O Trem e o olhar do Carrasco

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Escrito por  JORGE DIMAS CARLET

Pela janela desfilavam as cores das paisagens que, à medida em que a velocidade do trem aumentava, fundiam-se numa enorme  coleção de formas incongruentes e tonalidades indefiníveis. A cada pedaço de lenha jogado na fornalha, o vapor da locomotiva mais e mais umedecia sua face ao visitar-lhe pela pequena janela entreaberta do vagão em que se encontrava. O ruído a cada pedaço de trilho superado pelas rodas de ferro inebriava cada vez mais sua mente, com a intensidade gradativa dos efeitos do ópio quando fumado com  vagar. Estranhamente a acessibilidade da memória parecia obedecer a uma cronologia ordenada a partir dos fatos mais recentes em direção aos mais antigos. Sem que desconfiasse, no entanto, um importante lapso de tempo faltava.

Naquele instante apenas a adolescência era perfeitamente identificável. Parecia mesmo sentir as aflições, as crises de identidade, as incertezas, os amores e desamores que o afligiram com tanta intensidade naquele período. Sem mesmo saber por quê, pegou um pequeno pedaço de carvão que estava embaixo do banco da frente e desenhou o A de anarquia em sua camisa. Branca, porém com secas manchas vermelho-escuras que lhe pareciam despropositadas.  Contudo ao levar a mão ao queixo a barba cerrada o alertou de que aquele momento já não era mais seu. Mas a memória simplesmente não o reconhecia como adulto. Aparentemente não registrava nada desde sua adolescência. Mesmo assim, gostou do rabisco na camisa.

Olhou para o lado. No banco do lado oposto uma senhora franzia a testa, com indisfarçável ar de reprovação, ao menino que o olhava com curiosidade. Ao mesmo tempo lhe lançava fulminantes olhares inquisidores. O que havia de errado com ele para repreensão tão enérgica ter sido levada a efeito por aquela senhora, que carregava por entre as mãos enrugadas um volume antigo do novo testamento, pensou ? Procurou desvencilhar-se da situação voltando o olhar na direção da pequena janela. A poucos metros, em meio a imensidão daquele campo amarelado, que parecia dançar com seus ramos de trigo embalados pela brisa outonal, três meninos pulavam e acenavam à velha locomotiva que, de tempos em tempos por ali passava sussurrando-lhes segredos que só as crianças sabem decifrar. Por instantes ficou observando a cena que, pouco a pouco, ficava para trás deixando-lhe um nó na garganta.

Com um certo friozinho na boca do estômago e os olhos marejados sem que tivesse consciência da motivação, tentou acomodar-se da melhor forma possível naquele banco desconfortável. Cerrou os olhos e pôs-se a tentar adormecer. Não conseguiu. Apenas uma música parecia desfilar em seu cérebro, encaixando-se perfeitamente ao ritmo do trem. Demorou mas identificou: era venus in furs do Velvet Underground. Desistiu de dormir.

À medida em que o tempo passava, a ansiedade foi tomando o espírito. Já estava naquele trem há um bom tempo. E nada do trem parar. Intrigado, arriscou perguntar à velha senhora o que acontecia. Esta limitou-se a dizer que não havia um destino final para a viagem e que o trem só parava para que novos passageiros subissem. Ninguém descia. Atônito, deu-se por conta de que não tinha nenhuma passagem. Tampouco noção de para onde estava indo, nem porque embarcara. Desesperado, tentou lembrar-se de como chegou ali. Não conseguiu. Só havia uma solução. Descer na primeira oportunidade em que alguém embarcasse. Procurou um banco próximo à porta e ali ficou à espera. Algum tempo depois o trem pareceu diminuir a velocidade. Botou a cabeça para fora da janela para ver o que se passava. A única coisa que via era um corpo estendido no chão. Nada mais. Ninguém parecia ter acenado pedindo sinal verde para embarcar. Mas o cenário era muito semelhante ao local de onde embarcara. Estranho. Mesmo assim achou que era hora de pular fora. Com o trem quase parado, pôs-se em posição para desembarque assim que a porta se abrisse. Com a abertura gradual da porta, uma brisa gelada invadiu o vagão parecendo atravessar-lhe o corpo. Educadamente, esperou que o passageiro embarcasse para só então descer. Quando este meteu o pé no degrau, sentiu uma compulsão irresistível e trocou olhares profundos com o homem que subia. Um calafrio diferente da brisa que soprava invadiu-lhe profundamente. Tomado por aquela estranha sensação que por vezes temos de já termos vivenciado situações presentes, por instantes ficou desconfortável. Aquele olhar “parado e frio” definitivamente não lhe era estranho. Mas não apenas isso. Algo lhe dizia que aquele olhar pertencia a alguém que havia ou haveria de ser definitivo em sua vida...

