A Quarta Parte

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          Meu nome é Sheesh Ysheesh, filho de Rheesh Ysheesh, falecido soberano de uma das Quatro Casas Reinantes do Planeta Diyeesh. Nossa dinastia foi a última a ruir perante a vontade dos vorazes Meeydeeshir, uma raça predadora e parasita, que cruza a vastidão dos céus em busca de víveres para sua subsistência. Infelizmente nosso mundo foi selecionado como fonte de matéria-prima para aplacar suas necessidades. Há muito eles detinham o conhecimento acerca de nossa existência, mas a invasão e a presença efetiva em nossas terras só aconteceram, de fato, há vinte eras elípticas, depois do colapso em seu próprio planeta.

          Eles nos chamam de Gliesers, habitantes de Glieser D, o quarto planeta a orbitar no sistema da estrela de mesmo nome. Nosso sol vermelho só ilumina uma parte de Diyeesh, o que costumava proporcionar uma diferença considerável de temperatura entre as duas metades do planeta. Entretanto, a parte intermediária ostentava as condições perfeitas para a vida. Nossa vida! Tínhamos um imenso oceano de águas prateadas, de onde surgiam vastas plataformas planas que comportavam os reinos distintos. Não foi uma guerra. Não tivemos quaisquer chances de defesa. Não estávamos preparados para suportar tamanha investida. Fomos aniquilados! A união entre as Casas e a diplomacia perante os invasores se mostraram ineficazes para evitar a queda dos alicerces de nossa civilização.

         Hoje somos poucos. Não existe mais distinção entre nacionalidades, caminhamos sob a mesma bandeira. Todos nós temos como objetivo a libertação e a sobrevivência de Diyeesh. Sou o último representante das linhagens reais, por conta disso tenho a legitimidade de liderança reconhecida. Os invasores já não consideram nossa resistência como uma ameaça, embora meu nome continue a figurar como código prioritário em suas listas de busca e extermínio.

        Na maior parte do tempo permanecemos escondidos no interior de cavernas subterrâneas, refúgios naturais formados pelo resultado dos bombardeios, da erosão e da solidificação de partículas em suspensão na Face Fria do planeta. Os batedores inimigos raramente atravessam a geografia difícil dessa área em busca de rebeldes. Assim nos mantemos seguros, embora a sobrevivência seja difícil por conta da inospicidade local. Vivemos do cultivo do sheeveesh, um híbrido de animal e vegetal cuja gordura constitui a nossa principal fonte de alimento. Entretanto, passamos por uma grave crise. As Pedras Quentes, o único material energético que nos restou, e essencial para o desenvolvimento das células sheeveesh, estão cada vez mais escassas. O último veio conhecido fica além das antigas Terras Temperadas, reduto protegido pela Cidadela, o principal centro de operações dos inimigos.

         A Cidadela foi construída aos pés do Planalto de Ysheesh, onde antes se apresentava, majestoso, o reino homônimo, as terras de meu pai. Hoje não restam nem as ruínas das antigas edificações, tudo foi reutilizado na construção daquele cancro impregnado no organismo do nosso planeta. Nos domínios daquelas paredes, muitos do meu povo sofrem como escravos. Eles trabalham incessantemente para que os invasores consigam o prêmio que tanto desejam: as reservas de água das imensas placas congeladas que constituem noventa por cento do interior de Diyeesh.

         Soubemos durante o massacre que eles consumiram toda a reserva de água doce do seu mundo. Então, utilizaram o requinte de sua avançada tecnologia no intuito de aproveitar a opção proporcionada pelos mares salgados. Porém, não tardou para que os diferentes reinos Meeydeeshir entrassem em conflito uns contra os outros pela posse do inestimável e vital tesouro. Milhões e milhões morreram. Com a iminente extinção, entraram em consenso que deveriam se unir novamente e explorar os céus em busca de salvação. Desde então eles migram de um lugar para o outro, explorando à exaustão os recursos naturais dos mundos invadidos, levando de volta para casa, em gigantescos cruzadores, incontáveis contêineres repletos do bem precioso. Enquanto eles não conseguirem localizar um planeta apropriado, com uma estrela amarela como fonte de luz, atmosfera limpa e abundância de água, um novo mundo capaz de suportar sua existência, a pirataria e a devastação continuarão.

