Entrevista: Martha Argel

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ENTREVISTA: MARTHA ARGEL

Martha Argel é paulistana, autora de três romances vampíricos – Amores Perigosos (2011), Relações de Sangue (2010) e O Vampiro da Mata Atlântica (2009). Publicou ainda várias coletâneas de contos de fantasia e ficção científica. Com Humberto Moura Neto, organizou a antologia crítica O Vampiro Antes de Drácula (2008), que reconta a trajetória do vampiro literário ao longo do século XIX. Organizou com Rosana Rios a antologia de contos clássicos Contos de Horror – Histórias para [não] ler à noite (2012). Seu lançamento mais recente é Lugar de Mulher é na CozinhaHistórias Fantásticas do Universo Feminino (2012), antologia que reúne contos fantásticos escritos por mulheres.

Bióloga e doutora em Ecologia, é consultora da organização internacional de proteção à vida silvestre Wildlife Conservation Society (WCS) e coautora de Aves do Brasil– Pantanal & Cerrado (2010), e de livros didáticos para ensino fundamental e médio. Tem ainda vários livros publicados sobre meio ambiente e aves brasileiras, além de inúmeros artigos científicos.



 

 

Além de escritora, você é bióloga. Quando escreve, costuma utilizar os conhecimentos específicos da área da Biologia na composição dos seus personagens?


Dependendo da história, sim. Em meus romances, calhou dos protagonistas serem biólogos, mas não foi uma coisa deliberada e pensada; talvez seja por que escrevo inspirada no que vivi e no que conheço bem, então seria o caminho mais natural a seguir. Fora os personagens, costumo sempre colocar em meus textos detalhes que se referem à natureza, basicamente por que sou apaixonada pelo mundo natural e, para meu gosto, acho que esses pequenos toques deixam as histórias mais atraentes e ricas.


Na antologia “Geração Subzero”, você participa com o conto “Entrevista com o Saci”, o que o leitor pode esperar dessa mistura tão sugestiva que apresenta uma relação intertextual ao “Entrevista com o vampiro" e, ao mesmo tempo, traz um mito extremamente brasileiro?


O nome do conto é uma brincadeira óbvia com o livro de Anne Rice, e já indica ao leitor o tom bem-humorado do texto. Esse conto foi um pretexto para voltar a minha infância, às férias passadas na fazenda, com todos os causos e lendas contados pelas pessoas com quem convivia.  Acho bacana dar um tratamento literário a coisas bem brasileiras, e registrar episódios de uma vida mais simples, de um passado não muito remoto, que a tecnologia, o ritmo alucinado da vida urbana e a perda de contato com o mundo real estão destruindo para sempre.


 

A antologia Lugar de Mulher é na Cozinha (2000) foi republicada pela Editora Draco e relançada no Fantasticon 2012. Como foi organizar uma coletânea de contos fantásticos que ironiza um ditado tão sexista e, ao mesmo tempo, busca valorizar a presença da mulher-autora na literatura fantástica brasileira?

Quanto saiu a primeira edição de Lugar de Mulher é na Cozinha, a literatura fantástica brasileira era conhecida por um punhadinho de leitores que também eram escritores. Na época, publicava-se sobretudo ficção científica escrita por autores homens, em geral para um fandom bem restrito. Foi a primeira antologia fantástica publicada em língua portuguesa reunindo apenas contos escritos por mulheres. Na verdade, não foi muito difícil reunir as doze escritoras incluídas na antologia, o que mostra que a qualidade existia, o que faltava era a oportunidade de publicação. E, claro, um trabalho cuidadoso de organização. Fui extremamente exigente na seleção e edição dos contos. Creio que se deve a esse cuidado de produção o fato de que a antologia não envelheceu, e ainda hoje se destaca pela qualidade dos contos. Ainda gosto tanto dela como gostava treze anos atrás...



Qual a principal diferença, em questões editoriais, entre o primeiro lançamento de Relações de Sangue, da Editora Novo Século, e a segunda da Giz Editorial?

 

Foram momentos diferentes. A primeira edição de Relações de Sangue saiu em 2002, quando não existia nenhuma tradição de literatura vampírica brasileira, e André Vianco ainda não tinha a imensa massa de leitores que com o tempo conquistou. De certa forma, naquela época era mais fácil divulgar os livros, participar de eventos e conquistar novos leitores. A segunda edição saiu em plena onda vampírica, e o que senti é que tem sido bastante difícil competir com as dezenas de livros estrangeiros e nacionais que hoje disputam um público leitor infelizmente ainda modesto. 


Após essa onda vampírica que a literatura sofreu, você acha que o mercado ficou supersaturado, ou ainda há espaço para novos romances sobre o tema?

 

Sem dúvida o mercado ficou saturado, mas o esperado é que os autores que “foram na onda”, e que publicaram esperando pegar uma carona nos grandes sucessos, sejam pouco a pouco esquecidos. Autores mais profissionais, com texto mais elaborado e consistente vão continuar tendo seu espaço, pois público para histórias de vampiros sempre vai existir.

 


Quando você escreve sobre vampiros, por exemplo no conto A Flor do Mal, como você lida com os valores femininos da época em que a vampira viveu? Você tem essa preocupação de mostrar os valores da época relacionados às mulheres?

 

Quando escrevemos histórias passadas em outras épocas, é inevitável interpretar o comportamento dos personagens de acordo com valores atuais. Ao escrever um conto de época, pesquiso muito para criar um cenário crível e uma atmosfera envolvente, mas é muito difícil, senão impossível, recriar todos os referenciais culturais da época em questão.  Assim, mesmo situada no passado, as histórias escritas hoje em dia são, necessariamente, histórias contemporâneas; é muito possível que, se eu tentasse recriar um comportamento típico da época do conto (século XV), acabaria descrevendo ações e reações que criariam estranheza no leitor de hoje. 

