Uma Sinfonia do Terror: Parte I

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UMA SINFONIA DO TERROR

As Premissas da Narrativa de Terror no Brasil 

 


Sofia Geboorte

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Parte I - Premissas

 

O medo é o encantamento infiltrado entre as linhas de um conto de terror. É através da prazerosa sensação de suspense e arrepio que o leitor vira as páginas, que o impulsionam para o fim da narrativa e a diluição de seus anseios.

Estes contos, que possuem uma das grandes dificuldades de escrita para o autor, pois demanda um maior cuidado estilístico para causar o efeito desejado, derivam de outras narrativas. O gênero Terror, ou a narrativa ficcional de Terror, pouco tem tomado a atenção da historiografia literária, mas antes de traçarmos essa história, que mais do que causar medo, expõe os maiores e mais significativos terrores da humanidade, devemos entender a distinção deste gênero, e porque é tão difícil alcançá-lo. 

A grande dificuldade seria traçar a tênue linha que rompe a distinção entre o Horror e o Terror dentro da literatura fantástica. O Horror é, pois, aquela narrativa cujas imagens produzem um grau extremo de repulsa no leitor, isso pode se dar de diversas formas, pois o horror corresponde ao grotesco. Podemos tomar como exemplo desta narrativa o caso de Frankenstein, em que as cenas do médico compondo um ser por meio de partes de cadáveres causa horror ao leitor. Já o Terror possui um teor muito mais psicológico que atinge o leitor. É a presença do efeito catártico que sublima este gênero, sintetizando a emoção em sua maior expressividade, e tomemos aqui essa emoção como o medo.

Ao ler um conto de terror, o leitor sentirá todas as apreensões sofridas pelo personagem, sua angustia por estar amarrado no escuro e ouvir passos e sons metálicos como o de lâminas. Este personagem pode estar prestes a ser morto ou torturado por algo ou alguém ainda desconhecido por ele; essa apreensão psicológica é que causa o retorno no leitor, ele sente a apreensão do personagem.

Por este ponto o Terror compreende muito mais a narrativa frenética e psicológica, como é o caso do conto O Homem de Areia de E.T.A Hoffmann, cuja linguagem convulsiva que mexe com as sensações, as tensões do leitor.

Mas e onde está a catarse nisso tudo? Ela se encontra no fim do conto, não importa qual ele seja, a catarse é produzida pelo leitor assim que ele termina de ler, pois todos os medos, tudo o que o aterrorizou ficou na narrativa, e ele pode sentir-se aliviado por isso, pois em seu mundo ele está “seguro”.

Contudo devemos perceber que o terror, essa tensão psicológica tão abrangente nos contos fantásticos, modificou-se na medida em que os próprios valores da sociedade foram mudando. É por este aspecto que podemos compreender melhor a evolução do gênero Terror.

 

 

Por volta de 1754 Horace Walpole lançou a novela O Castelo de Otranto, precursor do romance gótico, este gênero possuía uma atmosfera ambientada no negrume dos espaços, e muitas vezes da obscuridade da alma do herói ou do narrador. É possível vermos, que desde o século XVIII, os principais artífices dos contos e romances góticos eram justamente aquilo que compreendia o Ultrarromantismo, difundido por Coleridge e Byron, o gótico buscava a ambientação sombria e as angustias do personagem expressas em insólitas situações.

Mas como estes contos que buscavam o efeito folhetinesco do suspense, através dos castelos obscuros, dos segredos, migraram para o Brasil, e acabaram por evoluir para os contos de Terror que temos hoje na litfan brasileira?

A princípio o Romance Gótico, ou a Literatura Gótica, ficaram restritos ao sentimentalismo macabro, passando aos poucos para a narrativa frenética, onde podemos destacar o conjunto de contos interligados Noite na Taverna de Álvares de Azevedo. O Romance Gótico e o chamado Roman Noir (romance negro, cuja narrativa possuía as características policial/investigativas) fundiram-se e resultaram nos contos de Horror e Terror, pois possuíam os elementos essenciais para a composição destes, o romance noir com seu suspense psicológico, e o gótico com sua atmosfera macabra.

