Impulso Lunar

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Impulso Lunar

Conto de Débora Brauner

 


Os olhos que fitam a lua cheia.

São os mesmos que me despem nas noites sem luar.

Os lábios que uivam na nevoa.

São os mesmos que me beijam durante o dia.

O nariz que sente o cheiro de sangue.

É o mesmo que outrora sentira o meu perfume.

O corpo que deseja minha carne.

Já desejou meu corpo.

 

***

 

 Meu namorado é um demônio da noite, uma besta soturna que mata e sente prazer com isso, entrando em êxtase com o despedaçar da carne sob suas patas e presas,  os gritos estridentes de dor que ressoam enquanto ele se banqueteia em sua luxuria o excitam deixando-o com desejo por mais carnificina.

 Ele um dia já tentou se controlar, domesticar a selvageria da fera que vive em seu interior - tão mais forte e poderosa que dos homens comuns - para não ser mais como é: um monstro da noite, sem coração ou alma. Mas ele não pôde, ele jamais poderia mudar quem, ou o que, é. Assim como eu também não pude.

 Pois a besta que corre dentro dele, gemendo por sangue, clamando por morte, é a mesma que nada pelo meu corpo, sua sede é tão forte que machuca, numa dor física que só é saciada pela caça.

 E a carne fresca entre os dentes acompanhada dos gritos, é o que me impulsiona, pois quando a lua brilha no céu, cheia e poderosa, o prazer é tudo, a vontade é o que manda, o instinto é o que importa. A tradição deve sempre prevalecer.

 E o sexo após a transmutação para a forma humana, ainda banhados com o sangue da vitima, é infernal, um sacrilégio delicioso em que meu corpo queima de desejo e vontade de mais, enquanto ele me penetra coberto de sangue e morte, derramando vida dentro de mim numa dança macabra e saborosa, em que o sangue escorre por toda nossa pele e seu gosto se propaga por nós através de nossos lábios.

 Neste momento somos dois animais em pele humana comemorando a vitória do mais forte – que somos nós – a matança que é doce e para nós é vista como uma arte que devemos aperfeiçoar a cada lua cheia e transbordante de energia, correndo juntos pela noite em nossas peles negras e soturnas, sobrenaturalmente mortais.

 Meu namorado é uma besta que reside na noite e geme pela lua cheia enquanto o satisfaço, porque de fato, sou uma criatura da noite tanto quanto ele, e adoraria arrancar a sua pele e comer seu coração lentamente, degustando pedaço por pedaço, enquanto você grita de horror, numa histeria lúgubre que me leva ao orgasmo.

Comentários   

#3 David Machado Santos » 28-05-2017 00:28

A sempre difícil tarefa de separar o animal do racional!

O prazer de sentir o sangue do ser diferente de sua espécie, lutando para viver, sua carne entre seus dentes, do outro ser complementar ao seu, diferente mas ao mesmo tempo semelhante, por se tratar de uma variante de sua própria espécie! Contra este o abate nunca poderia ser fatal! Nem faria sentido para a natureza! A seleção natural não propagaria tal mutação, pois contrariaria o princípio básico da propagação da espécie!

Que tormento deve ser viver uma vida transitando entre duas espécies distintas, não é mesmo? Uma hora tentando devorar aquele outro ser, sentir suas mandíbulas mastigando suas entranhas, e, logo que cessa o efeito da metamorfose, precisando proteger aquele mesmo ser, que carrega 50% de seus genes, que propagará sua herança genética...

Mas é a vida como ela é! Nada mais a se fazer... Apenas ter a esperança de que seus rebentos não vão compartilhar da mesma maldição que vocês! Bem, sabem que a chance é pequena, né? O rebento de 2 pais licantropos tem 75% de chance de também desenvolver a licantropia. A genética nunca falha!!

Vocês se agarram à chance de 25% de que seu filho ou filha seja humano, não é mesmo? Mas será que isto seria uma boa ideia? Vejam vem, vocês não desenvolveriam um apetite incontrolável pelo pequeno e vulnerável pedacinho de carne humana quando estivessem metamorfoseados ? Acham mesmo que seriam capazes de resistir ao instinto de devorar aquele apetitoso pedaçinho de carne de novilho, quando estivesses na forma de lobos?

Pensem bem sobre isto, antes de se decidirem por fazer uma enorme besteira da qual se arrependeriam para sempre... Ou melhor, da qual se arrependeriam sempre que stivessem racionais, em suas formas humanas.
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David Machado Santos

#2 Lucas Maziero » 20-05-2012 14:53

A bestialidade de feras uivantes unida à carnal lascívia num impulso de prazer, medo e morte. Ual :lol:
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Lucas Maziero

#1 Tânia Souza » 19-05-2012 20:55

Pecaminoso, sedutor, envolvente. Adorei a narrativa.
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Tânia Souza

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