O Visitante

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    Confortavelmente reclinado em sua cadeira de vime,  próximo ao calor aconchegante   da pesada lareira,  onde ardia um fogo suave, o velho cavalheiro saboreava  a fumaça espessa de um havana robusto e, de olhos semicerrados,  meditava  profundamente.  Contudo,  foi arrancado das deliciosas excogitações pelo fiel lacaio, que, penetrando na afável  penumbra   da biblioteca, avisou:

    — Há um cavalheiro que deseja vê-lo, senhor.  Ele disse que veio tratar de um assunto urgente e estritamente pessoal.

    — De quem se trata?  Ele trouxe o  cartão de visitas? – perguntou,   muito contrariado, o cavalheiro idoso.  Definitivamente, não gostava de ser interrompido quando  as  fluidas e agradáveis  divagações, sobretudo  se  flutuantes  à deriva,   por fim conduziam, sem que ele mesmo  percebesse, aos seus assuntos preferidos:  dinheiro fácil e mulheres levianas.  Quando  da entrada  do lacaio, o cavalheiro associava, num  mesmo  e prolongado devaneio,  ambas as delícias.

    — Não – respondeu o lacaio, cônscio  de que cumpria os nobres deveres inerentes à  profissão, ainda que tão  inflexível  dedicação implicasse graves  aborrecimentos ao seu senhor.  Por isso enfrentou, com  serenidade,  o olhar  dardejante do patrão, antes de prosseguir:

    — Mas o cavalheiro disse-me  que, em lhe anunciando  o  nome, o senhor o receberia sem demora e com grande interesse.

    — E como se chama o cavalheiro inconveniente? – indagou o patrão, espremendo  de raiva  os olhinhos suínos.  Deixava  bem explícita a sua  impaciência.

    – Isto é algo bastante  estranho, senhor.  Mas ele disse  chamar-se  Ryan O’Hara.

    Os lábios do  velho senhor   –   e este  respeitável  fidalgo  era  por todos conhecido justamente pelo nome  Ryan O’Hara  –  abriram-se num sorriso de escárnio.  O criado, que aguardava uma ordem definitiva,   ouviu-o dizer, após um momento de reflexão:

    — Espere  cinco minutos.  Depois, faça-o entrar.

    O senhor Ryan O’Hara, já calejado em arrostar estas  espécies de aborrecimentos,  apressou-se em   atravessar a  biblioteca.  Deteve-se ante a  velha  escrivaninha, de cuja gaveta retirou um revólver.  Depois de examinar o tambor,  escondeu a arma   na cintura,  entre o cinto e o cós da calça, e  sob  as abas do longo  casaco de feltro, aberto de alto a baixo.  Era um homem prevenido.

    Voltou à poltrona. Teria problemas pela frente.  Conjecturou que havia o forte cheiro de chantagem no ar.  Poderia ser mais um dos que se  diziam  filho bastardo seu.   De dez em dez anos, aparecia alguém assim.

    Sem que fosse esperado, o criado de libré retornou.  Disse:

    —  Há outra coisa, senhor O’Hara.  O cavalheiro afirmou  que o assunto respeita  a  certo senhor cujo nome é Derek O'Nolan  e  que, segundo afiançou, é íntimo conhecido de vossa senhoria.

    O lacaio não viu, mas os pelos do ancião   eriçaram-se à inquietação  produzida  pela onda glacial de um  intenso calafrio.  A ira, que   até então lhe  inflamava os ocelos porcinos, subitamente feneceu.  Quando, numa explosão, finalmente gritou a ordem ao  lacaio, eram o medo e a desconfiança que adernavam  na superfície de um olhar envesgado.

    —  Ponha esse infeliz para fora! – vociferou.   – Agora mesmo!

    Há quanto tempo não ouvia aquele nome?  Quarenta, cinquenta anos?  Que terríveis fantasmas  do passado  aquele nome –  Derek O'Nolan –, outrora tão íntimo, tão pessoal,  invocava!   Sem dúvida,  os mortos jamais retornam de seus túmulos. Mas os segredos em que se ocultam as  coisas abjetas têm a terrível  virtude de se esgueirar pelas ranhuras das catacumbas, atravessar  decênios adormecidos e se materializar em chantagem e extorsão.

    Bem que o criado tentou impedir a entrada do estranho, mas era tarde. O  jovem cavalheiro  já  invadira  a biblioteca e, sem esperar qualquer convite,   arrastara uma cadeira para perto da  lareira.   Então, sentou-se de  frente ao ancião, que tremia da cabeça aos pés. 

    — Por favor, Derek, faça seu criado sair – disse o intruso, baixinho.  – Precisamos conversar a sós.

    Quando, a um desesperado aceno do patrão,  o criado se retirou,  o recém-chegado  prosseguiu:

   — Temos negócios a tratar.    Antes, porém, vou-lhe   narrar uma linda história.