Os primeiros aspectos do romance considerado Terror, foram traçados pelos escritores alemães Joseph Alois Gleich e Christian Heinrich Spieß, que difundiram o gênero chamando-o de Schauerroman, ou Romance do Pesadelo. Contudo os escritos continuavam a carregar uma translucida atmosfera que representava a beleza do obscuro, já que foi em 1827 que Victor Hugo escreveu o famoso prefácio de Cromwell intitulado Do Grotesco e do Sublime. Juntando a forma grotesca com o conteúdo sublime de seus personagens, e dando crédito à literatura obscura que havia surgido, quebrando os preceitos das regras para se escrever, onde a forma valia mais do que a inspiração. Após esse manifesto outros autores passaram a ter mais liberdade para escreverem aquilo que os perturbava, é nesse momento que surgem os romances e contos com um teor menos sentimental e com a veia do terror muito mais pulsante.

Com Ann Radcliff (1764-1823) o terror ganhou uma sofisticação feminina, com o teor sensível, mas ainda assim carregado de fantasmagoria, cujos finais são minuciosamente engendrados. É possível notar em Radcliff aquilo que chamamos de cuidado estético linguístico, pois cada palavra, adjetivo ou verbo estão dispostos em favor da narrativa, ou seja, pensados para que causem o efeito final desejado. Porém na maior parte das novelas da autora houve explicações para os fatos insólitos, no entanto isso não deixou que as obras fossem classificadas dentro do gênero Terror, mostra de que não é o sobrenatural em si que proporciona o gênero, mas tão somente as sensações que este causa, sendo a maior o medo.

 

H. P. Lovecraft

 

Para Lovecraft em seu livro teórico O Horror Sobrenatural na Literatura, o medo é a válvula de escape para todo e qualquer conto de Terror, portanto caberia ao autor, mais do que sustentar um segredo ou uma ambientação fantasmagórica para a narrativa, estimular a sensação de medo e agonia no leitor. Assim como Radcliff fez em suas narrativas, priorizando as palavras-chaves, que dariam ao leitor a capacidade de duvidar do narrador e desconfiar do que há por detrás de seus ombros. Essa tensão tão buscada pelos autores se encontra com exatidão na obra de James.

 

Henry James

Com Henry James (1843-1916) e seu romance A Outra Volta do Parafuso (1898), encontramos a essência do terror psicológico, pois os eventos anunciam a incerteza que é uma das essências do terror, sobretudo contando com as manifestações do medo. O romance narra a história de uma jovem que vai trabalhar como babá numa mansão isolada, em que o patrão, quase não visita as crianças das quais é tutor, e o casal de irmãos, que parecem manter um segredo. Além da menina que diz conversar com o antigo empregado que é dado como morto, e o menino acabou de ser expulso do colégio interno por apresentar um comportamento estranho. Ao longo da narrativa, acompanhamos as tensões que a babá passa por não saber exatamente o que está acontecendo e duvidar de todos os fatos. O autor, nesta obra, deixou em aberto o desfecho insólito da narrativa, de modo que, cabe ao leitor decidir por qual lado da linha pender, o sobrenatural ou alucinógeno.

Mas ao tratarmos do terror psicológico que se fixou com Edgar Allan Poe (1809-1849) e Guy de Maupassant (1850-1893), cada um ao seu estilo, discorremos novamente das instâncias do medo humano que se modifica com o passar das épocas, e ainda de acordo com a cultura. O medo que uma deve causar o leitor, não diz respeito propriamente à fatos sobrenaturais ou sanguinários, este é o campo do Horror, o medo do Terror se encontra nas angústias humanas e na insanidade que assola toda alma.

Para Samuel Loveman o terror destes dois escritores que compõem uma atmosfera ao mesmo tempo sinistra e definida. O francês se dedicou muito mais a narrativa frenética, ou seja, o ritmo pulsante, como o próprio medo que transcorreria no leitor, e o americano que se deteve na tensão psicológica, causando sempre a incerteza, e sobretudo a angustia do medo. Ou seja, para que o terror destes mestres se configurasse foi preciso que eles mantivessem a tênue linha que separa o possível do sobrenatural, deixando que o leitor presenciasse a mesma linha que separa a loucura da sanidade, martelando o medo em seus escritos.

