A 21º justa

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Escrito por Celly Monteiro

 

 Do teto da minha cela eu podia ver as três mais belas estrelas de Andrômeda rutilando sob meus olhos, Sirrah, Mirach e Almak. Deram-me um dos melhores catres com vista panorâmica do hemisfério celeste Boreal. Cercavam-me de todo o conforto que poderia desejar. Acariciavam minha vaidade com presentes, honrarias e meia dúzia de servos submissos totalmente dispostos a atender o menor dos meus caprichos. Mas toda aquela pompa não passava de uma teia bem montada para fazer-me escravo obediente de uma vontade maior. Prisioneiro de uma autoridade sutil, silenciosa. Ao cativo chamavam de herói naquele canto do universo e repetiam seu nome em clamor enquanto ele sustentasse a graça daquele espetáculo símbolo da vaidade e do orgulho dos kaizãs. Enquanto permanecesse de pé na arena, incólume, seria o mais nobre de todos. E a áurea de seu esplendor ofuscaria as estrelas. Isso até a primeira derrota. Então o nome excelso sofreria o mais baixo dos declínios e de Kaiz experimentaria a acolhimento do lodo dos redutos inferiores; os infernais calabouços. Concluía aqueles pensamentos sem a menor amargura. Ao contrario de todos os outros não estava ali nem por orgulho nem por vaidade.

Mais uma vez o brilho trêmulo das estrelas assumia um contorno pairando sob meus olhos.  O estranho é que sempre me lembrava dela daquela forma, com sua pele cintilando confundida com as estrelas. Os cabelos balouçando em uma dança suave. Um olhar sereno e um sorriso encorajador no canto dos lábios. Krista sempre aparecia para mim de tal forma em minhas visões. Não saberia dizer se era apenas fruto de uma fixação que não saía da minha cabeça ou ecos da influência de uma deidade há milhões de anos esquecida. Sem perceber adormeci proferindo o nome Andrômeda.

Venho de Azofi, o maior e mais importante planeta da galáxia Messier 31. Aprendi desde muito cedo a me interessar pelas lembranças remanescentes de uma pré-existência da minha raça como a única coisa que nos ligava ao passado e explicava a nossa origem. Mesmo envolto em um véu de misticismo e lenda, me seduzia a idéia de sermos descendentes de uma deusa que fora confinada aquele canto do universo. Depois que cresci a ciência me mostrou a verdade. Descobri que muito do que meu povo acreditava não passava de um borrão distorcido de crenças e lembranças que pertencia à raça que nos dera origem. Porém, mesmo depois de homem feito, de uma forma misteriosa a presença desses mitos não saía da minha cabeça.

Quando acordei os clamores já se faziam ao longe. Os sons se difundiam no ar há milhões de compartimentos de distância, se propagavam como vibrações que vinham abalar a quietude do meu catre com batuques rítmicos.  As primeiras justas já haviam começado. Como sempre deixariam o melhor para o final. Ainda assim, como um dos meus servos havia me dito com um sorriso bajulador nos lábios, já se ouvia sobressair o clamor do meu nome sob os sons dos tambores.

Sem nenhuma pressa, sentei-me, calcei minhas botas e luvas e acompanhado por minha escolta Kaizã me dirigia a minha 21ª justa.

Quando cheguei às plataformas superiores os veículos já estavam prontos a nossa espera. O último amassão já havia sido concertado e meu brasão se estampava nos painéis laterais com todas as suas estrelas. Um símbolo de uma cultura extinta que aquela raça bárbara não conhecia o significado. Um dia um povo humilde que dava nome as estrelas conseguiu colonizar o espaço. Isso nos primórdio dos tempos. Movimentado por uma engenhosidade arcaica. Mesmo rastejando lentamente durante os milênios conseguiram vencer os limites que os separavam dos outros pontos do universo e construíram seu império em cada uma das galáxias que se espalhavam nos hemisférios celestiais, inclusive ali, ao norte. E assim o universo se tornou fecundo, a vida começou a existir em escala espacial. Mas dessa parte da história que lhes dizia respeito àqueles bárbaros ignoravam. Não passavam de uma raça desprezível que vivia nas trevas do conhecimento. Tudo o que reinava ali era uma espécie de selvageria alimentada por um espetáculo circense que inebriava como bebida e como em qualquer outro lugar proporcionava divisas de poder. E aquele mesmo poder possuía minha alma. Ao menos até aquela justa.

