A criança que não era

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       Não passava da meia noite quando ao sair de uma lanchonete, um som vago e indistinto me obrigou a examinar meus arredores, antes de retornar ao estacionamento.

      Ocasionalmente sensível a ruídos e outras emanações sonoras, não era incomum me assustar com acontecimentos desta natureza, porém após um breve momento de conjetura e reflexão, concluí que o som do vento naquela ocasião não passava de um casulo protetor ou esconderijo sonoro para a real fonte do meu assombro: um lamento indistinto de sonoridade aguda e textura crespa, semelhante a uma estática lamentosa, inquietando minha audição como um insistente espectro sonoro.

      Ponderei por uns instantes e prossegui sem me preocupar; beirei o meio fio quando senti o som ganhar corpo e solidez no mesmo instante que um vazio de escuridão dominou minha visão, e outro som minha audição.

      — Ei!

      Olhei para os lados e não vi nada, todavia identifiquei outros postes distantes à minha frente: só então me dei conta que tinha adentrado uma área sem iluminação.

     — Ei moço!

     Girei o pescoço, mas não consegui falar; de súbito uma gélida sensação de impotência e vulnerabilidade me paralisou: um náufrago sem remos em um oceano de escuridão, vigiado por uma rede sonora de vozes e lamentos me cercando como predadores aquáticos.

      Suspirei fundo e fui em direção à claridade. Andei com passos curtos e por um momento identifiquei apenas o lamento, mas a meio passo da ilha de luz, senti um jato frio circundar minha cintura; foquei minha audição e percebi que entrecortado pela estática, na verdade abaixo dela, outro som, um pedido, clamava atenção:

     — Moço, me dá um real?

     De mão estendida, uma menina de uns 12 anos segurava um bebê desengonçadamente, como uma boneca desarticulada; e na esquerda, uma boneca desarticulada chorava com a intensidade de um bebê.

     — Moço?

     Fui envolvido por uma manta gélida que pareceu emanar de nossa proximidade; algo invisível, porém presente, de densidade e qualidade própria, independente da atmosfera e do vento.

     Tentei falar e não consegui, mas distingui: o choro agora desprendido da proteção do casulo ventoso, tornado enfático pela minha proximidade, penetrava em meus tímpanos como a personificação sonora de uma angústia recém nascida, e mesmo sabendo se tratar de um mero artifício mecânico, o sentia como algo sólido e palpável, um visgo parasitário, aderente e pegajoso, sugando a atenção, aniquilando minha locução e capacidade de reação.

     Tentei.

     — Você... Está sozinha menina?

     Gesticulou uma negativa abraçando a boneca; encarei a face de plástico e borracha e de imediato fui tomado por uma descarga de vertigem e estranheza; menos uma sensação de previsível inquietação mundanamente urbana, mas um momento epifânico de fugaz entendimento da mecânica, profundidade e paradoxo do puro horror e estranhamento; fechei os olhos tentando não ver – desejando esquecer - e mesmo sem querer, novamente contemplei: esferas de vidro brilhante como pupilas pulsantes: cabelos castanhos de aspecto e tintura brilhante: membros rosados engessados em movimentos de carência materna, e abaixo da pintura do nariz plástico, desenhado em uma boca de lábios finos, um ambíguo sorriso petrificado inquietava minha visão como a representação material de um estrangulado choro mecânico: preso que estava no paradoxo de sua própria e absurda condição, aquele conflituoso estado entre ser e não ser, vida e morte, que não é nem um, nem outro.

     — Me dá um real?

     A insistência me arrancou de um estado que naquele momento tinha tomado por um súbito devaneio. Abri a carteira observando-a sentar-se ao lado de um poste elétrico; estendi-lhe a moeda.

     — Não me toque!

     — Só quero te dar...

    — Papai me falou que só ele pode... me tocar. – Abaixei a cabeça sem saber como agir; decidi não perguntar.

     Pus a moeda no meio fio olhando-a discretamente. Pela primeira vez enxerguei com clareza sua frágil constituição: uma profusão de inchaços, feridas e escoriações arroxeadas cobrindo suas coxas e região do umbigo como carapaças micóticas.

