Céu de cadáver (Ou quando Ela se adianta)

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Céu de cadáver (Ou quando Ela se adianta)

Conto de F. P. Andrade

 

Nunca gostei dessas horas. Geralmente penso em outras coisas, como músicas, filmes ou livros. Gosto de livros.  Ouvi os gritos novamente. Desesperados. Infantis. Eu estava na sala, sentada. O ar cheirava a incesto e a sangue acumulado. Não gosto disso. A sala era pequena, desconfortável e quadrada como uma caixa. A casa era feia. A porta ficava entre duas janelas dando a impressão medonha de um rosto arrependido. Os homens começaram a rir. Gritavam eufóricos. Queriam mais. O desespero da criança veio até mim como cores vivas. Dançava em meus olhos. Questionava-me. “Por que não faz nada!” Não posso, desculpe. Eu já me apresentei? Não? É um mau costume meu. Desculpem. Primeiro falo, depois me apresento. Na verdade eu nem deveria estar aqui, agora. Adiantei-me demais. E quando isso acontece, cá fico eu, tendo que esperar e suportar a espera. Não gosto disso, dá vontade de intervir, o que, na verdade, não posso. Por quê? Porque sou uma fatalidade, um acaso, um acesso, nunca um excesso, isso nunca. Venho na medida certa. Nas doses prescritas. Você já deve ter ouvido falar de mim em algum momento. Se não ouviu, vai ouvir. Creia-me, sou famosa. Mas não faço distinções, isso não. Sou até bem acessível! Meus braços e dedos estendem-se para todos. Ou violentamente, ou amigavelmente. Ops! Espero não ter te assustado, desculpa aê! Não foi essa a intenção. Não ameaço, nunca ameaço. Não sou uma causa. Sou um efeito.

Silêncio.

Estava na hora, eu sabia. Sempre sabia. Levantei-me. Caminhei devagar em direção ao quarto. Ele era úmido, pequeno e desconfiado de minha presença. No quarto, jogados próximo a cama, havia três ursos de pano. Um estava com a boca costurada. O outro não tinha orelhas. E o terceiro tinha esparadrapo sujo nos olhos. Os seus clamores vinham inocentes em minha direção.

Entrei no quarto. Os sete homens ainda vestiam-se e jogavam olhares felizes uns nos outros. A menina estava na cama. Um trapo sujo, úmido e usado. Olhinhos abertos. Lágrimas congeladas. Mortas.

Sentei na cama. Acariciei os cabelos dela e notei, para minha tristeza, que faltavam tufos. Cabelos louros me fitavam em choque do chão. A cama estava cheia de pequenas navalhas e sangrava. Desespera, rangia ao menor toque. A menina tinha orifícios abertos no corpo. Estranhos e violados. Meu coração me apertava. O que eu podia fazer? Nada! Meu trabalho era injusto. Inclinei-me para ela e sussurrei em seu ouvido letrinhas que caiam quentes e formavam a frase:

— Você quer vir comigo?

 A voz dela escalou fraca em meu ouvido:

— Quero...

Puxei-a da cama enquanto as molas praguejavam. Os homens olharam desconfiados uns para os outros. Não viram nada. Peguei-a pela mão e, juntas, saímos do quarto. Trocamos sorrisos como se trocam presentes.

— Você se parece com minha mãe.

— Verdade?

— É, e muito. — ela dardejou a esperança em minha direção. Suspirei. Detesto desapontar crianças.

— Nunca tive filhos, me desculpe.

— Tá. — olhou-me triste. Ela era tão linda! Cabelos longos de palha nova. Olhos de céu azul e boca de morango pequeno.  Bem pequeno.

— Mas, se pudesse ter, seria uma menina.

— Jura?! E qual seria o nome dela? Diz! — os homens começaram a limpar a casa. A embalar o corpo. A menina olhou para trás. Para o que restou. — Quem era? — perguntou.  A curiosidade dançava em seus olhos.

— Nada, meu amor, nada. Você queria saber o nome, não era? Vida. Seria Vida. Que acha?

— Bonito. Mas... Parece tão triste...

— É, eu sei, parece mesmo.

Saímos da casa. Lá fora era noite calada, estática e de ar cadavérico. As nuvens agitavam-se e engoliam umas às outras. A lua parecia sufocar pálida e baixa atrás de algodão sujo.