         Nossas placas congeladas foram descobertas logo após a seca completa dos oceanos. As águas de prata, nutritivas e sagradas, foram drenadas ao longo de vários ciclos, roubadas até a última gota. Um interminável deserto de sal azul surgiu onde antes adormeciam os mares reluzentes. Os raios rubros do sol já não refletem mais com a mesma intensidade sobre o particulado anil do solo, como conseqüência a temperatura diminuiu consideravelmente. As Terras Temperadas já não ostentam a mesma hospitalidade de outrora. Desta forma, resta à Face Quente, domínio intransponível da Cidadela, o status de último refúgio saudável do planeta.

        Nesse momento estou no alto de um monte salino. Alcancei o limite máximo para minha própria segurança. Daqui posso observar a vastidão azul do deserto até os muros frontais da Cidadela. Percebo que eles continuam em plena operação, sem intervalos. A parte leste mostra-se revestida por uma imensa e incomum floresta estrangeira. Não entendo como conseguiram cultivar algo mediante a esterilidade do solo, muito menos sou capaz de executar a correta leitura dos objetivos de tal empreitada. Meus olhos nunca se depararam antes com uma vegetação como aquela. As folhas resplandecem em verde vivo, bem diferente das tonalidades naturais do planeta. O Planalto de Ysheesh ostenta uma grossa camada de fuligem, já haviam me alertado sobre essa heresia. Os dejetos das máquinas acumulam-se como um manto onde eu costumava correr quando filhote. Vejo, com horror, a utilização dos músculos dos grandes Irkiwishir como força motora. Os pobres animais sempre conviveram em harmonia com o nosso povo. As Pedras Quentes alimentam as esferas de luz branca e movem os braços mecânicos, logo não haverá mais gelo no subsolo. Com o fim das placas, o próprio planeta deixará de existir. Já não temos mais tempo a perder. Precisamos agir imediatamente.

         Faço uso de um triciclo de assalto para retornar à base, trata-se de um veículo versátil, de tecnologia Meeydeeshir, capaz de se deslocar tanto suspenso no ar, quanto em contato com o solo. Preciso reunir o conselho, fazê-lo compreender que o momento da retomada chegou, pois logo não teremos mais pelo que lutar. Os estrangeiros são extremamente nocivos, mas sua prepotência não deixou que percebessem algo de suma importância acerca do nosso povo, e essa é a nossa única chance de reverter a situação.

         Aprendi muito sobre a maneira de agir do inimigo, por conta disso, sei que a luz intermitente a cintilar no painel do transporte significa problemas. Ouço estampidos, lascas azuis de sal são lançadas no ar, estou sendo perseguido por dois patrulheiros. Uma nova rajada destrói mais uma formação salina, escapo pelo impulso de um ato reflexo, não tenho tanta habilidade no manejo da máquina como têm meus perseguidores. Fumaça num dos propulsores, fui atingido. Salto instantes antes da explosão, rolo pelos cristais e coloco-me de pé, já invocando o calor da gema Ysheesh. Uma língua de energia viva pende em meu braço. Lamento ter de usar a força do que nos é tão caro para um fim tão banal quanto a violência, mas não tenho outra escolha.

         Os projéteis assassinos vêm em minha direção, risco um círculo com a lâmina, formando um escudo branco. Os invólucros sintéticos, tão eficientes em perfurar nossa rígida carapaça, espatifam-se no espelho energético. Os triciclos cortam o espaço sobre minha cabeça, o deslocamento de ar me leva ao chão. Rapidamente eles retornam para uma nova investida, então executo um salto no exato instante em que emparelham para efetuar mais um disparo, e com um único golpe destruo a parte inferior das máquinas, derrubando os pilotos.

