O limite que nos cerca

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O LIMITE QUE NOS CERCA

Escrito por Lino França Jr.


   
Um relâmpago cortou o céu negro. Estranhamente não foi seguido por nenhum trovão.

    Richard, recostado no umbral da varanda, assistiu ao fenômeno sem se exaltar.

    Virou a cerveja deixando o que restava da bebida descer pela garganta. Jogou a lata no quintal mal cuidado da propriedade, acumulando ainda mais lixo sob a terra batida.

    O homem fez sua casa no campo; bem afastada da cidade; um refúgio particular. Só ia até o centro quando precisava de provisões. Ainda assim, comprava muito pouco. As latas de cerveja nunca faltavam em sua lista. A bebida era uma das poucas coisas que ainda lhe davam um pouco de prazer na vida.

    Nas raras oportunidades em que aparecia entre os demais moradores da cidade, era obrigado a conviver com as mesmas cenas. Já se acostumara com aquilo. O passar dos anos lhe ensinou a controlar a paciência com os cidadãos. Há muito que ele era considerado uma aberração entre os moradores daquela pequena comunidade.

                         * * * * *

    Durante a manhã daquele dia, por sinal, teve de cumprir o ritual do qual ele tentava não repetir dentro de um mesmo mês.

    Acordou cedo, barbeou-se e tomou uma ducha demorada. Pegou a chave do carro na mesa da cozinha e saiu de casa sem trancar a porta. Dirigiu-se para aquele que era sem sombra de dúvida seu único bem, pelo qual ele realmente se importava.

    Reluzindo ao sol, estava estacionado logo a frente da entrada da casa, um envenenado Camaro modelo 68.

    Possuir aquela máquina vermelha com faixas verticais pretas no capô, além das impecáveis rodas cromadas, era o único orgulho que Richard ainda sentia na vida.  

    Baixou os vidros, apertou o botão do antigo toca-fitas, e começou a ouvir “Black Dog”, do Led Zeppelin. Ligou o carro e só parou de acelerar dez minutos depois quando já entrava na cidade.

    Depois de tomar um café forte no boteco da esquina, seguiu para a mercearia, sem antes cruzar com as três beatas da cidade, que ao avistá-lo, benzeram-se com cara de assombro e atravessaram a rua apressadas.

    Na mercearia tudo fora mais calmo. Passou rapidamente pelas prateleiras de madeira um tanto quanto empoeiradas, pegando tudo aquilo que precisava para manter-se por mais um mês. A maioria enlatados e conservas em geral. Além de uma caixa de sua preciosa cerveja.

    No caixa, a garota que o atendeu até ameaçou um sorriso de bom dia, mas foi previamente avisada pelo olhar zangado do pai, que empilhava algumas latas de ervilha no corredor principal, que aquilo não seria uma boa idéia.

    Richard colocou todas as compras na sacola. Fez o pagamento e rumou em direção ao Camaro que despertava a atenção dos garotos que passavam pela rua principal onde ele havia estacionado.

                         * * * * *

    O homem do Camaro vermelho era a lenda da pequena cidade. A história do solitário morador era passada de pai para filho. A cada qual, modificava um pouco a sua versão, mas o contexto geral era sempre o mesmo.

    Rezava a lenda, que Richard vivia em sua propriedade no campo por uma verdadeira eternidade. Os mais antigos juravam que quando Richard devia ter em torno de quarenta anos de idade, o homem simplesmente parou de envelhecer. Não adoecia, não visitava o médico e sequer passava em frente à pequena farmácia da cidade.

    Richard foi testemunha da morte de quase toda a família, incluindo a mulher, os filhos e netos.

    Todo este processo coincidiu exatamente após um estranho fenômeno ocorrido na pequena cidade.

    Numa determinada noite de inverno, os ventos começaram a soprar forte na região, chegando, inclusive, a derrubar duas ou três árvores na praça central. As densas nuvens que pairavam no céu se revolviam com violência, e uma sucessão de relâmpagos azulados ganhou o firmamento, porém, curiosamente, sem serem sucedidos por nenhum trovão.