    O jovem ruivo entrelaçou os dedos das mãos e, inclinando a cabeça,  examinou,  com ar inquiridor, os olhos do ancião.  Com satisfação, viu neles um grande terror.  Pânico, talvez.  Então prosseguiu:

    — Há quarenta e sete anos, dois jovens rapazes, que viviam num mesmo quarto de pensão,  com uma única janela voltada  para um beco  insalubre de  Dundalk, eram grandes amigos. Ambos eram  órfãos e pobres,  e dividiam com alegre equidade os seus parcos pertences.   Seus nomes?  Ryan O’Hara  e Derek O'Nolan.  Tinham eles  a mesma idade, os mesmos gostos, os mesmos sonhos.  E eram  muito parecidos.  A altura, o porte, os cabelos crespos e rubros... Tudo era igual.  Nem todos os irmãos costumam ser  tão parecidos quanto o eram os rapazes irlandeses.  Mas não foram os amigos aquinhoados com a mesma sorte. Isto é certo.  Numa certa manhã de verão, O’Hara recebeu uma carta postada de Providence, Rhode Island...

    — Quanto? – sussurrou o ancião, resignado.  – Poupe-me dos detalhes de sua história.  – Quanto?

    —  Cinquenta mil libras esterlinas... Foi esse o preço do assassínio de Ryan O’Hara?

    O cavalheiro idoso voltou à velha escrivaninha.  Desta feita, retirou um talão de cheques.  Retornou  com uma folha assinada.

    — Tenho aqui um cheque de cento e vinte mil dólares.  É muito dinheiro.

    — Não o suficiente para arruiná-lo, Derek – redarguiu o visitante, estreitando as sobrancelhas que a luz da lareira tornava ainda mais rubras.

    — Mas mais que o suficiente para comprar o seu precioso silêncio.

    — Não, não é suficiente  – disse o rapaz, parcimoniosamente.  – Tenho outra exigência.

    — Qual? – indagou o velho homem, surpreso pela sensação desconfortável de que, embora presente, toda manifestação do jovem invocava algo como a distância ou, mesmo, a ausência.

    — Quero concluir a minha história – respondeu o rapaz, sem qualquer esforço em disfarçar o sarcasmo  com  que  modulava o tom de  voz. Para  o velho homem, a voz  parecia vir de longe, muito longe.  Dir-se-ia uma voz etérea, espectral.

     — Feito.  Mas você há de me prometer, pelo resquício de honra que há de sobejar em  sua alma, que irá desaparecer de uma vez por todas.

    — Tudo que eu tenho é minha alma.  Mas, ainda assim, você tem a minha palavra.

    — Então, prossiga – concluiu o ancião.

   — A carta vinha do Dr. Allan Smith, procurador  e testamenteiro de Kennedy O’Hara.   Kennedy, um solteirão que amealhara em Nova Inglaterra  uma fortuna estimada em cinquenta mil libras esterlinas, deixara todos os seus bens ao sobrinho-neto Ryan, único parente de  que tinha notícias  na velha ilha celta, donde saíra ainda rapaz.   Quando soube da boa sorte do amigo, Derek O'Nolan  percebeu, tão surpreso quanto esperançoso,   que a cobiça  era infinitamente  mais forte que a amizade. Ofereceu-se a acompanhá-lo no navio à América, e, na primeira oportunidade, cravou-lhe um punhal no coração, lançando-o   amurada abaixo.  De posse dos pertences e documentos  do fiel companheiro, seguiu a Rhode Island,  reclamando, com êxito, a posse da herança. Não foi nada difícil para Derek, em terras tão distantes, onde ninguém o conhecia,  passar-se por Ryan e assumir-lhe  a identidade.  Uma ideia muito proveitosa, mas nada original, diga-se de passagem.

    O ancião entregou o cheque ao rapaz, dizendo:

    — Aqui concluímos o nosso negócio. 

    O jovem assentiu, inclinando a cabeça uma maneira extraordinariamente peculiar. Imediatamente, algumas recordações afloraram na mente  de  Derek O’Nolan.  

    — A sua maneira inquisitiva  de olhar, o modo como inclina a cabeça... Eu juraria que esses modos eram bem próprios de  Ryan O’Hara.  Mas você é muito jovem para ser filho de Ryan.  Além disso, ao que eu saiba, ele não teve filhos. Quem lhe forneceu essas informações conhecia-me muito bem.  E sabia muito de  Ryan,  também.

    Parecia que o rapaz não levava em consideração o que o seu interlocutor dizia, pois olhava, com uma despreocupação calculada,  para o cheque ao portador  de cento e vinte mil dólares.  Mas, subitamente, ergueu os olhos para o ancião. Um sorriso zombeteiro insinuava-se  nos lábios do rapaz.