Nesse exato momento alguém agarra seus braços, sacudindo-o violentamente.

- Acorda Alonso, acorda !

- Nosso homem acaba de chegar.

Coração acelerado, e ainda naquela espécie de limbo em que ficamos quando somos acordados abruptamente, aos poucos foi recobrando os sentidos. Havia passado boa parte da noite no carro, com seu parceiro, de campana em frente a casa do suspeito.

Há muito investigavam o sumiço de garotas vindas do leste europeu atraídas à capital pela oferta de trabalho. Os “empresários” diziam às moças que apenas fariam companhia a senhores, ditos respeitáveis, em suas viagens e reuniões informais de negócios.

A possibilidade de ganhar dinheiro “fácil” não só as seduzia como também às suas famílias. Com o fim do socialismo real no leste europeu apenas uma pequena parte da população foi incorporada aos benefícios da economia de mercado. A maioria, não só ficou excluída do mercado de trabalho, mas também se viram privadas das políticas assistencialistas do Estado. Portanto a oferta era irrecusável. Uma chance única. Inadiável.

Mas não era bem assim. Ao chegarem aqui, as moças tinham seus passaportes recolhidos por quem as trazia e eram obrigadas a participar de filmes sadomasoquistas. Como se não bastasse, sequer se tratavam de filmes convencionais do gênero. Na verdade eram filmes levados às últimas conseqüências. Em todos os sentidos. Neles, um homem forte e usando uma máscara semelhante à dos carrascos que aplicam a pena de morte, não só transava com sua parceira mas a espancava com uma violência descomunal. Próximo do desfecho, o carrasco enrolava uma grossa corrente no pescoço da vítima, asfixiando-a lentamente. A câmera, então, aproximava-se dos olhos da vítima que, por longos e efêmeros instantes, desesperados captavam as últimas cenas que veriam em vida. À câmera cabia registrar estes momentos derradeiros. Este era o clímax, o “ponto alto” do filme. O sadismo elevado a potência máxima.

Estes filmes eram produzidos somente mediante encomenda e para um reduzido número de pessoas com dinheiro suficiente para pagar pelo seu macabro e ignominioso fetiche.

Após uma longa investigação, com exceção de uma, todas as pessoas envolvidas já haviam sido presas. Restava apenas o ator coadjuvante: o carrasco mascarado, o homem que materializava a possibilidade de prazer asqueroso daquelas mentes doentias. E eles estavam a um passo de prendê-lo.

Com a adrenalina irrigando cada artéria de seus corpos , os detetives Alonso e Herculano  combinaram a estratégia:

- Herculano, tu vai pela frente. Bate na porta enquanto cubro os fundos.

-  Ok !

- Herculano: só uma coisa. Entramos vivos nessa e vamos sair igual. Certo ?

- Claro, parceiro.

E silenciosamente puseram-se à execução do plano.

Conforme o combinado,  Herculano dirigiu-se à porta da frente e bateu duas vezes. Notou que o olho mágico escureceu. Esperou por breves instantes e, ouvindo passos apressados, meteu o pé na porta e invadiu a residência. De relance ainda conseguiu ver o carrasco com a 9 milímetros em punho correndo em direção à porta dos fundos.

Súbito a porta dos fundos é aberta. Alonso e o carrasco ficam frente-a-frente. Por uma fração de segundos trocam olhares. Profundos olhares...

- Você !?, gritou Alonso.

Hesitação suficiente para que a bala da 9 milímetros do carrasco atravessasse seu peito,  inundando sua camisa branca, de manchas vermelho-escuras.

Não viu mais nada além de uma luz branca que se aproximava. Rapidamente um trem parou diante de si. Uma das portas se abriu e Alonso subiu. Sem mesmo saber porquê.

Comentários   

#3 Jefferson Reis » 16-02-2012 11:02

Parabéns pelo conto. Gostei de todo o mistério.
+2 +−

Jefferson Reis

#2 Lucas Maziero » 07-02-2012 13:58

Bravo! Conto elegante, prazeroso de ler e imprevisto. Parabéns! :-)
+2 +−

Lucas Maziero

#1 George dos Santos Pacheco » 07-02-2012 12:36

Este conto, inicialmente classificado como policial, tem ligações fortes com a literatura fantástica. Foi publicado na Antologia Assassinos S/A Vol II, coletânea da qual também participei. A história é bem contada, cheia de detalhes e tem algo que considero extremamente importante em qualquer texto: a imprevisibilida de, a surpresa. Gostei muito do teu conto Carlet. Parabéns!
:lol:
+2 +−

George dos Santos Pacheco

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