    De súbito, os ventos cessaram. O frio da noite de meio de inverno deu lugar a um calor repentino e abafado. Por cerca de quarenta minutos tudo permaneceu desta forma, e só voltou ao normal depois de outro evento bizarro.

    Um zunido grave e ensurdecedor invadiu toda a atmosfera do lugar. Crianças tentavam abafar o som colocando as mãos sobre os ouvidos. Os cães ladravam e uivavam, mas quase não eram ouvidos, tamanha a potência do som vindo de algum lugar desconhecido do céu. O som foi interrompido por um forte clarão alaranjado que explodiu no firmamento exatamente na direção onde a família de Richard vivia. Logo depois, tudo voltou ao normal.

    Nos dias que se passaram, a família de Richard foi submetida a um verdadeiro interrogatório pelos curiosos da cidade. A esposa e os três filhos presenciaram o espetáculo no céu da mesma forma que os demais moradores, a única exceção fora Richard, que no exato momento do esquisito acontecimento, estava embrenhado na floresta buscando lenha para acender o fogão de lenha.

    Questionado sobre os fatos daquela noite, Richard simplesmente dizia que não tinha visto, ou pelo menos não se lembrava de nada daquilo que causou tamanha comoção entre os cidadãos.

    Grosso modo, a história começou a ser esquecida pelos moradores da cidade nos anos que se passaram, até cair no esquecimento completo.

    A lenda só começou a tomar vida com o passar do tempo, diante da conservação jovem e da saúde inabalável de Richard. Os mais antigos juravam que ele tinha mais de cento e cinqüenta anos de idade.

    Com essa verdadeira fábula que girava em torno de sua pessoa, o homem passou a evitar o contato com os demais habitantes, e juntamente com a tristeza de ver todos aqueles a quem amava, envelhecer e morrer diante dos seus olhos, se recolheu para sua propriedade esperando o dia em que aquele encanto maldito seria quebrado, e ele finalmente poderia descansar ao lado dos seus.

                         * * * * *

 
    A sabedoria popular diz que toda a multidão é perigosa. Nela, todo covarde se torna valente e segue os impulsos, na maioria das vezes, irracionais da maioria.

    Ocorreu que, sem motivo aparente, alguns dos homens do município sentiam-se incomodados com a presença de Richard na cidade. Ainda que ele pouco aparecesse diante dos olhos dos moradores medíocres daquele lugar.

    Alguns destes combinaram de dar um susto em Richard, fazendo com que este se sentisse ameaçado e resolvesse deixar a cidade.

    Calculando a data seguinte em que o indesejado morador faria sua visita para as compras do mês, alguns dos valentões reuniram-se para dar o aviso ao homem.

    Richard chegou próximo ao Camaro e nem notou a presença de um grupo de oito homens que cercavam seu carro. Abriu a porta do automóvel, mas antes que conseguisse colocar as sacolas com as compras no banco foi surpreendido com um empurrão nas costas, fazendo-o bater contra a porta fechando-a novamente.

    Marcelo, que parecia ser o líder do grupo foi o primeiro a falar:

    — Então, sua aberração, já não é hora de você voltar pro inferno de onde saiu?

    Richard virou-se para encarar aquele que o empurrara. Verificou que o brutamontes tinha a companhia de mais alguns capangas com cara de poucos amigos.

  — O gato comeu sua língua, seu feiticeiro covarde?

    Encurralado, Richard segurou com firmeza a alça da sacola mais pesada na mão, aquela que continha a caixa com as latas de cerveja. Em um rápido movimento, abriu a porta do carro com a mão direita, e com a esquerda girou as sacolas no ar e acertou um golpe certeiro na cabeça de seu opositor. O adversário não esperava a ação de Richard, e assim como seus comparsas, assustou-se com o movimento do homem.

    As primeiras pancadas na lataria do automóvel começaram a espocar do lado de fora, quando Richard engatou a primeira marcha e arrancou com o Camaro envenenado.

                         * * * * *

    Richard chegou em casa já sabendo que a história não terminaria tão fácil assim. Desta forma, o solitário homem passou o dia dentro de casa relendo um livro antigo, apreciando suas últimas cervejas, e ouvindo as velhas fitas dos clássicos do rock and roll. Tinha plena consciência que os homens viriam ao seu encalço e isso não o assustava mais. Foi pego desprevenido na cidade e reagiu por instinto, mas na verdade não se importava se os moradores resolvessem dar cabo de sua vida. Aquilo era algo que na verdade ele desejava no fundo da alma.

