O Alienígena Perdido

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O ALIENÍGENA PERDIDO

Escrito por Afonso Luiz Pereira

 

Um dos primeiros contos escritos lá no Recantos das Letras em meados de 2008.

Afonso



      Observo, pensativo, o alinígena à minha frente.

      Que criatura horrível! Creio que já decidi o seu destino!

      Quando o trouxemos para dentro de nossa espaçonave, adotamos todas as medidas de prevenção, como exigia a situação. A criatura estava inconsciente, mas limpa! Os micro-organismos que constituíam parte de seu corpo não podiam nos atingir. De qualquer forma, dada a singular descoberta daquela cápsula de sobrevivência a deriva no espaço, pelos meno assim se apresentava, achamos sensato mantê-lo isolado até que obtivéssemos informações mais consistentes.

      A tecnologia da cápsula de sobrevivência alienígena era, até certo ponto, sofisticada e muito prática, porém não se poderia comparar com a eficiência das nossas. O sistema de manutenção de vida deles era arcaico não permitindo um controle rígido do retardamento sistemático e rápido da renovação celular, característica pertinente à natureza de sua formação física. Aquele ser envelhecera no espaço e, ao que tudo indicava, parecia estar entrando em sua fase final de vida.

      Juntamente com ele, fortemente apertado em um dos filamentos que se llhe projetavam do corpo, encontramos um artefato tecnológico interessante. Era uma caixa pequena, cheia de botões coloridos, que tentamos analisar com cuidado. Poderia ser uma arma! Um mecanismo autodestrutivo! Um sinalizador para outros de sua espécie, o que nos deixou apreensivos porque, quem vai saber, talvez tal criatura fizesse parte de uma raça usurpadora de outros mundos. Uma raça com motivações bélicas. Uma raça guerreira! Sempre tivemos medo, em nossas viagens temporais pelo universo, de esbarrar com alienígenas nada amistosos. Então, tínhamos de descobrir a capacidade tecnológica deles!

      Mas a tal caixinha, acabamos descobrindo acidentalmente, não passava de um repositório de informações e imagens da cultura alienígena de onde aquela criatura horrenda viera. Levamos algum tempo para analisar as imagens e os grunhidos que eles emitiam entre si como forma de comunicação! Investimos nossos melhores cientistas nesta área para decifrar a sua linguagem e depois de alguns ciclos de intenso trabalho, obtivemos a real dimensão do contexto em que se encontrava aquele espécime perdido no espaço.

      A história dele, é bem verdade, era patética! A “coisa” se achava o último de sua raça e trazia com ele material genético para florescer em outro lugar mais aprazível. Não acho que valha a pena entrar em detalhes de sua história. Vou restringir-me, portanto, a um breve resumo.

      O planeta da criatura, em agonia, já definhava a quase 3 séculos. Suas reservas naturais e as condições climáticas que permitiam a manutenção de vida foram se exaurindo aos poucos pela contaminação dos seus próprios habitantes. Em meio a disputa por um líquido precioso que chamavam de “água”, fonte de vida primária de subsistência, houve guerras entre as facções mais fortes. Armas de destruição em massa foram acionadas. Aconteceu o caos!

      Antes do colapso total, uma espaçonave, tripulada por cientistas, foi lançada ao espaço com objetivo de perpetuar a espécie em outro lugar! Decorridos alguns anos, infelizmente, um aglomerado de asteróides atingiu a espaçonave comprometendo a vida da tripulação. Entre eles, num acordo bastante polêmico, escolheram alguém mais jovem que pudesse ficar na única cápsula de sobrevivência que ainda funcionava. Deram-lhe material genético e a caixinha em suas mãos: o legado de uma espécie condenada à extinção que se autodenominava orgulhosamente de “A Raça Humana”!

      Agora, observo o alienígena deitado à minha frente. Criatura horrível! Há uma protuberância orgânica na parte superior do seu corpo esguio que encerra toda a sua inteligência e possibilita-o, através da mesma, expedir comandos neurais para a locomoção do próprio. Ainda bem que não precisamos de tal expediente para prover nossos corpos de mobilidade!

      Bem... a intenção deles de perpetuar a espécie, há que se dar crédito, foi muito inteligente. Uma das luas de nosso planeta, que é do tamanho do planeta deles, pode bem servir para oferecer as condições necessárias para voltarem a prosperar, mas...

