Escrevendo Terror no Século XXI: Parte I

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Introdução
Introdução por: Luiz Poleto
Revisão: Tânia Souza


Certa vez, encontrei em um site uma série de artigos escritos após um curso e algumas oficinas sobre ficção de terror contemporâneo que aconteceu em uma universidade norte americana. O responsável pelo evento era um autor americano mediano (daqueles que não estão na lista de mais vendidos do New York Times, mas que já conseguem pagar boa parte das contas com os direitos autorais que recebe).

O curso e as oficinas tratavam dos elementos que compõem uma boa história de terror nos dias de hoje e teve a participação de leitores e também de alguns candidatos a escritores. Além da discussão de opiniões, os participantes leram diversos livros (indo de ilustres desconhecidos a best-sellers) e então debatiam os elementos encontrados em cada um. Tudo o que foi conversado e debatido foi compilado e registrado nestes artigos.

O fato do curso ter acontecido nos EUA e os leitores (e suas opiniões) também serem de lá não é um limitador do alcance dos textos, pois eu acredito que o terror - de uma forma geral - é um gênero universal e o que vale para lá pode valer aqui também. Principalmente porque o terror brasileiro ainda não encontrou totalmente o seu caminho e ainda usa e abusa dos elementos mais comuns ao gênero.

Eu li e reli estes artigos diversas vezes e creio que, de uma forma geral, me foram úteis e oferecem um olhar critico, divertido e ao mesmo tempo, reflexivo sobre a escrita do gênero. Resolvi que era hora de tornar este conteúdo disponível aos não falantes do idioma anglo-saxão. Dispus-me então, a compilar e traduzir os artigos. Eu gostaria muito de dar os créditos ao autor e aos participantes – e também a quem compilou e disponibilizou os artigos – mas, infelizmente, não encontrei mais o website para procurar as fontes.

O resultado são os quatro artigos abaixo:

Parte I: 10 clichês que devem ser evitados
Parte II: O que os leitores de hoje querem
Parte III: O que os leitores de hoje não querem
Parte IV: Uma pequena lista de itens que sua obra provavelmente deve conter


Parte I: 10 clichês que devem ser evitados
Tradução: Luiz Poleto
Revisão: Tânia Souza

Para aqueles que pretendem escrever algo dentro do gênero terror, deve-se notar que existem certas situações que, ao longo dos anos, foram utilizadas com tanta frequência que o público já sabe exatamente o que vai acontecer. Tudo bem usar qualquer uma dessas situações se você estiver sendo um irônico pós-modernista como na série Pânico, porque o telespectador vai rir ao mesmo tempo em que pula de suas cadeiras. Mas, se você estiver buscando o grande susto, existem algumas situações que devem ser evitadas e alguns cenários alternativos a se considerar.

[N.T: Este artigo foi escrito com base em uma oficina que analisava os clichês do gênero sem limitação da mídia; foram analisados livros e filmes aqui.]

1. A mulher sozinha na casa velha e escura - Ela normalmente não é muito inteligente. Ela grita coisas do tipo “Quem está aí?” Ou então, entra no quarto escuro para ver o que tem dentro. Exemplos típicos são Tippi Hedren no filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock e Jamie Lee Curtis em Halloween.

Esta cena já foi tão utilizada que não causa mais reação na platéia. Portanto, se você precisar utilizá-la, será necessário buscar uma forma nova de construir a tensão que deseja para a cena. Já utilizaram uma mulher cega e já fizeram um homem ser esfaqueado por uma mulher.

2. A criança cuja mãe não é mais a mamãe - A criança diz que “esta não é a minha mãe” enquanto um doutor com cara de pouco interesse diz que “isto é coisa de sua cabeça, garoto”.

Este foi o elemento principal na década de 50 em filmes como Vampiros de Almas e Os Invasores de Marte e que ganhou uma nova roupagem na década de 90 com o seriado Dark Skies. Deve-se pensar duas vezes antes de utilizar-se deste artifício novamente.

3. A experiência que deu errado - Eles dizem que “moral é para os simples mortais”, que “os fins justificam os meios” e então as suas criações pulam e os mordem.

