Venere Tvrbvl

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Venere TVRBVL

http://thrilling-tales.webomator.com/derange-o-lab/pulp-o-mizer/pulp-o-mizer.html

(fonte)

 

 

Venere Tvrbvl

 

 

Autor: Leon Nunes

2009/2012

 

 

            Não obstante o conto que se segue seja inspirado em “A Vênus de Ille”, história (ou estória) escrita por um dos grandes da Literatura Mundial, Prosper Mérimée, ele surgiu como tantos outros, talvez uma obra de barro provinda de oníricas bolas de fogo, como dizia Arthur Machen; provindos, como diria Dostoiévski, de outra força, ou ainda ordem cuja influência foge aos sentidos básicos que nos são pertinentes.

            Há de haver um sentido para ele.

L.N.

 

PARTE 01

 

 


          Discute-se há muito sobre um problema generalizado de saúde: a hipertensão. Mas, afinal, o que é e como surge? Aliás, do pouco que sabemos, o que é o Corpo Humano? Mente e Corpo?! Coração? Seríamos realmente capazes de atravessar certas barreiras carregando conosco o tabernáculo em que vivemos? Eu creio que sim. É factível. O fato de vivermos “numa plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade[1]” nos cega os verdadeiros sentidos, e nos presenteia com os mais básicos de nossa sobrevivência. Mas, embora disso pouco de nós saibamos, para que isso aconteça, e este “isso” é fatalmente acompanhado de sofrimento, é necessário que tenhamos alguns problemas de saúde. A hipertensão um exemplo.

 

           Nosso coração funciona como uma bomba eficiente que bate sessenta a oitenta vezes por minuto ao longo de toda nossa vida e que impulsiona de cinco a seis litros de sangue por minuto para o corpo. Todo esse movimento caracteriza a hipertensão arterial. Por sua vez, a pressão arterial é a força com a qual o coração bombeia o sangue através dos vasos; é determinada pela resistência encontrada ao circular pelo corpo. Pode ser modificada pela variação do volume de sangue ou viscosidade, da frequência cardíaca e da elasticidade dos vasos. Os estímulos hormonais e nervosos que regulam a resistência do sangue acabam por sofrer influência pessoal e ambiental. A hipertensão é a pressão arterial acima de quatorze por nove milímetros de mercúrio em adultos com mais de dezoito anos. Mede-se a pressão geralmente quando se está em repouso por quinze minutos, do contrário sairá ela alterada; altera-se também quando medida após exercícios físicos, nervosismo, preocupações, alimentos, fumo, café, drogas...

            Tanto os profissionais da área de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos) quanto o indivíduo que se auto verifica (uma prática não recomendada, por sinal) devem observar mais alguns fatores para que não se obtenha valores alterados: verificar se o manguito está firme e bem ajustado ao braço, largura da circunferência de quarenta por cento e sempre na altura do coração, além de não falar durante o procedimento. É considerada normal a pressão quando a sistólica não ultrapassa cento e trinta, a diastólica inferior a oitenta e cinco. Hipertensão grave alcança cento e setenta e nove por cento e nove, ou mais. Para qualquer resultado entre estes valores dá-se o nome de moderada, leve, limítrofe e normal. A hipertensão pode ser sistólica ou diastólica ou somente sistólica. No Brasil, pesquisas afirmam, de dez a quinze por cento da população é hipertensa. Noventa e cinco por cento deste universo populacional tem a chamada essencial ou primária, cuja causa não se define; cinco por cento restante está dentro da categoria de causa bem definida.

            A hipertensão sistêmica é uma doença crônica, não obstante silenciosa e lenta, que quando não tratada pode atingir outros órgãos e sistemas. No sistema nervoso central poderá ocorrer infarto, hemorragia e encefalopatia hipertensiva. No coração, cardiopatia isquêmica, insuficiência cardíaca, aumento do órgão e, em alguns casos, morte súbita. No sistema vascular, entupimento e obstrução das artérias carótidas, aneurisma da aorta e doença vascular periférica dos membros inferiores. Naqueles com insuficiência renal crônica, nefroesclerose. No sistema visual, retinopatia. Não sei exatamente o que me ocorreu.

