A preferida de Baba Liu - Celly Monteiro

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A preferida de Baba Liu

Conto e ilustração

Celly Monteiro

 

 

Meus pés, agora descalços, tatearam os grânulos da beira do despenhadeiro. A um passo a minha frente o vazio, e então o fogo calcinante. Eu seria a pioneira daquela linhagem. Não sei o que aconteceu aos que me antecederam. Nenhum deles retornou. Ninguém jamais retornara a terra mãe depois do abismo. Eu não compreendia nada. Por que saltar? Por que não viver para sempre na esplanada de Baba Liu? Ainda assim eu encabeçava aquela fila de novos rebentos. Minha queda seria o exemplo de todos os outros. Minha coragem os inspiraria ao salto derradeiro.

Um a um saltaria atrás de mim, para o fogo, para o fim? As perguntas se amontoavam em minha cabeça enquanto tateava o chão em hesitação. Enquanto inspirava o ar e seu cheiro de enxofre, enquanto perscrutava a vastidão a minha frente, o horizonte guarnecido pelo perfilhar ondulado das Montanhas Majestosas.

 _ Lá existem outros milhões, lá fica o coração de um império repleto em esplendor. _ Mareva dissera, antes dela própria saltar para o abismo. Nunca soube como ela sabia de tantas coisas. Sempre fora apenas nós e as cuidadoras, nós e Baba Liu, a nossa grande mãe.

Lembrar dela faz meu coração doer. Se eu virar o rosto verei seu olhar sobre mim em solene expectativa. Não quero olhar, pois mesmo o cheiro ardido e sufocante do bafo da montanha não apaga da memória a fragrância morna e doce que tem o seu abraço.

_ Você sempre foi a preferida dela. _ Mareva dissera. _ Ela sempre a amou acima de todas nós. _ Nunca notei tal diferença, talvez por que não me importasse em notar. Mas a ideia que havia mais ternura, mais atenção, mais amor para mim do que para todos os outros só me parecia uma verdade bem perversa, uma vez que agora eram os meus pés que beiravam o cume, e eu seria a primeira a ser jogada fora, seus olhos me espreitavam sérios e cheios de expectativa.

Se eu sobreviver lembrarei pelo resto da vida do aroma cálido que tem os braços da grande mãe, mesmo sabendo que seu amor tem prazo de validade, que a terna hospedagem de Baba Liu só dura até o 13º ano, e depois disso, somos todos jogados da montanha.

Me pergunto como o nosso povo sobreviveu, e se os picos dourados que vejo a minha frente realmente são povoados, então me lembro novamente das palavras estranhas de Mareva. _ Somos seres alados. _ Ela dissera. Para mim não havia coisa mais absurda, tanto que ousadamente ri de suas palavras. _ por que acha que nos chamam de implumes, e para que acha que serve esse apêndice estranho em nossas costas? _ Ela rebateu enfurecida. _ E se à beira do abismo pudéssemos simplesmente esticá-las como fazemos com os nossos braços e pernas e então voarmos sobre a montanha ao invés de nos precipitarmos em queda livre?

_ Não sei o que aconteceu com Mareva, sei apenas que agora o bafo da montanha faz doer o meu corcunda e há apenas terror abaixo de mim, e um gosto amargo de desespero em minha garganta, o mesmo desespero que achei que inspirara as palavras de Mareva.

Seja qual for a verdade, sei apenas que não quero o abismo e suas línguas de fogo. Lágrimas escorrem dos meus olhos e inunda-me a sensação de que não vou conseguir. Dou alguns passos para trás e me choco com Ynara, que sei que me sucede na fila. Duas mãos me seguram e me arrastam de novo para o abismo. Não é Ynara, é a própria Baba Liu.

_ Você precisa cair! _ Ela diz, ainda há ternura em sua voz e é isso que não entendo. Ela quer que eu caía quando agora eu sei que posso voar. Minha pele está se rasgando. Não dói tanto quanto deveria doer. Eu sei que há um par de asas abaixo do invólucro de membrana que antes fora nosso asqueroso corcunda. Tento dizer isso a ela, tento fazê-la parar de me empurrar para o precipício. Luto contra a mãe de todos nós.

_ Eu te amei mais do que todos os outros, e isso não foi bom. _ Ela diz, enquanto me empurra abismo abaixo. Meus pés deslizam. Meus braços tateiam o nada, mas eu não caio, eu não quero cair. Faço força e minhas asas se desprendem. As agito no ar e meu corpo plana. É tão fácil, é como respirar. Eu sempre soube como fazer, só precisava sair do útero e esquecer do líquido amniótico. Apenas precisava deixar para trás a minha confiança em Baba Liu, percebo.

_ Você precisa cair no abismo. _ Ouço seus gritos, cada vez mais longe, enquanto me distancio, histéricos, como um queixume infantil. Baba Liu, a mãe de todos, uma implume, sem asas, para sempre confinada a uma pequena esplanada, parindo e criando rebentos que um dia ela oferta ao abismo.

 Deixo-a para trás e parto em direção aos picos dourados. Mesmo de longe seu esplendor ofusca minha visão. Aproximo-me para encher os meus olhos de seus detalhes. Parece um mundo pintado de todas as cores da felicidade. Aquelas que eu imaginava e todas as outras que jamais pude imaginar. Bosques e prados coloridos, rios e regatos do tom mais cristalino, templos e palácios infinitos erguidos com as jóias mais preciosas. Mas era uma terra de deuses, aquela, habitada por criaturas majestosas que erguiam-se imponente entre as ruas e praças. Incontáveis, com suas peles reluzentes que lembrava um metal precioso, e o mesmo a dizer de suas incríveis asas, incisivas e resistentes como o material mais duro e reluzente do mundo.

