Entrevista: Márson Alquati

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ENTREVISTA: MÁRSON ALQUATI

 Gaúcho natural de Caxias do Sul – RS, nascido em 28/11/1972, atualmente reside em São José do Ouro, onde atua como Técnico do Tesouro do Estado do RS e, nas horas vagas, se diverte escrevendo histórias de literatura fantástica. Amante inveterado dos livros começou a escrever para passar o tempo durante as penosas doze horas semanais que era forçado a suportar dentro de um ônibus caindo aos pedaços, no deslocamento entre Caxias do Sul e São José do Ouro.

Focado no gênero Fantástico, escreve para todas as idades e se considera um contador de histórias que procura transmitir para o seu público somente aquilo que gostaria de ler, descartando tudo o que não aprecia, buscando sempre a originalidade e o quebrar dos paradigmas tradicionais inerentes aos assuntos que aborda. Esse é o seu diferencial!



Márson, primeiramente, seja bem vindo à Irmandade! Mesmo escrevendo nas horas vagas, você já publicou três romances, participou e prefaciou várias antologias. Na sua opinião, qual é o maior entrave na publicação de um livro por um novo autor no Brasil e qual o maior benefício que a internet propiciou para os amantes da leitura?

Obrigado, meus amigos. É uma grande honra ter meu trabalho exposto neste maravilhoso veiculo de integração cultural. Bem, em minha opinião, o maior entrave para a publicação de novos autores no Brasil é o súbito aquecimento do mercado literário interno pelo qual passamos, com uma verdadeira explosão de títulos sendo lançados nos últimos tempos, aliada ao surgimento de tantos novos talentos nacionais que as editoras não dão conta de sequer analisar a imensa quantidade de originais que recebem mensalmente, quanto mais de publicá-los.

E também devemos ressaltar a inexplicável discriminação que os autores brasileiros ainda sofrem, tanto das grandes editoras quanto do público leitor e da mídia, em relação aos nossos colegas estrangeiros. Não consigo entender as razões disso, uma vez que temos aqui no Brasil autores tão bons ou até melhores do que os “importados”. São muitos os exemplos de excelentes escritores nacionais infelizmente pouco conhecidos, mas que se tivessem apenas nascido nos EUA ou na Europa já teriam os seus livros transformados em Bestsellers, por conta da extrema qualidade dos mesmos.

Em contrapartida, temos a “Santa Internet” do nosso lado, através da qual, aos poucos nós estamos logrando reverter essa deprimente realidade. Prova disto é que a cada dia que passa, graças a ela, angariamos uma legião de novos adeptos para a nossa literatura nacional. E da mesma forma, para os amantes da leitura não há melhor ferramenta para se conhecer melhor as obras lançadas no nosso país e seus autores. Inúmeros blogs e sites especializados divulgam as novidades e os lançamentos, fornecem sinopses, resenhas e opiniões que ajudam os leitores a decidir quais livros irão ler, ao mesmo tempo em que se tornaram uma excelente ferramenta de marketing para os autores nacionais, auxiliando-os sobremaneira na penosa tarefa de tornar as suas obras reconhecidas nacionalmente ou, pelo menos, conhecidas do público alvo para o qual foram escritas.  
 

O mercado editorial segue algumas fórmulas de publicação até esgotar a última gota de cada assunto. Foi assim com os vampiros, passando por bruxos, zumbis e mais recentemente, os anjos. O primeiro volume da Trilogia Ethernyt foi lançado antes desta invasão de livros sobre anjos. Qual a grande inspiração que você teve para conceber a história?



Realmente, quando lancei “A GUERRA DOS ANJOS”, em 2009, ainda não havia esse “boom” angelical nas livrarias. Foi justamente com base nisso que eu optei por falar sobre anjos e demônios em meus livros, para fugir do lugar comum da vez que eram os vampiros. Mas o “boom” veio e então eu aproveitei a onda para lançar os demais volumes da série: “SOB O DOMÍNIO DAS SOMBRAS” (2010) e “O DESTINO DOS ESCOLHIDOS” (2011), completando assim a Trilogia Ethernyt. Quanto à inspiração para escrevê-los, sou um verdadeiro aficionado por ficção, fantasia, suspense e terror, tanto nos livros como no cinema, de modo que extraí daí os elementos básicos para a trama de Ethernyt. Resumindo: peguei tudo o que me atraía nos filmes e livros que havia lido e inseri na minha história, da mesma forma que tive o cuidado de excluir tudo o que não gostava de ler ou assistir.

