Socorro!

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Em uma noite escura e chuvosa, um bêbado com uma garrafa de pinga na mão - à procura do último bar -, ouviu pela terceira vez um chamado distante.

“Socorro!”

— É a tua seu bosta! Fala di novu que eu infiú esse garrafa bem no meio...

“Socorro!”

— Miseráviú! Mim deixa em paz!!

Irritado e encharcado dos pés à cabeça, tampou os ouvidos e por fim encontrou abrigo nos fundos de um hospital.

— Tem gente qui num tem mermo o qui fazê ... Acho... – bocejou - ...acho que vou durmir um pouquinho pra isquecer dos pobrema. – diz a si mesmo.

Mal pegou no sono, despertou com um grito de medo: “Socorro!”

— Vixi meu Deus, um socorro dentro de mim; esses pesadelo num me deixa em paz! – pausou irritado e respirou fundo – Mas que fedor disgraçado de ruim! Vô imbora.

Antes de alcançar a calçada, ouviu um miado emanando do fundo de um beco. Solitário e curioso, vasculhou a escuridão e encontrou um bichano, de rabinho pra fora, entalado em uma imensa lata de lixo.

— Vixi Maria bichinho, que qui tu tá fazendo infiado no meio desse fedozão?! – olhou para cima com cenhos franzidos - A chuva passô... Vamú imbora daqui.

Colocou-o no colo, porém antes de partir, a lata de lixo sugou sua atenção com uma visão; suspirou incredulamente e com os olhos marejados, mergulhou em memórias aparentemente extintas; cerrou os punhos e disse ao bichano:

— A festa foi das boa! – retirou o achado da lata  - Desde criança que eu não encho uma bola de soprar... e da merma corzinha das bola do meu aniversário de deiz ano. Óia só!!

Ele soprou, soprou, mas o pobre coitado – alcoolizado que estava –  não notou que tentava inflar um feto morto.

— Huuumm... Acho que tá cum pobrema, num enche de jeito ninhum.

Pegou um cordão umbilical e disse ao bichano:

— Esses colar é paricido com os que a gente usava quando ia pras festa de antigamente, bem bonitão! Assim ó... Como aquele filme... – enredou-o no pescoço ensaiando passos de dança em meio a chuva - Quando, quando... ai, ai...num vô lembrá dessas coisa que num vorta mais não, nem...

“Socorro!”

— Ai!!

De tão forte que foi o susto, que o gato por pouco não lhe escapou ao abraço.

— A merma vóiz pidindo socorro! Num acredito!!

Olhou a lata:

— Tem algum vivo aí? – aguardou - “Craro seu burro, se tá chamando é purque tá vivo, né?” - disse a si mesmo quando colocou o gatinho no chão.

Enfiou-se no lixo e gritou:

— Quem tá aí?! Tá ouvindo não? Vô te sarvar, guenta só...  – pausou quando achou ouvir outro pedido – Não tô ouvindo direito, repete de no...

“Estou faminto: Socorro!!!”

Com a última súplica, a lata cerrou as enferrujadas mandílbulas no pescoço curvado e com um arroto alcoolizado, expeliu os restos mortais na calçada musgosa.

O pobre bichano, assustado e tremendo de frio, espreguiçou as patinhas e adormeceu na ossada do seu Salvador.

 

 

 

Comentários   

#2 Thalita Thasyel » 30-06-2014 12:56

Deveras interessante, faz lembrar um pouco os contos do King. ;-)
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Thalita Thasyel

#1 Lucas Maziero » 19-03-2012 15:25

Impactante. Aqui o insólito nos esbofeteia sem mais nem menos :-)
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Lucas Maziero

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