     — Está com fome? Quem fez isso com você?

     Retirei do bolso um pacote de amendoim e coloquei ao lado do dinheiro, mas ela não respondeu e para minha surpresa começou a alimentar a boneca.

     — Eu lhe dei o amendoim ...

     — Gosto de brincar com ela, dá menos trabalho que a outra.  - Sua voz era distante e pastosa.

     Colocou o bebê dormente no chão, balançando-o.

     — Vai machucá-lo menina. –Falei com certa irritação.

     Senti um impulso de levá-lo, mas antes de agir uma pergunta me deteve.

      — Não quer ver? – A voz saía opaca e o frio aumentava.

      — O quê?

      — Isso.

      Acordou-o em um susto; o choro mesclou-se ao lamento mecânico da boneca. Não fosse meu cansaço, certamente teria fugido com a criança de colo.

      Apontou o dedo para o bebê:

      — Quieto barulhento! Cala boca que eu estou cansada, viu!

      Virou para a boneca:

    — Quietinho amor. Hoje mamãe está cansadinha, viu amorzinho do coração? – Acariciou a testa e os cabelos. Estendeu a mão e desligou-a atrás do pescoço.

     — Tá vendo? – Olhou para mim. - Ela me obedece.  – Continuou alimentando- a.

      Se em algum momento em minha vida tenha me faltado palavras frente a um ato descabido, com tamanha subtaneidade e intensidade, não me recordo: se o choro mecânico antes pertubava, o real agora atormentava.

      — Onde você mora?

      — Depende.

      — Depende? Dê-me o bebê. – Aguardei.

      Segurou-o em um aparente gesto protetor, no mesmo instante que um objeto pontudo escorregou da manga do mijão. Olhei para baixo.

      — Têm fogo moço?

      Mesmo paralisado pelo horror do momento, peguei do meio fio um desgastado cachimbo de crack. Examinei-o e achei por bem devolvê-lo com a desculpa de tê-lo quebrado acidentalmente.

      — Vamos.

      Não respondeu, mas não insisti. Olhei-a de frente, por puro impulso... Estaquei: olhos de brasa vitrificados, vazios e carentes: abismos espiralados, incrustados em pupilas dilatadas, sugando inexoravelmente para seu vórtice meu temor e assombro: pérolas negras, pulsantes com vida artificial e caricaturas de vontade própria.

      Por um momento achei encarar um sonambulismo em pele e osso.

      -Não tem problema moço, quebram mesmo... Tenho de montão.

      Sua resposta me mostrou a inutilidade do meu ato com a clareza de um raio na escuridão.

      — Mas você... Quer dizer que você...

      —  Estou indo. - Interrompeu bruscamente.

      Tentei não olhar: não consegui.

      Levantou-se; acompanhei os passos cambaleantes alargarem nossa distância, enquanto a cortina de neblina a reduzia a um mero ponto cinza, um espectro solitário de transparência e vapor exalando na escuridão.

      Fechei os olhos me sentindo confuso e indeciso, sem saber se retornava ao estacionamento ou seguia: uma corda puxada em direções contrárias, forças opostas clamando território e eu, encarcerado em minha prisão de incerteza, clamando para mim mesmo ação e compreensão.

      Olhei para frente e não vi nada além da indefinição da escuridão umidificada pela neblina, manchada prata no brilho lunar, metamorfoseada veludo pela imperfeição da visão.

      Decidi não decidir, preferi não pensar e quando dei por mim, me vi impulsionado pelo lamento, agora um quase indistinto farrapo sonoro estendido no espaço como uma ponte frágil - cordão umbilical?-, me levando para um destino ignorado, um rito de passagem para algo que eu não definia... Mas sentia.

      Apertei o passo furando a incerteza, tentando definir o indefinido, e distinguir, o que no momento, me pareceu ser a voz da garota, mas cercado que estava pela monotonia do vazio e mesmice monocromática, só quando alcancei o meio fio pude reconhecer abaixo de um poste distante, o mesmo ponto cinza ascendendo os degraus de uma estrutura alta e angular, semelhante a um depósito.