      Já decidi o seu destino!

      Não vou lhes dar esta chance!

      Não é pela feiúra deles não! Já nos relacionamos com criaturas igualmente feias. É porque fico imaginando que se eles tiveram a coragem de se destruir mutuamente, imagine só o que eles não fariam se pudessem entrar em contato com outras culturas! Suas armas de destruição em massa poderiam seriamente nos comprometer também!

      Por isso, vou colocar o alienígena, último remanescente de sua raça, com a sua caixinha e material genético, dentro da cápsula de sobrevivência e enviá-la para a estrela incandescente mais próxima!

      Posso até estar cometendo um grave erro, mas acho que tal espécie não merece florescer novamente em nosso universo.



Este texto foi baseado nos personagens do livro de contos “Histórias de Alexandre”, de Graciliano Ramos, publicado em 1944. Fazendo referências às histórias coletadas do folclore alagoano, o escritor Graciliano Ramos reuniu neste livro contos e fanfarronices de Alexandre, um típico mentiroso do sertão, e a sua esposa Cesárea, que validava os exageros do marido. Neste conto fiz uso dos personagens e suas relações de amizade. A narrativa em questão nada tem a ver com o folclore alagoano, e esclareço que, apesar de fazer referência ao “cramulhão da garrafa”, me distancio bastante da lenda trazida para o Brasil, oriunda do folclore português, do qual se contava que São Cipriano ensinava como se criar um diabinho dentro de uma garrafa.
Afonso Luiz Pereira