Como autores que também somos, imaginamos que você também tenha momentos de bloqueios temporários quando está escrevendo. Desta forma, como foi a experiência de escrever uma trilogia? Qual a maior dificuldade em manter o interesse dos leitores em uma obra mais longa?



Se escrever um livro já é difícil, imaginem uma Trilogia! No início eu jamais imaginei escrever algo além de um pequeno romance de ficção fantástica, no entanto as ideias foram fluindo e fluindo, cada vez mais vertiginosamente em minha mente, de forma que acabei sendo obrigado a esticar o “negócio” para uma trilogia. Havia muita coisa que eu queria contar para que coubesse em um livro apenas. A maior dificuldade em manter o interesse dos leitores, na minha opinião, foi a demora entre um lançamento e o outro (média de um ano de intervalo entre um evento e o outro). Fora isso, creio que fui bastante feliz, pois a maioria dos que leram o primeiro livro, também leram o segundo e desejam ansiosamente ler o terceiro (rsrsrsr)...   


 



Como escritor num mercado de Literatura Fantástica disputadíssimo, onde resenhas, comentários nos blogues, movimentos nas redes sociais, são as molas mestras propulsoras na divulgação e sucesso de um livro dentro deste gênero, como você encara as críticas a teu trabalho? Como você recebeu, por exemplo, os comentários irônicos a respeito da escolha do título-Slogan “Ethernyt” ser em inglês?

Sem demagogia, eu adoro críticas, sejam positivas ou negativas, desde que sejam construtivas. Acredito que é apenas através das críticas que recebemos, principalmente as negativas, que nos tornamos capazes de rever métodos e conceitos, amadurecendo e aprimorando cada vez mais a nossa arte. Por mais experientes que nós sejamos sempre teremos o que melhorar. E quem melhor do que os nossos leitores para nos apontar, de forma saudável, o que devemos mudar e aonde podemos melhorar? Afinal é para eles que escrevemos!   



Fazendo uma rápida pesquisa na Internet para elaborar algumas perguntas pra você, encontramos uma entrevista bem pequena em um determinado blog, onde o entrevistador lhe questiona sobre os projetos do futuro. E você, entre alguns projetos citados, comenta textualmente assim: “eu estou escrevendo um drama de cunho escatológico”. É uma expressão interessante que deixa perspectivas à imaginação da gente. O que exatamente você quis dizer com um drama de cunho escatológico?

Estou finalizando este projeto maravilhoso que se chamará “O SANGUE DE ADÃO”. É uma história diferente, em que o Fim dos Tempos se revela sob a forma de uma poderosa gripe que surge na Índia e rapidamente se espalha por todo o mundo, dizimando a maior parte da população do planeta. Só o antídoto produzido através de um tipo bem raro de sangue, o “SANGUE DE ADÃO” do título, será capaz de evitar a total extinção da raça humana. Contudo, esse composto sanguíneo é tão raro que apenas meia dúzia de pessoas no mundo inteiro o possuem. Começa então uma desesperada corrida contra o tempo para se descobrir quem são essas pessoas. Esse é apenas o pano de fundo para a história de Miguel, um pai de família que acompanha a evolução da pandemia pelos bastidores. Mas, em determinado momento, se vê as voltas com o maior dilema da sua existência ao ver-se obrigado a escolher entre a vida de Eduardo, o seu filhinho de seis anos (e um dos portadores do tal sangue raríssimo) ou a salvação da humanidade... Será um livro no estilo de “A CABANA”, só que com fundo apocalíptico e sem tantas metáforas.



