Matéria Escura - Parte 1 - Celly Monteiro

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Matéria Escura

Conto e ilustração

Celly Monteiro


Primeira parte

 

Ela parecia ter uma definição para tudo, menos para o que ela era, isso nem mesmo ela conseguia uma palavra exata que a definisse. Ela não era como as outras, essa era talvez a única verdade que eu sabia e ela não. Ainda assim ela dava tudo de si, tudo o que possuía, para ser a melhor, para chegar mais longe, para ser reconhecida pelo seu conciliábulo.

Você não sabe como é ser a mais jovem entre as filhas da noite. – Ela me disse naquele lusco-fusco. – A noite já nasce velha, baba Nora me disse, mas eu, eu nasci agora a pouco, e é uma estrada tão longa para pernas tão curtas. Eu nunca estarei à altura das outras. – Suspirou.        

– Tolice, você é um prodígio – eu respondi. Eu sabia o que significava a palavra prodígio, ela havia me ensinado anos atrás. Estava orgulhoso por que ainda lembrava e tentava impressioná-la com o meu vocabulário, mas ela deu de ombros.

– Não sou brilhante o bastante. É como se eu não tivesse um Coven. Você sabia que o arranjo do universo é formado praticamente pelo vazio? Lacunas colossais onde pouquíssima matéria é literalmente dispersa? Isso me parece uma analogia para o nosso estado primitivo de ignorância.  – Ela disse aquilo se levantando. Sua alva mão repousando sob as plumas negras que cobria-lhe o peito. – Um vazio imenso que precisa ser preenchido... – Revistei seu olhar cristalino e vi tanta tristeza, tanta dor represada. Queria lhe dizer mil coisas a respeito, queria lhe dizer que aquele vazio tinha um nome e era tudo, menos um simples vazio, mas ela logo se adiantou a completar com o olhar perdido sob o horizonte agora totalmente carmesim:

– Preenchido por conhecimento. – Havia uma esperança ingênua em seu olhar. Talvez eu fosse a única pessoa do mundo capaz de enxergar isso nela, era mais uma coisa que eu sabia e ela não. Talvez ela não fosse o sol que eu sempre pensei que ela fosse. Talvez aquele não fosse um sonho impossível. Talvez eu pudesse lhe tocar sem me queimar. Havia ainda coisas que ela não sabia, e havia algo que eu podia ajudá-la a aprender.

A umbra havia caído, ela sequer iria se despedir.  Antes que partisse, segurei-lhe a mão.

– Fique, passe essa noite comigo – eu quase implorei. Ela riu aquele riso frívolo que guardava somente para as piores besteiras ditas por mim.

– Auroras são manchas de sol, nuvens são vapores d’água, e feiticeiras são filhas das estrelas, você não pode roubar a noite de uma feiticeira, é como roubar o ar que a mantém viva – ela disse, e eu odiei ela ter sido tão enfática. Não havia nada mais importante para ela. Todas as noites, com lua ou sem lua, vestida apenas com seu manto de penas, linho e pedrarias, ela banhava-se na luz das estrelas e diluía seu cerne em ritos mágicos. Cada dia mais velha, cada dia mais sábia, cada dia mais distante. Logo ela seria não o sol, mas uma estrela maior, mais brilhante, mas tão distante quanto às estrelas que moram no outro lado do universo.  

Queria lhe dizer que as outras filhas da noite dividem suas noites com outras pessoas vez ou outra e isso não lhes fazem menos sábias. Eu não lhe disse isso, mas ela “ouviu”, de algum modo ela leu em mim aquilo que eu não tinha dito. Mesmo sob a pouca luz eu a vi enrubescer e apertar ainda mais o manto em volta do corpo.

– Eu não posso me dar ao luxo a distrações – sussurrou. ­ – Não quando ainda tenho tanto a aprender. Acho que enfim encontramos uma bifurcação na nossa estrada e devemos nos despedir. – Era o modo dela me dizer que eu nunca mais voltaria a vê-la? Antes que eu pudesse compreender, a vi se perder na noite e se apagar como se nunca tivesse existido. Como se tivesse sido um sonho, um delírio. Mas eu sabia que não era, eu sabia que ela era real, eu sempre saberia. 

 

Continua... 

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