Seu Alexandre e o causo do Negro Damião

    — Meus amigos, esse causo que eu vou escorrer agora é um dos poucos que aconteceu comigo antes de me casar com Cesárea. Pra dizer bem a verdade, nunca contei a ninguém. Vossemecês, então, terão de confiar somente nas minhas memórias. E aí, o seu Firmino, que tem a pachorra de botar dúvida nas minhas conversas, há de ter fé na minha palavra porque é como eu sempre digo: eu moro nesta ribeira há um bando de anos e sou homem traquejado nestas andanças do sertão. Já passei por poucas e boas, viu? Não carece de um cabra feito eu sair por aí inventando desconchavos! Detesto exageros! Só digo o que ocorreu, nem mais nem menos. O povo daqui me conhece bem.
    — Ora, seu Alexandre, não se aperreie com um velho cego como eu, viu? Não é por querer que lhe apoquento os nervos, não! Apenas fico matutando, curioso que nem coruja, as “novidades” que aparecem nos causos afamados do senhor.
    — Seu Libório, me diga lá, do que é, diacho, que o cego preto Firmino está falando?
    — Sei não, seu Alexandre. Só sei que o senhor é um bicho de contar estórias e a palavra do senhor vale mais que mil patacões de ouro. Eita, se vale!
    — Seu Firmino, o que o senhor está querendo destampar?
    — Nada não, seu Alexandre. Perdoe a rabugice de um velho cego. Sou turrão de nascença. É a idade, seu Alexandre. Perdoa, é a idade!
    — Capaz que seja mesmo! Cesárea, vossemecê se lembra do aparecimento do Diabo lá nas terras do coronel Idelfonso?
    — Claro que me lembro, Xandu!
    — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Alexandre, o senhor viu o cão de perto, é?
    — Vi, sim, seu Libório. Não foi com este olho torto, que melhor ficou depois que eu o perdi no espinheiro, quando me aboletei no lombo daquela onça, porque o caso da onça lazarenta aconteceu uns tantos anos depois,  mas vi, sim! O próprio capeta em pessoa!
    — Nossa senhora, meu padrinho, cruz credo!
    — É isso mesmo, Das Dores! Vossemecê pode fazer o sinal da cruz mais uma vez aí, porque é a mais sacrossanta verdade. Cesária, me traga lá o meu rolo de fumo porque hoje eu não estou enfastiado. Acho que os meus amigos vão querer ouvir esta estória, não é não, seu Libório?
    — Claro, é capaz que daí venha boa cantoria.
    — Ora muito bem. Isso se deu lá nos idos da minha mocidade, quando eu ainda era um cabra desconhecido por estas redondezas, antes até de me enfiar nas vaquejadas, casar com a Cesárea e fazer muito dinheiro. Naquele tempo, eu, galo novo, tinha pouco juízo e entrei no bando de Virgulino Ferreira, daí...
— Seu Alexandre, Vossemecê não me leve a mal não, sem querer ofender... já lhe conheço e escuto suas estórias há muito tempo, mas jamais ouvi nas conversas do povo, e do senhor também, que o amigo lá tenha tido presença no bando de Lampião, então...
— Seu Firmino, criatura de Deus, o Xandu não faz gosto de falar sobre esta passagem da vida dele não, viu? Meu marido é um santo. Vê-se logo que o amigo não é traquejado nos deslizes da juventude. Pois lhe adianto que se ele abre o coração pra vossemecês em contar coisas de segredo, que lhe é do particular, é porque ele gosta muito e respeita as pessoas que entram por aquela porta para lhe fazer ouvidos nos causos que conta. Escuta quem quer!
    — Ôxe, dona Cesária, desculpe aí o mal jeito. Não quis trazer ofensa ao seu Alexandre, é que...
    — Firmino, homem de Deus, tome tento. O meu compadre é cabra sério! Não gosta de falar do passado no cangaço.
    — É verdade, seu Libório. É verdade! Como disse a minha Cesária, não faço gosto de prosear estas coisas. Quem nunca teve pecado, que atire a primeira pedra. E tem mais! Agora, já me aperreei de novo com o seu Firmino, que é cego e quer enxergar mais longe do que a gente que tem a vista boa. Assim não dá!
— Oxente, peço, mais uma vez, o perdão. Não quero fazer desfeita na casa do amigo.
— Pois já fez, seu Firmino, pois já fez. O senhor está achando, por acaso, que eu sou um mentiroso de marca?
— Arre égua, seu Alexandre! Não. Deus me livre e guarde!
— Não, meu padrinho. Não fique aperreado não. É que o seu Firmino, por ser cego, não sabe se expressar no seu falar. É isso! Não é isso não, seu Firmino?
— É verdade, Das Dores, é verdade!