Embevecida, aproximo-me mais de suas terras e me perco em admiração daqueles que tenho diante dos olhos. Muito neles me parece estranhamente familiar, ao tempo que são tão majestosos e imponentes quanto jamais desejei ser. Altos e elegantes, ainda maiores do que Baba Liu. Um deles me causa uma leve lembrança. Ouso-a falar e tenho certeza.

_ Mareva! Grito chocada em pleno júbilo ao perceber que longe da esplanada de baba Liu não somos menos que deuses. Estou feliz demais ao constatar o destino de nossa raça que não me atento ao soar de um toque de alerta. Todos eles olham para mim e não são olhares doces ou familiares. Há histeria e hostilidade, dentes que se rangem e olhar de puro ódio e asco. Olho para os meus braços e pernas sem entender. Ainda sou uma implume, com exceção do desabrochar das asas, sou exatamente como era na esplanada de Baba Liu, por que isso parece tão repulsivo?

“Monstro” alguns me chamam, e aquele que tem uma lança mirada em mim diz que sou uma praga asquerosa, diz isso antes de perfurar em cheio uma das minhas asas. Despendo do ar pensando que chegarei ao chão já morta, mas não é o que acontece. Mesmo depois de uma semana ainda estou viva. Espetaram-me pelas asas em grandes hastes erguidas além da fronteira da cidade, onde só há moscas, carcaças podres e aqueles rebentos que inspirei a não saltar, espetados como eu à espera de apodrecer e se extinguir.

Aos poucos vou entendendo o motivo de tanta hostilidade. Eu sou uma débil larva que fugiu do fogo purificador do abismo e agora ameaço de contaminar a todos com a minha pestilência, com a minha covardia e desonra, uma abominação física e moral. Minha pele não suporta o açoite perverso dos picos dourados, ao poucos vou me degenerando, me desfigurando e envergonhando ainda mais aqueles que nasceram do mesmo ventre que eu. O vento na esplanada de Baba Liu era doce e gentil, o daqui provoca pústulas em minha pele.

Vez ou outra um deles vem aqui cuspir-nos na cara, lançar-nos pedras, ou tentar fazer com que nos envergonhemos ainda mais da nossa covardia ou pretensa esperteza ao tentar escapar da dor do fogo do abismo.

Viro o rosto fungando de agonia porque agora mesmo um deles está diante de mim e o simples abanar de suas asas ameaça desprender o resto da pele que ainda reveste a minha carne. _ Vá embora! _ Resmungo. Ela sorri. É uma mulher, adulta, aparentemente.

_ Mesmo agora sua arrogância não a abandona. _ Ela diz. Percebo que a conheço. Desvio meu olhar. _ Só estou aqui porque Baba Liu me implorou. Logo ela terá tanta importância para mim quanto você tem agora, mas eu também queria que você visse isso, e soubesse... _ Ela diz enquanto açoita com a ponta de uma das asas a grossa pilastra em que estou espetada. A madeira se transforma em pó e eu despenco em meio aos seus fragmentos. Percebo que é a maneira dela me libertar. Poderia fazer de outro jeito, mas tem nojo de tocar em mim, mesmo agora que estou no chão ela não ousa se aproximar.

_ A nossa pele é frágil. O ar da esplanada é salutar, por que é o nosso berço, mas a atmosfera deste mundo é nociva. O fogo do abismo solidifica a nossa fibra e fortifica o nosso espírito. É como um verdadeiro nascimento. Olhe para mim, minha pele é de titânio e minha mente é leve como o éter, e você, você é como um aborto. _ Ela ri, uma Ynara adulta e invencível ri de mim, um verme desprezível.

_ O fogo do abismo não pode mais te ajudar, não há mais membrana para se cristalizar em suas asas e o ar das montanhas já oxidou grande parte dos elementos que se combinariam na fusão de um alígero adulto e completo. Mas você ainda irá crescer. Baba Liu pediu para que lhe dissesse, será de forma mais penosa e cansativa, mas se tornará adulta, se sobreviver.

Se alcançar a maturidade, poderá voltar à esplanada e se tornar uma cuidadora. Mas terá que arrancar as suas asas, de outra forma não será aceita, você é uma abominação moral que pode contaminar os novos rebentos. _ Ynara me diz.

Sinto algo cair em cima de mim, ergo a mão e reconheço o adorno de pescoço de Baba Liu. _ Para que você não se esqueça que tem para onde voltar. _ Ynara explica fazendo uma meia curva no céu, prestes a ir embora.

_ Espere _ Eu peço. _ Liberte os outros também. _ Imploro sabendo que não teria forças para fazer. Ela dá de ombros.

_ Sua idiota, _ Ela diz. _ eles te matariam pela sua vaga de cuidadora.

Vejo-a partir com a sensação de que não devo me colocar em seu caminho novamente.

Rastejo procurando um abrigo que me proteja daquela aragem caustica, até que minha pele esteja mais seca e eu possa voltar e resgatar os outros rebentos a qual a desgraça a minha fraqueza inspirou. Deixo para trás o adorno de pescoço de Baba Liu. Eu não preciso dele para lembrar. Jamais me esquecerei dela como provavelmente Mareva esqueceu, e como Ynara também esquecerá.

Entretanto, não abrirei mão das minhas asas pelo cargo de cuidadora. Pois agora eu sei, nesse mundo existem muitos abismos, não só aquele que arde na orla da esplanada do nascimento, e todos eles me farão mais forte ao seu modo.

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