            Uma pessoa portadora da hipertensão, a doença do século, tem por obrigação saber de todos os detalhes acerca desta silenciosa praga, e até mais. O epítome acima é pouco para alguém que, como eu, está dentro das estatísticas relatadas. E, não para curar, mas somente tratar, o indivíduo que não se adequar à medicação está fadado a sérios problemas de saúde (e, pelo visto, adequado a ela também). Eu tomo remédios há dez anos. Desde os vinte, regularmente; a partir dos dezoito, se levar em conta os mais fracos e experimentais. Contabilizo doze anos condenado a não viver sem a interferência destas drogas que prolongam minha vida e sofrimento. Doze. Aprisionado em um mundo preto-e-branco.

            Sobrevivência. É isso que eu faço. Sobrevivo todo o dia. Tomo, no total, cento e setenta a cento e oitenta miligramas diários, medicação equivalente a cinco mil e cem miligramas por mês, aproximadamente. De tudo que tomei ao longo deste período deixo a cargo da imaginação.

            Tomei muitos remédios – alguns de melhor efeito do que outros; e também algumas combinações. A verdade é que jamais deixarei de toma-los. Recordo quando fui à estratosfera, com pressão superior a duzentos e dez por dezoito – não duvido que eu já tenha estado lá antes. O resultado daquela primeira experiência foi o desmaio, seguido da perda dos sentidos e a visão branca. Para voltas à vida (como maldito Lázaro que sou), mais remédios, além de muito chá de folha de chuchu e erva cidreira. O corpo se torna um peso morto, e um peso morto é difícil carregar. Fui ao hospital medicar-me como soro e voltei para casa, por uns dois dias sentindo-me aniquilado.

            Penso que precisava de um baque maior para que me deixasse com uma severa sequela, não simples desmaios como vinham ocorrendo até então. Nada daquilo me abalava. Se bem que, secretamente, é forçoso admitir, a necessidade de remédios já causava em mim uma certa dose de tristeza. Meu coração, empedernido, há muito se havia esvaziado da (pouca) alegria de viver. Então, não seria justo dizer que o maior abalo é a ausência da alegria de viver? Talvez eu me contradiga, mas quando se constrói uma represa maior que o nível da água nada é capaz de destruí-la, salvo uma onda maior, o que é impossível no deserto acontecer. Era isso que me coração carregava. Vazio. Inclemente, não mais encontrava graça na vida. E, terrível falar, depois da sequela de meu retorno, a vida tomou outro significado, este mais pedante e horrível: a vida é barata e insegura, já dizia o velho Vlad.

            (Ainda mais pelo que vi!)

            Se foi um sonho ou se foi a febre, se foi o desmaio e dele a batida na cabeça ou o delírio que tive, nada é capaz de me fazer esquecer daquele lugar e jamais deixarei de acreditar em sua existência. Se antes era folclore, ou imaginação exacerbada de alguns ficcionistas, agora é verdade. É real. O contato com aquela esfera, aquele universo, aquele lugar feito de pedra só me foi possível devido minha frágil saúde, por eu ser hipertenso, e também por ter a mente aberta. Poucos foram os que atravessaram aquela instransponível barreira; menos ainda aqueles que reparam naquela além da barreira do sono[2] a vida mais verdadeira, por ela ser, digamos, imaterial. Eu fui mais adiante.

            Não foi simples acaso. Não foi inesperado, nada ocorre de repente. Eu já vinha me sentindo mal. Achava que minha lentidão, na falta de um nome melhor, era apenas mais uma simples tontura, então nem reparei que se tratava duma piora em minha saúde. Mas o fato é que qualquer caminhada me extenuava sobremaneira. Difícil suportar o próprio peso de meu corpo. Tontura. E enquanto eu pensava ser uma simples tontura, era só fechar meus olhos que tudo rodava, zunidos e sussurros de seres malditos em meus ouvidos escutava. Faço hoje uma leve conjectura acerca do que falavam, à época não passavam de sons insuportáveis produzidos pela minha cabeça quando, dorida, deitava-a no travesseiro. E, a despeito de minha ingenuidade, bastava cobrir-me da escuridão de meu quarto para escutá-los; sono era artigo raro: deveras perturbado. Perdi muitas madrugadas, insones, em minha faina noturna contra aquela loucura provocada pela precária saúde – algumas delas banhado em suor. Perdi muitos empregos também – quem haveria de empregar um doente?