      — Garota, o bebê!

      Uma descarga de adrenalina me possuiu; desci o meio fio como que atraído por uma espiral imantada de vontade e mistério, porém alcançando os degraus, percebi que o que tomava por um ponto cinza móvel no espaço, não passava de um ponto cinza móvel: uma caixa postal sustentada em uma frágil base de ferro: inquietada pelo vento, tornada luminosa pela emanação lunar na superfície acinzentada.

      Olhei para cima e percebi que meu opaco abrigo de luz agora operava como a lembrança de minha condição:a certeza de estar cercado por algo etéreo e indefinido, além de sombra e neblina.

      O vento sibilou; senti um som solidificar, e da periferia de minha perplexidade, uma imagem mental cristalizou com a nitidez de uma fotografia em alta definição: uma criança de boca petrificada pendurada em uma cruz, lamentando para o nada com lágrimas de óleo e resina: a vertigem que não era: um pesadelo tornado carne pela insistência do real.

      “Moço?”

      Toquei as têmporas buscando foco, e racionalizando o irracionalizável, concluí que o chamado, diferente da imagem, emanava de fora para dentro, ou melhor: de fora da casa para dentro de mim: “Moço?”

      — Cadê você? – Olhei para os lados, mas não distingui.

      Examinei a fachada do depósito como se contemplasse uma pintura decadente parcamente iluminada: uma aglomeração de mofo aqui, uma emanação fungóide ali, um reboco caído acolá: rachaduras esverdeadas entrecortando tufos de matos e ervas daninha como varizes rebeldes; janelas de olhos cansados e madeira bolorenta revelando na carência de vidros e vitrais, interiores de realidade e substância penumbrosa; tintas descascadas esparramadas na calçada como resquícios de maquiagem vencida e máscaras de gesso; fluorescências lunares colocando em parco relevo rugas de chapisco e feridas abertas de cimento úmido; pinceladas de sombra e escuridão como excessos de ausência em um canvas branco: por um momento não soube se olhava para uma matéria envolta em mistério, ou uma vertigem recém-nascida: o vazio que não era: minha dúvida sólida... Viva, vívida e pulsante.

      Fechei os olhos, suspirei. Subi os degraus de cabeça baixa medindo minhas pisadas como se explorasse um campo minado; adentrando o umbral, um feixe de prata lunar da janela lateral feriu minha visão com uma fileira irregular de sacos de estopa dispostos no chão como peças de xadrez. À frente deles, onde a luz não tocava o piso, refulgências de formas e tamanhos distintos decoravam a escuridão aleatoriamente como pontos brilhantes e pulsantes: se eu vivesse o suficiente para presenciar algum apocalipse, ou a descida do firmamento estrelado em solo terrestre, certamente me lembraria do efeito.

      — Garota?

      Um som me retornou como a personificação sonora de uma língua extinta: se era meu chamado retornado como um eco raquítico, ou um espectro ruidoso proveniente de outra fonte sonora, não sabia.

      Andei uns dois metros e examinei o feixe de luz do umbral ao teto; percebi uma movimentação na parede semelhante a uma dança brusca e espasmódica, como um teatro de sombras silencioso e convulsivo.

      — Onde está o seu pai! Está me ouvindo?! – Insisti.

      “Moço, só o papai... Só ele viu?”

       — Cadê você?

      Senti sua proximidade pela intensidade pastosa de sua voz enquanto me aproximava do feixe luminoso; ouvi o lamento seguido do mesmo choro e abaixo dos meus pés outro som me obrigou ajoelhar. Antes de tatear por completo distingui a forma de uma seringa; à minha direita o que tinha tomado por pontos luminosos como estrelas, na verdade se tratava do brilho de agulhas usadas e papelotes laminados entrecortados por cachimbos de crack, estiletes e outras seringas. Levantei-me e fui aos sons que pareciam emanar à minha esquerda: andei, olhei, atentei... Petrifiquei: uma onda de medo me dominou quando distingui sacos de estopa como cobertores abrigando movimentos abstinentes e convulsivos, refletidos na parede como atores de sombra em um drama real de vício, abandono e pobreza. Preferi não olhar para os mendigos, mas eles retornaram com olhos de vidro e abstinências insistentes; minha proximidade ao som lembrou-me que a manta fria era do mesmo teor da garota: se eu tivesse dado mais dois passos morreria congelado.