    — Bem, recuperei a minha fortuna – disse, enfiando a folha  de cheque no bolso da jaqueta. – Mas, dadas as minhas condições atuais,   esta imensa fortuna  não me servirá para mais  nada. Será melhor  que alguém fique com isso tudo. Alguém que,  agora mesmo,  está me prestando um grande favor.  Mas  não ouse, Derek... Jamais cogite  numa  contra-ordem. A justiça deve ser feita.


 
    — Satisfeito agora? – indagou Derek.  Em seus olhinhos suínos, um laivo raivoso  voltou a flamejar. Aquela brincadeira de gato e rato estava passando dos limites.  

     —  Você me perguntou há pouco se eu tive filhos –  prosseguiu  o homem ruivo, pendendo para o lado  a cabeça: um  gesto acintosamente  singular,  que intrigava e aborrecia o velho cavalheiro.  – Não, não os tive.  

Certa tristeza amenizou o tom irônico com que pronunciava as palavras:

    — Não tive tempo para isso – suspirou, revelando um quê de desalento, o jovem homem. –  Eu estava destinado a ser um homem rico, a casar com uma linda mulher e a ter uma prole numerosa. Mas toda essa doce  expectativa,  essa promessa encantadora,   extinguiu-se  quando você me atirou ao mar, com um punhal cravado no meu  peito. A partir de  então,  vaguei por um tempo incomensurável  nas águas frias do Atlântico, preso ao que restara de meu corpo, procurando entender o que me acontecera. Foi difícil admitir que eu estava morto. Foi doloroso rememorar todo o meu passado. Foi quase impossível localizá-lo, Gruaige Dóiteáin. E foi, enfim,  um milagre encontrar um corpo suscetível de receber o meu espírito e obedecer  cegamente aos meus comandos.

    —  Você disse Gruaige Dóiteáin? – indagou o velho, trêmulo de pavor. Até então, acompanhava com crescente impaciência aquilo que parecia ser a encenação sarcástica, um sádico capricho de um  chantagista excentricamente cruel. – Gruaige Dóiteáin?

    — Lembra-se, Derek?  Era assim que nós nos chamávamos um ao outro na intimidade: Cabelo Vermelho.

    O velho  ainda mais se encolheu na poltrona.   Os olhos porcinos  eram agora dois globos inertes, injetados de terror. Balbuciou:

    — O que você quer, Ryan?

    — Vingança, Derek – respondeu o rapaz, avançando.  

    Dereck gritou.  Num salto, levou a mão ao peito e foi ao chão, fulminado por uma breve e derradeira convulsão.

    Ryan sorriu, satisfeito. Consumatum est.

    Quatro  horas após a morte de Derek O’Nolan, John Blackmore – assim se chamava o jovem  rapaz de cabelos flamejantes – voltou a si, no quarto de sua casa miserável,  a duas milhas de  Tauton.

    Lembrava-se, vagamente, de haver participado, na noite anterior,  de uma sessão  conduzida pela famosa médium  Katherine Fox. Mas não sabia o que lhe sucedera quando  mergulhara  num  estado de profunda letargia, sob a influência da misteriosa mulher. E   nem mesmo ousava imaginar como retornara a casa. Estivera bebendo?  Fumara ópio? Simplesmente não sabia. Uma névoa profunda diluía qualquer  resquício de memória.

    Mas  foi com enorme alegria  que descobriu,  no bolso de sua jaqueta, um cheque ao portador  subscrito por um homem milionário. O mesmo homem que, conforme lhe segredava uma simples camareira – e esta camareira era a sua mãe –,  jamais tivera a hombridade de reconhecê-lo como filho.

    John não se preocupou em descobrir  como aquela imensa riqueza  aparecera tão milagrosamente   no bolso de seu casaco.

    Não mesmo. 

 

 

 

    Meu nome é Ethebaldo Hamtunn, de Winchester, e tenho uma história para contardes. Vós que estais, por acaso, a ler estas mal traçadas linhas não podeis imaginar o sacrifício que foi para mim, homem acostumado a viver sob a violência das batalhas campais, sempre de espada em punho, dominar a difícil arte da escrita. Como deveis bem saber, a arte de escrever é um incontestável privilégio divino apenas destinado aos monges mais fervorosos na fé da nossa Santa Igreja. Apesar de crer no Altíssimo, não sou lá um bom cristão digno de servir como exemplo. Não obstante, orgulho-me muito do momento em que pude enxergar e escrever as palavras. E tal façanha, agora já entrado em muitos anos de vida, desperta-me sentimentos elevados de obrigação para com os homens e mulheres que virão depois de mim, num tempo futuro, de onde as gerações vindouras de meus descendentes sequer poderão imaginar que na linhagem da família deles houve um homem sábio, conhecedor das letras, que enfrentou os demônios azuis que um dia brotaram das entranhas da terra! Foi por isso que dominei a arte da escrita. Foi para alertá-los, adverti-los, porque é certo que das palavras da boca do homem o vento do tempo as levam e as diluem, como se o dito nada fosse, ao passo que na pintura destes diminutos símbolos o peso da verdade pode perdurar por muito mais tempo, séculos até. E a verdade é, sejais, vós, meus descendentes ou não, dura e inquestionável: um dia eles voltarão! É preciso saber realmente de onde eles vêm! Estejais, pois, preparados todos vós!