            Não posso reconhecer com exatidão onde termina essa “sensação” e onde começa todo um conjunto de consequências de uma hipertensão maltratada; sei, no entanto, haver um limite, uma fronteira entre os dois. Mesmo que esta fronteira seja invisível, e ela é, creio haver um porquê para mo escolher; pois do contrário, muito antes de acontecer, poderia eu muito bem ter nascido normal, ter vivido normal. Soma-se a isto quem sou e como sou – a destra, o sinal, a prova – para obter-se um resultado inevitável: o horror do fracasso. Pelo menos, duvido que seja um consolo, sinto-me hoje melhor: próximo da morte estou. Aconselho calma aos esfomeados vermes de meu corpo; padecerão do mesmo mal que padeço, afinal. Peço paciência aos impacientes; não esperam o inesperado. Resta-me o conforto de já ter conhecido o lugar para o qual, destinado, eu vou.

 

 

PARTE 02

 

 

 

           Rico era o que eu gostaria de ser. Gozar de uma vida decente e saúde perfeita. Ser tudo o que eu quis. Ter tido uma meninice, talvez o pior período de minha vida, dourada, agraciada. A vida é ácida: abri os olhos e me vi um adulto, repleto de inexperiência e afogado em problemas. Pouco. E amargo.  O sentido que ela tinha me foi usurpado. Não chamo de sorte ter de esperar a vontade do governo para ter os remédios; chamo de dependência. O pouco de dignidade se esvai por entre os dedos. Incapaz, desisti de lutar.

            Precisava eu de mais motivos para entrar em pânico? Atarantado, fiz o que fiz, tomei a decisão sem pensar. E talvez influenciado pelo maior demônio – meu inconsciente – bebi, um por um, de todos meus remédios. Não deixei uma cartela intacta (salvo a última, quase no fim quando apaguei). A única justificativa de eu ter tomado tantos remédios em sequência, acho, pode vir a ser a intenção de curar-me da maldição (há quem diga hereditária) que me assola, mas a consequência prova o quão precipitado fui. Do pouco que me lembro, recordo de ter caído, vendo os móveis rodopiar à minha volta. Desapareciam à minha roda em um turbilhão que terminava num vórtice, lançando clarões brancos aos meus olhos. Daí para diante, escuridão. Nela imerso perdi a noção de tempo, de espaço. E embora eu tivesse sentido doer o peito, respiração desacelerada, a dor cessou e o coração, acelerado, parou.

            Tenho dúvidas de como Ana, minha vizinha de apartamento, me encontrou e me salvou. Acudiu-me prontamente a coitada senhora de setenta anos. Revelou-me ter tido um pressentimento, em suas palavras uma ligação psíquica que a fez vir a meu socorro. Encontrou-me caído ao chão, boca espumando, um braço debaixo do corpo, pernas dobradas e cabeça arqueada. Só fui acordar no hospital bastante tempo depois, lentamente descobrindo que estava ligado a aparelhos que ainda me mantinham vivo.

 

 

 

A ligação entre o mundo real e o mundo onírico

 

 

            A ligação entre o mundo real e o mundo onírico deu-se através de uma passagem estreita, iluminada por uma irritante cor branca, além de pequenas tochas amareladas acima de minha cabeça, que causou em meus olhos o ato involuntário de estreitar-se para continuar a enxergar, e de meu braço direito o movimento maquinal e instintivo em direção aos olhos. De alguma maneira vi, noutros de meus desmaios, aquela mesma luz – teria eu treinado para atravessar a barreira? – de modo que nada daquilo me parecia estranho. Mesmo acreditando já ter visto em outros momentos aquela luz embranquecida, meus sentidos novamente me traíam, pois, de acordo com meu avançar, gradual e paulatinamente, uma tonalidade avermelhada, feito a do sangue ou a do rubi, tomava seu lugar. Falo assim por não ter identificado direito o que era – se sangue ou rubi – e o porquê daquela visada. De toda forma, acreditando tratar-se de outra existência minha, quiçá a verdadeira, aguentei no osso do peito o ininterrupto luzeiro.

            Digo que andei à sua direção. Mas naquele lugar, creio, o efeito de meu movimento em nada se assemelhava ao passo convencional de nossas andanças nesta dimensão. Flutuei. Eis o termo correto. Flutuei até sua origem, e aonde cheguei não gostei do que vi. Minha visada causou-me repulsas: o odor, generalizado, exalava positivamente do maior ao menor dos poros que formava paredes, teto e chão daquela que identifiquei como uma grande sala. Segurei o vômito a todo custo. Facilmente escutei o pulsar do que julguei ser um coração que não era o meu, e às vezes o som dum longo e fundo respirar chegava aos meus ouvidos. De alguma forma naquele lugar havia vida.

