Matéria escura Parte II – Gravidade - Celly Monteir

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Matéria escura

Parte II – Gravidade

Conto e ilustração - Celly Monteiro

 

 

Naquela noite eu desejei nunca tê-la conhecido. Desejei nunca ter aprendido sobre metafísica fractal, desejei nunca ter acreditado que um evento insignificante pudesse interferir no alinhamento do todo gerando uma transformação inesperada num futuro incerto. Desejei nunca ter tido esperança de um dia lhe ser tão importante quando o seu precioso conhecimento. Desejei nunca ter encontrado sua crisálida mística, e despertado-a por capricho.

Estava fazendo a única coisa que eu saberia fazer na vida antes dela, remexendo na terra, preparando-a para a plantação, quando bati com a enxada com aquele invólucro brilhante. Antes eu não sabia o nome da resina âmbar, jamais tinha visto uma, mas se eu soubesse eu a teria comparado a um lindo inseto preso por acaso numa resina orgânica. Eu sabia de quem ela era, sabia que só uma feiticeira poderia nascer daquele jeito. Ainda assim eu não busquei permissão, quebrei-lhe o berço de cristal, milhões de flores brancas se derramaram aos meus joelhos. Ela abriu os olhos, piscou algumas vezes, se sentou encolhida como se estivesse com frio e perguntou olhando muito fixo em meus olhos.

– Eu já sou adulta?

– Não, você é uma criança. – Disse surpreso. Ela pareceu assombrada. Olhou as próprias mãos, os joelhos, tomando cuidado para esconder-se dos meus olhos.

– Você é uma criança, eu não sou uma criança, não posso ser. Feiticeiras não nascem crianças, feiticeiras já nascem adultas. –Ela protestou. Eu sorri e lhe entreguei um pedaço da sua crisálida, para que ela se visse no reflexo.

– Você é uma criancinha, eu já sou adulto. – Disse confiante. Ela riu debochada.

– Claro que não é, humanos só alcançam a maturidade física a partir dos 18 anos, você sequer está próximo à puberdade.  – Eu fiquei parado sem saber o que dizer, não sabia nem o que era maturidade nem puberdade tão pouco física. Ela quebrou a boca de lado, nervosa. Não me culpou por aquilo, mas eu soube depois, eu não devia tê-la acordado tão cedo. Mesmo agora, dez anos depois, ela não era adulta. Talvez demorasse mais anos do que eu poderia contar até que ela se sentisse integrada ao seu Coven, e era culpa minha. Mas eu estava mentindo quando me dizia arrependido de tê-la conhecido. Mesmo quando sabia que nunca mais ia vê-la, sentia que cada fim de tarde, cada breve encontro tinha válido a pena.

Mesmo sem a ajuda dela eu aprendi o nome de todas as estrelas e quase como uma obsessão tentei me familiarizar com cada quadrante visível ou calculável do universo. Tinha a esperança de saber quando uma estrela nova surgisse. Devia me certificar de que todos soubessem o nome dela.

Era um fim de tarde comum quando ela voltou. Havia uma colina perto da floresta onde eu estava montando o meu novo telescópio. Ouvi os rumores de passos, mas sequer me interessei em investigar com o olhar.

– Você se tornou astrônomo, não se interessa mais por plantas? – Ela perguntou com displicência, como se não fizesse já dois anos que nãos nos víssemos. Virei-me para observá-la, quase sem reação. Ela tinha nas mãos uma muda de árvore.

– É um carvalho, eles vivem bastante. – Ela disse em resposta. – Você me ajuda a plantá-la? Preciso de um lugar seguro onde possa viver pelo menos três mil anos. – Apenas assenti incapaz de falar, tamanha era a emoção de tê-la novamente diante dos meus olhos.

– Acho que esse é um lugar perfeito. – Ela disse parando ali, naquele mesmo lugar onde sempre nos encontramos momentos antes dela ir se juntar ao seu conciliábulo e meditar sob as estrelas. Já era quase noite também e eu imaginei que logo ela iria embora. Tentei conter o meu desgosto e aproveitar cada segundo que nos restava.