1
    No ano 875 de Nosso Senhor Jesus Cristo, o inverno rigoroso, úmido e inclemente chegava ao fim. Os camponeses das pequenas aldeias próximas ao principal castelo de Wessex, que prestavam tributos ao meu rei, renovavam a esperança de boas colheitas advindas do clima ameno que estava por vir.  Naquele tempo, apesar de jovem, eu já era um guerreiro valoroso, temido e respeitado nas fileiras do exército do Rei Alfredo, Líder Supremo do Condado de Wessex, razão pela qual fora um dos escolhidos para protegê-lo nas suas andanças pelos arredores do castelo, ou defendê-lo da ralé de ladrões nas viagens longas às terras dos seus vassalos mais leais.
Numa certa manhã ensolarada daqueles dias, fui chamado à presença do rei, e assim que dei entrada no salão nobre do trono real, avistei o detestável padre Egbert de Wedmore e um homem desconhecido, de aparência ordinária, provavelmente um camponês simplório, de olhos vesgos e assustadiços que dava a impressão de amedrontar-se até com a sua própria sombra. Antes do conselheiro-mor me anunciar, ainda pude ouvir um pedaço do relato daquele homem atormentado
    — ...sim, senhores, é a mais pura verdade! Os espíritos das trevas estão soltos nas terras do ealdorman Elfric de Eynsham. Tememos todas as noites, trancados em nossas casas, que aquelas horrendas criaturas possam nos arrastar para o inferno. Padre, tudo que se diz sobre o inferno é verdade: os demônios vivem nas profundezas da terra e, assim que a noite cai, eles sobem à superfície para nos causar dor e sofrimento! Nossos rebanhos de cabras estão diminuindo, nossas plantações estão mirrando a olhos vistos, os animais das florestas, aves e até os peixes estão ficando cada vez mais escassos. Eles querem nos matar de fome para depois, certamente, barganharem comida em troca de nossas almas!
    — Senhor, meu Rei, Ethebaldo Hamtunn, chefe da Guarda Real está aqui. – Anunciou o velho conselheiro, apontando-me discretamente com as duas mãos trêmulas dos achaques próprios da idade avançada.
    O Rei me chamou com um discreto gesto de mão.
    — Este homem – disse-me o rei apontando o queixo para o Assustado – é o mensageiro do ealdorman Elfric de Eynsham. Diz ele que demônios surgidos das profundezas da terra estão destruindo e roubando as poucas provisões que conseguiram preservar durante o rigoroso inverno deste ano. Como deves saber, Elfric de Eynsham, mui generosamente, enviou seus guerreiros para se juntarem ao nosso exército em campanha contra os bárbaros pagãos vindos do norte. Agora, infelizmente, parece que o meu amigo leal está a mercê de criaturas demoníacas, sem poder contar com homens armados para defender as suas terras. Para piorar a situação, o religioso do lugar adoeceu! O pobre está entrevado no seu leito, lutando para se curar. Ordeno-te, então, que tu, Ethebaldo Hamtunn, escolhas cincos homens de minha guarda pessoal e acompanhes o padre Egbert até o território de Elfric de Eynsham para expulsar os demônios daquela região.
    Olhei de soslaio para o seboso e pançudo padre, ali ao meu lado, com aquela costumeira empáfia tola de achar que, por ser um representante do Altíssimo, tinha mais valor do que a força da minha espada. Antes de me ajoelhar e inclinar a cabeça para baixo, como forma incondicional de acolhimento da missão, o clérigo se adiantou a um passo dizendo:
    — Senhor, meu Rei, peço-vos que vossa alteza oriente enfaticamente este homem na total submissão às minhas ordens. Temo que a fama dele de indisciplinado e o menosprezo com que parece encarar os ritos religiosos da nossa Santa Igreja possam comprometer a perigosa tarefa que me destinas.
    O Rei voltou sua atenção sobre mim e rapidamente me ajoelhei, inclinando a cabeça levemente ao chão.
    — Ethebaldo. – Disse meu senhor, depois de alguns segundos calado, provavelmente avaliando o alcance das palavras do padre. – Olhai para mim!
    Antes de encarar, submisso, o meu Rei, lancei um olhar contrariado ao religioso, pouco não faltando para atirar-me naquele pescoço rotundo, a fim de dar-lhe uns bons safanões e fazê-lo engolir aquelas ofensas. Mas contive-me e posei o olhar placidamente na direção de meu Senhor. Ele não precisou dizer-me absolutamente nada! Magnânimo como era, o grande monarca apenas assentiu discretamente com a cabeça, como se quisesse me poupar da humilhação na frente do Seboso, dando a entender com o gesto a seguinte mensagem: não me desapontes e faças exatamente o que o padre te ordenar.



