A última dança

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A última dança
Por: Brian Oliveira Lancaster




Música. Por que sentimos a necessidade de ouvir algo que transforme simples ondas sonoras em um conjunto harmonioso de sutilezas reconstruídas por meio de um novo caminho artificial adicionado ao seu trajeto?

Parece complicado, não é? Naquela época não compreendíamos o poder que ela transmitia. Aliás, ninguém se dava conta. Estava tão presente em nossas vidas que nunca parávamos para pensar em como ela podia controlar nossas emoções de uma forma não explicada. Mas este não era seu único e exclusivo poder. Em teoria, as ondas sonoras harmônicas também poderiam ser capazes de “prender e carregar” memórias consigo. Um momento que duraria para sempre...



(...)



Uma semana atrás, ao entrar na seção de ciências avançadas da biblioteca da praça central (ação que praticava toda segunda), acabei esbarrando em alguém e derrubei todos os livros que carregava. Fato estranho, pois, em todos esses anos em que frequentava aquela seção específica, nunca havia encontrado outra pessoa que compartilhasse o interesse pelo estudo da harmonia das cordas e como o som afetava seu caminho natural.

Apressei-me em pedir desculpas e comecei a juntar seus livros. Foi somente depois de colocá-los de volta em suas mãos que parei um instante e olhei diretamente para seu rosto. Alguma coisa deve ter acontecido porque naquele momento o mundo parou. Houve uma momentânea perda de sentidos: o olhar foi correspondido. Uma música suave começou a tocar e aquele momento ficou preso para sempre em minhas memórias.

Enquanto ela estivesse interessada naquela seção, iríamos nos encontrar mais vezes. Fui para casa com apenas um pensamento: queria vê-la novamente o mais rápido possível. Certo tempo depois percebi que tinha sido “vítima” do fenômeno de meus estudos. Um “momento” havia ficado preso em minhas memórias e a única forma de resgatá-lo era vendo-a novamente ou ouvindo aquela música.

Não fui capaz de esperar. Levei a tarde toda em uma loja procurando aquele som específico. Precisava achar uma forma de trazer aquele sentimento à tona e desprendê-lo de minhas memórias.

Na semana seguinte resolvi não perder tempo. Cheguei cedo. O “som” viria até mim. Amaldiçoei ser tão distraído e não ter solicitado seu número de telefone. Mas tudo bem. Era só questão de alguns minutos. Esperei.

Esperei mais um tempo.

Um dia...

Uma semana...

Um mês...

Apesar de ir lá todos os dias, nunca mais a vi. Intensifiquei meus estudos. Era preciso entender como aquele momento poderia ficar preso para sempre nas ondas sonoras e tirá-lo de lá. De uma forma ou de outra iria encontrá-la novamente. Com os recursos disponíveis (muitos deles herdados da Corporação de Ciências de Fronteira, fundada por meu avô), procurei criar um experimento sensorial, através de uma máquina que poderia extrair momentos ou instantes específicos que estavam presos nas malhas das cordas dimensionais por meio de ondas sonoras. Se não podia encontrá-la pelo menos poderia reviver aquele momento de alguma forma.

Uma batida na porta do laboratório acabou me distraindo. Parei o que estava fazendo e fui atender. Minha surpresa foi tão grande que deixei tudo o que estava carregando cair ao chão. Ela se apressou em juntar as coisas e associar este fato ao mesmo ocorrido um mês atrás na biblioteca. Mencionou que a senhora que cuidava de lá lhe havia contado que um rapaz vinha todo dia procurá-la e ficava esperando até que as portas se fechassem. Interessada em descobrir o motivo conseguiu o endereço do laboratório e veio conversar pessoalmente.

Nossos olhos novamente se encontraram. Aquela música começou a tocar. O mundo novamente parou. Mas desta vez não foi apenas a memória que ficou presa naquele momento. A máquina ligou-se sozinha. O momento se estendeu por todo o laboratório. Mas isto não importava. Poderia ficar assim para sempre. E de fato ficamos assim durante muito tempo.

Foi então que percebi que estava vivenciando o que deveria ser apenas uma doce lembrança. As coisas começaram a ficar estranhas quando não consegui sair do laboratório. Sua expressão mudou completamente e pareceu demonstrar medo. Segurei firme suas mãos e prometi dar um jeito. Mencionei que não conseguiria sozinho – precisava de seus conhecimentos (afinal, ela também estudava o mesmo fenômeno). Ela me abraçou.

Houve nova descarga de sentimentos, o que reforçou ainda mais as paredes dimensionais. Aquela verdade me assustou. Poderiam ser meus próprios sentimentos que estavam nos mantendo presos ali?

A música tocou novamente. Querendo acalmá-la um pouco, perguntei se ela me concederia a honra daquela dança. Ela sorriu. As paredes ganharam um reforço triplo. Parecíamos dois bailarinos presos em uma caixinha de música. Mas a sensação era tão intensa que não prestávamos atenção ao redor. Dançaríamos pela eternidade enquanto aquela memória existisse nas ondas sonoras da malha quântica. Como nos finais de contos de fadas viveríamos felizes para sempre.

Mas o que os autores esqueciam-se de colocar após esta frase era “enquanto durasse”.

Era tudo maravilhoso, mas estava sendo egoísta. Havia tolhido suas escolhas e a trancafiado em minha própria caixinha de música. Desta vez foi minha expressão que mudou. A dela em seguida. Havia encontrado a solução. Era dolorosa, mas livraria a nós dois.

Dei o último passo e parei. Beijei sua mão e agradeci pela dança. De repente senti algo salgado no canto da boca. Eram lágrimas. A parede rachou. Ela deu um passo para trás. As três paredes esmigalharam-se. Cristais de cores intensas se espalharam pelo chão. Ela deixou a coisas sobre a mesa e saiu.

A máquina desligou-se por completo. Acompanhei-a através da janela. Parecia perdida e perguntava-se o que estava fazendo ali. Não se lembrava de nada. Era óbvio, pois aquelas eram MINHAS memórias. Sentei e comecei a escrever.



(...)


Após uma semana, destruí a máquina. Mas aquele encontro havia ficado preso em minhas memórias para sempre. Era melhor assim. Seria pior se tivesse ocorrido o contrário. Talvez a música fosse a chave de segurança que trazia este fenômeno à nossa realidade e o devolvia a seu lugar original pouco tempo depois. Foi um erro tentar controlar isso.

Mas ainda tenho esperanças de encontrá-la novamente. E desta vez, definitivamente, não será a última dança.

Comentários   

#1 Sofia Geboorte » 30-07-2012 02:00

Brian,

Gostei da junção da ficção científica com o romance, e mais do que isso, da forma como tratou a música, que faz as lembranças ressurgirem, afinal, muitas vezes é mais delas que se vive.
0 +−

Sofia Geboorte

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