Os segredos do Jarau

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Os Segredos do Jarau

Conto de Gabriela Marra


 

 Que segredos guarda a divina quietude da natureza...lendas, folclore, literatura épica?

 Nas elevações do Pampa Gaúcho, atravessado por águas coloridas, as rochas guardam mistérios, assombrações e lendas. Guardam também belezas do mais remoto rincão campeiro.

 As coxilhas agora cobertas de gado, noutros tempos, foram cenários de lutas por demarcações territoriais. É aqui na campanha gaúcha, que encontramos Santiago, gaudério de honra e coragem, bigodes fortes, amante das tradições. À sombra do umbú, no seu banco preferido, moldado de um cepo bruto, numa manhã quieta, Santiago contempla o horizonte nostálgico segurando a cuia do mate.

 Solito, se lembra de uma estória, que seu bisavô lhe contava, de uma linda Princesa, a Princesa que sabe dos segredos. Diz a lenda que ela foi trazida pelos Mouros, e se transforma em salamandra. Mas a Princesa se apaixona por um padre jesuíta. Impedidos de viverem seu amor foram amaldiçoados e vivem em uma gruta mágica entre as formações rochosas, num lugarzinho do Rio Grande do Sul, o Cerro do Jarau. Com esta pequena lembrança, Santiago vê as imagens exatas dos seus dias de juventude feliz, que são borradas por rabiscos assombrosos, histórias que seu bisavô lhe contava, da brutalidade testemunhada por Cruz, o tio avô de seu bisavô, em combate junto aos seus soldados. Ali ele fica, como se conversasse com seu velho...se lembrando de uma das estórias...aquela que começa assim...

 O campo de batalha marcara as mentes de muitos homens pelo resto de suas vidas, assim como a de Cruz. Lá ele morreu duas vezes e viveu de novo. Dizem que ele vaga durante a noite procurando pela besta.

 Lá pelos mil oitocentos e sessenta e poucos os soldados bravos e corajosos lutavam e matavam-se uns aos outros pela fronteira. Ao cair da noite restavam poucos homens ainda com forças para ficar de pé, muitos corpos amontoados, alguns suspirando o que ainda restava de vida, outros já apodrecendo, no meio da escuridão o capitão Cruz se arrastava. Sentia o cheiro da morte, lamentando a perda de seus homens e amaldiçoando os que ele chamava de inimigos.

 Ao longe ele via uma sombra. Fazia ruídos incompreensíveis. Uma grande criatura com garras enormes e cheia de dentes, salivava com fúria procurando carne fresca no meio da podridão. O homem lobo gigante se aproximava cada vez mais do capitão que se escondeu atrás de uma pilha de mortos. A besta furungava sangue, furungava algum cheiro de vida.

 Ao ver um soldado em movimentos fracos e inúteis, avançou rasgando com voracidade seu corpo quase desfalecido.

 O capitão olhava tudo com pavor e ofegante. Após o banquete a besta vê o brilho dos olhos do capitão. Presa fácil diante de tão ameaçadora fera. Chegando bem perto de sua vitima, os dois se vêem um nos olhos do outro. O bafo quente da besta deixa o capitão praticamente entregue à morte, inerte. A criatura se prepara para abocanhar o corpo fraco do homem, as garras já entrando em sua carne.

 A fera subitamente para, uma lagoa ali perto fervia e sufocava, labaredas vindo de uma pequenina salamandra afastaram a criatura. Com ódio nos olhos o grande lobo a percebe.  A lentos passos para trás, se afasta ofuscada pelo brilho do rubi da salamandra e some na escuridão. No capitão já não havia vida.

 A salamandra se aproxima do capitão e se transforma na Princesa Moura. A mais bela mulher intocada, estende sua delicada mão para ele, trazendo-o de volta, que com dificuldade se levanta, tenta tocar o rosto da princesa. Enquanto ele retoma sua vida, ela some como apareceu, nos vapores da lagoa. O capitão confuso e inconformado não entende o que acabara de ver, o que ele pensava ser uma lenda, não era...então a Princesa Moura que vive no Cerro do Jarau existe.

 O capitão Cruz, moribundo, se arrasta até um abrigo no meio de rochas. E lá fica até o amanhecer, dormindo. A chuva o acorda no dia seguinte. Ignorado pelo tempo e esquecido pela vida, vê diante de si a linda Princesa Moura se materializando novamente para um aviso, ela dizia que sua amada corria perigo e ele devia se apressar

 A pequena salamandra de cabeça de fogo novamente se vai.

 Cruz estava atordoado pelos perigos de sua cruzada, mas não perdeu a bravura. Que destino cruel o arrastara por terras tão amargas, por céus tão vermelhos.

 Depois de um dia de caminhada, sem comer e sem beber, ele avista sua casa. Árvores murchas, paisagem gasta pelo tempo, ele chegou tarde demais. Apenas uma cor se destaca do cinza cansado de sua casa, o vermelho. Sangue espalhado, pedaços de sua amada jogados pelos cantos, e um coração que ainda bate. Rendido e dilacerado, o capitão Cruz se ajoelha com as mãos para cima e clama pela morte que vem pela segunda vez, morre de tanta tristeza. Mas uma alma  azul de luz o levanta e se aconchega em seu ombro. O coração daquela luz azul ainda batia por ele. E sua liberdade só virá com a morte da besta que a despedaçou.

 Depois daquela desgraça, Cruz andou como um bicho sem rumo, sem guarida. São tantas as misérias que passou e que viveu, tanto padecer. Agora a muitos anos morto vivo, vaga pelo cerro procurando pela fera, montado em seu cavalo tordilho, aprisionado no Jarau. A antiga casa que foi dele e de sua amada ainda existe. Santiago diz que durante a noite é possível ouvir a casa chorar, chamando pelo capitão, tamanha foi a desgraça que aconteceu por lá. Ele diz também ver a alma azul de luz sentada na varanda a espera de seu amado...o fim disso tudo, ninguém jamais soube...mas Santiago tem guardado um pedaço de papel amarelado pelo tempo, e jura que foi o capitão que escreveu:

 Sou um morto que vaga pela noite inteira a procura de uma besta, um demônio que de mim tirou tudo. Minha carne apodrece e meu espírito se apaga. Mas daqui não sairei até que minha lança atravesse o coração da fera, até lá me perderei por estas terras a sua procura.  Assim vou chorando pelos vivos, pela tristeza de agora e pelas que virão. Prometo a você minha amada, cujo coração também chora, que enquanto tua lágrima correr a minha não secará, mesmo que o sol nos salve ao nascer forte, mesmo que a chuva nos conforte.

Comentários   

#5 Elsen Filho » 02-07-2012 18:04

Faço minhas as palavras de Madeimoselle Sofia: Encantador
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Elsen Filho

#4 Gabriela Marra » 20-06-2012 18:58

Obrigada :-)
Oi Emerson, João Simões Lopes Neto "documentou" a lenda em conto: A Salamanca do Jarau, no livro Lendas do Sul, o conto é bem bonito...
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Gabriela Marra

#3 Emerson Pimenta » 20-06-2012 02:38

Não conhecia :eek:
Muito maneiro Gabriela! #Like
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Emerson Pimenta

#2 Lucas Maziero » 15-06-2012 18:50

Adorei este recontar, esta nova aparência, esta nova releitura, claro, distinta, desse lenda gaúcha. Parabéns pelo conto Gabriela! :lol:
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Lucas Maziero

#1 Sofia Geboorte » 15-06-2012 05:28

Simplesmente encantador, Gabriela,
o enredo e o ritmo cálido, frio e perturbador...gostei demais!
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Sofia Geboorte

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