 

 

Foi após essa difusão dos romances grotescos e obscuros que surgiram as maiores expressões do gênero, Mary Shelley (1797–1851), Bram Stocker (1847-1912), H.P.Lovecraft (1890-1937). Estes clássicos permaneceram como exemplo por possuírem atemporalidade, os autores conseguiram capturar e transfigurar as faces do medo humano para suas obras. O medo e o terror por vezes se modificam, mas sempre farão parte das tensões sofridas pelo homem.

A partir do século XX, o terror ainda era pungente na Europa e EUA, com nomes como Lovecraft (1890-1937) que seguiu os passos de Poe, e Ambrose Bierce (1842-1913).

O início do Terror, e seu desenvolvimento ao longo dos séculos, influenciou também a literatura brasileira, principalmente durante o Romantismo e no inicio da década de 70.

Ao analisarmos as influências estrangeiras no desenvolvimento do nosso Terror, iremos nos aprofundar mais nos últimos escritores citados, e em outros que permaneceram ocultos.

Afinal essas são apenas as premissas do Terror...

 

OBRAS CITADAS

O Castelo de Otranto – Horace Walpole

Do Grotesco e ao Sublime – Victor Hugo

Frankenstein – Mary Shelley

O Homem de Areia – E.T.A. Hoffmann

O Horror Sobrenatural na Literatura – H.P. Lovecraft

A Outra Volta do Parafuso – Henry James

 

BIBLIOGRAFIA TEÓRICA

CASTEX, P. G. Anthologie du conte fantastique français. Paris: José Corti, 1963.

HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime; Tradução do "Prefácio de Cromwell". Tradução, prefácio e notas de Célia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 1988. (Elos, 5).

KAYSER, Wolfgang. O grotesco. São Paulo: Perspectiva, 1986.

LOVECRAFT, H. P. O horror sobrenatural na literatura. Tradução de João Guilherme Linke. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

NUNES, Thiane. Configurações sobre o Grotesco. Nova Prova. 2002.

PUNTER, David. The Literature of Terror: a History of Gothic Fictions from 1765 to the Present Day. Essex: Longman, 1996

SETH, Catriota. Imaginaires Gothiques ; aux sources du roman noir français. Aux sources du roman noir français.

Comentários   

#6 ana julia » 13-03-2013 11:26

gostei :lol: :D
+1 +−

ana julia

#5 Luiz Poleto » 30-08-2012 15:14

Excelente texto que ajuda a elucidar de forma não cansativa os meandros que compõe este tão mal compreendido gênero!
+2 +−

Luiz Poleto

#4 Flávio de Souza » 29-08-2012 12:33

Mais um excelente texto informativo da Sofia. Para nós que apreciamos o gênero, uma fonte de referência inestimável.
+2 +−

Flávio de Souza

#3 Luciano Silva Vieira » 26-08-2012 01:01

Realmente lançou um pouco de luz sobre a evolução desse gênero e todo o desenvolvimento até os dias de hoje. Talvez não exista outro gênero na literatura onde o autor se coloque tanto no lugar do leitor como o terror, pois aqui ele deve prever e compartilhar todas as sensações geradas por suas palavras. Valeu pelo post, ajudou muito!
+2 +−

Luciano Silva Vieira

#2 Tânia Souza » 19-08-2012 02:07

Um ótimo texto sobre o terror e o horror e suas ramificações na literatura universal.
+2 +−

Tânia Souza

#1 Lucas Maziero » 17-08-2012 13:07

Estou grato por mais um artigo interessantíssi mo e muito válido para endossar e orientar os conhecimentos do horror/terror. Considero o gênero terror o mais difícil de se escrever, pois requer uma extra habilidade e sensibilidade com os temores humanos, assim como a poesia que exalta os sentimentos, tanto de dor como de alegria. Sofia, parabéns, adorei!
+2 +−

Lucas Maziero

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