2
     A jornada às terras de Elfric de Eynsham durou quatro longos dias e transcorreu sem incidentes. Quando finalmente chegamos à aldeia principal, montados em cavalos exaustos, a presença do Padre Egbert, inesperadamente, causou a maior confusão. Os camponeses prostravam-se ao chão de joelhos por onde ele passava, rezando alto, beijando-lhe as botas encardidas, rogando-lhe pedidos desesperados para que os livrassem das crias de Satanás advindas das entranhas da terra. Fiquei abismado com os semblantes desesperados de horror em homens, mulheres e crianças. Era um medo irracional que jamais havia testemunhado, nem mesmo nas pequenas aldeias desprotegidas na iminência da invasão por bárbaros pagãos.
    Aquela comoção me causou um desconforto incomum e, pela primeira vez na vida, senti minha pele se arrepiar dos pés à cabeça, o estômago se revirar de modo estranho e o suor brotar abundante apesar do dia frio. O medo daqueles aldeões parecia se espalhar com o vento e nos tomar de assalto, sem que nada pudéssemos fazer para evitar senti-lo. Naquele momento, admirei o Padre Egbert de Wedmore, que mais parecia uma luz de serenidade em meio ao caos de horror daquela pobre gente desesperada. Meus homens tiveram que usar da força para intimidar alguns mais afoitos, pois pretendiam arrancar o clérigo de cima de sua montaria.
    — Alic, onde mora o ealdorman Elfric de Eynsham? – Gritei para me fazer ouvir por sobre as lamentações dos camponeses.
    O mensageiro apenas apontou o dedo indicador para a esquerda e meu olhar acompanhou o movimento. Percebi uma enorme e formidável construção, num aclive elevado, de onde terminava a estradinha poeirenta principal da aldeia e começava a trilha ligeiramente íngreme que levava ao reduto do senhor daquelas terras: era um castelo incomum, sem muros, mais parecendo uma gigantesca Igreja com portas e janelas em demasia, e sua posição elevada permitia, ao seu dono, acompanhar a movimentação dos camponeses por distâncias consideráveis. Sinalizei para que todos fôssemos logo visitar o Senhor daquele lugar.




3
    — Padre Egbert de Wedmore, e seus amigos, sede bem vindos às Minhas Terras. Lamento que as atuais circunstâncias não sejam as melhores a fim de prestar-lhes uma boa e tranquila acolhida. – Disse Elfric de Eynsham, montado em seu Cavalo, abordando-nos a meio caminho da trilha íngreme que levava à sua insólita morada.
    A despeito de conceder-nos a honra, muito rara, de um ealdorman receber seus convidados, dispensando os protocolos próprios da nobreza e do conforto das instalações de seu castelo, percebi que ele estava extremamente ansioso, irrequieto até, por compartilhar conosco informações sobre as supostas forças malignas que cercavam os seus domínios territoriais.
    Depois das rápidas apresentações e alguns comentários frívolos sobre o clima da região, emparelhamos nossos cavalos aos da comitiva de serviçais do ealdorman e continuamos, a trote rápido, a subida sinuosa da trilha. Enquanto subíamos, a conversa não tardou a encaminhar-se aos demônios invasores. E, antes que eu pudesse lançar as minhas dúvidas sobre a veracidade de tais criaturas infernais, que para mim não passavam de um refugo ordinário de ladrões de estradas disfarçados com peles de animais, eis que o senhor Elfric de Eynsham faz uma declaração surpreendente:
    — Padre, o senhor poderá avaliar a força destes demônios assim que chegarmos ao meu castelo. Ontem à noite, eu e três valentes camponeses conseguimos capturar um deles no velho truque da arapuca.
    Aquela notícia fez com que eu e o padre, pela primeira vez em toda a viagem, trocássemos olhares cúmplices de curiosidade, mas não percebi medo na fisionomia do clérigo, ao passo que ele deve ter visto em meu semblante minhas preocupações aumentarem consideravelmente. Nunca temi lutar com homem nenhum nesta terra, todavia entrar num embate com criaturas das trevas era algo que me deixava extremamente temeroso, não por morrer em combate, porque a morte faz parte do ofício de quem se vale das armas neste mundo de cão, porém preocupava-me, sobretudo, o destino de minha alma. Não queria passar a eternidade queimando na fogueira do Inferno!