— Continue o causo, padrinho.
— Não continuo não! Agora já me arreliei.
— Seu Alexandre, perdoa aí, vai homem? Se o amigo não me perdoar, vou ficar numa gastura sem tamanho.
— Pois será bem feito. Eita criatura pra me tirar o prumo!
    — Perdoa a desfeita do seu Firmino , meu padrinho, o homem é cego!
    — Xandu, meu bem, deixe de melindres e conta logo o causo.
    — Olha aqui, seu Firmino, o senhor acredita que o diabo existe? Hein...? Não adianta vossemecê ficar fazendo esta cara de empalamado não. Estou muito arreliado com o senhor e, se o amigo tem dúvida que o capeta existe, eu tenho como provar. Não tenho não, Cesária?
    — Tem sim, Xandu.
    — Valha-me nosso Senhor Jesus Cristo, mas como?
    — Não tenha medo, seu Libório. E fique calma, Das Dores, que o teu padrinho sabe o que está fazendo. Tenho o capeta preso dentro de uma garrafa, viu, seu Firmino? É o que lhe digo. Prendi o cramulhão nela quando topei com o maldito. O senhor duvida?
    — ...não... não... não duvido...
    — Pois é. O senhor está aí se cagando de medo porque sabe que não sou cabra de contar lorotas. E vou lhe dizer mais uma coisa: o diabo quando vem na terra é pelo corpo dos outros. Ele só ganha este mundo é no corpo da gente, ele entra na gente, comanda a nossa cabeça, fica poderoso no corpo da gente, porque fora do nosso espinhaço a criatura é que nem vento leso das manhãs na caatinga, vai daqui, vai de acolá, mas tem pouco préstimo pra fazer medo, viu? O diabo tem que entrar no couro do cabra, na nossa carne, esgaravatar os nossos miolos. Daí, sim! Ele fica poderoso e apronta das suas.
— É mesmo, seu Alexandre?
— Pois eu lhe digo, seu Libório. É assim mesmo.
— Bom... me perdoem a desfeita. De minha parte, desculpas eu já pedi, mas já que o amigo se arreliou comigo e não quer mais contar o causo, vou-me embora. É tarde da noite e a caminhada é longa, eu...
— Não senhor, seu Firmino. Agora é que o senhor vai ficar. Vossemecê tome assento aí em qualquer canto, porque o amigo vai ter que  ouvir o causo da vez que topei com o Diabo. Ah, vai sim! Dou um boi pra não entrar numa encrenca, mas dou uma boiada pra não sair. Não quero que vossemecê saia por aí espalhando pelos quatros cantos do mundo que eu sou um mentiroso de marca. Topei com o Diabo, prendi o pôrquera numa garrafa, eu vou provar. Ah, se vou!
— É isso mesmo, Xandu!
— Boa, meu padrinho, solte o bode.
— Mas claro que vou soltar o bode.
— Senta aí, seu Firmino. O compadre Alexandre vai contar o causo e faz questão que o senhor ouça. Depois eu lhe acompanho até a sua casa.
— É justo. Estou curioso também.
— Hum... ora muito bem. Como estava dizendo, quando moço, eu furava o sertão pra cima e pra baixo no bando de Lampião. Foi um tempo que não faço gosto de lembrar. Virgulino Ferreira era um cabra da peste, macho que só, e disso ninguém há de duvidar, mas eu lhes digo que quando o negócio era enfrentar as coisas do além, o homem se cagava de medo. Muito bem. Como sabem, Lampião tinha uns combinados lá dele com alguns coronéis do sertão. Um deles era o coronel Idelfonso, do Engenho da Pedra Torta. Numa noite quente dos infernos, o coronel Idelfonso apareceu no acampamento querendo favor de Virgulino. Dizia ele a Lampião que Dona Emerenciana, sua esposa, estava com um quebranto forte, trabalho de sustância da mandinga dos negros alforriados. O velho Idelfonso, então, nos segredou que Dona Emerenciana havia se apaixonado por um negro de nome Damião. Ora pois, o coronel não deu nem tempo do tal de Damião se explicar e mandou açoitar o infeliz até a morte. Dizem que, enquanto o chicote lhe comia o couro, o negro berrava dentro da noite dizendo que a culpa não era dele, que era coisa do capeta, que o diabo tinha, no corpo dele, enfeitiçado a sinhá e dela se fartara aos beiços e outras coisas mais. O coronel só foi acreditar no negro quando este, às portas da morte, revirou os olhos, mudou a voz e gargalhou dizendo que sinhá Emerenciana tinha gostado, e que ela seria dele para sempre.
— Nossa senhora, meu padrinho, que coisa! Coitado do negro Damião!
— Pois é, Das Dores, naquele tempo o negro que não se botasse no lugar dele, era corrigido à força do chicote, viu seu Firmino?
— Eu acredito.