Pense nas várias vezes em que este clichê já foi utilizado: Frankstein, O médico e o monstro... a lista continua e é extensa. Quem estiver pensando em utilizar este elemento deveria tentar conhecer algum cientista de verdade. No geral, eles são mais estranhos que seus pares fictícios e fornecem material muito mais interessante e contextualizado para novas histórias.

4. A turba enfurecida - Algumas vezes existe um motivo, como a velha mulher cuja neta foi assassinada. Outras vezes, eles estão apenas enfurecidos gritando baboseiras e carregando tochas. Será que uma multidão quieta funcionaria no lugar de aldeões raivosos? Talvez o silêncio fosse um componente muito mais apavorante que a fúria de varias vozes.

5. O sacerdote que perdeu sua fé - Existem duas formas em que este clichê é colocado: a criatura diz “seu deus patético não significa nada para mim” e então mata o sacerdote de uma forma nojenta e sangrenta. Ou então a criatura diz “seu deus patético não significa nada para mim” e o sacerdote, em um ato de força, coragem e superação manda a criatura para bem longe. Um bom exemplo do primeiro caso é a novela Salem’s Lot, de Stephen King. O Exorcista de William Peter Blatty ilustra o segundo caso.

6. Correndo em uma floresta escura - Pessoas correm no escuro gritando coisas como “Mulder, onde está você?” e agitando lanternas, seguidas o tempo todo pela presença maléfica que habita as árvores. Isso é conhecido como O Efeito A Bruxa de Blair. A idéia foi levada ao extremo em As Crônicas de Riddick - Eclipse Mortal onde sequer havia esperança pela luz do dia. Uma alternativa seria usar este cenário durante o dia, mas Predador já se encarregou disso.

7. Brincando com as forças do mal - Alguém vira e diz “vamos brincar com o tabuleiro de Ouija da vovó”. A próxima coisa que você se lembra é do tabuleiro voando sozinho pelo quarto. A idéia tem sido usada exaustivamente nos últimos anos e normalmente envolve meninas seminuas e histéricas. A melhor forma de usar este cenário sem tornar-se repetitivo é encontrando uma nova forma de invocar o mal.

8. O amor de uma boa mulher - O monstro tem uma morte inglória e alguém diz “foi ela que matou a besta”. Nossos ancestrais das cavernas provavelmente já diziam isso ao redor de fogueiras. No cinema esta cena data de 1933 em King Kong. Mais recentemente houve uma variação na série A Bela e a Fera e até mesmo no filme da Disney de mesmo nome.

9. Vamos nos dividir - Todos sabem que o monstro está lá fora em algum lugar, mas alguém sempre diz: “vamos explorar aquele lugar escuro, sombrio e mal assombrado. Por que você não vai pelo outro lado e nos encontramos lá no fundo?” Por que todos acham que esta é uma boa idéia? Este clichê é tão batido que até mesmo o Scooby-Doo utiliza.

10. Estou livre - O monstro foi eliminado, o herói dá as costas e vira-se para os outros sobreviventes para colher os louros de sua glória e então, em um último suspiro, o monstro se levanta e faz o herói em pedaços (para então ser morto em definitivo pelo verdadeiro herói). Qualquer filme de terror atual que tenha um monstro vai utilizar este clichê. Aliás, é bem provável que qualquer filme de terror use este clichê, até aqueles que não têm monstros.

Conclusão

Eu sento e começo a escrever minha nova história. Ela começa com uma turba enfurecida que invade o laboratório de um cientista louco que estava operando forças que não deveriam ser compreendidas. O sacerdote que acompanha a multidão é morto por uma criatura que escapa e se esconde na floresta.

Um ano depois dez adolescentes estão presos na ilha. Eles se dividem para investigar a área e são perseguidos por uma espécie de mutante: meio homem e meio dragão de Komodo. Logo anoitece e os adolescentes ainda estão fugindo pela floresta, até que chega a cena em que a loira do grupo é encurralada nas ruínas do laboratório.

O clímax chega com os dois adolescentes sobreviventes enfrentando o monstro. O menino pensa que matou o monstro e vira-se em triunfo para então ser decapitado pela criatura que não havia morrido de verdade. Então, a menina sobrevivente acerta o monstro na cabeça e ele, finalmente, morre.

E você, acha que é uma boa história? Ela parece atrativa? Se a resposta é não, é hora de pensar no que fazer para torná-la interessante.