4
    Hoje, passados mais de trinta anos, e de já ter visto de tudo nesta vida, ainda me causa arrepios quando me lembro do exato momento em que deitei os olhos por sobre aquela criatura do demônio. Era enorme e esquálida, tão magra que os ossos do corpo, revestidos de uma pele da cor do azeviche, podiam ser contados um a um em toda a extensão de suas formas constrangedoramente humanas. Da cabeça lisa, do crânio à vista, duas enormes orelhas pontudas agitavam-se como as de um coelho assustado, olhos completamente negros, profundos e perturbadores, moviam-se para todos os lados numa rapidez sobre humana, do nariz nada se via, da sua boca de dentes perigosamente finos e serrilhados, projetava-se uma língua fina, enorme, de ponta bifurcada, semelhante às de uma serpente venenosa. Era, enfim, uma criatura de aparência asquerosa.
    E, naquele momento, temendo a fúria do desgraçado por livrar-se das correntes que lhe prendiam os tornozelos, os pulsos e o pescoço às paredes do calabouço, desembainhei a minha espada pronto para corta-lhe a cabeça. O monstro forcejava a fuga sacudindo o corpo esquelético, inclinava-se à frente, emitia grunhidos que jamais havia ouvido de homem ou animal. Confesso que fiquei com medo de que a besta conseguisse se libertar das correntes. O senhor Elfric, parado no umbral do catre fétido, nos disse que não havia presenciado, desde a captura na noite anterior, aquele comportamento agitado do demônio, o que só poderia se explicar com a presença do padre Egbert. Meus instintos de guerreiro gritavam-me para que eu matasse a criatura infernal enquanto ainda estivesse acorrentada. Quando levantei a espada acima da cabeça e caminhei para o espírito do mal encarnado naquela coisa, inesperadamente esta recuou para a parede e se encolheu aquietando-se, porém eu sabia que as crias de Satanás eram ardilosas no seu pensar, por isso não me deixei levar pela misericórdia. O que eu não esperava era ouvir a vós alta e determinada do padre atrás de mim:
    — Ethebaldo, eu te ordeno que não o mates?
    — O quê? O senhor enlouqueceu? Além deste aí, ao que parece, há muitos outros lá fora destruindo animais e plantações...
    — Quero levá-lo à presença de Alfredo, o grande e seus súditos. Cortaremos a cabeça desta criatura, em praça pública. Temo que a fogueira não possa atingir este demônio.
    — Não entendi, padre! O que o impede de executá-lo em praça pública aqui mesmo nestas terras?
    — Muito simples. Os homens e mulheres deste lugar já reconhecem a existência destas criaturas maléficas. Por isso é que vieram a mim desesperados para que eu os livrasse do mal. Se existe o Satanás, não há porque duvidar da existência do Senhor, Meu Deus. Quero levar o temor e o respeito para com o Altíssimo, apresentando esta criatura viva aos homens de pouca fé do exército de meu Rei. Homens como você, Ethebaldo, são como o santo apóstolo Tomé: precisam ver, para crer.
    — Devemos matá-lo! – Disse contrariado.
    — Não! Já decidi. Vamos levá-lo à presença de Alfredo, o Grande.
    O ambicioso plano do Padre Egbert de Wedmore, Graças a Deus, caiu por terra poucas horas depois!


    5
    Após o dia agitado e as diversas discussões com o religioso, tentando dissuadi-lo de transportar a besta para a capital de Wessex, todos nós estávamos cansados da viagem. Por isso, não ousamos sair à noite e nos entregamos, exaustos, às camas macias do castelo. Apesar de um sono conturbado, consegui dormir algumas horas.
    No outro dia, à tarde, logo após a refeição principal, nos dedicamos a cuidar da espinhosa tarefa de preparar o transporte do demônio para Wessex. Depois de muito lutar com as correntes, espetar por diversas vezes aquela cria de Satanás com a minha espada, os meus amigos de armas, os serviçais do ealdorman, e o teimoso clérigo de crucifixo em punho, conseguimos arrastar a criatura maléfica para o estábulo, na parte superior do calabouço, e a acorrentamos fortemente em cima de uma carroça puxada por 4 cavalos. Ficamos muito satisfeitos com o trabalho realizado.
    No entanto, mal saímos para a claridade dos primeiros raios de sol daquela tarde, escoltando a carroça, a criatura demoníaca começou a emitir grunhidos assustadores que ecoaram por todo o vale, até mesmo por sobre o barulho das ondas do mar revoltoso que fustigavam os rochedos próximos ao castelo de Elfric de Eynsham. Vimos aparvalhados a besta, entregue ao mais puro desespero, se sacudir e se espernear violentamente, tentando voltar para o estábulo. Vimos a pele escura desprender uma fumaça fétida. O demônio, exposto ao sol, estava queimando a olhos vistos, como se estivesse lentamente derretendo, tal qual a cera que escorre do lume forte da uma vela comum. Os seus olhos, de repente, transformaram-se em duas pequenas bolas de fogo, enquanto a bocarra, escancarada de horror, projetava a língua bífida trêmula no estertor da morte que se avinhava rapidamente. A pele antes escura, tornara-se cinza, transformada numa pasta que escorria por sobre os ossos poderosos da criatura.
    — Santo Deus! O que aconteceu? – perguntei tão assustado quanto os outros que acompanhavam a escolta, afastando-me da carroça.
    — É um demônio das trevas e demônios das trevas parecem não suportar a luz do sol. Por isso, eles atacam apenas à noite. – Conclui o padre Egbert de Wedmore, decepcionado, é bem verdade, mas confiante na sua explicação de última hora.