         Não tenho a intenção de iniciar um combate corporal, entretanto meus oponentes parecem não compartilhar da mesma idéia. Munidos de armas portáteis, eles não hesitam em descarregar toda a força que possuem. Faço a alma da gema balançar de um lado para o outro, elimino a ameaça, passo a passo reduzo a distância que nos separa. Com a lâmina viva, descrevo um arco perfeito, um golpe eficiente, as cabeças rolam no chão. Ferimentos cauterizados, uma morte limpa. O vazio ao meu redor não é maior do que o espaço em meu peito. Sinto um profundo pesar em ceifar vidas, mas o Grande Criador sabe que não tive escolha.

         O poder da gema se acalma em meu punho, a escuridão agora é total, a Face Fria do planeta é assim, desolada e crua. Não estou longe de casa, os Meeydeeshir nunca chegaram tão perto do nosso refúgio nas cavernas. A atmosfera é altamente tóxica para eles, uma benção para nossa raça, caso contrário já teríamos perdido nosso mundo. O rigor do clima, sobretudo nesse lado, também tem colaborado a nosso favor, embora esteja muito difícil resistir com saúde à tamanha adversidade, mesmo para nós que dispomos da capacidade de auto-adaptação do calor corpóreo em relação ao ambiente.

         Um conjunto de rochas amontoadas e cristalizadas esconde a fenda que leva à segurança. Aqui dentro a temperatura é mais amena, as placas duras do meu corpo se abrem para receber o calor, o coração trabalha de forma acelerada, o sangue circula rapidamente. Sou recepcionado pelo General Yesh, ele é um Meeydeeshir, humano, como costumava dizer. Seu antigo nome era Stewart. Ele foi abandonado à própria sorte pelos seus. A clemência de nosso povo foi determinante para que ele abdicasse da própria raça. Desde então ele tem se mostrado um excelente aliado. Aprendemos muito com ele ao longo das últimas eras elípticas, trinta anos, de acordo com a sua própria contagem. Sua história é rica e grandiosa, mas tão insensível quanto as causas de sua ruína. Ele também aprendeu com o nosso povo, desde elementos básicos, como a língua, da qual ele tem pleno domínio, inclusive no sibilar característico, até valores éticos, culturais e religiosos. Hoje posso afirmar que ele acabara por tornar-se um autêntico Diyeeshir, ou como sua espécie pejorativamente chama, um Glieser, um lagarto.

         — Hysh, Lorde Ysheesh!

         — Hysh, General!

         — Notícias do Norte, meu senhor?

         — Precisamos reunir o conselho. A hora da ação é chegada.

         Atravessamos o corredor principal. Segui diretamente para a sala de debate enquanto o Conselho era reunido. Sinto pela condição do General. Ele não pode se desfazer da máscara, do capacete, dos filtros e cilindros que carrega como fardos, caso contrário encontrará o fim numa morte instantânea. Às vezes penso que foi, de fato, obra do Grande Criador a sua presença entre nós. Se não fosse, como explicar a descoberta feita pelo nosso bioespecialista? O gás expelido pelos sheeveesh durante o cultivo é vital para a sobrevivência dos humanos. Desta forma, torna-se possível a manutenção de um estoque sempre renovado para o nosso amigo. Além da possibilidade de estabelecermos um aposento vedado e repleto de sheeveesh, onde o nobre aliado pode repousar e renovar as energias sem os incômodos acessórios.

         A reunião correu tensa, como não poderia deixar de ser. É muito difícil contornar a resistente barreira erguida ao longo das eras de brandura. Convencer um Diyeeshir a erguer a mão, mesmo diante do caos, não é uma tarefa fácil. Uma aura pesada dominou o ambiente com o fim dos debates.