— O coronel mandou enterrar o negro Damião longe do engenho, em meio à caatinga. E daquela noite em diante, o velho Idelfonso não teve mais sossego porque dona Emerenciana, desconjuntada das ideias, deu pra perambular desembestada, toda noite, à procura do corpo do negro açoitado, morto e enterrado. Todos no engenho cuidavam para que a sinhá não arredasse pé pra muito longe, mas numa noite, depois de quase um mês do ocorrido, ela escafedeu-se no meio da caatinga. Vixe, foi um pandemônio! E procura daqui e procura de lá, até que o coronel matutou muito bem que a esposa, por obra de feitiço maligno, tinha mandado as canelas atrás do corpo de Damião. O coronel mandou chamar o velho Jeremias, outro negro desaforado, Deus que me perdoe, pedindo-lhe conselho de como fazer procedimento e ele, homem vivido, disse que Damião deveria ser desenterrado e queimado, pois enquanto houvesse corpo o Diabo tinha poder sobre sinhá Emerenciana. Só que nenhum homem do engenho, fosse preto ou fosse branco, queria meter as fuças na cova do endemoniado, nem o próprio Idelfonso, que era cagão que só. Então, o velho veio ter com Virgulino pra interceder por ele.
— E Lampião, cabra macho, orgulho do cangaço, decerto tomou questão e foi pras terras do Idelfonso.
— Qual o quê, seu Libório! Qual o quê! Em questão de assombramento e coisas do além, como já disse, Virgulino Ferreira era outro cagão de marca. E antes que ele fizesse vergonha ao bando, dando desculpas sem cabimento, eu olhei pra ele, cabra macho que sempre fui, e disse: “Lampião, deixa comigo que eu faço o serviço. Trago Dona Emerenciana pra casa e queimo os restos mortais do negro no meio da caatinga. Deixa comigo!” E, depois de assuntar bem o local da cova com o coronel Idelfonso, lá me botei na cavalgadura em rumo às terras do engenho da Pedra Torta
— O senhor foi sozinho, meu padrinho?
— Sim, fui sozinho... quer dizer... sozinho, sozinho, não, viu? Porque fui eu e mais nosso Senhor Jesus Cristo, na retaguarda.
— E o senhor encontrou a Dona Emerenciana, compadre?
— Sim, seu Libório, encontrei. E a criatura dava pena de olhar, sabe? Depois de cavalgar por mais de uma hora eu achei a pobre da Dona Emerenciana cavoucando o solo bem no meio do mato rasteiro da caatinga. Era uma noite de lua cheia, bem fornida pro caboclo se incomodar com o lobisomem no cangote, bicho que também não me faz medo. A coitada, com o vestido todo rasgado, estava com os peitos de fora, e não me perguntem o porquê da sem-vergonhice, que pra isso não tenho resposta não. Ela já tinha aberto a cova com as mãos e puxado o defunto pra cima. Era uma cena tão medonha de ver que até hoje, depois deste tempo todo, me azeda o dia e me provoca uma gastura no estômago. Então, apeei do meu cavalo, puxei a peixeira e me encaminhei pra conferir o negócio mais de perto.
— Oxente, meu padrinho, o senhor não ficou com medo não? Não ficou leso das pernas, não deu tremedeira?
— Qual o quê, Das Dores. Quem sai na chuva é pra se molhar.
— Meu Xandu sempre foi cabra de coragem. Dá gosto de vê ele contar estas bravuras dele.
— Quando cheguei perto dos restos mortais do negro, fiquei assombrado com o que vi. Tenho pra mim que os homens do coronel enterraram o Damião em cima de um formigueiro porque do defunto as carnes apodrecidas se tinham ido há muito, pois que só vi o esqueleto do infeliz. É verdade. E dona Emerenciana abraçada naquele monte de ossos. Só podia ser coisa do demônio mesmo, só se vendo! E, olha, meus amigos, que ele não se custou muito a aparecer. De repente, aquela ossarada toda começou a se tremer que nem folha de bananeira em vento de trovoada. Dei um pulo pra trás, de peixeira na prontidão, porque do meio do esqueleto enfumaçou-se uma criatura do inferno meio esverdeada, que parecia um enorme cachorro com uma bocarra infestada de dentões de todos os tipos e tamanhos, os olhos chispavam o fogo do inferno, e duas enormes garras, parecidas com as de um lobisomem, ousaram me fazer frente! Parti desembestado pra cima do diabo, cutucando a peixeira por tudo quanto foi lugar, mas não consegui furá-lo de jeito nenhum porque como se pode furar uma criatura feita de fumaça? Aí, meus amigos, é que atinei com os pensamentos certos: o diabo só podia causar estrago quando entrasse no corpo de alguém. Foi por isso que ele ora olhava pra mim, ora olhava pra Dona Emerenciana, decerto matutando lá na cachola dele qual de nós dois lhe era de maior serventia tomar posse. Mas o que o Coisa-ruim não contava era com a minha astúcia. Antes do capeta se decidir o que fazer da vida, abri a boca e dei um bote pra cima dele.