Finalmente a teia tinha sido liberada para mim e meu oponente. Chequei o estado dos meus canhões de lasers. Meu companheiro de batalha levantava os punhos para cima e urrava frêmito de expectativa. Ansioso pela glória que a vitória lhe proporcionaria. Era um nativo, antes de mim tinha sido o favorito. O amor pelo combate estava em seu sangue. Nem suspeitava que eu não lhe daria aquele prazer.

Saltei em meu utilitário, o mesmo modesto veiculo espacial no qual eu havia ido parar por aquelas bandas depois de uma experiência de quase morte. Imbecis, tão extasiados diante do que eu poderia fazer com uma pequena nave, não perceberam que acolhiam e elevavam o mesmo homem que haviam humilhado e saqueado.

Quando me apresentei à tribuna para mostrar minhas armas diante dos arautos, pude vê-la. Trazia nos pulsos braceletes que a mantinha sob o domínio psíquico de Cetus. Ele a acolhia dentre seus menestréis para diverti-lo.

Nem ela nem ele poderiam me reconhecer, meu rosto estava coberto pelo capacete. Entretanto, com minha chegada ela aproximou-se estampando visível curiosidade no olhar. Eu deveria saber que aquele nome que clamavam em polvorosa poderia alerta-lhe de algo. Perceus, o mesmo nome que me batizavam como herói era como chamavam a nave que outrora eu comandava.

Ao ver-se sem o controle do belo troféu que exibia a todos com orgulho, Cetus aumentou a potencia de suas freqüência psíquica fazendo Krista se retorcer aos gritos. Vi aquela cena fervendo de ódio, enquanto que lembranças terríveis assombravam minha mente.  Eu já havia sentido aquele desespero antes, já havia provado do domínio que a mente de Cetus poderia impor sobre as demais. Diferente dos outros telepatas, Cetus não tentava vencer as barreiras da mente, ele agia sobre o sistema nervoso, ao seu comando ondas de dor se propagavam por todo o corpo do inimigo até que ele não agüentasse mais e implorasse pela morte. Contudo, terminais de captação dentro dos braceletes potencializavam seu poder e ele não era lá muita coisa sem seus brinquedinhos.

Há alguns meses quando voltava com minha tropa de uma missão de reconhecimento no hemisfério sul celestial, a nave que eu comandava ficou presa em um campo gravitacional de uma estação espacial que julgávamos desativadas há anos. Havíamos caídos em uma armadilha urdida por piratas espaciais que comercializavam cabeças humanas para trabalho escravo. Eram os Caizãs, os parasitas espaciais. Um povo que ainda vivia da maneira mais rude possível, escravizando seres vivos de todos os lugares do espaço para alimentarem um esporte bárbaro de milênios de existência.

Cetus deixou-me quase morto e levou todos da minha tripulação. Hoje, com exceção de Krista, toda minha tropa habita os redutos inferiores. Depois de ter servido de animadores daquele espetáculo insano, são usados como mão-de-obra barata. Concertam máquinas, limpam as tubulações, prestam os mais desprezíveis dos serviços. Além de tudo haviam roubado a dignidade dos meus homens. E Krista, sempre tão orgulhosa, sempre tão empenhada em mostrar que seu sucesso na frota espacial devia-se a seu talento e não a sua beleza, e fora justamente sua beleza que a fizera mascote de Cetus, um monstro humanóide repulsivo.

Adentrei com parte da minha micro-nave na tribuna provocando uma seqüência de exclamações de espanto. O susto fizera com Cetus interrompesse sua tortura e prestasse a atenção em mim. A platéia se agitava em propagações de tremores e gritos. Era tamanha a sua selvageria que fazia todo o estádio tremer. Meu nome era tudo o que sobressaia sob os ruídos.

