Escrevendo Terror no Século XXI: Parte II

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Parte II: O que os leitores de hoje querem
Tradução: Luiz Poleto
Revisão: Tânia Souza


A questão é simples: como escrever histórias inspiradoras que deixem os leitores tremendo de medo?

Se o que funcionou para M. R. James e Algernon Blackwood na década de 20, Lovecraft na década de 30, Richard Matteson e Ray Bradbury na década de 50, Robert Aickman na década de 60, Stephen King das décadas de 70, 80 e 90, Clive Barker na década de 80, Peter Straub, Rick McCammon and Dan Simmons na década de 90 não necessariamente vai funcionar para assustar os leitores do século XXI, o que irá?

Durante o curso foram entrevistados 32 alunos de diversas áreas: de contabilidade à zoologia. Também foi feita uma pesquisa no mercado alvo deste gênero: os adolescentes.

A primeira pergunta foi: “Quais são os elementos que compõem uma boa história de terror?” e posteriormente exploramos o lado oposto desta pergunta: “O que empobrece uma história de terror?”

Será que suas respostas revelariam alguma diferença entre os “padrões” estabelecidos por críticos e professores e suas opiniões pessoais que os fazem decidir entre um livro e outro enquanto estão em uma livraria? Mesmo uma olhada superficial nas listas de best-sellers, especialmente aqueles de décadas passadas, revela a notável diferença entre o gosto popular (o que vende) e o gosto da crítica (o que é aclamado). Seguir somente uma pesquisa sobre o que vende ou não soa terrivelmente comercial e qualquer escritor que se dedique a isto está fadado a escrever histórias esdrúxulas, superficiais e sem inspiração.

Mas também há um excesso de foco na literatura voltada especificamente para críticos e professores. A verdadeira glória da literatura reside na sua capacidade de manter um público encantado com o poder da narrativa, que é a nossa forma mais antiga e comum de entender o mundo. Nós sempre contamos histórias, especialmente as de terror e fantasia, como uma forma de moldar mentalmente o universo que nos cerca. Embora possamos lamentar e censurar a TV e os filmes como sendo a água e o açúcar que substituem a carne e as batatas que são a literatura, estas mídias satisfazem a sede humana por histórias e por narrativas. E sempre que um escritor “sério” abandona a obrigação de contar uma boa história, sempre que o motivo para escrever não é mais tecer o feitiço da narrativa e sim produzir a “grande arte” para agradar elites e críticos, este escritor será substituído por filmes – ou por um melhor contador de histórias.

O fato de mais de 100 alunos registraram-se para as 32 vagas disponíveis no curso é uma evidência de que alguns autores de terror nunca perderam seu comprometimento em contar boas histórias. Sendo assim, uma tentativa de tentar entender as expectativas dos leitores deste gênero não é uma má ideia.

Os resultados foram uma surpresa. No fim do semestre, lemos e discutimos cerca de 40 narrativas em revistas comerciais e de baixa tiragem. Nosso semestre sobre Dark Fantasy foi iluminado pelos livros de pesos como Straub, Matheson, Koontz e King. As reações dos estudantes foram variadas. Uns revelaram-se em choque com gore enquanto outros achavam os contos clássicos entediantes. Alguns acharam que terror tecnológico e alegorias urbanas falam mais diretamente nestes tempos de AIDS e 11 de Setembro*

[*N.T: Referência aos atentados terroristas de 11 de Setembro]

Outros não se cansavam de clássicos como fantasmas, lobisomens e vampiros.

A expectativa inicial era de houvesse pouquíssimos pontos em comum entre os entrevistados sobre o que compõe uma boa história de terror. Estávamos totalmente enganados. A lista abaixo é uma compilação das respostas.

Suspense: Mantenha-os no limite - Um resultado sobressaiu-se sobre todos os outros: 97% dos entrevistados listaram “suspense” como o ingrediente principal de uma boa história de terror. Tenha em mente de que a pesquisa não era múltipla escolha; todos tiveram a sua frente uma folha em branco na qual podiam escrever qualquer coisa. O fato de todos os entrevistados (com exceção de um) listarem o suspense como elemento essencial em uma história mostra a sua importância.

De fato, os resultados dizem que os leitores têm uma expectativa quando lendo uma história de terror: ser entretido com o elemento da antecipação e incerteza; em uma palavra: suspense. Virtualmente, o que os estudantes escreveram foi:

“O verdadeiro suspense nos mantém colados ao livro até que ele seja lido por inteiro e então você diz: uau!”