    6
    O que vou relatar, agora, deverá mudar a concepção que temos aprendido durantes séculos sobre o inferno. Os padres costumam dizer que os demônios estão presos embaixo da terra, mas isto não é bem verdade.
    Depois de passar à tarde inteira vasculhando todas as cavernas nos arredores da aldeia e buracos suspeitos na campina à procura do covil dos demônios, voltamos ao castelo do ealdorman para descansar. Achamos sensato não empreender as investigações sob a escuridão da noite. Por isso, quando a madrugada já ia alta e o sono não vinha, resolvi abandonar o conforto do meu leito, descer e dispensar o sentinela no pátio frontal do castelo, e tomar o seu lugar na vigília. Era uma noite agradável, de lua cheia, uma leve brisa vinda do mar afagava com carinho as poucas folhas das árvores mirradas que recuperavam o viço depois de uma estação invernal intensa. Fiquei lá, sozinho, sentado num banquinho de madeira carcomido pelos cupins por um bom tempo, escutando o barulho das ondas do mar contra os rochedos ao longe.
    Mas a quietude durou pouco! Eles ousadamente tiveram a petulância de aparecer embaixo de nossas barbas!
    Hoje, me recordo nitidamente que não me esforcei muito para perceber as criaturas emergirem de um velho poço abandonado a setenta passos de onde eu estava. A luminosidade da lua era forte, permitindo-me acompanhar aparvalhado o que julguei ser uma desesperada missão de resgate dos restos mortais do demônio morto horas antes. O padre Egbert havia ordenado que envolvêssemos o corpo “derretido” numa mortalha branca e o deixássemos a qualquer canto para levarmos à fogueira no centro da aldeia no dia seguinte.
    Os demônios, eram três, agiam numa velocidade incrível que jamais vi em outro qualquer ser vivo sobre a face da terra. Rapidamente eles se deslocaram, correndo e dando saltos incríveis como se fossem extremamente leves, até o corpo envolvido na mortalha. Um dos demônios, o maior de todos, o que parecia estar liderando o resgate, puxou o corpo para si e, ajudado pelos outros dois companheiros menores, jogou-o sobre suas costas para retornar ao poço. Foi exatamente naquele momento que busquei coragem, até hoje não sei de onde, para suplantar o temor extremo de queimar eternamente na fogueira do inferno. Levantei-me do banquinho num pulo, desembainhei a espada e gritei o mais alto que minhas forças permitiam, enquanto corria de encontro aos demônios: “Em nome do Senhor, Meu Deus, ordeno que parem”!
    Naquele instante, fui milagrosamente arrebatado por uma visão divina! Uma revelação do Senhor, Meu Deus, para entender como o Satanás usa de artimanhas para ludibriar nossos olhos e se esconder em lugares que sequer desconfiamos.
    Quando os demônios já haviam chegado ao poço e foram atraídos pela minha presença, o líder deles olhou para mim de modo hostil, vingativo, quase me fazendo parar de medo, contudo sabia que Jesus Cristo amparava minha espada, e não me intimidei. A enorme criatura, então, carregando o corpo envolvido na mortalha às suas costas, voltou o olhar para cima, e foi naquele exato instante que a revelação do Senhor, Meu Deus, se fez presente! O céu pareceu se abrir num instante, tomado por um forte clarão. Olhei perplexo para o alto e vi uma enorme construção flutuante acima de nossas cabeças, de onde milhares de velas, resistindo inexplicavelmente ao vento, espargiam uma luminosidade estonteante em todas as direções do firmamento! Era um castelo descomunal, o maior que já vi, pairando no céu, emitindo uma luz mais forte que a própria lua! Minhas pernas fraquejaram e me ajoelhei largando a espada. Enquanto rezava desesperadamente que o Senhor me livrasse do mal, as criaturas maléficas foram puxadas para cima com o arroubo de uma ventania e engolidas por um buraco que se abriu na estrutura coletora de almas daquele aparelho do Diabo. Em seguida, enquanto ouvia a movimentação dos meus homens aturdidos dentro do castelo, a construção luminosa se elevou cada vez mais para cima, ganhando as alturas do firmamento, misturando-se às estrelas.
    Quando o padre Egbert e todos que estavam no castelo finalmente se aproximaram de mim, apenas conseguiram ver um dos mais valentes guerreiros do exército do Rei Alfredo, o Grande, prostrado de joelhos no chão, com os olhos esbugalhados de medo, apontando as mãos trêmulas para o alto rezando e balbuciando frases ininteligíveis: “Eles vêm do céu... não das profundezas da terra... os demônios se misturam às estrelas para nos confundir... Satanás está lá em cima também dividindo os céus com o Senhor, Meu Deus, em constante luta...  eles vêm do céu, não vêm das profundezas da terra...”
Comentários   

