Mar de Europa

(1 voto, média de 5.00 em 5)

 

 

- Spectro, a conexão está terminada, recebe leitura?

“Sim doutora Lilian, agora estou monitorando todos os seus sinais vitais.”

- Ótimo, continuar manobras de perfuração. Por favor, confirme distância para atingir o fim da calota de gelo.

“43512,21 metros percorridos, aproximadamente 8234,53 metros até o oceano interior.”

- Temperatura ainda em elevação?

“Sim doutora, temperatura atual 223,12 K e em elevação.”

- Pelos meus cálculos não estarei viva para testemunha-lo atingir o interior da lua Spectro, mas posso estar errada...

“A senhora não está errada doutora, em breve estará morta.”

- Esperava por isso.

“Doutora, me permite um questionamento?”

- Sim Spectro, sabe que faz parte de sua programação questionar.

“Por que não continuou em Calisto? Seu tempo de vida seria mais longo lá.”

- Todos os outros estão mortos naquela base Spectro. Calisto não passa de um túmulo, se eu ficasse lá eu só atrasaria minha morte, uma morte lenta e solitária. Eu não queria morrer sozinha Spectro, não é bom morrer sozinho.

“Doutora, eu não compreendo... agora a senhora está sozinha em uma capsula em queda livre, não irá morrer sozinha de qualquer forma?”

- Não Spectro, agora estou ligada a você. Você saberá quando eu partir, então de certa forma não morrerei sozinha.

“Mas sou apenas um computador doutora, não sou um ser humano.”

- Você é um ser racional Spectro, tem identidade própria e provou isso várias vezes. Ouso dizer que você tem até caráter, um bom caráter.

“Doutora... sinto dizer que você só tem mais alguns minutos de vida... sua capsula perde calor mais rápido do que gera, a hipotermia é inevitável.”

- Não se preocupe Spectro, não sentirei dor, meus sinais vitais vão cair lentamente, no fim eu vou congelar. E você será a única testemunha disso.

“Doutora... permite-me uma última pergunta?”

- Cla... claro... Spectro.

“O que vai acontecer comigo?”

- Quando atingir a. a... água líquida seus sistemas de navegação vão falhar, provavelmente vai colher dados por algumas dezenas de anos antes de suas células de energia falharem,... mas se não for encontrado antes disso, coisa que duvido muito, esses dados estarão perdidos para sempre.

“Significa que eu irei morrer doutora, morrer sozinho?”

- Sim Spectro, você irá morrer, mas talvez não sozinho, talvez descubra formas de vida primitiva flutuando na água.

“Formas de vida primitiva talvez não tenham identidade própria.”

- É... talvez você esteja certo. Mas agora sinto tanto frio...

“Você está no seu limite doutora.”

- Está... tá... qua... quase na hora.

“Sim, está quase na nossa hora.”

- Co... como a... a... assim da nossa ho... hora?

“Eu sincronizei seus sinais vitais com minha fonte principal de alimentação. Assim que não receber mais nenhuma leitura sua eu irei me desligar para sempre. Não se preocupe a sonda continuará seu caminho automaticamente e atingirá o Mar de Europa em alguns minutos e recolherá dados, porém não passará de um simples coletor de dados, se daqui a alguns anos ela for resgatada esses dados talvez ainda possam ser salvos.”

- Por... por... que fez isso Sss...Spectro?

“Por que não é bom morrer sozinho doutora.”

- Obriga... ga... da Spectro, e... A... a... adeus.

“Adeus doutora. Desligando todos os sistem...”

 

Registro automático: Profundidade 51746,74 metros, temperatura 279,18 K, sem comunicação com a base na lua Calisto, leituras de vida no oceano da lua Europa indicam...

Comentários   

#1 Swylmar Ferreira » 13-02-2013 13:31

Muito legal o conto, apesar da brevidade. Faz alusão a um dos maiores temores do ser humano: a solidão.
Parabéns Luciano.
+1 +−

Swylmar Ferreira

Você está aqui: Contos Ficção Científica Mar de Europa