            Questiono-me se em sonhos, aqueles meus, agitados, encontrei tanto material quanto vi naquela grande sala (digo sala, mas sou incapaz de dar um termo melhor para aquela estranha galeria, ou biblioteca). E mesmo nada versado em conhecimentos profundos e proibidos, não obstante o deslumbre, atinei e reconheci, porque não sei, compêndios, grimórios, tomos dos mais raros e desconhecidos, cuja natureza tinha em sua essência ciências próprias dos mares tenebrosos da infinidade. As estantes (na falta de uma palavra melhor) eram exatamente iguais a todo sistema revestido do poro que formava absolutamente a totalidade daquele lugar – ah, se de tudo eu soubesse! Escolhi ao acaso um livro e o abri. Havia poeira em sua capa (capa?) e no mais leve encostar toda ela desprendeu-se e voou e se espalhou. Na página recém-aberta, uma garatuja. No rodapé da imagem uma espécie de mantra estava escrito em letras meio tremidas, o qual, sem sucesso, tentei recitar. Trazia com abundância caracteres desconhecidos da língua humana, e repetia exaustivamente duas letras de nosso alfabeto: “n” e “a”. A figura, uma blasfêmia a parte – Füssli e Doré me perdoem. Todo o conjunto (livros, caracteres, desenhos, até o próprio lugar) me fazia duvidar do que até então eu considerava grotesco.

            Em nenhum daqueles livros, tenho certeza, mão humana encostou – não: retiro o que disse. Sei de quem teve a onerosa oportunidade de manusear alguns deles. Quero dizer que eu fui um dos poucos a ter acesso àquele sítio do saber oculto. Agora condigo mais co’a verdade. Quando digo que nenhuma mão humana os tocou, falo tão-somente que nenhuma mão humana os desenhou: impossível o homem garatujar aquelas figuras. Aquilo foi feito por um poder, uma força muito maior do que sequer imaginamos. A tal figura da página aleatória, por exemplo, era composta por medonha face, olhos inchados e rubro-negros, focinho canino, ombros pontudos (pontas que lembravam lanças, dentes ou colmilhos de serpentes recheados, provavelmente, do mais letal dos venenos); não suscitava qualquer semelhança com o mundo dos homens.

            Motivado pela curiosidade (talvez o segundo demônio mais poderoso), tentei identificar um nome para aquela representação pictórica. E mesmo que eu me esforce, nenhum nome, sendo ele praticamente impronunciável, nem mesmo um adjetivo deste mundo é capaz de determina-lo. De título me foi possível ler a expressão “VEL”, cujo significado nunca soube. Folheei as páginas seguintes e também as anteriores em busca de alguma explicação – e quem disse que lá eu iria encontrar? Não se explica, sente-se. Naquelas páginas vi outros desenhos feitos por mãos calejadas que não eram mãos, por mentes obcecadas que só eram mente e mais nada. E feito a primeira, figuras de criaturas ou lugares não menos assustadores. Seres (incompreensíveis para a cabeça frágil do homem) cujas “malditas faces que olhavam de esguelha e babavam para fora[3]” da página, a despeito de sua hediondez, atraíam olhares de repulsa, admiração e medo de incautos visitantes; formas chamativas, talvez pedantes, não sei; horríveis. Para cada uma delas vinha no rodapé nomes. Cada qual mais estranho que o outro. Nominatas ádvenas, embora manifestas, identificadas por uma união de letras e caracteres que ainda me são ignotas: “TIHL” dizia uma, “MA ALH” era o título da outra. Nenhuma explicação categórica havia naquelas páginas como eu tencionava encontrar. Mas sou capaz de jurar ter entendido o significado de algumas – poucas – delas, cujos nomes, no rodapé, pude encontrar. Nogad e Katu foram os que mais reconheci. Havia significado patente neles.

