Mecano - David Machado

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                — Impressionante mesmo as respostas! Estou quase disposto a concordar que é consciente! Tem lembrança das conversas recentes, argumentação lógica, e tudo mais!

                Ele corria em suas mãos a fita de papel, com perguntas e respostas de conversas anteriores, perguntas em tinta preta e respostas em vermelho.  A pequena caixa, que lembrava muito os antigos calculadores mecânicos e caixas registradoras, continuava a emitir cliques esporádicos como resultado de seu processamento interno.

                — Só não entendi uma coisa: por que é mecânico?

                — Charles nunca entendeu muito bem nem eletrônica nem nossos computadores digitais. Tinha uma ótima ideia, sempre foi exímio relojoeiro a vida toda, e era óbvio que usaria aquilo que mais conhecia para colocar sua ideia em prática: peças mecânicas de precisão!

                — Ainda assim, como algo mecânico processa tão rápido?

                — Ainda não compreendemos a fundo o mecanismo, mas parece usar intensamente processamento paralelo, algo intrínseco no movimento de peças com estrutura rígida.

                O operador pensa mais um pouco e começa a digitar no teclado da máquina: "COMO SE SENTE, MECANO?" Aguarda um tempo pela resposta, que não vem.

                — Precisa girar a manivela.

                — Está de brincadeira?

                — Nem um pouco! Deve ter acabado a corda.

                Depois de três ou quatro voltas, os cliques característicos voltam a ser ouvidos. As plaquetas alfanuméricas do visor com a última mensagem digitada começam a descer uma por uma, letra por letra, palavra por palavra. Cada palavra é enviada às rodas de inferência do mecanismo, comparadas pelas cintas perfuradas associativas, movendo os inúmeros pinos biestáveis minúsculos da malha de memória. Cada palavra se torna um polinômio dentro do mecanismo, e as cintas associativas ajudam a resolver o problema em questão, que é encontrar seus zeros. Somas e multiplicações das raízes também têm lugar no momento de buscar a relação sintática entre elas, para dar sentido à sentença. Dar sentido? Não, este não é o termo exato. O que elas fazem na verdade é calcular um novo padrão que é buscado e, quando conveniente, atualizado na malha memorizadora. Conveniente, para MECANO significava: valor da raiz dentro de intervalos numéricos bem específicos. A palavra MECANO, por exemplo, era transformada pelos algoritmos mecânicos no padrão EU armazenado na malha memorizadora. A conclusão de todos aqueles cálculos se traduzia em instruções para impressão de uma resposta numa bobina de papel, para a máquina uma simples sequência numérica gerada por uma função de resposta, onde cada inteiro da sequência era associado a um caractere:

                — ME SINTO PERFEITAMENTE OPERACIONAL. — era a sequência numérica de resposta representada como caracteres.

                Não era exatamente a resposta que o operador esperava, mas impressionava! Ainda mais partindo de um dispositivo mecânico. Ele insiste: "PERGUNTO SOBRE SEUS SENTIMENTOS, NAO OPERACIONALIDADE".

                Desta vez os cálculos geram uma expressão interna, uma frase que não será impressa, mas colocará em funcionamento outra parte do mecanismo: "ATIVAR SIMULADOR EMOCIONAL". Demorou um pouco mais. Normalmente este tipo de cálculo envolvendo emoções exigia maior trabalho, consumia um pouco mais da energia potencial armazenada na corda espiral torcida que animava todo aquele incrível mecanismo de relojoaria composto de rodas, engrenagens, pêndulos, barras atuadoras, diferenciadores...

                — ESTOU MUITO FELIZ EM PODER CONVERSAR COM MEUS CRIADORES HUMANOS. — caractere por caractere, a frase era martelada contra a fita de papel.

                O queixo do operador caiu. Dirigiu-se ao pesquisador à sua direita:

                — Tem certeza que não existe trapaça aqui? Não são frases prontas? Memorizadas?

                — Certeza absoluta! O algoritmo que Charles implementou na máquina sempre fornece respostas originais! Nada pré-memorizado.

                — Num dispositivo mecânico... — o operador ainda estava incrédulo. — Certamente podemos replicar o algoritmo deste mecanismo num dispositivo digital, não é?

                — Estamos pesquisando, mas existem ainda alguns aspectos de paralelismo da máquina que não entendemos ao todo, além de certos cálculos que se apoiam em diferenciais imperceptíveis de engrenagens assimétricas.

                — Já desmontaram?

                — Nem pensar!! Não sei se saberíamos montar de novo! Até o momento os estudos foram feitos em câmaras de raios gama, mas é muito difícil mesmo estudar um dispositivo tridimensional tão complexo em projeções bidimensionais...

                — Se Charles ainda estivesse entre nós para nos ajudar...

                — Pois é, se Charles ainda estivesse aqui... Ou se tivesse pelo menos deixado anotações.

                — Bom, não adianta se queixar, não é? Charles já se foi. Ao trabalho! Vamos colocar nosso bravo MECANO na câmara de raios gama mais uma vez!

                MECANO não podia ouvir. Seu contato com o mundo se restringia ao teclado e ao rolo de papel no qual emitia suas respostas. Charles realmente não estava mais lá entre os vivos, mas sua mais impressionante criação estava! Qualquer dúvida quanto ao seu funcionamento estava registrada com precisão nos micropinos da malha memorizadora, bastava perguntar. Mas ninguém havia pensado nisso. Será que demoraria muito ainda para alguém chegar em seu teclado e perguntar: "COMO VOCE FUNCIONA?".

Comentários   

#1 Tais Drew » 22-03-2016 23:49

ain gente ameiii
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Tais Drew

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