“Eu gosto de histórias com suspense constante e que no final me dão boas ideias de como me vingar do meu irmão mais velho.”

Sobre o fim da história - Os comentários sobre suspense fornecem pistas sobre como lidar com um dos maiores desafios ao se escrever uma história de terror: fornecer um final satisfatório. A preferência dos entrevistados é por um suspense contínuo que culmine em um final inesperado e, ainda assim, chocante. Algumas de suas frases foram:

“Eu quero o suspense que me leve a uma bela reviravolta no final.”

“Um bom final é aquele que você não está esperando.”

Atualmente, todos os escritores de terror devem agradecimentos a Douglas E. Winter, que trouxe mais respeito a este gênero do que qualquer outro crítico moderno. É ao mesmo tempo interessante e construtivo o fato de que, em seu ensaio Darkness Absolute: The Standards of Excellence in Horror Fiction (Escuridão Absoluta: os padrões de excelência na ficção de horror – não lançado no Brasil), este crítico não mencione suspense ao menos vez.

Por isso, é notável quando escritores como Dean Koontz e J. N. Williamson dizem que no ofício de escrever ficção de terror o principal objetivo é criar e manter suspense. Percebemos aqui que há uma diferença entre a opinião de um crítico e a de um leitor, para quem o principal objetivo é manter-se entretido. Não há dúvidas de que um escritor deve aspirar aos padrões de excelência mas, para ser lido – o que sem dúvidas é o objetivo número um de todo escritor – deve-se ter certeza de estar escrevendo uma história recheada de suspense que leve a um final surpreendente.

Personagens: alguém assim como eu – A grande surpresa sobre o segundo resultado foi como todos – estudantes, escritores e críticos – concordam entre si. Personagens críveis são o que mantém uma história de terror. Eles estão no cerne de seu poder. Em seu ensaio Keeping the Reader on the Edge of his Seat, Dean Koontz dá o seu conselho:

“O suspense na ficção é resultado primário da identificação e preocupação do leitor com os principais personagens que são complexos e convincentes”

Já Douglas Winter lista a caracterização como o segundo padrão de excelência e cita um escritor de terror:

“Você deve amar pessoas… que permitam o terror ser possível.” – Stephen King

Os entrevistados concordam: eles listaram personagens críves e simpáticos como o segundo elemento de uma boa história de terror. Comentários típicos foram:

“Uma boa estória de terror, para mim, é quando o autor é capaz de me fazer ter os mesmos sentimentos dos personagens: dor, medo, felicidade, desejo.”

“Personagens críveis são o que me colocam dentro da história.”

Cenário: um espelho para a loucura - uma história deve estar solidamente apoiada em um cenário convincente. Leitores dos dias de hoje esperam que uma narrativa de terror aconteça em um local familiar que forneça material suficiente para o natural e o sobrenatural. Estes leitores internalizaram suas expectativas: um contexto de normalidade, um elemento figurativo que acentue o grotesco.

Há uma certa similaridade entre os comentários dos entrevistados e os dos críticos. Em Horrors: An Introduction to Writing Horror Fiction, T.E.D. Klein, primeiro editor da revista Twilight Zone, escreve que antes de trazer o sobrenatural à tona, o escritor deve primeiro estabelecer o cenário, de forma que possamos acreditar na realidade do mundo.

Um entrevistado colocou de forma simples: “Eu preciso acreditar que eu estou lá.” enquanto outro entrevistado disse que “uma boa história de terror precisa de um equilíbrio entre o real e o bizarro,” o que é praticamente o mesmo que ler o que Douglas Winter disse: “Uma estória de terror eficiente abraça o ordinário de forma que o extraordinário torna-se mais notável”.

Então, todos concordam: o uso do fantástico não exclui o escritor da tarefa de conjurar a realidade vívida do dia a dia. Pelo contrário, aumenta a importância desta tarefa.

Enredo: acelerando o ritmo - Outra grande preferência relacionada ao suspense é o ritmo. O que um aspirante a escritor deve fazer sobre comentários do tipo:

“A ação deve ser constante. Uma vez que esfrie, está tudo acabado.”

“Gosto quando o ritmo é acelerado. É tedioso quando o ritmo diminui.”

“Histórias concisas e coerentes que sejam fáceis de ler e entreter. Quando lemos por entretenimento, não deveríamos ter que analisar a história para entendê-la.”