 

Como você vê o gênero terror na perspectiva literária brasileira? E para quem nunca teve contato com os seus livros, como você considera os seus vampiros? São assustadores, ou possuem uma linha mais branda e romântica?

 

Como toda literatura de gênero, o terror não é levado muito a sério pela intelligentsia literária brasileira, mas não vou bater na tecla, já muito batida, do descompasso entre literatura mainstream e público leitor no Brasil. Não considero que meus livros vampíricos sejam de terror, e tampouco românticos, embora tenham elementos de ambos; vampiros que não dão medo e que não são sedutores não têm muita graça, não é? Muitos leitores já disseram que sentiram muito medo ao lerem O vampiro da Mata Atlântica, cujo protagonista é um vampiro-monstro, como os do folclore europeu, e não um vampiro-herói; para mim é um livro muito mais de aventura. Relações de Sangue é basicamente um romance policial com vampiros  e Amores Perigosos tem um pouco de ambos, com mais um tanto de romance.

 


Qual a distância, caso considere que ela exista, entre a literatura fantástica nacional e a importada, como é o caso das Crônicas de Gelo e Fogo e a Companhia Negra, na qualidade da prosa?

 

Não há homogeneidade nem na produção nacional nem na estrangeira; há livros mais bem trabalhados e livros mais simplórios tanto em uma quanto em outra. Há livros estrangeiros incríveis sendo traduzidos, mas algumas das séries estadunidenses que estão inundando o mercado brasileiro têm tramas fracas, prosa rasteira e personagens rasos. Da mesma forma, há autores brasileiros que produzindo livros excepcionais, que poderiam perfeitamente ter carreira internacional se o Brasil tivesse mais relevância cultural em um contexto mundial; por outro lado, existem também obras nacionais de menor qualidade literária.

 


Vamos te colocar numa saia justa: dentro da nova safra de autores de literatura fantástica nacional e estrangeira, quais você destacaria no cenário atual?

 

Correndo o risco de ser deselegante por omissão, eu citaria, entre os autores nacionais de que gosto muito, Giulia Moon, Helena Gomes, Rosana Rios, Kizzy Ysatis e Dennis Vinicius.  Quanto à ficção estrangeira, infelizmente não tenho lido quase nada, mas destacaria Veronica Rossi, cujo romance de estreia, Under the Never Sky é uma ficção científica distópica absolutamente fascinante.

 

 Contos de Horror – Histórias para (não) ler à noite, livro com tradução e comentários de Rosana e Martha Argel, aprovado no PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), pode ser considerado uma grande façanha, certo? Como é tratado o horror neste livro para os adolescentes? E qual foi o caminho para conseguir a aprovação deste projeto no PNBE?

O Contos de horror foi um projeto bacana e extremamente profissional, muito planejado por Rosana e  por mim,em conjunto com a editora Farol Literário. Houve um trabalho exaustivo de seleção de contos de bons autores do século XIX, não apenas em função do horror em si, mas também do ritmo e da história sendo contada. Além do cuidado na escolha dos contos, nós nos preocupamos em fazer uma tradução fiel ao original, mas que não causasse estranheza ao leitor jovem, por exemplo eliminando termos e construções que mesmo em inglês já caíram em desuso. Procuramos dar fluidez ao texto, como forma de aproximar os jovens da fascinante literatura de autores clássicos como Edgar Allan Poe, Charles Dickens e outros. Quanto ao PBNE, não há fórmula mágica; a única certeza é que só um padrão elevado de qualidade dá alguma chance de que um livro seja selecionado.
 

 

Você pretende algum dia flertar com outros gêneros fantásticos, escrever um romance distante da área atual que você trabalha como, por exemplo, FC ou Alta Fantasia?

 

Na verdade, eu entrei na literatura fantástica pela Ficção Científica, e tenho vários contos de FC publicados em antologias. Ainda, algumas de minhas primeiras tentativas de escrita ficcional foram de Alta Fantasia, mas isso deve ter sido mais de vinte anos atrás. Creio que não, não tenho planos de explorar novas fronteiras. Se bem que nunca se sabe...
 

 

Quais os novos projetos nos quais está trabalhando dentro do universo da Literatura Fantástica?

 

 

No momento estou muito mais voltada para a não-ficção. Escrevo livros didáticos para a Edições SM, e estou trabalhando no segundo volume da série Aves do Brasil/ Birds of Brazil, um projeto binacional da ONG Wildlife Conservation Society, sediada em Nova York. Esses dois projetos não me deixam muito tempo para a ficção. Meu único plano, no momento, é escrever o terceiro livro da vampira Lucila, e concluir a série que começou com Relações de Sangue e prosseguiu com Amores Perigosos. Mas ainda não tenho uma previsão de quando o livro estará pronto.

Queria agradecer imensamente ao espaço aberto pelo Thato Bordin e pelo site A Irmandade para a divulgação do trabalho dos escritores nacionais. Aproveito  para dar os parabéns pelo trabalho de disseminação da fascinante atividade da leitura. Que vocês continuem por muitos anos dialogando com escritores, leitores e todos os apaixonados pela palavra escrita!



 

Comentários   

#3 Tânia Souza » 05-02-2013 09:46

Muito legal saber que a Martha começou com FC, não sabia disso. Adorei ler a entrevista, pareceu um gostoso bate papo literário.
+1 +−

Tânia Souza

#2 Thiago Assoni » 05-02-2013 00:51

Martha é sempre uma linda!
Adorei muito!
Grande beijo! :lol:
+2 +−

Thiago Assoni

#1 Flávio de Souza » 04-02-2013 19:14

Parabéns a Martha pela excelente entrevista!
+2 +−

Flávio de Souza

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