito Contista, e na verdade nem acredito que isso exista). Mas o que Quiroga diz sobre escrever dentro de um campo delimitado, o pequeno ambiente do conto, isso sim levo em consideração até hoje: é o transe sob controle, se é que posso falar assim, e aí entram finalmente as experiências com a economia das palavras, da linguagem contidas na poesia, a Vida do conto, enfim.

 É nesse pequeno ambiente que mantenho o foco quando estou diante da famosa e temida página em branco: tudo o que quero e preciso está ali, como se eu tivesse que inventar um hipopótamo dentro de uma garrafa. E é possível, sim, criá-lo; mais ainda, uma família inteira deles, dançando, bebendo e trazendo para o exíguo espaço criado todo o mundo exterior. Claro que nem sempre atinjo o grau desejado, o que é uma frustração, um sinal de que algo saiu do pequeno círculo que eu mesmo delimitei e se perdeu nesse imenso labirinto que é a literatura. Cortar os pulsos? Claro que não! Daí que se cria novamente o pequeno ambiente e vamos à luta.

 Sabido mesmo é o seguinte: o conto não passa de um bicho grudado no peito, um organismo do qual tentamos vezes sem conta nos livrar. Na maioria das vezes, conseguimos com sucesso, mas basta um piscar de olhos e tá lá o bicho de novo, grudado feito um Alien sem o qual não conseguimos viver.

 

 Sobre o transe, e também o bicho chamado conto, deixo aqui um link esclarecedor de Cortázar, que dispensa apresentações: https://oficinadetextosecontos.wordpress.com/2011/03/10/do-conto-breve-e-seus-arredores-julio-cortazar-1993/

 

 No texto, extraído do seu Valise de Cronópio, ele já vai direto às palavras de Quiroga, que reproduzi acima. E se vocês ainda não conhecem a obra do uruguaio, deixo aqui o convite.

 

 Até a próxima, folks!

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