Ela queria uma cova profunda. – As raízes precisam ficar bem fixas na terra. – Ela explicou. Cobrimos puxando com a mão cada punhado de areia. Quando terminamos as estrelas já brilhavam visíveis. Ainda assim ela sentou-se em cima das folhas secas onde sentamos milhares de vezes e assim ficou como se não tivesse pressa. Notei que ela não estava com o manto de penas, vestia a túnica azul que as feiticeiras geralmente usavam.

– Deixe-me ver suas mãos. – Ela pediu. As estendi, estavam sujas de terra. Matreira, ela falou: – Deixe-me mostrar o que eu aprendi. – E num gesto de mãos toda a terra se foi, minhas mãos estavam tão limpas como se eu tivesse acabado de me lavar. Eu não duvidava que ela pudesse fazer aquilo, não havia nada que as feiticeiras não pudessem fazer. Ainda assim perguntei:

– Você aprende coisas assim todas as noites? – Ela assentiu.

– Coisas muito mais inacreditáveis.

– E porque ainda está aqui e não com elas? – Eu perguntei. O olhar dela quase se liquefez, foi um breve segundo e ela logo se conteve.

– Você quer que eu vá? – Ela perguntou.

– Não! – Me apressei a dizer. – Mas também quero o que for melhor para você. – Acrescentei. Ela nada disse, eu apenas a vi se aproximar, e passando os braços em volta do meu troco apoiou a cabeça em meu peito. Meus braços se fecharam a sua volta como se tivesse medo que ela se arrependesse e se afastasse.

– Há coisas que não se deve saber. – Ela disse me apertando como se tivesse tido um calafrio. – Eu descobri isso, talvez tarde, talvez não, espero que não... Todo o conhecimento me deixou leve e eu me sinto flutuando para o alto, mas há mais calor e substância aqui do que lá em cima, eu não quero ir, então preciso de uma âncora que me mantenha presa a terra. – Ela levantou o rosto para me fitar.

– Você quer ser a minha âncora, a minha gravidade? – Ela perguntou.

– Tudo o que você quiser, tudo o que precisar. – Eu disse. Ela não respondeu, se inclinou em minha direção, senti o calor dos seus lábios e o sabor doce da sua saliva. Parecia que chovia flores sobre mim, como no dia que eu a conheci e eu me desfazia em fagulhas de doce prazer.

– Viveria ao meu lado 3 mil anos dentro de uma árvore? – Ela interrompeu seu beijo para me perguntar.

– Viveria a eternidade. – Eu respondi. Ela sorriu. – Que bom, por que eu selei nossas almas àquele jovem carvalho. – Ela falou, apontando o dedo para a muda que havíamos acabado de plantar, sem esperar uma reação voltou ao que fazia.  

Comentários   

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Felix Lima

#2 Celly Monteiro » 21-01-2017 02:43

Olá, Kevin, eu é que agradeço o fato de vc ter disponibilizado um pouco do seu tempo para nos passar um feedback sobre o meu conto, vc não faz ideia de quanto é importante para o autor um retorno dos leitores, é quando a gente finalmente percebe que não está escrevendo para as paredes. rs Fico muito feliz que vc tenha gostado do conto e que ele lhe tenha sido útil de alguma forma. Depois que eu o escrevi eu fiquei com um certo remorso pq há um risco das pessoas concluírem que há algum tipo de conhecimento que a gente deve evitar e essa é uma ideia muito perigosa, do tipo que favorece a ignorância, e a ignorância é a coisa mais maléfica que existe, conhecimento, em contrapartida, é poder, é liberdade é escolha. Enfim, estou esclarecendo aqui por medo da minha história se tornar de fato anti-didática como fica parecendo. :-)
+1 +−

Celly Monteiro

#1 Kevin Dutra » 14-12-2016 14:18

Só venho aqui aqui agradecer, e muito por essa publicação, por esse conto. É incrível a riqueza que tem e o que proporciona a mente daquele que se permite enxergar. De verdade, meus parabéns, gostei muito de sua obra!
O que aprendi lendo-a, o que descobri, o que imaginei, as imagens formadas em minha mente, só tenho a agradecer. As duas partes estão excepcionais, sem mais nem menos. Parabens!
+1 +−

Kevin Dutra

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