         Por mais arriscado que possa ser, não abri mão de manter a fenda natural que se apresenta em minha saleta privada. Olhar pelo vão aberto me ajuda a manter a sanidade, a lembrar de uma época que teima em querer se apagar da minha mente. Daqui posso vislumbrar as ruínas da Lua Gêmea. Contam as antigas histórias que eram duas as esferas a enfeitar o céu. Elas eram idênticas, como sugere o nome. O choque de um gigantesco meteoro aniquilou totalmente uma delas e levou a metade da outra. A lenda diz que Diyeesh quase foi destruído durante a catástrofe. Pedaços gigantescos caíram aqui, dando origem às vastas planícies e aos montes reais, bem como à abertura no solo que fez surgir os Mares de Prata. Ainda hoje, inúmeros resquícios das rochas orbitam o satélite, como uma lembrança de que nada permanece igual para sempre. Eu prefiro olhar para eles e dizer para mim mesmo que, se conseguimos resistir a um desastre, resistiremos também a outro. Não pereceremos. Amanhã, nessa mesma hora estaremos às portas da Cidadela, como determinou a vontade suprema do Conselho. Colocaremos em prática o nosso plano. Que consigamos a benção e a piedade do Grande Criador.

         Seguimos no dorso dos amigos Irkiwishir, os poucos que sobraram, ao longo da Face Fria. Eles são animais valentes, mas não devem ser submetidos à crueldade da batalha, assim os deixamos nas sombras do plano gelado. O General costuma dizer que os gigantes lembram figuras míticas de lendas do seu mundo, ou mesmo exemplares vivos de uma era remota. Não entendo, mas vejo em seus olhos que nada em Diyeesh o impressionou tanto quanto os imensos Irkwishir.

         Entramos nos limites das antigas Terras Temperadas, uma área extremamente perigosa e vigiada. Nosso comboio não é extenso, não somos guerreiros, a maioria de nós ficou nos esconderijos subterrâneos. A verdade é que uma grande armada atrapalharia mais do que traria benefícios, além disso, com o nosso trunfo, não precisaremos de muitos homens, e se tudo der errado, não teremos muitos mortos ou escravizados. Não seria justo promover mais sacrifícios, mesmo sabendo que cada Diyeeshir restante estaria disposto a isso. Nossos reis acreditaram até o último instante na paz, e por conta dessa crença encontraram seu fim. Eu mesmo relutei e posterguei ao máximo ter de chegar a esse ponto. O que me conforta é saber que em breve, muito em breve, tudo estará terminado, de um jeito ou de outro...

         — Lorde Ysheesh! Lorde Ysheesh!

         Um dos nossos batedores parece aflito ao me chamar. A tempestade de sal, que havia começado há pouco sem muita intensidade, piorara demasiadamente nos últimos instantes. Mas o motivo de sua aflição não parecia estar contido nos particulados azuis que nos açoitavam impiedosamente.

         — Aqui, Lorde Ysheesh! Veja! Entre aquelas colunas.

         Firmei a visão para perceber os contornos parcialmente ocultos pela formação rochosa. Parecia uma pessoa. Descemos pelas pedras até o local onde o corpo jazia.

         — Ele é um dos nossos! E está vivo!

         — O Grande Criador não nos abandonou!

         As palavras dos homens pareciam transbordar felicidade. Uma vida! Um golpe de sorte em meio a tanta desgraça. O sobrevivente não parecia estar muito ferido, mas suas escamas apresentavam um acelerado processo de descoloração, evidência clara de letargia. Um composto restaurador é aplicado em sua língua, o concentrado estimula e acelera seu metabolismo. Ele entra em convulsão, mas em poucos instantes começa a recobrar a tonalidade natural.

         — Lorde...é...o...senhor?

         — Quem é você, rapaz? O que aconteceu?

         — Itsheersh...senhor. Súdito...da Casa Leste...hoje...seu seguidor.

         — Como você veio parar aqui no deserto?

         — Eu...fugi...escapei da Cidadela...senhor...

