Escrevendo Terror no Século XXI: Parte III

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Parte III: O que os leitores de hoje não querem
Tradução: Luiz Poleto
Revisão: Tânia Souza



Uma parte importante do processo de escrever com sucesso em qualquer gênero é aprender o que não fazer. Infelizmente, o caminho para a publicação não é feito de plumas, tampouco sem becos sem saída e soluços de desespero. Para evitar as armadilhas o escritor deve descobrir não só o que é uma boa história de terror como também o que é uma história ruim.

Assim como os entrevistados foram unânimes sobre o que eles queriam de uma história de terror, eles também o foram sobre o que arruína uma história: qualquer coisa que tenha pretensão de ser literário e que diminua o ritmo da narrativa. 90% fizeram comentários do tipo:

“Não consigo suportar longas histórias que são sacrificadas e se desviam com detalhes desnecessários sobre o passado dos personagens. É a receita para o tédio.”

“Não gosto de histórias que entrem em detalhes sobre qualquer coisa de forma que me desvie o enredo e faça minha cabeça girar à medida que continuo a leitura.”

“Detalhes e mais detalhes, descrições e mais descrições, tédio e mais tédio!”

Um entrevistado apenas disse: “Terror literário – eca!”

À primeira vista, tais comentários parecem cair em contradição com os comentários anteriores sobre personagens e cenários. Mas os entrevistados mostram um sólido conhecimento do gênero e suas particularidades. Como leitores, eles esperam ser entretidos por uma história de suspense e medo. Seus comentários implicam que embora o tema, personagens realistas e cenários sejam peças importantes de entretenimentos, eles devem ser secundários.

Infelizmente, “literatura”, para muitos jovens leitores, tornou-se associada unicamente às histórias realistas que fazem parte do mainstream e são escolhidas para serem lidas durante o período escolar. Por anos, estudantes foram obrigados a analisar, fazer provas e apresentar interpretações destas histórias para os professores – uma experiência deprimente, se muito. Para estes estudantes, o terror – com ênfase no enredo, suspense e extremos – devolve a eles a literatura que a escola lhes arrancou: a que proporciona prazer, entretenimento e diversão.

Uma boa parte desta confusão entre os limites entre uma história de terror (a literatura do medo e do fantástico) e a literatura mainstream (a literatura de personagens e temas) vem associada à escola.

O jogo de adivinhação - Boa parte da diversão que este gênero proporciona vem do importante jogo disputado entre leitor e escritor, no qual o escritor tenta ficar um passo à frente, liberando apenas informação suficiente para manter a história intrigante e coerente e o leitor em suspense. O escritor de terror deve andar em uma corda bamba, balançando entre previsibilidade e obscuridade, dizendo nem muito nem pouco.

A falha em evitar estes extremos é uma das armadilhas mais citadas pelos entrevistados. A maioria reclamou sobre a história ser muito previsível, repetindo sempre: “Eu não gosto de autores que entregam o jogo muito cedo.”

Estes comentários reafirmam a importância de um bom desfecho neste gênero. Vários entrevistados escreveram:

“Um final óbvio destrói uma estória inteira.”

Um entrevistado fez um apelo para os escritores:

“Por favor, não entreguem o final antes de eu chegar lá. Isso me faz querer meu dinheiro de volta!”

Estes entrevistados também se mostraram impacientes com autores que seguram muita a informação e deixam os leitores sem saber o que realmente aconteceu. Mais da metade reclamou de histórias onde “tudo é uma mistura confusa de eventos”. A reação típica foi “muita confusão em uma história e eu simplesmente desisto”.

Alguns destes comentários surgiram de nossa leitura de diversas histórias experimentais, nas quais autores desafiavam seus leitores ao violarem algumas tradicionais regras da narrativa e tentavam fazer a história refletir o estado de confusão mental de um personagem ou ser um comentário sobre a natureza ilusória da realidade.

O fato de que somente estudantes de Literatura gostaram destas histórias reforça as expectativas da maioria: uma narrativa que entretém não necessariamente faz uso de artifícios incomuns ou demandas “literárias” de seus leitores. A experimentação pode ser importante para um artista e para o crescimento de um gênero, mas não necessariamente faz a história se sair bem em uma livraria. O entrevistado que escreveu que “uma história de terror que me confunde é entediante. Se eu não consigo entendê-la, eu não posso aproveitá-la” também estava falando sobre sua tolerância às inovações literárias.

Sangue e tripas - Os entrevistados também se revelaram tradicionais de outra maneira. A maioria rejeitou atos de sexo e violência gratuitos. Eles poderiam concordar com Ramsey Campbell, que uma vez disse: “Na pior ficção de terror, a violência é um substituto para a imaginação e quase tudo que alguém poderia esperar da ficção”. Campbell falava sobre a mesma distinção entre o sensacionalismo e o uso legítimo de violência que os entrevistados apresentam:

“Histórias que não tem justificativa para a violência me cansam.”

“Sangue e tripas não devem ser usadas desnecessariamente e alguns escritores parecem não entender isso.”

“O que arruína uma história pra mim? Muito sangue e gore sem propósito.”