 

Comentários   

#14 Ykaro Feliphe » 07-09-2013 03:02

Gostei :)
0 +−

Ykaro Feliphe

#13 Luiz Poleto » 12-07-2013 15:25

Citando RaquelSt:
Eu realmente gostei do post,acho que é interessante comentar os cliches ja que muita gente ganha a vida fazendo merda(Crepuscul o:-x). Mas,enfim,eu gostaria de saber qual o melhor modo de incluir um personagem comum no terror? Tipo,vingança é o melhor modo de fazer o personagem querer ir atras do monstro? Por exemplo,em Supernatural John Winchester só se tornou um caçador porque um demonio matou sua esposa.Mas será que vingança é sempre o melhor caminho? É o unico caminho?
Valeu gente... 8)


Raquel, acho que a pergunta que você deve fazer não é "como colocar um personagem comum no terror" e sim "como incluir o terror na vida de um personagem comum".

Em um artigo que li sobre criação de personagens, escrito por Tina Jens, ela dá uma dica bem legal: ao invés de desenvolver o enredo todo de uma vez e depois inserir os personagens no meio, faça o contrário. Faça apenas um esboço bem simples do enredo, tipo, monstro invade a cidade.

Então, antes de evoluir o enredo, encontre os personagens (ela gosta de começar com os vilões). Volte então ao enredo e pense mais um pouquinho: o que o mostro quer? Encontrar seu irmão? Vingança? Destruir tudo que está no caminho porque está de mau humor?

Pausa, e pense nos personagens novamente: quem é provável que o monstro vá encontrar no meio do caminho? Quem vai ser corajoso o suficiente para entrentar o monstro? Aí você começa a esboçar o seu personagem, dando detalhes a ele (coisas como aonde estudou, gostos, aversões, manias, tiques, etc, etc, etc. Tudo que possa fazer um personagem mais crível).

Acho que a partir daí, fica mais fácil você saber o que motiva o seu personagem e como ele vai se comportar quando o mostro chegar.
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Luiz Poleto

#12 Tânia Souza » 07-07-2013 14:41

Citando RaquelSt:
Eu realmente gostei do post,acho que é interessante comentar os cliches ja que muita gente ganha a vida fazendo merda(Crepuscul o:-x). Mas,enfim,eu gostaria de saber qual o melhor modo de incluir um personagem comum no terror? Tipo,vingança é o melhor modo de fazer o personagem querer ir atras do monstro? Por exemplo,em Supernatural John Winchester só se tornou um caçador porque um demonio matou sua esposa.Mas será que vingança é sempre o melhor caminho? É o unico caminho?
Valeu gente... 8)



Raquel, que bom que curtiu o texto, acho que a vingança é sempre válida pq faz a pessoa enfrentar até seus medos, assim como em nome do amor; uma outra forma de alguém enfrentar é por não ter opção, imagine que uma criatura dessas, por alguma razão lá, só dela, entra na vida de alguém e sai detonado, esse personagem não vai ter outra opção senão enfrentar ou morrer, então, seria a sobrevivência, ou salvar a própria alma, mesmo sendo um herói não intencional. Também para proteger outras pessoas, ou mesmo o mundo... Gostei de pensar sobre isso, se lembrar de mais alguma forma comento aqui.
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Tânia Souza

#11 RaquelSt » 07-07-2013 14:24

Eu realmente gostei do post,acho que é interessante comentar os cliches ja que muita gente ganha a vida fazendo merda(Crepuscul o:-x). Mas,enfim,eu gostaria de saber qual o melhor modo de incluir um personagem comum no terror? Tipo,vingança é o melhor modo de fazer o personagem querer ir atras do monstro? Por exemplo,em Supernatural John Winchester só se tornou um caçador porque um demonio matou sua esposa.Mas será que vingança é sempre o melhor caminho? É o unico caminho?
Valeu gente... 8)
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RaquelSt

#10 F. P. Andrade » 01-07-2012 18:25

Gostei!
Eu acredito que, na verdade, o clichê não existe na literatura. O existe são maus escritores. Onde há um bom escritor, não existe clichê. Só renovação. É minha opinião, é claro. :D
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F. P. Andrade

