Sinais Premonitórios

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Quem vê cara, não vê coração. (adágio popular brasileiro)

 

     A visão da catástrofe que se avizinhava surgiu de súbito: a descomunal onda, provocada por um terremoto devido a fricção das placas tectônicas no fundo do oceano, iria varrer as milhares de cidades do litoral.

 Akira Kenshin parou a caminhada imediatamente. O coração dele recebeu o primeiro impacto, ocasionando uma dor opressiva em toda a caixa torácica. A garganta contraída pelo susto afunilou o ar dos pulmões. As pernas tremeram, fraquejaram, e quase mandaram-lhe ao chão pavimentado que cobria a estradinha da orla marítima, por onde gostava de caminhar. Atirou o olhar para o mar na esperança de que tudo não passasse apenas de um devaneio inconsequente, mas viu-se de frente com a contradição: o oceano impávido e calmo não deixou transparecer a armadilha que se articulava nas suas profundezas.

Desde criança os sinais premonitórios teimavam, de vez em quando, em elevar-se acima de suas sensações naturais. Emergiam de algum lugar secreto do qual ele não tinha o menor controle. O fenômeno insurgia-lhe num único estalo, sem avisos, envolvendo-o num turbilhão incontrolável de sentimentos desesperadores de gente que não conhecia. As premonições eram, na maioria das vezes, relacionadas às catástrofes naturais de grandes proporções, e se afiguravam quase sempre dentro de um caleidoscópio célere de emoções e imagens, do qual esforça-se em determinar os detalhes.

Os detalhes eram importantes, pois Akira podia interferir e salvar vidas.

Os sinais premonitórios nunca falhavam!

A última vez acontecera há menos de um ano, quando se permitiu observar ternamente uma criança brincando na rua, perto de sua casa. O menino deixou cair um aviãozinho de madeira no chão e este se partiu em dezenas de pedaços, enquanto ele ouvia gritos de horror que lhe soaram à mente por longos três minutos. No mesmo dia, seu pai ligou dizendo que ia ausentar-se em viagem de negócio. Tomaria um avião destinado à Itália. Akira gritou com ele por telefone, intimou-lhe veementemente a desistir do compromisso porque aquele avião, ele tinha certeza, iria cair. E assim aconteceu: em meio a uma violenta tempestade morreram 223 pessoas, mas seu pai, felizmente, havia desistido da viagem.

Os detalhes eram importantes. Akira sabia bem disso. Fechou os olhos e tentou lembrar-se de tudo! Reviu diversas cenas que se sobrepunham. A gigantesca onda apresentava-se como fundo onde desfilavam imagens que seguiam direções aleatórias: a esposa amada, o telefone público, o morro verdejante perto de sua casa e ele, Akira, correndo como um alucinado. Levou instintivamente a mão direita ao bolso da calça de moletom à procura do seu celular.

     Esqueceu o maldito em casa.

E foi naquele átimo de instante que, novamente, como nas ocasiões anteriores, percebeu o poder de vida e morte sobre as pessoas que lhe eram mais caras. Ele tinha de tomar uma decisão importante. Akira poderia facilmente subir o morro, que margeava a estradinha pavimentada, e salvar-se-ia nas suas alturas, mas não teria como avisar ninguém do perigo que se avolumava mortalmente a cada segundo; ou poderia descer até à praia deserta, significativamente distante de sua tábua de salvação, e usar o telefone público para dar uma mensagem de vida à esposa e ao pai. No entanto, ele estaria condenado a ser tragado pelas águas violentas que o afogariam.

O tempo! A vida e a morte dançavam em suas mãos.

Dizem que, quando se está para morrer, as pessoas costumam lembrar-se de cenas da infância. Akira não teve outro pensamento que não fosse o rosto brilhante, simpático e angelical de sua esposa. Sorriu para si mesmo quando lembrou de tê-la visto pela primeira vez tentando comer uma maçã do amor sem lambuzar os lábios. E mesmo naquele momento, tomado da urgência aflitiva por opções entre vida e morte, uma ternura imensa por aquela mulher invadiu-lhe os pensamentos.

Não! Ele não permitiria que o grande e único amor da sua vida morresse daquela forma estúpida.

Olhou novamente à praia deserta. A estradinha elevada de asfalto à beira do mar, por ser inverno, encontrava-se tão deserta quanto à praia. Ele viu o telefone público perto da estrutura quadrada de alvenaria que servia de monitoramento para os salva-vidas. Sabia instintivamente que o aparelho estava funcionando. Olhou, uma vez mais, para o mar vendo ao longe a lombada d’água que se avultava discretamente no horizonte. Respirou fundo e, antes que se arrependesse, ele correu.