    O sol se pôs e na cidade uma grande algazarra se formou em torno da praça central. Quase uma dezena de veículos se enfileiravam na rua, lotados com homens armados com todo o tipo de recurso: facões, barras de ferro, cabos de enxada, machados, entre outros.

    A picape que liderava a pequena frota de carros era pilotada por Marcelo, que um tanto quanto alcoolizado, incitava os demais do bando a dar uma lição definitiva à Richard.

    Os carros saíram em direção ao campo em busca de sua vítima.

    A noite desceu rápida e escura. As densas nuvens pareciam anunciar a proximidade de uma grande tempestade. Mas não foi o que aconteceu.

    O vento começou a balançar as copas das árvores provocando uma melodia aterradora. As nuvens no céu carregado dançavam em espiral e não demorou muito para que os primeiros raios cortassem o firmamento num efeito prateado que era ao mesmo tempo belo e assustador. A ausência de trovões na seqüência aos raios foi observada por Richard que sentado num banco envernizado do lado de fora, assistia aquele incrível espetáculo sem, contudo, mostrar-se surpreso com aquilo tudo.

    Absorto em seus pensamentos, o homem pensava na mulher e nos filhos que há tempos não via. A antiga saudade apertava seu coração novamente.

    A quantidade de relâmpagos era absurda no céu, mais parecendo um show pirotécnico de fim de ano. Os ventos foram interrompidos de forma abrupta, e as luzes azuladas dos raios foram substituídas por uma tonalidade mais clara e alaranjada.

    Inesperadamente, um calor sufocante tomou o ambiente na cidade e no campo.

    Richard levantou-se do velho banco e pousou a lata de cerveja no braço do móvel. Sem entender o motivo sentiu a necessidade de adentrar à floresta em busca de algo que não sabia o que era. Um zumbido pesado e estrondoso invadiu a cidade novamente. As luzes voltaram a explodir no céu em movimentos circulares logo acima da espessa floresta.

    Passou-se poucos minutos até que o insuportável ruído cessou e o vento voltou a refrescar o clima normalmente.

    O grupo de homens chegou buzinando e gritando ofensas na propriedade de Richard. Vasculharam a casa por todos os seus cômodos e também nas cercanias do local, porém, sem sucesso. O dono simplesmente desaparecera para frustração da gangue.

                          * * * * *

    Richard nunca mais foi visto na cidade. Marcelo e seus capangas vangloriavam-se aos demais moradores por terem feito o bizarro homem fugir amedrontado para não voltar mais, trazendo conforto aos ignorantes cidadãos do município.

    Quase ninguém mais passou pelas cercanias da propriedade de Richard, mas os poucos que por lá se arriscaram, tiveram a certeza que o Camaro vermelho ainda estava lá brilhando sob o sol.   


Comentários   

#3 israel augusto » 03-03-2012 23:29

enquanto lia consegui visualizar de modo bem nitido uma pequena cidade do meio oeste americano(como aparecem nos filmes) com uma rua principal larga e suas construções de madeira. voce tambem não deixa claro a origem dos ventos e das luzes estranhas, o que é bom pois permite que nossa imaginação trabalhe e preencha os espaços. 8) e \m/.o\./o.\m/
0 +−

israel augusto

#2 Victor Meloni » 25-02-2012 11:30

Foi-me possível visualizar cada cena, tamanha a habilidade do escritor em construí-las, encimadas em uma ideia excelente. Linão, meus parabéns!
+1 +−

Victor Meloni

#1 Alexandre Ribeiro » 27-11-2011 03:02

Lino, como vai meu caro? Excelente narrativa, algumas cenas foram criando contornos na minha mente enquanto lia. Você deixou tudo no suspense, digo quanto aos acontecimentos bizarros, o que dá margem a imaginação. Fiquei impressionado como conduziu o conto, seu trabalho está amadurecido, breve colherá os louros dele, é o que sinto. Grande abraço. :lol:
+1 +−

Alexandre Ribeiro

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