— Louvado seja nosso Senhor Jesus, seu Alexandre, o senhor teve a coragem de morder o satanás?
— Que nada, seu Libório. O que eu fiz foi o seguinte: puxei todo o ar em volta do excomungado, uma puxada forte de ar, sabe? Igual quando a gente puxa fôlego pra acender cigarro de palha com fumo de má qualidade e... e... O que foi, seu Firmino? Por que está aí, o senhor, com esta cara de empalamado, de incrédulo? Ora, eu era um cabra novo, homem! Não tinha os pulmões catarrentos de hoje, não. E foi uma puxada só, viu? Enchi a boca daquele fumaceiro dos infernos e antes que o capeta fizesse graça de se escarafunchar por minha goela abaixo, soprei o infeliz dentro de uma garrafa que levava à cintura pra matar a sede. Assim que tampei a garrafa, a Dona Emerenciana esbugalhou os olhos e entrou num berreiro que Deus nos acuda. “Onde é que eu estou? Onde é que eu estou? Quem é Vossemecê?” E ela foi gritando, e ela foi chorando, e foi me enchendo de perguntas, e foi tampando aqueles peitos desavergonhados. Bom, pra encurtar a estória, levei a pobre pra casa grande do engenho e a devolvi ao velho Idelfonso, que Deus o tenha.
— Nossa Senhora, meu padrinho, o senhor é um herói!
— Eita compadre corajoso, sô!
— O Xandu é homem valente, desses que não se criam mais no mundo de hoje em dia!
— Mas... seu Alexandre, o senhor não me leve a mal...
— Arre égua, Seu Firmino, o que foi agora?
— Bom, é que estou aqui encafifado com uma coisa que ainda não atinei bem dentro das minhas idéias.
— Pois me diga lá o que lhe causa gastura.
— O senhor há pouco dizia que o capeta só podia fazer morada no corpo da gente, não é não?
— Sim, é isso mesmo que eu falei.
— Então, como é que o cramulhão estava de pouso no corpo apodrecido do Damião, se corpo não havia? O pobre só estava no esqueleto... não é isso?
— Ah, não... mas era só o que me faltava. Seu Firmino ainda está duvidando das minhas palavras!
— Não estou duvidando do senhor não! Eu só quero entender esta parte da estória, só isso!
— Pois eu vou lhe explicar melhor esta parte da estória, seu Firmino.
— Muito agradecido, seu Alexandre.
— Cesárea.
— Que foi, Xandu.
— Vá lá no quarto e, de  dentro do baú, me traga a garrafa.
— Oxente, seu compadre, não precisa trazer a garrafa não? Que é isso? Cruz credo, deixa isso pra lá, homem?
— Meu padrinho, deixe disso, viu? Seu Libório tem razão, não carece de nós botarmos os olhos no capeta não.
— Cesárea, eu não vou te pedir de novo, mulher! Me traga logo a garrafa!
— Estou indo, estou indo, Xandu. Não precisa gritar!
— Eu vou-me embora... mas é agora! Seu Firmino que vá sozinho pra casa. Eu já me fui. Boa noite!
— Espere seu Libório, não se vá!
— Meu padrinho, o senhor me desculpe, mas hoje vou dormir na casa do seu Libório. Aqui não fico não.
— Cesárea... ô Cesárea... anda com esta garrafa, mulher. O seu Libório e a Das dores já se fugiram de medo. Se vossemecê demorar demais o seu Firmino vai dar no pé também. Ande logo.
— ...
— Cesárea... mas que diabo de barulho foi esse aí no quarto, mulher?
— Oooooxe... Deixei cair a garrafa, Xandu. Ela se quebrou em mil caquinhos.
— Ué, seu Alexandre, a garrafa quebrou? E cadê o capeta?
— Oxente, seu Firmino, não seja leso das idéias. Vossemecê não viu ele passar aqui na cozinha, bem nas fuças do senhor, e sair pela porta pra se fugir na escuridão da noite?
— hum...ora, como é que eu posso ver o capeta seu eu sou cego, seu Alexandre?
— Ah... pois, então, não duvide daquilo que o senhor não pode ver, seu Firmino.
— E agora, Xandu?
— Ah, aí está Vossemecê, minha querida. Me traga outra garrafa.
— Está aqui, Xandu.
— Agora, faça companhia pro seu Firmino, este cu de encrenca, até na casa dele, viu?
— Ué, aonde o senhor vai a esta hora da noite, seu Alexandre?
— Oxente, não me arrelie mais do que já estou, seu Firmino. Eu vou é sair à rua pra vê se eu ainda ponho as mãos naquele capeta de novo. Boa noite e passe muito bem!
Comentários   