         — Como? Como você venceu os muros de metal e as torres de vigilância? Como isso foi possível?

        — A floresta. Eles...eles...criaram uma floresta....árvores selvagens, nocivas. As folhas...elas detém uma substância perigosa, clorofila, sim, é assim que chamam. Eles preparam algo com ela, uma droga capaz de nos deixar submissos quando corre livre em nosso sangue. Eu vi senhor...não há mais revolta...não há mais rebelião...escravos...somos todos escravos...eles caçarão os restantes...todos.

         — Mas como você fugiu? Como?

        — Os humanos não cultivam as árvores no sal, seria impossível, até mesmo para eles. Eles construíram plataformas suspensas com a terra do seu mundo, e tais elevados se conectam diretamente ao interior da Cidadela, as raízes retiram a água de lá. Eu arrisquei. O vão se mostrou largo o suficiente para suportar o meu corpo e os tentáculos da árvore ao mesmo tempo. Mas, aparentemente algo deu errado e eu devo ter inalado ou absorvido pelas escamas a substância verde e fui vencido por ela durante a fuga. Se não fosse pela sua ajuda...eu estaria morto...

        — Precisamos entrar na Cidadela. Você acha que consegue nos guiar em segurança pelo mesmo caminho? Seria capaz de abrir mão de sua liberdade?

         — Meu Lorde, minha vida é sua. Eu os levarei em segurança.

         A proteção dos céus estava conosco. Vencemos a vastidão do deserto salino sem a intervenção de nenhuma patrulha. A tempestade fora providencial nesse sentido. Chegamos à temida floresta de folhas verdes. Nosso nobre sobrevivente nos conduziu até o canal utilizado em sua fuga. Não tenho dúvidas de que sua chegada fora obra do destino. Seu conhecimento seria fundamental no interior dos domínios estrangeiros. Ao ouvir os detalhes do plano, ele já sabia para onde deveria nos levar.

         Arrastamos-nos pelos túneis, um caminho tortuoso e longo. Chegamos a uma câmara úmida. Estava escura no início, mas logo foi tomada por uma luminosidade intensa, multicolorida, desnorteante. O choque nos levou ao chão. Então, o brilho radiante retrocedeu até se estabilizar em suaves círculos brancos e amarelos. A placidez não se traduziu em tranqüilidade ou segurança. Inúmeras armas apontavam em nossa direção. Fiz surgir a lâmina de energia em meu braço, mas, para minha completa desgraça, Itsheersh, da Casa do Leste, se colocou diante de mim.

         — Saia da minha frente, você é um de nós!

         — Não, não posso, meu Lorde.

         — Você deve estar sob efeito do veneno verde.

        — Não. Sinto muito, mas não estou. A presença do seu grupo já havia sido detectada pelo sistema de defesa da Cidadela. Fui enviado como isca, para capturá-lo. Vocês não foram mortos porque eles precisam da localização do restante do povo.

         — Então, somente traição e mentiras partiram de você, Itsheersh?

        — Não. Nem tudo é mentira, meu Lorde. O veneno verde é real, e dobrará toda a convicção que possa existir em seu nobre coração.

         — Por que você fez isso? Por quê?

       — Entenda, Lorde. Nosso mundo acabou. Acabou! Eles prometeram me levar para Meeydeesh! Para a Terra! Um novo lar!

         “Matem todos! Só quero o líder vivo!”

         A ordem partia de um suposto comandante, pois havia determinação em sua voz.

         — Não! Por favor, não! Eu sou um prisioneiro!

         Minha desolação era completa. As súplicas partiam do General Yesh. Aquele que chamei de amigo, de irmão.

        — Meu nome é Stewart. Cabo John Stewart. Fui prisioneiro dos lagartos durante as últimas três décadas. Ajudem-me! Libertem-me!

         Precisei reunir os resquícios de força que me restavam. Muitos ainda dependiam de mim. Ergui a haste luminosa munido de uma ira incomum à minha natureza. Estava disposto a morrer pelos meus.

