Complexo de Arquimedes

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Complexo de Arquimedes

Um homem estava parado diante de um cruzamento. Observava atentamente cada passo, movimento e decisões tomadas por instinto ou através de escolhas. O pássaro colorido virou a cabeça para a direita, viu um companheiro semelhante e alçou voo. Os fios de alta tensão tremeram, enviando uma sequência harmônica em toda sua extensão, diminuindo a intensidade ao longo do caminho. Uma pessoa parou para olhar o que havia acontecido aos fios, pois seu inconsciente dizia que objetos inanimados não poderiam se mexer sozinhos. Com sua distração, nem notou que já havia colocado um pé na estrada.

Ao longo do caminho, no final da rua principal, um motorista dirigia tranquilamente seu automóvel fazendo escolhas motoras automáticas, visto que suas sinapses já haviam criado um padrão para esta situação. Uma estranha junção entre escolhas e instinto. Seu celular tocou. A mente, que estava focada em outra coisa, direcionou suas atenções ao aparelho que produzia um barulho irritante. Seu campo espacial de atenção diminuiu consideravelmente.

O homem continuava parado. As nuvens se dispersaram lentamente, revelando uma forte luminosidade. O Sol “estava de volta”. Um senhor, do outro lado da rua, parou para fechar seu guarda-chuva. Enquanto isso, uma pessoa que parecia estar apressada e vestia uma capa que lhe cobria até a cabeça avançou em direção ao bolso de trás da calça do senhor que estava distraído.

Um gato que estava no meio da rua parou. As luzes haviam lhe cegado temporariamente. Uma moça pensou em voltou atrás para pegar seu gato fujão. Na outra extremidade da rua, um cachorro observava atentamente uma “caixa com rodas” e um homem que preparava um cachorro-quente para o cliente. Irônico, de certa forma. O cliente viu o gato, observou o ladrão em ação, a mulher que ia atravessar a rua e o motorista ao telefone. Pagou o dono do estabelecimento e deu uma bela mordida em seu alimento. Era o mais importante no momento.

A árvore próxima sacudiu devido a uma revoada de pássaros. A moradora próxima ao local recolhia as toalhas e tapetes enquanto apreciava o deslumbre da natureza, o que fez com que derrubasse sem querer uma deles na rua abaixo. Acabou caindo em cima de um morador de rua que ficou feliz com o presente dos céus.

A vida prosseguia... E o homem continuava lá, como se estivesse analisando todos os eventos ao redor de si mesmo. Ele era o centro do universo naquele instante. Respirou fundo por alguns segundos e abriu os olhos.

(...)

Jogou uma moeda aos pés da moça que olhava os pássaros. Seu foco de atenção mudou. Ajoelhou-se para pegar a moeda. O motorista viu alguém abaixado, largou o telefone e pisou no freio com toda sua força. O Sol voltou a brilhar. O senhor correu até o veículo com o guarda-chuva aberto. O homem suspeito desistiu de seu “empreendimento” e desapareceu na próxima esquina. Com o barulho da freada repentina o gato atravessou correndo a rua para um local mais seguro – os braços de sua dona. O cachorro viu o movimento e correu atrás do gato (a moça acabou adotando-o pouco tempo depois). O cliente pagou o cachorro-quente ao dono do estabelecimento sem contar as notas. Distraído com o fato acabou pagando um valor superior. O dono simplesmente embolsou sem conferir. O homem saiu do carro e olhou temporariamente para cima devido à revoada de pássaros, antes de se dirigir à (quase) vítima. O morador de rua simplesmente virou de lado e resmungou alguma coisa como “mundo doido” e voltou a dormir, sem perceber que havia um tapete persa (dos mais caros) em seus pés.

O homem que dirigia se desculpou profundamente pelo momento caótico proporcionado àquela mulher. Ela aceitou, mexeu no cabelo em um movimento involuntário e disse que também tinha culpa, pois estava distraída. Trocaram sorrisos e diversas linguagens corporais subjetivas que somente os interlocutores (e interessados na outra parte) emitiam e conseguiam entender. O senhor fechou o guarda-chuva e sorriu. Já sabia onde isso iria terminar.

E a vida prosseguiu...

O homem finalmente atravessou a rua. De olhos fechados.

O motivo? Ele não via o mundo como os outros seres humanos “normais”. Tudo que ele observava transformava-se em equações, linhas, ângulos, cálculos e probabilidades. Uma anomalia genética? Quem sabe. Mas ele enfrentava tudo isso sozinho. Afinal, já imaginou o que aconteceria se soubessem que ele era capaz de alterar os eventos subsequentes através de inúmeros cálculos? Preferiu uma vida de anonimato, mesmo que isso significasse viver na “escuridão”.

Mas, naquele dia, vendo que poderia transformar uma tragédia em um novo futuro, reavaliou seus conceitos, tornando-se (por instinto e questão de escolha), um homem cego que poderia enxergar se assim desejasse.

Aquilo mudaria tudo... Para sempre.

(Assim como a borboleta que passou despercebida pelos olhos do homem, batendo suavemente suas asas, de forma tranquila e sem pretensão - o que gerou um furacão de enorme magnitude no outro lado do mundo).

Comentários   

#3 Guilherme Araujo » 24-11-2012 23:42

Me lembrou o seriado Touch, da Fox.
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Guilherme Araujo

#2 F. P. Andrade » 15-11-2012 13:56

Cara, eu adorei teu conto! E olha que acabo de assistir efeito borboleta. Coincidência?
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F. P. Andrade

#1 Emerson Pimenta » 13-11-2012 18:19

:o Adoro essas paradas shauhusa
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Emerson Pimenta

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