Correu. Tropeçou, caiu e voltou a correr. Sakura Keiko não merecia morrer. No momento em que a onda submergisse a praia, ela teria cinco minutos, no máximo, para subir o morro que ficava atrás da casa deles. O tempo era suficiente para chegar em local seguro.

Chegou no aparelho abençoado. Não perdeu tempo, digitou os números do telefone residencial primeiro. Na quarta chamada ela atendeu.

— Alô? Quem fala?

—Sakura, meu amor!

— Akira?

— Escute bem o que vou te dizer, querida. Escute bem... eu te amo!

— Eu sei querido, mas não precisa me dizer isso por telefone. Por que essa urgência...

— Você deve sair de casa, agora! Ouviu? AGORA! Corra, corra o mais rápido que você puder. – Ele disse alterando o tom de voz, buscando emprestar firmeza nas palavras – Suba o morro! Uma onda gigantesca, um tsunami, engolirá a nossa cidade...

— Akira...

— As pessoas que não subirem os morros do vale irão morrer! Entendeu? Você precisa sair de casa agora.

— Akira... daqui da janela não dá para ver nada.

— Suba o morro pelo atalho atrás do nosso quintal. Já te falei das premonições que tive no passado. Elas nunca falharam...

— Premonições? Akira...eu...

— VAI...CORRE... CORRE... SOBE O MORRO! AGORA!

Ele desligou o telefone sem se despedir. Enquanto estivesse falando ela não tomaria a decisão de salvar-se.

Ligou para o pai. Estava tão nervoso que errou o número duas vezes. Quando conseguiu, o sinal telefônico do celular dele fez todas as chamadas habilitadas e em seguida emitiu a mensagem eletrônica tradicional para encaminhar recados à caixa postal. Sentiu-se triste pelo pai. A única pessoa que lhe restava na vida. Fazer o quê? Karma. Olhou para o mar, a parede compacta d’água elevou-se de um salto, agigantou-se ostensivamente para declarar a morte.

Pensou em correr de volta à estrada. Morrer lutando, mas seria inútil.

Sentou-se resignado na areia da praia, como um velho samurai que fosse cometer seppuku, e buscou sentir a leve brisa invernal que lhe revirava os cabelos. Fechou os olhos. Quando a gigantesca onda comeu a praia de uma única bocada, a última imagem que Akira vislumbrou foi a mulher da sua vida com os lábios vermelhos enlambusados, comendo uma enorme maçã do amor.

 

                        *  *   *   *   *   *   *   *   *

 

Sakura, completamente nua e suada, olhou incrédula para o telefone. Largou-o descuidadamente em cima da mesa e foi para o quarto.

— Quem era? – perguntou o amante, procurando a calça no carpete.

— Era o Akira. – Ela disse, apoderando-se de um maço de cigarros da cômoda, ao lado da cama desarrumada.

— Que cara é essa?

— Hum... olha, acho que o Akira não tá batendo bem das ideias não.

— Por quê?

Ela repetiu a conversa no telefone.

O amante deu um pulo assustado. Ficou lívido. Começou a gaguejar nervoso consigo mesmo. Seus olhos se arregalaram! Queria se vestir depressa. Gritou com ela.

— Vista-se com qualquer coisa e vamos dar o fora daqui! ANDA!

— Ah não, por favor. Não vem me dizer que você acredita nesta bobagem de “premonições”. – Ela disse caindo na cama de costas, fazendo uma careta de deboche, rindo à toa. – Eu não vou a lugar nenhum, meu querido! Eu vou é tomar um banho gostoso depois de fumar este cigarrinho.

Ele correu para fora do quarto, tropeçando nas calças ainda por vestir. Foi direto à porta dos fundos que dava acesso ao quintal. Abriu-a com violência, mas antes de ganhar a direção do atalho que o levaria para o morro, gritou com ela indignado:

— Fique você sabendo que os sinais premonitórios do meu filho nunca falharam, sua vagabunda!

 

fim

Comentários   

#3 Flávio de Souza » 29-08-2012 12:29

Afonso, o texto é ironicamente cruel. O final é surpreendente, como deve ser um conto. Destaco o cuidado com os pequenos detalhes, como a escolha dos nomes, que remete ao Japão, local que sofre com tsunamis. Belo trabalho. Parabéns!
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Flávio de Souza

#2 Swylmar Ferreira » 22-08-2012 16:48

Meus parabéns Afonso!
Excelente conto, mistura de amor verdadeiro e traição.
Um conto rápido, leve e sutil, muito gostoso de ler.
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Swylmar Ferreira

#1 Cilas Medi » 20-08-2012 18:37

Muito bom. Bem construido e o final surpreendeu. Parabens! :D
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Cilas Medi

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