            Absurdo. O que mais se pode dizer daquilo? Absurdo e curioso. Tomado por um impulso desconhecido, logo me vi abrindo outro livro. Como eu posso tornar crível cada detalhe daquele recanto? “NAH-alguma-coisa” era seu impronunciável nome. Havia nele, para meu espanto e agrado, embora eu nunca tenha disso fiel à matemática, fórmulas algébricas, não-euclidianas, anticonvencionais, expostas de tal maneira belas e incompreensíveis – mesmo o mais experiente em cálculos matemáticos teria um mar de dificuldades para entende-las e elucida-las – naquelas páginas do tomo em minhas mãos. Triviais cálculos somatórios, divisíveis pelos decimais menores que zero e maiores que o primeiro número negativo da sequência, fórmulas que meu incapacitado cérebro se recusou decorar. Do porquê de serem praticados, resolvidos, o pouco que pude entender daqueles nefastos cômputos referia-se a contemplação de viagens espaço-temporais, além, é claro, de passagens interdimensionais. Mas, afinal, o que era tudo aquilo? E por que eu?

            Não sei. Talvez o resultado não seja referente ao homem. Mas a criaturas que saibam transitar sem alterar o equilíbrio, se é que haja um. Por isso os Whateley, os Le Sorcier, Pickman – ai, como sei destes nomes? – e tantos (embora poucos) outros que descobriram, em uma ou outra, fórmulas que deveriam permanecer secretas à humanidade. Por algum motivo, o qual ignoro, resquícios, fragmentos tão-somente, pois sei que fiz mais, permaneceram em meu consciente e em minhas lembranças quando despertei no hospital. E, daquele tomo em específico, de tantos nomes nele impresso, um pude mais facilmente lembrar: MOLINA ASKABAULD, o criador-compositor de tal blasfêmia – e em suas próprias palavras a final observação, em cima e embaixo, todos devem ser feitos... em ângulos maiores de quinze e menores de quarenta e dois graus.

            Não entendo. Por que tudo aquilo me foi mostrado? Desconfio, por eu ser um humano, por isso um intruso, que eu tenha descoberto uma interferência qualquer e, sem estourar, pela bolha ter atravessado. Mas ainda assim esbarro em outras questões que, da mesma forma, me são estranhas, extravagantes. Seria por conta de minhas pequenas investidas no preternatural? Não acho; meu parco conhecimento de até então não abriria sequer as portas do invisível. Bem, ocorreu por eu ter a mente aberta, mas só isso não bastaria para conhecer o que eu conheci. Mas eu estava lá, algures, vendo e tocando em livros não-existentes, conteúdos humanamente impossíveis de serem assimilados, cálculos desvairados, conhecendo demônios desconhecidos, lugares e matérias e composições que comprovam a materialidade do imaterial e o insensível e precário estado dos sentidos básicos que nos são concernentes. Sinto vergonha disto, mas talvez seja melhor assim: ninguém, julgando-se são, está preparado. (Será que eu estive?)

            Mais adiante, em outro livro, este com capa de couro, li até fartar-me nomes gregos. Donos de conhecimentos obscuros (quais?), idênticos àqueles que, em sonhos, são ciciados para os mais sensíveis, iguais a mim (não posso falar), reunidos num só compêndio por motivos exclusos, dentre os quais três deles destacavam-se por suas contribuições e descobertas, repetidos com frequência quase idolatrada ao longo dos capítulos: “SAVAS CONSTANTOPULOS”, um dos mais poderosos de todo este execrável grupo de pensadores ocultistas; “DIAMANTIS MILAIKONOMOS” e “HELENO TRIANTAKUROS”, o especial, cujo nome carrega o grandioso significado “dom da profecia”. Por que deveria eu saber disso? Qual foi o motivo desta minha viagem?

            Medo. De alguma maneira eu estive em outro mundo. Pisei em solo onde ninguém deveria pisar e que o destino (mais uma vez a falta de um termo apropriado me trai) se encarregou de me levar, fazendo ainda graça de minha ignorância. Se eu, cujos pés tocaram aquele sítio para além das constelações (e ao mesmo tempo tão próximo que quase consigo senti-lo), não consigo entender sua existência, imagino o resto dos que se consideram humanos e sozinhos no universo – quão decepcionante seria se descobrir enganado. Todavia, ainda que me parecesse loucura, não me foi difícil aceitar. Aceitar a tangibilidade de toda sua existência. Talvez de fictício apenas minha presença (ficção, ficção, seria o homem tão-somente ficção?) – afinal “não estávamos destinados a chegar longe[4]”. Medo do que viria descobrir? A curiosidade continuou gritando mais alto.