Para aqueles que ainda não conhecem sua obra, o que diferencia os teus anjos (na trilogia Ethernyt) dos anjos do Eduardo Spohr (considerando que os conhece)?



Sou um grande fã do Spohr, de modo que fica fácil falar sobre os anjos dele. Os nossos personagens angelicais possuem poucas semelhanças entre si. Enquanto os dele são seres sobrenaturais e divinos, criados por Deus/Yaveh, vivem em outra dimensão e possuem poderes especiais; os meus são simplesmente seres extraterrestres alados que, num passado remoto, vieram de outro planeta e adotaram a Terra como lar. Foram os criadores da humanidade e, mais tarde, se tornaram os antigos Deuses das culturas da Antiguidade. Criaram as religiões e as mitologias como forma de domínio sobre os seres humanos, não possuem poderes e são tão mortais como qualquer um de nós, a única diferença é que possuem uma maior longevidade vital e são dotados de um poder de regeneração celular mais desenvolvido do que o nosso. Já a semelhança entre os meus anjos e os do Spohr, reside no simples fato de que ambos são imperfeitos, passíveis de defeitos, erros e crueldades, apesar de serem os mocinhos da história; da mesma forma que os meus Demônios, os vilões, não são de todo maus.



Com a internet, houve uma aproximação autor-editora causando assim o surgimento de miríades de aspirantes a escritores e críticos todos os dias, e com as redes sociais, surgiram as chamadas “panelinhas”, onde o talento é julgado muitas vezes com base apenas no critério “amizade”, não só entre autores, mas também autor e editora. Em seu ponto de vista, esses círculos de amizade favorecem ou são prejudiciais ao surgimento de novos talentos?

As duas coisas... Acho que todo incentivo é válido para quem está começando, mesmo que venha através de panelinhas ou grupos fechados. Mas também acho que o verdadeiro julgamento que devemos desejar para os nossos livros é o do “grande público”. Ou seja, dos desconhecidos que avaliarão o nosso trabalho de forma real e imparcial. Serão eles que nos darão o veredicto em relação ao nosso talento ou a falta dele (rsrsrs).  



Quais são os artistas, clássicos e/ou contemporâneos, que influenciaram o seu trabalho? Ou, ainda que não tenham influenciado, que você admira?

 



Nossa, são muitos! Vou citar apenas alguns deles: Tolkien, Dan Brown, Agatha Christie, J.J. Benites, Conn Igulden, S. Collins, Erich Von Daniken, Zecharia Sitchen, Bernard Cornwell e todos os meus ilustres colegas da literatura fantástica nacional...

 



Há algum gênero literário que você gostaria de escrever e que ainda não tenha feito? Ainda falando em gênero literário, o tema fantástico é mesmo o seu favorito?



Sim e sim. Sou viciado em História e sonho em algum dia escrever um épico-histórico baseado na biografia de alguma ilustre figura da História da Antiguidade. E sim, a literatura fantástica é a minha favorita, sempre foi e sempre será...



Como descobriu o universo da literatura e o que te instiga a seguir este caminho?

 


Sempre gostei de ler. Desde pequeno leio tudo o que aparece na frente: livros, gibis, propagandas, letreiros e até placas de trânsito (rsrs). Mas nunca me julguei capaz de escrever um livro, até que em 2006 passei em um concurso público e fui lotado a 300 km de onde morava. Tinha que encarar doze horas dentro de um ônibus caindo os pedaços toda semana. E, como não conseguia dormir, numa dessas viagens resolvi rabiscar em minha agenda algumas ideias para um conto. Essas ideias evoluíram e acabaram se transformando no esqueleto para um pequeno livro. Elas continuaram fluindo e aquele livro ficou pequeno demais para tanta coisa que eu queria contar e por fim se transformou na obra tríplice intitulada “Trilogia Ethernyt”. Por isso costumo dizer sempre que foi o destino quem descobriu a minha veia artística, quando fui lotado tão longe de casa. E o que me instiga a continuar neste caminho é o carinho que tenho recebido dos meus leitores, a surpreendente aceitação do meu trabalho, as novas e valiosas amizades que conquistei neste meio tempo e aquelas que sei que ainda conquistarei e, principalmente, o incomensurável prazer que sinto em contar minhas histórias...