Por que este desejo por uma história em ritmo acelerado? Sem dúvida muito pode ser atribuído ao fato de que esta geração, que não conhece a vida sem televisão e walkmen, tem diversos elementos que podem facilmente desviar sua atenção. O fato é, quando pegam uma história de terror, estes jovens querem ser entretidos.

Eles podem admirar os experimentos de James Joyce, eles podem ter admiração secreta pelas frases perfumadas de John Updike’s, eles podem até mesmo procurar ler Saul Bellow quando estiverem em crise existencial.

Mas, quando pegam uma história de terror, eles querem diversão. E isso quer dizer ritmo acelerado recheado de suspense, leve no embelezamento literário e sem uma dose adicional de reflexões metafísicas sobre a vida em um universo sem divindades.

Gore: com ou sem tabu? - Aqui os resultados apontam uma distinção entre terror literário e terror barato. Os entrevistados alertaram sobre o excesso de cenas explícitas na literatura:

“Muito gore, se não for justificado, destrói uma história, embora eu goste de ver isso nos filmes para admirar os efeitos especiais”.

Aqueles que expressaram preferência pelo gore e a emoção do repugnante, o fizeram com ressalvas:

“Um pouquinho do gore não machuca ninguém.”

“Gore visual é até um ponto aceitável.”

Cenas explícitas fazem parte do gênero atualmente. De fato, o trabalho do escritor de terror sempre foi visitar tabus, disseminar nossos desejos indizíveis e mostrar as possibilidades nauseantes que os acompanham. Mas existe uma linha delicada que separa o uso efetivo e ineficaz dos materiais extremos do gênero: eles devem ser justificados pelo contexto da história, tom e tema. Como o autor Robert R. McCammon (autor de alguns títulos splatterpunk) disse uma em uma entrevista:

“Não acredito que exista mau gosto ao se criar uma cena, somente o mau uso das palavras ao criá-la”.

A Narrativa ofuscada - Muitos expressaram a preferência por descrições que sejam sugestivas, que chamamos de “narrativa ofuscada” – uma frase que T.E.D. Klein usou para sintetizar a frase dita pelo pai do terror moderno:

“Nunca torne o terror explícito onde ele possa ser sugerido.” – H. P. Lovecraft.

Os entrevistados concordam:

“Descrições devem ser longas o suficiente para que o leitor possa ter a idéia, mas não tão longa que não deixe espaço para a imaginação”.

Tais comentários ilustram o princípio que ainda guia estes espectadores de filmes mate-os-e-destrua-os: nossa imaginação ainda pode nos assustar mais do que qualquer autor possa esperar. Um bom escritor de terror não faz mais do que colaborar com nossas mentes.


 

Comentários   

#7 F. P. Andrade » 01-07-2012 19:08

Cara, gostei mesmo!
Tô saindo desse artigo com gosto de quero mais e ótimas ideias para escrever um conto. Valeu! :lol:
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F. P. Andrade

#6 Elsen Filho » 02-06-2012 17:32

Biscoito fino.
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Elsen Filho

#5 Guilherme Araujo » 02-06-2012 14:58

Esses artigos estão muito bons.
E essa parte dois foi ótima. Aguardando a 3ª. ;-)
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Guilherme Araujo

#4 Ramon Bacelar » 02-06-2012 14:13

Como um ponto de partida eles são ótimos.
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Ramon Bacelar

#3 Luiz Poleto » 01-06-2012 14:56

Eu curti muito esses artigos quando os li pela primeira vez. Eu diria que não tiraria nem acrescentaria nada do que está aí.

Semana que vem deve sair a parte III.
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Luiz Poleto

#2 Lucas Maziero » 01-06-2012 14:25

Está aí, mais algumas valiosas diretrizes para quem quer se aventurar nas linhas do terror. Posso dizer por mim que estou gostando muito desses artigos, é certo que está algum tanto curto, mas cumpre bem para orientar e incentivar o escritor a tomar o rumo melhor aceito na literatura de terror.
Bem, onde houver pessoas, os gostos serão distintos e cada história pode ser apreciada, desde que mantenha certos ingredientes a elas imanentes, como o suspense no horror, e como o ovo e farinha no bolo.
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Lucas Maziero

#1 Emerson Pimenta » 31-05-2012 17:22

:lol: saiu!!! Parte 2 tão fina quanto a 1 !!

valeu, galera!
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Emerson Pimenta

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