— Mãe, para onde nós vamos? — “mãe”. A palavra pesada foi jogada ainda quente em mim. Tive que me desviar.

— Você vai. EU nunca vou. — ficamos uma de frente para outra. Nossos olhares se tocavam. Quantos anos ela tinha? Oito? Dez?

— Como é lá, hein? — Eita! Não esperava por essa. Não vindo dela. Já disse que detesto esse trabalho?

— Não sei, meu amor. Nunca fui lá. — a menina me furou com um olhar desconfiado. Ela tinha uma pergunta na ponta da língua. Degustava-a.

— Pode perguntar. Tudo bem.

— Deus existe? — soprou um cheiro bom, verde, e com gosto de inquietação. Respirei fundo.

— Não posso afirmar, querida. Também não posso negar.  Meu amor, entenda. Eu nunca o vi! Mas sua existência não depende de minha visão. Entende?

— Não! — ela chorava. Olhinhos de céu inundados. Uma luz formou-se a partir de seu tronco. Já sabia o que era. Ela jogou uma pergunta desesperada em meus braços. — Eu vou para o céu, não vou? — já disse que detestava me adiantar? Meu trabalho tinha que ser simples, metódico e impessoal: chegar ao local, pegar a alma, levá-la ainda mole e dormindo. Mandar para a Luz. Simples assim! Mas, quando me adiantava, coisa que não acontecia há mais de um século, eu sempre achava a alma acordada. Inquisitorialmente inflexível e absurdamente apaixonada! A luz adensou. Eu precisava falar ou deixá-la partir sem resposta. Com medo.

— Sim, meu amor, você vai, você vai! — eu a abracei enquanto ela subia, pela força da luz, uns trinta centímetros do chão. Beijei sua face, seus cílios. Derreti um beijo em seus lábios. Ela sorriu um sorriso de luz pura.

— Te amo! — ela disse. As palavras jorraram prateadas de sua boca — Juro! — a menina sumiu. Um brilho que explodia e lançava braços brancos em todas as direções.

A verdade? Eu nunca sabia se eles subiam ou desciam. Nunca...

Okay! Vocês devem estar me olhando pasmos agora, não é? Eu menti! Sim, eu sei. Que posso fazer?! Uma criança linda e maltratada pela vida ME perguntou se ia para o CÉU! O que vocês fariam?

Voltei para a casa. Ela ainda cheirava à felicidade rançosa. Eu já falei que odiava me adiantar? Pois é! Sempre sou obrigada a esperar. Impaciente. Voltei para o meu assento na sala quadrada.

Sentei-me bem na hora em que invadiram a casa. A porta, já fraca, desmaiou sem resistência. Os vingadores, bem uns quinze, chegaram de camionete e pegaram os sete homens desprevenidos. Todos sem saída. Ainda me perguntei por que não chegaram umas horas antes... Vai se entender os seres humanos!

A vingança durou a noite toda. Ouvi tudo. Pedaços molhados na parede, pinturas novas no chão.  Os gritos de misericórdia penduravam-se em meus ouvidos. Cada um, jurando inocência.

Silêncio.

Estava na hora. Eu sempre sabia, sempre.

Quando peguei as almas elas estavam moles, pálidas e em choque. Não me perguntaram nada. Não falei nada. Troca justa. Catei cada uma. Como lesmas em meus braços.

Nunca sei para onde vão. Nunca fui com nenhum deles. Não me é permitido. Nem nas férias.

Os vingadores colocavam as ferramentas em sangue no carro. Deram-se de presente olhares satisfeitos. Também compartilhei o meu. Será que viram? Não, não viram. Não era a hora deles, não ainda.

Sai andando devagar pela rua velha. A noite estava quieta e satisfeita. O céu tinha a cor de cadáver. Talvez chovesse. Eu queria que chovesse. Eu já disse a vocês que detesto esse trabalho? Pois é. Preciso de férias!

 

F. P. Andrade

29/02/2012

Comentários   

#2 F. P. Andrade » 29-06-2012 23:39

E poe pesado nisso! Valeu por comentar.
+1 +−

F. P. Andrade

#1 Elsen Filho » 28-06-2012 17:46

Eita trabalhinho pesado ;-)

Boa estória e bom narrador.
+1 +−

Elsen Filho

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