Para você, como deve ser uma boa história? Que elementos não podem faltar para cativar a sua atenção como leitor? Quando escreve, imagina como se dará a recepção do leitor, ou essa não é uma preocupação?



Para mim, uma boa história deve sempre ser original e fluída, possuir uma trama inteligente e bem elaborada, de preferência com fundos épico-históricos, fundamentada com ampla pesquisa acerca de todos os temas abordados e cenários usados, deve possuir personagens cativantes e bem construídos. Além de conter os elementos básicos que eu particularmente considero essenciais: ação, aventura, fantasia, ficção, mistério, suspense, drama, romance e terror. Quando escrevo, considero a receptividade do meu público leitor acima de tudo. Procuro sempre colocar no papel aquilo que eu gostaria de ler, pois sinto que somente dessa forma conseguirei contemplar positivamente as expectativas dos meus leitores.


 
Apesar de ter escrito para algumas antologias, não são encontrados muitos contos seus na rede, como é comum atualmente no meio literário. A que se deve este fato? O autor tem maior interesse em narrativas mais longas, ou acredita que a internet deve assumir um papel diferente na divulgação de seu trabalho?

Na verdade, isso se deve ao fato de que embora considere que ambos possuam a mesma importância dentro do cenário literário brasileiro, me detenho mais a escrever livros com histórias longas do que contos. Tenho sérios problemas com quantidades limitadas de caracteres (rsrsrsrs). Por essa razão é que tenho apenas alguns poucos contos em minha biografia. Outro fator que colabora para que eles não sejam amplamente divulgados na internet é que geralmente os escrevo a convite dos organizadores das antologias e os contratos assinados com as respectivas editoras impedem a divulgação aberta dos referidos contos na rede. No entanto, guardo na manga uma meia dúzia de contos produzidos especialmente para sites literários e que estão publicados nos mesmos. Para quem quiser ler estes contos, gratuitamente, basta visitar o site http://www.ethernyt.com.br e buscá-los na seção “CONTOS DO AUTOR”.



Para finalizar, agradecemos mais uma vez sua participação no site A Irmandade, e deixamos esse espaço aberto para que exponha suas ideias de forma livre, deixando uma pequena mensagem aos leitores.



Agradeço a oportunidade, do fundo do coração. Parabéns aos amigos fundadores e administradores do blog “A IRMANDADE” por prestigiarem e divulgarem a literatura nacional. São iniciativas como a de vocês que me dão a esperança de que um dia o povo brasileiro, assim como a própria humanidade, descubra no prazer da leitura e na sabedoria dos livros uma poderosa ferramenta para alcançar a tão almejada Paz Universal. E, para encerrar, gostaria de deixar aqui uma sábia mensagem do ilustre poeta gaúcho Mário Quintana, que diz o seguinte:

“O VERDADEIRO ANALFABETO NÃO É AQUELE QUE NUNCA APRENDEU A LER, E SIM AQUELE QUE APRENDEU E NÃO LÊ”.
             [Mário Quintana]

Portanto, meus amigos, leiam... Leiam e prestigiem os autores nacionais!

Afetuosos Abraços,

 


Comentários   

#2 Emerson Pimenta » 05-01-2012 18:08

lol vei, muito legal a entrevista!
O Márson parece ser muito gente boa, me identifiquei muito com o jeito dele.
E captei, obviamente, todos os concelhos hehehe :lol:

o/
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Emerson Pimenta

#1 Tânia Souza » 31-12-2011 01:34

É muito bom ver um autor como Márson comentando desde o seu processo de criação, a origem de algumas ideias e sua relação com as criticas e leitores.

Uma coisa interessante é ver como o mercado as vezes eleva um tema, no caso, os anjos, mas sempre há espaço para criações originais. Com certeza, já conhecia o trabalho do autor por alguns contos, e agora, estou curiosa para ler aTrilogia Ethernyt.
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Tânia Souza

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