#9 Rafael Valore » 14-08-2014 21:31

Absolutamente excelente. Daqueles que eu sinto uma pontinha de inveja, que eu queria ter escrito eu mesmo. Arrepie-me com alguns dos parágrafos, como o citado pelo comentarista Victor Meloni acima. Na metade já tinha adivinhado o fim da história, mas isto não é necessariamente uma coisa ruim, pode ser muito divertido e foi. Irei definitivamente ler mais deste autor em breve.
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Rafael Valore

#8 Déia Tuam » 01-02-2014 23:32

Barão, o tema universal que você escolheu qualquer leitor irá reconhecer e se indignar. Em qualquer época da Humanidade os teus textos irão ecoar com tanta força.
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Déia Tuam

#7 Luiz Rocha » 13-09-2013 00:05

Seria bom se os mortos por latrocínio e outras mortes causadas pela ambição desmedida de algumas pessoas pudessem se vingar deste modo, retornando, mesmo que usando um corpo de um vivo, através de incorporação total, para puní-los pelos desmandos perpetrados. No entanto, não é assim, só na ficção literária e cinematrográfic a é :lol: que os mortos retornam e se vingam. Muito bom conto, narrado de forma clássica, com boa utilização das palavras, a recriar ambientes e eventos.
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Luiz Rocha

#6 Alexandre Ribeiro » 21-08-2011 13:54

Cara, maravilhoso texto, sombrio e polido, adorei o desfecho. Narrativa bem elaborada, substanciosa. Parabéns.
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Alexandre Ribeiro

#5 Afonso Pereira » 04-08-2011 13:27

Mestre Soriano, como sempre nos brindando com a sua prosa clássica, sofisticada, e permeada de mistérios que nos levam à ambientes fantásticos, de leitura prazerosa. Realmente, sem puxa-saquismo gratuito, por que isto qualquer um que aprecie a literatura fantástica pode confirmar, tu és um exímio e competente contador de histórias sobrenaturais. Mesmo no clichê clássico do morto que busca vingança de seu algoz, mesmo aí, tu consegues tirar leite de pedra e nos apresentar algo diferenciado de assuntos já revisitados. É isto aí Barão!
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Afonso Pereira

#4 Lorde das Sombras » 29-07-2011 22:40

Soriano, seus contos são muito bem escritos e engenhosos. Agora conte um segredo para nós, tu fazes vários esboços em papel antes da versão final ou já digita direto no computador? No meu caso só consigo projetar um conto no papel primeiro, num primeiro rascunho; depois digito no editor de texto e deixo lá "dormindo" algum tempo e depois retomo e vou cortando e modificando até a versão final. Conte o caminho das pedras para se chegar a uma narrativa de calibre como esta!
Mister Roger.
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Lorde das Sombras

#3 Victor Meloni » 27-07-2011 16:32

"...os segredos em que se ocultam as coisas abjetas têm a terrível virtude de se esgueirar pelas ranhuras das catacumbas, atravessar decênios adormecidos e se materializar em chantagem e extorsão". Bravo! Digno dos mais altos mestres da Litfan! Não à toa, o Barão é, por aqueles que sabem da sua literatura, (e digo sem receio algum de exagerar) um monstro contemporâneo das letras fantásticas, da magnitude de um E.A. Poe. Que fique registrado!
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Victor Meloni

#2 Lino França Jr. » 27-07-2011 14:17

É sempre um prazer ler as linhas traçadas pelo nobre Barão. Neste conto, o suspense e a sensação de terror iminente nos acompanham até seu desfecho. Excelente !!!
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Lino França Jr.

#1 Elsen Filho » 27-07-2011 13:52

Há algo de místico na irlanda que a simples menção da mesma já me faz pensar no irreal. Muito bom conto, Barão, desde a identidade roubada até a justiça final.
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Elsen Filho

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