         — Abaixe a gema, meu Lorde.

         — Saia da minha frente, Itsheersh! Traidor!

         — O senhor não derramaria o sangue de sua própria espécie! Derramaria?

         Ele estava certo. Infelizmente estava certo. Por mais que eu quisesse, não conseguiria ferir um semelhante. Já era difícil ofender a vida daqueles que nos queriam mal. Fui vencido pela dignidade da minha raça. Abaixei a lâmina em rendição.

         — Peguem a gema! Ela é poderosa! Em conjunto com as demais é insuperável.

         Era difícil acreditar em tamanha crueldade. Um irmão entregando os segredos de sua própria linhagem. Nosso plano. O último trunfo contra os invasores. Quatro gemas. Uma para cada rei. O General havia nos falado sobre uma sala na Cidadela, um local que servia como altar de ostentação e glória. Ele tinha a mais completa certeza de ter visto as três pedras reais lá. Troféus, símbolos de conquista. Os humanos não sabiam do seu poder. Juntas elas são capazes de liberar uma força única, e eu, como herdeiro da Casa Norte, sou o portador da última gema, a Quarta Parte, ou melhor, era. Agora não sou nada. Não passo de mais um prisioneiro dos invasores, aquele destinado a delatar a posição de todos os sobreviventes do massacre, um povo destinado à serventia, à escravidão.

         Chorei. Algo raro. Um verdadeiro milagre para os da minha raça. Lamento pela benção ter surgido por um motivo tão sofrido. As lágrimas escorrem pelo meu rosto, ao passo que inúmeros disparos enchem o recinto de luz. Os projéteis de liga sintética rompem a barreira rígida da armadura natural dos corpos Diyeershir. Um a um, cada componente do grupo de libertação tomba sem vida, vítimas da violência e da dupla traição.

         Estou numa cela. Solitário. Decepcionado. Coberto pela vergonha. Aguardo a visita dos meus algozes. Logo o veneno decantado pelo traidor correrá em minhas veias, e com ele a minha vez de trair. Ouço passos. Lanço meu corpo para trás e mantenho uma pouco provável posição de luta. Uma seqüência de rangidos se faz ouvir, uma sombra entra na sala, projeto meu corpo sobre ela, no fundo do meu peito desejo que uma luz cintilante tome a minha vida e acabe com tudo de uma vez. Mas, ao invés disso, sinto a maciez e a fragilidade de um pescoço humano em meus braços.

         — Sou...eu...Lorde...sou...eu...o General...

         — O que você quer, traidor?

         — Não...não...nunca...nunca...trairia o senhor...

         Mesmo tomado pela desconfiança, afrouxo a pressão e ouço o que ele tem a dizer.

       — Era a única forma, meu Lorde. Nós estávamos dominados. Lamento pelas perdas, inestimáveis vidas que se foram, mas era a única forma de atingirmos o nosso objetivo diante da reviravolta ocorrida pela traição de Itsheersh. Mas ele teve o que mereceu...

         — Não diga isso...

      — Desculpe-me, meu senhor, mas é a verdade. Eles não conseguiram extrair a força das pedras e, irritados, executaram o traidor.

         — General, sua raça é incapaz de estimular a fusão das gemas, somente um Diyeershir consegue fazê-la, ninguém mais.

          — Que bom saber disso, senhor. Mas, precisamos ir, conheço o caminho, não podemos perder tempo.

         Atravessamos um longo corredor. Vi dispositivos, maquinários, luzes e cores, um emaranhado cibernético que jamais imaginei vislumbrar. O General fazia uso de uma arma. Disparava contra tudo e contra todos. Uma fúria avassaladora. Fui contagiado, ou melhor, contaminado pelo seu ímpeto. Conheci um lado meu que até então se mantivera oculto, algo selvagem, primitivo. Descobri que meus braços eram armas letais contra o frágil corpo do inimigo.

