Da chuva, a sombra nasce - Carolina Mancini

(2 votos, média de 5.00 em 5)

 

 

 

Da chuva, a sombra nasce

Carolina Mancini

 

Era cinza a marca d’água

Na parede concreta e absoluta.

De luto se vestia, amarga,

Sem olhos na estrutura bruta.

 

No caminho - a ir e vir ao léu -

Que faço e fazia, me remeteu

Seu semblante na parede aos céus

Da estrutura cinza onde se recolheu.

 

Olhei dias a fio seu insistente renascer

Por tardes de longa e sombria chuva.

E nas manhãs de sol a vi adoecer:

Sombra, tinha mesmo uma vida injusta.

 

Ah! Pobre reflexo de alma penada,

Lhe olho a saber ser mancha apenas.

Ah! Pobre mácula, no cimento, desgraçada.

Há vida em ti, ou é pintura apenas?

 

Eis que de tanto olhá-la me invadiu o sono

E depois do sonho, o tempo dominou-o todo.

 

Nas paredes que me cercam? Não só!

Mas naquelas todas que meu olhar para.

É como um vício a me vigiar sem dó,

Ou como nódoa que no olho espalha.

 

Era cinza a marca d’água

Na parede concreta e absoluta.

De luto me vesti amarga

Pois de pavor me tem resoluta

 

Ah!  Pobre de mim, sou amaldiçoada,

Lhe olhei tanto e enlouqueci. Profana.

Ah! Pobre minha alma, sem dormir deságua

Em pesadelos loucos e me vejo insana. 

Comentários   

#1 Celly Monteiro » 22-04-2016 03:19

Acho que é o primeiro poema seu que eu leio, devo ter lido outros, mas não me lembro. Enfim, amei, tão Alan Poe, que viagem maravilhosa!
+1 +−

Celly Monteiro

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar

Você está aqui: Contos Literatura Fantástica Da chuva, a sombra nasce - Carolina Mancini