Seja coerente – Com relação a credibilidade, os leitores se opuseram firmemente ao que chamaram escrita “intragável”: cenários, personagens, estilos, ou lógicas que falham em mantê-los mergulhados na história. Eles disseram:

“O terror tem que ser crível. Do contrário, a história não tem nada pra mim.”

"Eu preciso ser capaz de acreditar no cenário, personagens e, principalmente, nos monstros."

Seus comentários tocam em um dos paradoxos e principal desafio do fantástico: um autor deve escrever de forma tão convincente, tão realista, que o leitor atinge um estado de suspensão face ao irreal. Muitos professores de Literatura, cujo foco principal são as histórias realistas e moralistas teriam dificuldade em entender a armadilha que estes leitores indicaram.

Fãs do terror sabem que, neste gênero, escrever de forma verossímil significa mais do que capturar a realidade do dia a dia. Significa usar as mesmas qualidades da prosa encontrada nas melhores histórias do mainstream para estabelecer uma realidade quotidiana, e então levar o leitor além deste ponto dentro do reino do fantástico – ao mesmo tempo em que mantém a sua crença em algo que não está lá. Para citar um outro grande nome do terror moderno:

"Pedaço por pedaço, a fantasia torna-se um forte oponente para a pessoa criativa." - Richard Matheson.

Fãs do terror sabem disso, mesmo que seus professores não o saibam.

Seja o primeiro - Robert Bloch, cuja história “Psicose” pisou em novos terrenos do terror psicológico, disse na introdução do seu Como escrever histórias de terror, fantasia e ficção científica:

“… para que o escritor dê o seu melhor, ele deve incorporar originalidade, o ingrediente principal para o sucesso. Se o tema é batido, os desdobramentos e o final devem ser novos.”

Os entrevistados não poderiam concordar mais. Eles desprezam “histórias que parecem cópias de outras”. Estes leitores exigem que “o enredo não deva ser nem remotamente familiar” e que “se o sobrenatural é usado, ele deve ter um novo desdobramento”.

Assim como Bloch, os leitores parecem reconhecer que cada gênero dá um prêmio para cada diferente talento: os poderes extrapolativos do escritor de FC, as habilidades observatórias do realista mainstream, o enredo refinado do escritor de mistério.

Os entrevistados tocaram em um aspecto importante para os aspirantes a escritores: em um gênero que tenta entreter com suspense e medo, existe uma demanda por poderes imaginativos e uma mente não ortodoxa que possa levar os leitores aonde os outros tenham medo de ir.

 


Comentários   

#7 ranielly » 10-09-2013 01:54

não intendir :-?
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ranielly

#6 F. P. Andrade » 01-07-2012 19:38

Ótimo artigo, pena que curto!
Eu também acredito que descrever demais é não dar espaço para o leitor usar a próprio imaginação.
No entanto, eu adoro as descrições do Tolkien... :-?
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F. P. Andrade

#5 Lucas Maziero » 16-06-2012 15:01

Mais dicas valiosas para quem quer se enveredar nas trilhas do terror!
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Lucas Maziero

#4 Ramon Bacelar » 13-06-2012 19:03

A maioria dos leitores querem o feijão com arroz e geralmente - a julgar pela maioria do que é vendido como horror - sem sal e mal cozido, enquanto autores de estilos, abordagens e visões mais pessoais geralmente passam por debaixo do radar . É verdade que a mídia dá um empurrãozinho, mas a postura conservadora de alguns leitores também contribui para o preconceito ( a culpa nem sempre é do outro).
+1 +−

Ramon Bacelar

#3 Luiz Poleto » 10-06-2012 15:02

Exatamente, T. O que ficou bem claro pra mim com esses artigos foi que os leitores querem ler terror como entretenimento apenas. Nada de experimentos de estilo, forma e etc enquanto se conta uma história de terror. :)

Porém, é possível fazer isso de uma forma que funciona. Basta ver os livros do Peter Straub!

Com relação às descrições, Guilherme, eu diria que o que deve ser evitado é o que Tolkien faz: gastar 3 páginas descrevendo uma árvore. :P

Acho que o interessante desses artigos é que o que está aqui foi resultado de uma pesquisa com pessoas reais e não criado a partir de observações distantes e teorias mirabolantes. Como a T. disse, é material para pensar...
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Luiz Poleto

#2 Guilherme Araujo » 09-06-2012 01:05

Também achei essa parte estranha T. E não concordei muito com a questão das descrições, eu adoro quando o autor descreve bem um lugar ou a fisionimia de uma pessoa. Do restante concordo.
Mais um artigo muito bom. Essa série de artigos está ótima ;-)
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Guilherme Araujo

#1 Tânia Souza » 08-06-2012 08:01

Devo dizer, dos artigos que li, este foi o que achei mais controverso, minha primeira reação foi : como assim não suporta "terror literário?" Mas entendi a questao da seguinte forma: muitos não consideram a litfan como literatura, apenas entretenimento e, outros, entendem a linguagem mais elaborada como integrante da lit clássica e não da lit que diverte, distrai... acho que temos aqui muitas coisas para pensar.
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Tânia Souza

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