         Fui atingido inúmeras vezes, mas me mantive firme e focado no objetivo. Um líquido verde escorria em minhas placas, um torpor intenso se apoderava de mim. Mas não fraquejei, não dessa vez. Cheguei à entrada de uma ampla sala, o corpo do meu amigo jazia no chão, estava lavado em vermelho, uma cor linda e viva, mas que trazia pesar ao meu coração. Eles não me queriam morto, era fato, caso contrário, assim eu estaria. Eles queriam a localização, e isso seria a sua ruína.

         Saltei sobre a barreira de oponentes. Eu lutei. Lutei como nunca. Lutei por mim, por meu pai, por meu povo! Usei pernas e braços. Tornei-me uma fera. As gemas cintilavam em um pedestal, as quatro partes. Senti um impacto diferente nas costas. A dor me invadiu. Não era o veneno, era algo  novo. Fui atingido pelos projéteis perfurantes. Mais e mais disparos eram efetuados. Fui ao chão, as gemas estavam tão perto, bem como a minha morte, que agora desejavam...

         Eu sentia a vida me abandonar, mas a voz de meu pai me guiava. Num último esforço me joguei sobre a prateleira. Elas estavam comigo, as gemas estavam comigo! Em minhas mãos, elas se juntaram. Uma união nunca antes vista acontecia naquele momento. Os humanos ficaram paralisados, não sei se por medo ou estupefação. Seus olhos cintilavam tanto quanto o brilho em minhas mãos.

        — Vocês invadiram, consumiram e destruíram Diyeersh, mas o planeta está vivo e pulsa em minhas mãos. A vocês, nada resta além do perdão do Grande Criador. Hoje, esse mundo volta aos seus verdadeiros donos!

         A luz em meu poder não parou mais de crescer, a ela se juntaram as partículas em suspensão no ar. O tempo estava parado, a vida estava estagnada naquele instante. A massa de energia bruta explodiu num feixe concentrado rumo ao solo. As placas congeladas sucumbiram diante de tanto poder, jatos indescritíveis da sagrada água prateada eram expelidos pelo chão. E a água jorrou. Correu por muitos ciclos elípticos. Os invasores foram dizimados pelo tesouro que tanto cobiçavam. Meu povo suportou bravamente a mais essa provação, pois nossa natureza nos permite viver sob o jugo das águas. O corpo ferido do planeta se recompôs em rocha sólida. Um novo oceano surgiu, plácido a refletir em prata a luz rubra do nosso sol. Aos poucos o calor retornava. Lentamente a normalidade se instalava. Um novo reino, coeso e único, surgiria. Mas meus olhos cansados não chegariam a contemplá-lo, pois meu corpo fora consumido pela luz libertadora das gemas, e estas viriam a se perder para sempre na aurora dos novos tempos.

 

 

 

 

 

Comentários   

#3 David Mayer » 05-01-2012 19:02

Cara... Muito envolvente seu conto... Daria um belissimo livro. Parabens. Ganhou um fã... poxa, depois que entrei aqui estou me tornando fã com facilidade... ehehehe
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David Mayer

#2 Lino França Jr. » 27-07-2011 14:58

Este texto só vem comprovar que o Flávio não é só um craque no Terror, como manda muitissimo bem na FC. O cara é muito bom !!!
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Lino França Jr.

#1 Elsen Filho » 18-07-2011 12:08

Cara, o texto é cativante. Gostei bastante da forma sutil e gradual com a qual você apresentou os dois lados dessa guerra.

No começo, achei que nós seriamos os proximos a sermos invadidos (sol amarelo, muita água, coisa e tal..), só depois vi que eramos os veradeiros vilões.

Também gostei do fato de você não dar uma descrição completa da raça nativa (alienigenas eramos nós 8), deixou espaço para a imaginação do leitor completar as lacunas, ao mesmo tempo em que deu as diretrizes físicas e filosóficas do povo Diyeesh.

Pura FC, meu velho.
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Elsen Filho

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