#6 Paulo Soriano » 04-01-2013 04:16

Creio que a narrativa está de bom tamanho. Não vejo o que acrescer além do que foi dito na narrativa, que, creio, não está a demandar novos detalhes. Gostei muito da abordagem de Afonso.
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Paulo Soriano

#5 Lucas Maziero » 29-02-2012 12:43

Como o Flávio disse tudo (ou quase tudo) com suas observações substânciais, fica aqui só a minha presença na leitura do conto. Me incomodou apenas o fato de não aproveitarem, de alguma forma, o "achado valioso no espaço". :-)
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Lucas Maziero

#4 Flávio de Souza » 29-02-2012 11:27

Aí é que está, meu bom. Mesmo dentro de um tema batido, você achou uma sacada legal, que é a exploração do instinto primário de autopreservação das criaturas, algo pouco utilizado na FC (pelo menos até onde vejo). Isso levou o conto para um lado que eu não esperava. Eu pensei que a humanidade teria uma nova chance (a curiosidade levaria os ets a utilizar a lua como novo lar dos humanos). Então eles se dariam mal diante da crueldade dos homens. Porém, você conduziu o texto para outro lado, o que me surpreendeu, principalmente pelo corte rápido, tipo: "Não, eles não merecem." Outro ponto bem destacado foi a questão do "a beleza está nos olhos de quem vê". O humano asqueroso aos olhos das criaturas também ficou bacana. Penso que se você reescrevesse a ideia com mais detalhes, putz, aí sim ficaria nota 1000. Fica aí um desafio pessoal para ti.
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Flávio de Souza

#3 Afonso Pereira » 29-02-2012 11:12

Citando Flávio de Souza:
... É nesse ponto que ocorre um corte seco no conto, o que proporciona o impacto que você buscou. O estilo que você empregou no texto está um pouco diferente do que estamos acostumados em seu trabalho (obviamente por ser um dos primeiros). As passagens rápidas estimulam a dinâmica, mas, ao mesmo tempo, deixam escapar a impressão de que falta algo (digo isso em comparação de textos Afonso x Afonso), ou seja, não é que o conto apresente algum problema de entendimento ou algo do tipo. É que os contos recentes são mais inteiros. Fiquei com vontade de ler esse texto numa versão 2012. Show de bola! Grande abraço, meu bom. É isso aí!

Entendo o que você quer dizer, Flávio. De fato este texto não apresenta uma estrutura de conto bem definida. Penso que pode ser considerado o que se costuma chamar de croniconto (híbrido de crônica e conto), pois há algumas passagens de reflexão que podem levar para este lado. E este texto, você está correto, foi um dos primeiros que publiquei lá no recanto das letras, há coisa de 3 anos, e merece uma recauchutada, embora o tema já esteja um tanto batido.
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Afonso Pereira

#2 Flávio de Souza » 29-02-2012 01:28

Afonso, meu bom, não sou especialista em FC, mas, vamos lá...
Dentro da perspectiva usual sobre a catástrofe global movida pela deterioração dos recursos naturais, destaco um fator que deixou o texto, como você diz "redondinho": o ponto de vista dos viajantes. É normal termos a impressão de que a curiosidade científica domina tais criaturas, em detrimento a qualquer outro fator. Logo, poderíamos supor que o humano seria objeto de estudo, o que poderia levar o conto para um outro caminho, não um caminho ruim, apenas diferente, é bom que se diga. Porém, apesar do domínio da tecnologia e, portanto, de grandes possibilidades, os seres exibem um detalhe essencial em todo ser vivo: o medo. Assim, ao perceberem a potencialidade do perigo, eles simplesmente descartam um achado valioso no espaço. É nesse ponto que ocorre um corte seco no conto, o que proporciona o impacto que você buscou. O estilo que você empregou no texto está um pouco diferente do que estamos acostumados em seu trabalho (obviamente por ser um dos primeiros). As passagens rápidas estimulam a dinâmica, mas, ao mesmo tempo, deixam escapar a impressão de que falta algo (digo isso em comparação de textos Afonso x Afonso), ou seja, não é que o conto apresente algum problema de entendimento ou algo do tipo. É que os contos recentes são mais inteiros. Fiquei com vontade de ler esse texto numa versão 2012. Show de bola! Grande abraço, meu bom. É isso aí!
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Flávio de Souza

#1 F. P. Andrade » 27-02-2012 20:11

CARA. que conto! O legal é quando de súbito percebemos que o narrador não é o humano, e sim, o contrario! De fato. É melhor joga-lo o mais longe possível. no Sol mesmo!
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F. P. Andrade

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