— O que pretende com isso?  – os arautos me perguntaram. Senti quando Cetrus tentou um contato telepático. Advertido, o repeli. Não estava ali para ser novamente uma presa indefesa daquela criatura.

— Garantir o meu prêmio – respondi à indagação da banca de juizes.

— Se for o vencedor poderá pedir o que quiser – eles me responderam.

— Quero escolher meu oponente – respondi. Os arautos se entreolharam. Um deles me respondeu:

— Não há favor antes da vitória.

— Nem quando o oponente que me refiro seja ele? – perguntei apontando para Cetus há dois metros de mim. Era a maior autoridade dali.  Felizmente os sensores de sonorização estavam ativados e o que eu havia dito foi ouvido por toda arquibancada, pelos camarotes, púlpitos e tribunas e de acordo com a reação do publico minha proposta fora aceita com unanimidade. Jamais encontrariam espetáculo maior para diverti-los. Já havia previsto algo que Cetus não sabia, quando se cria um monstro, para ele não importa com o que o alimente desde que esteja alimentado. Cetus agora era o a ração da vez.

Parti para o centro da teia sem esperar uma resposta. Para minha satisfação minutos depois Cetus também adentrava. Usava um veiculo grande e bem equipado. Seus canhões de lasers eram potentes. Precisaria de muita habilidade de vôo para me livrar deles. Mas uma força maior me movia. A minha vontade de resgatar o que me haviam roubado. Minha querida nave Perceus que sabia atracada em um espaçoporto não muito longe dali; meus companheiros escravizados nos redutos inferiores e minha querida Krista que sofria nas mãos daquele humanóide grotesco, uma criatura que há muito tinha se distanciado da aparência dos nossos ancestrais.

Meu motivo de peleja era tudo o que havia me diferenciados dos meus outros 20 oponentes. Era o que havia me dado à força da vitória e agora me fazia me sobressair sob meu maior inimigo. Antes que pudesse reagir meus modestos canhões de lasers partiram ao meio a nave de Cetus pulverizando-o ainda no ar. Não parei para ouvir os clamores que arrancavam aquela 21ª primeira vitória. Arrastando Krista comigo parti para o encontro de Perceus, pois os redutos inferiores urgiam em ser esvaziados.

Comentários   

#8 Celly Monteiro » 23-02-2012 01:01

Agradeço as leituras, e fico feliz com os comentários.
+1 +−

Celly Monteiro

#7 Swylmar Ferreira » 15-02-2012 11:30

Oi Celly
Parabéns! Excelente conto onde mistura a ficção científica com mitologia.
+1 +−

Swylmar Ferreira

#6 Tânia Souza » 08-02-2012 03:10

Gostei bastante: fc com muita aventura, mitologia, romance e um final promissor, do tipo que deixa gosto de quero mais.
+2 +−

Tânia Souza

#5 Lucas Maziero » 07-02-2012 13:41

Muito bom este mito reescrito, ao estilo de FC, de Perseu contra Cetus!
Gostei do conto, parabéns! :-)
+1 +−

Lucas Maziero

#4 Elsen Filho » 06-02-2012 16:52

Hehehe Quem nunca escorregou num verbo que atire o primeiro objeto direto ;-)
+2 +−

Elsen Filho

#3 Celly Monteiro » 06-02-2012 16:27

Ohw! Realmente, escorreguei em um verbo, perdão, foi distração.
+1 +−

Celly Monteiro

#2 Emerson Pimenta » 06-02-2012 16:24

Gostei a lot! hehe
:lol: me amarro em F.C
+1 +−

Emerson Pimenta

#1 Elsen Filho » 06-02-2012 14:23

Uma bela aventura espacial, escrita com fluidez e capricho.

No último paragrafo me pareceu haver uma pequena confusão nos tempos verbais, mas não comprometeu a estrutura geral do conto. Muito bom.
+1 +−

Elsen Filho

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