Nas partidas do Inferno, o demônio apita o jogo

(1 voto, média de 5.00 em 5)

 

Nas partidas do inferno, o demônio apita o jogo


Aconteceu em uma encruzilhada qualquer no centro. Três ratos e um mendigo foram testemunhas, ou melhor, a torcida. Eram uns 11 homens no total, entre 30 e 50 anos, vestindo blusas iguais, que — era difícil de dizer devido a pouca luz — lembravam muito camisas de times de futebol. No entanto, não era a forma como estavam vestidos que chamava a atenção, mas sim o que estavam fazendo.

As lâminas brilhavam na pouca luz, enquanto eles se moviam em círculo ao redor de algo no chão. Um algo que fez o mendigo se esconder embaixo de seu cobertor fedorento. O silêncio era uma presença a mais na rua deserta, quebrado apenas por um fraco gemido soluçante e por ocasionais palavras em um idioma incomum. Mas a expressão nos rostos deles não deixava dúvidas: satisfação. Aquilo era algo que lhes daria muito prazer, bem, não para todos. Um deles caminhou para fora do círculo, deixando todos confusos. — O impeçam! — gritou aquele que parecia ser o chefe, ou melhor, o capitão. Dois homens acenaram e seguiram atrás do desertor.

— Você não pode deixar o círculo. — disse um dos homens, o alcançando.

— Isso não parece certo, — respondeu o receoso.

— Você não quer o resultado? — perguntou o mesmo homem, o outro apenas o encarava.

— Sim, mas, isso... — ele balançou a cabeça. — E se a minha mulher descobrir? — ele olhava para dentro do círculo desfeito.

— Ela não vai, a não ser que você conte, e você não vai contar não é? — o olhar do homem era duro.

— Eu não vou. — ele ainda olhou indeciso, enquanto os três caminhavam em direção ao círculo.

— Muito bem, agora vamos terminar isso, já está tarde e eu terei que ouvir horrores da patroa, — proclamou o capitão. — Nada mais de desistências, certo? — O receoso acenou e os três voltaram rapidamente as suas posições, mas foi o suficiente para que o mendigo visse novamente a garota pelo rasgo em seu cobertor. Amordaçada e amarrada, tinha o rosto todo sujo pela maquiagem que as lágrimas lavavam. O olhar desesperado da jovem acompanhava cada movimento. Ela sabia que não havia nada que pudesse fazer. E lá ficou, enquanto eles diziam mais um bando de coisas naquela língua estranha, e então baixaram suas lâminas sobre el...

— Demônios ladrões de corpos são encontrados em poço na Europa, sim, claro. — disse uma voz monótona, que fez todos se sobressaltarem. Eles levantaram suas lâminas ensanguentadas e se viraram para encarar a fonte da voz. Parado, vestindo pijama e chinelos, um homem de meia idade lia um jornal amarrotado e sujo. — Não é uma coisa ridícula? Como alguém pode acreditar nisso? Eu juro que não entendo vocês humanos, não mesmo.

Os homens se entreolharam. — Quem é você? — Perguntou o capitão. O homem bufou, e abaixou o jornal para encará-los. — Me tiram da cama há essa hora, e nem mesmo sabem por quem chamaram?

— Você veio pelo sacrifício? Perguntou um dos homens.

— Não, vim porque soube que estavam dando ingressos pras finais. — Eles se entreolharam novamente, e houve um cochicho sobre o que estava realmente acontecendo. Naquele momento o medo era uma presença também. — Nós queremos fazer um sacrifício porque... — Eu sei o que querem, vamos ao que interessa ok? Eles acenaram. — Todos concordam com o sacrifício? Respostas verbais, por favor. — ele continuou. Todos responderam sim, e o homem sorriu. — Então, eu aceito o sacrifício. O primeiro a cair no chão morto foi um homem calvo e barrigudo. Os outros olharam espantados.

— O que está havendo? Perguntaram.