 

 

PARTE 03

 

 

 

           Dividido por muitas sendas, composto por coberturas de todo tamanho e espessura, eu me encontrava em um lugar singular e ádvena aos conceitos mesquinhos e à pequenez humana. Sem noção de quão grande era aquele espaço, deslumbrei-me mais com o que via. Eram livros, sim, mas aquele lugar pensava por si próprio. Vivo. Pulsante. Asqueroso. Radiante.

            Tinha vida própria e isso me foi possível perceber com uma olhadela um pouco mais atenta ao que eu ingenuamente considerava uma simples parede: com extremo vagar ela se comprimia e se expandia num movimento contínuo! Elas eram formadas por escamas de diferentes espessuras, assim como o chão em que eu pisava (deste, mais grossas), e a sensação de que ondas eletromagnéticas (outra vez me falta termo melhor) cruzavam meu corpo era cada vez mais nítida. Sua cor era muito parecia co’a do verde-musgo, em alguns pontos tonalidades verde-escuras, quase marrons, sempre de acordo com o meu flutuar e também com o movimento paulatino daquele terreno. Quando, enfim, atinei com a ideia de tocar naquela estrutura, depois de ter lido algumas páginas e de ter pego alguns livros, constatei que não estava dentro de uma caverna ou reentrância terrena, e sim dentro, literalmente dentro, no interior de uma outra vida, de outra existência. Tanto na parede quanto no chão em que eu pisava, reparei quando agachei, senti ao toque uma terrível umidade qual só me passou agonia. O horror que se escondia por detrás daquelas estruturas vivazes, senti perfeitamente, ainda mantinha força igual ao período em que vivia em todas as dimensões, agora num tempo de pseudo-morte, à espera e sonhando, um ativo esconso contínuo, um “sem-parar” eterno de células alienígenas estrangeiras ao nosso mundo.

            Não mentirei que tremi diante de uma possibilidade funesta. Possibilidade esta a de haver algo ou alguma coisa simplesmente à espera do despertar e por consequência, através do posicionamento correto das estrelas, do reinar absoluto (como em eons esquecidos). Mas é mister dizer que o medo agudo e paralisante eu não senti. Diferente de quem quer que seja, não sei explicar, no íntimo, eu esperava. Eu ansiava. Ainda tremendo, claro. Sem medo de qualquer espécie ansiava por este encontro. Ou seria reencontro? Volto a dizer: eu não sei.

            Me aproximei de uma espécie de altar – em verdade havia apenas três pedestais dourados e reluzentes – bastante simples. Cada um daqueles pedestais dourados ostentava em seu bojo de rubis vermelhos um tomo de saberes sombrios e inauditos. Confio plenamente em minhas lembranças, e elas me exortam a olhar para cada um daqueles livros mesmo de olhos abertos. No pedestal central o tenebroso Al Azif do louco árabe. À direita dele, portanto à minha esquerda, U. Kulten de von Juntz. À esquerda, visto sob minha perspectiva à direita, Barlium Nokovissis. Como eu sei disto?  Ai, como eu sei? Trouxe em minhas lembranças bagagens das mais perigosas. Eu sei. É esta a posição em que ainda estão.

            Atarantado pelos recém-descobertos tomos (como se os outros fossem algo trivial e descartável), mas nem por isso insano, distanciei-me de modo a contemplá-los melhor. Reparei neles o desábito do manuseio, pois até vermes os carcomiam! Então me reaproximei deles e abri, afastando alguns vermes, o livro do pedestal do meio. AZATHOTH pude ler. Na página seguinte, SUBB-NIG’R’ATH. No fundo eu sabia que nada daquilo mo beneficiaria, então voltei a me distanciar (como se nada tivesse acontecido, propriedade concernente aos sonhos), virando às costas e os deixando intocáveis novamente – sem me importar de ter deixado A.A. aberto. Também não sei como decorei tantos nomes misteriosos e censuráveis. Recito-os facilmente, é bem verdade, mas creio que isso se deva às circunstâncias que me submeti no reio do preternatural, somadas às visadas, não obstante reprocháveis, exóticas. Isso, por certo, contribuiu e muito para que fragmentos do todo em minhas lembranças se mantivessem frescos.

            Nem bem me posicionei a meio caminho da parede viva, deparei-me com uma grande janela. Dela me aproximei com cautela: não queria cair. Olhei através dela e tive a sensação de estar no fundo do mar. Pus a destra naquela bolha e, sentindo uma textura lisa e aquosa nas pontas dos dedos, percebi que qualquer objeto a atravessaria sem estourar. Ao longe vislumbrei o que me parecia uma grande cidade feita de pedra e reparei que eu me encontrava no topo de alguma torre ou, do pouco que consegui identificar, uma espécie de trono também de granito ou mármore.