#9 Vicki » 07-06-2012 01:32

Ri muito! Sou caçadora de clichês em filmes! Kkkk a lista está ótima.
+1 +−

Vicki

#8 Lucas Maziero » 01-06-2012 13:16

Considero muito bom da parte da pessoa que compartilha o conhecimento com os demais, como neste artigo. Não sou nenhum entendido do assunto, mas creio que escrever terror não é tão fácil quanto possa parecer, e evitar estes e outros clichês é meio caminho andado para contar uma história interessante. Parabéns Poleto e dona T, vamos a segunda parte! :D
+1 +−

Lucas Maziero

#7 Thasyel Fall » 29-05-2012 18:31

Citação:
E você, acha que é uma boa história? Ela parece atrativa? Se a resposta é não, é hora de pensar no que fazer para torná-la interessante.


Tudo se resume nisto, na forma como vc conta a história... já vi histórias toscas que se tornam incriveis pela forma como são contadas, e histórias lindas que se tornam toscas pelo mesmo motivo... Rogerio disse algo parecido... (ou será o mesmo, kkkk)... bem, eu adorei o texto... um pé lá um pé cá... há bons pontos ressaltados... se for pra usar o clichê use sabiamente... acho que tudo que vc decidir usar, use sabiamente.... rsrsrs... na duvida... pesquiseeeeeeee ... XD... adorei... :lol: :lol:
+1 +−

Thasyel Fall

#6 Lorde das Sombras » 28-05-2012 20:08

Eu vi o filme da Nicole Kidman, sobre invasores extraterrestres . É clichê, mas foi um clichê bem contado, digamos assim. Os Vingadores nem se fala, clichê brabo. Mas foi um clichê bem contado. O que pode parecer clichê para uns , pode não ser para outros principalmente os mais jovens e não tão aficionados no gênero. Paulo Coelho faz clichês (de velhas lendas do oriente), mas é best seller. Onde termina o clichê e começa o pastiche?O que existe é uma história bem contada ou mal contada. Me lembrei também do livro Christine, do Stephen King, que poderia ser clichê ou pastiche ou até mesmo um quase plágio, já que a história é bem parecida com um bem antigo cuja a história é um carro possuído pelo mal. Mas eu gostei do post e concordo com algumas coisas.
+1 +−

Lorde das Sombras

#5 Sofia Geboorte » 25-05-2012 13:56

Muito bom o artigo monsieur Poleto,
estou querendo abandonar as flores e me enveredar pelo terror, agora já sabendo o que posso evitar e aproveitar. ;-)
+1 +−

Sofia Geboorte

#4 Emerson Pimenta » 25-05-2012 03:07

Opá! Ajudou muito Poleto! Aguardando a part 2, qro saber oq esses ingratos querem :D !!!

PS* Sou muuuito fã de Pânico! e assisti ao 4 com a mesma emoção q os outros 3, mesmo sabendo como tudo vai acontecer heheh. Porem, acho q eles fizeram foi o contrario, foi lapidar os clichês, e dar a eles um ar de classicos. Ex: Ter um assassinato numa grande mansão, é um classico; o mordomo ser o assassino, é um clichê ;-)
+1 +−

Emerson Pimenta

#3 Ramon Bacelar » 24-05-2012 19:43

Excelente artigo!
De fato você conseguir driblar os clichês ou fazê-los mais verossímeis é uma das partes mais difíceis do processo de escrita.
+2 +−

Ramon Bacelar

#2 Luiz Poleto » 24-05-2012 18:47

Espero que tenha servido para alguma coisa, Emerson. As próximas partes já estão prontinhas, só esperando para serem publicadas. :-)

Agora, falando de clichês, nada contra eles desde que usados de forma inteligente. Veja por exemplo o filme Pânico, que pegou vários e deu uma sacudida neles para tirar a poeira e acabou saindo algo interessante.
0 +−

Luiz Poleto

#1 Emerson Pimenta » 24-05-2012 02:13

CAraka! que legal!
Gostei muito post! realmente esses são clichês básicos, mas diria que alguns são até clássicos.
Sou super fã de Slashers e trhillers, e é impossivel não ler ou assistir algum que não tenha.
Tava reparando uma novelata que escrevi do genero e me deparei com alguns Vários!! hahaha :D Mas o intuito era escrever algo bem clichêzão mesmo!

Parabéns pela publicação,
Aguardando a part 2 :-*
+1 +−

Emerson Pimenta

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