O homem apenas sorria. — Apenas pegando meu sacrifício.

Outro homem caiu, e depois outro. — Mas há um engano, ela deveria ser o sacrifício. — O olhar de desespero do capitão chegava a ser cômico.

— É mesmo? — perguntou o homem. Todos já haviam morrido, alguns haviam corrido e caído pelo caminho, e apenas o chefe permanecia em pé na encruzilhada. — Eu não acho que ela tenha aceitado ser sacrificada, desculpe, mas são as regras da empresa, sem consentimento não há negócio. — ele disse, enquanto o último homem caía no chão.

O homem caminhou por entre os corpos até a jovem. Sangue a rodeava, e sua respiração estava por um fio, ele pegou o celular em seu bolso e mandou uma mensagem...

— Não tem outra para perturbar? — perguntou uma voz suave e sonolenta em tom de brincadeira. O homem sorriu. De camisola e pantufas de porquinho, a mulher com o arco dourado na cabeça estava parada ao lado do corpo. — Deixe-me adivinhar, torcedores? — ela continuou, enquanto se abaixava próximo à garota, e colocava sua mão sobre ela. — Sim. — Ele respondeu.

Ela balançou a cabeça, luz saía de sua mão, e aos poucos as feridas da jovem começaram a fechar. — Toda época de finais é a mesma coisa.

— Nem fale, na última copa eu fui mais escalado que o fenômeno. — ele disse, e ela riu.

— Pronto. — disse ela, a jovem luzia saudável, intacta, mas ainda inconsciente. — Querido...

Ele estalou os dedos e as cordas e mordaça sumiram. — Obrigada. — Ela tocou a testa da jovem, e gradualmente a moça desapareceu...

Uma risada estridente percorreu a rua. — Eu disse para ficarem na cama. — disse a mulher em tom repreensor. De pijamas, seis crianças sentavam sobre os corpos.

— Querida, ainda faltam algumas horas para amanhecer, que tal deixar as crianças terem um pouco de diversão? Ele perguntou. Ela olhou ao redor e suspirou.

— Certo, mas não deixe que fiquem até tarde. Ele acenou.

— Venham aqui. — Como vento, as seis criaturinhas se materializaram na frente dos pais. — Estou indo para casa, papai vai ficar com vocês, comportem-se, ouviram? — Eles acenaram. Mas mal ela se desmaterializou, começaram a correr, os corpos dos homens foram movidos formando um retângulo na rua. E logo eles começaram a partida, correndo e chutando a bola, que possuía olhos e nariz...

— Gol... golll... gollllllllllllllllll... — disse a mulher do demônio, enquanto faziam amor. As crianças já estavam dormindo, haviam se divertido bastante, e agora era a vez dos pais terem um pouco de diversão...

****

Um homem amassou o jornal inconformado, não entrava em sua cabeça como aquele timezinho de merda havia vencido, já estavam praticamente desclassificados. É claro que ele não era o único surpreso...

Todos os apostadores foram prestar queixas, regadas a palavrões e confusões, mas nada poderia ser feito. Resultado era resultado. Ninguém recebeu um tostão, a não ser um único casal, um homem mal humorado e uma mulher com ar angelical levaram a bolada, rodeados por um mini time de futebol.

Comentários   

#2 Lucélia Rodrigues » 12-03-2012 14:44

Taí um diabo bem construído, rsrs :D , essa mania de sacanear mesmo quem está querendo agradar. Hilário.
Pantufas de porquinho na mulher do dito cujo... Oh God :D :D :D
+1 +−

Lucélia Rodrigues

#1 Elsen Filho » 02-12-2011 20:15

Bastante divertido.

Também sempre achei que "sacrificar" os outros era meio sem sentido, só há sacrificio com perda pessoal.
+1 +−

Elsen Filho

Você está aqui: Contos Literatura Fantástica Nas partidas do Inferno, o demônio apita o jogo