            Questionei severamente se, com aquelas visadas, eu ainda era um humano. Nada em mim parecia ter mudado, e alguma coisa me dizia que era hora de ir embora. Precisava retornar ao meu mundo e viver dono de informações e recordações condenáveis. Permiti que uma força alheia a minha tomasse as mãos, e também a voz, embora eu não tenha escutado coisa alguma de minha garganta, para reger e recitar certos encantamentos que se apagaram instantaneamente dos registros de minha memória. Tudo que lembro daquele instante de partida foi de ter lido uma frase cujo significado agora me soa como sendo turbulência contigo, em latim TVRBVLNERAE SEMP’ AB TI. O vulcão de Hades. A deusa do secreto e do oculto. O dia de Vênus, talvez. Em tudo há uma ligação. Precisava eu venerar. TVRBVUL! Exaltar a turbulência por não haver paz na passagem. Esquecido; e acabado. Tudo dividido em si mesmo.

            Luzes me engoliram. Uma profusão delas, amarelas e brancas, azuis-celestes e verdes-mares, carmesins. Enquanto eu era carregado de lá por mãos invisíveis, escutava sons e vozes. Até despertar e reparar que estava no hospital, sozinho e ligado a aparelhos. Com muito esforço espichei o braço esquerdo e apertei a campainha à espera do técnico ou enfermeiro, qualquer um que viesse primeiro a meu auxílio.

            Eu vivi duas vidas. Uma delas vegetal, a outra vagando por aí, em mundos paralelos e distantes e próximos em busca do conhecimento. A vida vegetal, por seu turno, no coma induzido hospitalizado, fez de meu corpo cobaia de experimentos médicos invasivos e agressivos. Não sei se as consequências de meus novos problemas são decorrentes do exagero de remédios ou do coma prolongado, mas nada nem ninguém me convence do contrário: o símbolo que carrego nas costas, e que me induz a venerar a turbulência, surgiu com meu retorno à vida como um memento dado por forças vis e mãos – invisíveis – inumanas.

            “A repugnância espera e sonha nas profundezas[5]” enquanto zomba de minha insipiência e daquele meu período letárgico nas profundas interestelares. Quais seriam as chances de alguém como eu pisar naqueles pagos? Nulas sob o ponto de vista de não existirem na ótica do comum, do cotidiano. E, contrariando todas as convenções, trago as esquisitices daquela região de sonhos sendo eu a prova cabal de nosso próprio sono coletivo. E antes que meu corpo etéreo volvesse para junto da carne, no entretempo das cores e sons, fui exortado a repetir, parafraseando as vozes à minha roda, um pequeno fragmento invocatório. Torço, tenho fé, do fundo de meu coração, que nada daquilo venha a despertar tão cedo. Mas sei que aquela criatura despreza tempo e espaço, por isso rezo que eu esteja morto quando isso acontecer. Minha experiência comprova que viver neste universo e nesta dimensão não é seguro, e ainda é tempo de alertar que nem nunca foi, nem nunca será.

 

IÄ! IÄ! CTHULHU FHTAGN!

 

Fim

 


[1] “O Chamado de Cthulhu” (1926) – H.P. Lovecraft.

[2] Obra de H.P. Lovecraft. “Beyond the wall of sleep” (1919).

[3]O Modelo de Pickman” (1926) – H.P. Lovecraft.

[4]O Chamado de Cthulhu” (1926) – H.P. Lovecraft.

[5] “O Chamado de Cthulhu” (1926) – H. P. Lovecraft.

Comentários   

#2 Leon Nunes - Leonardo Nunes Nunes » 11-02-2013 16:12

Obrigado!
;)
0 +−

Leon Nunes - Leonardo Nunes Nunes

#1 Fabiola Alves » 03-01-2013 17:30

Não sei como descrever como me sinto após ler este conto, mas posso dizer que é um escrita muito real, pricipalmente o final. Ficou uma sensação que que breve acontecerá! Tomara que, quando Cthulhu despertar eu tb já tenha ido. Muito bem ambientado com Lovecraft. Adorei o conto! Parabéns! :-)
+2 +−

Fabiola Alves

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