      Neste momento tive a certeza que não apenas viveria o suficiente para presenciar um apocalipse, como estava no meio dele: tumultuoso, convulsivo e real.

      Os sons intensificaram e distingui o choro da boneca à minha direita; girei o pescoço: onde antes pairava um aglomerado de incerteza e escuridão, ao lado do último mendigo, agora refulgia uma moldura luminosa; dentro dela, a garota me olhava com olhos lânguidos e boca cerrada, como se encarcerada em um castigo de silêncio opressor.

      — De onde vem essa luz? Este é o seu pai? –Apontei para o mendigo.

      — Me dê o bebê... Venha comigo, quero te ajudar. – Insisti.

      O frio intensificava na medida em que sua boca se perdia em espasmos e ondulações musculares como que impactada por ondas de choque elétrico.

      — De onde vem esse frio?

      Silêncio.

      — Porque que não responde?

      Observei-a por um momento e olhei para o mendigo, agora tão imóvel quanto ela; decidi não abordá-lo.

      — Este é o seu pai?

      O silêncio da garota começava a pesar em meus nervos.

      — Venha comigo... Garota... Pelo menos me dê a criança. Vamos! – Gritei.

      O bebê disparou a chorar no mesmo instante que os lamentos intensificaram; fui envolvido em uma cacofonia sonora que me obrigou a proteger os ouvidos; tentei me mover... Não me movi, gritar e não consegui, mas senti, ouvi e senti: gritos, lamentos, estáticas, espasmos e abstinências me imobilizando em um iceberg de incerteza, temor e assombro, uma prisão de paredes úmidas e grades de gelo, sustentada pelos alicerces da realidade.

      Respirei fundo de olhos fechados e com um último resquício de energia avancei de braços estendidos para a garota:

      — Não me toque !!!

      Um jato frio me envolveu quando senti o toque de sua pele (ou o que tomava por pele) em minhas mãos: fui tomado, acho eu, por uma série de espasmos e convulsões como se agulhas afiadas e lâminas de vento frio penetrassem em meus ouvidos e narinas; vi-me momentaneamente imobilizado em um casulo de vapor congelante no mesmo instante que um fugaz entendimento lampejou em minha mente: a sensação de ter atravessado uma densa cortina de fumaça gélida.

       A última coisa que me lembro foi o sangue aderindo em minha face como um verniz pegajoso, produto do trauma provocado pelo meu impacto na parede chapiscada.

      E agora, depois de vinte anos, ainda hoje lamentos me assombram e perseguem. Levanto-me da cama, e da janela no primeiro andar observo-a abaixo de um poste com uma mão estendida: os mesmos olhos, pedidos, bonecas (reais e imaginárias), sons e ausências, os mesmos...

      Desço as escadas de pijamas para me encontrar com minha... Lidar mais uma vez com meu assombro e incerteza: meu gélido espectro de vapor e obsessão, um fantasma possessor, mas um fantasma vivo, vívido e real: feito de dor, choro, carne e abandono.

Comentários   

#6 Rodrigo Maia » 30-10-2013 20:26

O ritmo da escrita é bastante intenso e o texto é muito bem acabado, fiquei na expectativa de um final um pouco mais surpreendente,p orém isso não tira o mérito deste grande conto. Parabéns Ramon.
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Rodrigo Maia

#5 Luis Ferre » 16-03-2012 03:36

Intenso demais!!!

Parece que você entra no vortex surreal do personagem!

Gostei muito da experiência!

Não conhecia a obra do Ramom e gostei do que li, vou procurar mais :lol:
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Luis Ferre

#4 Ramon Bacelar » 30-07-2011 13:25

Elsen: Pelas suas observações (sempre certeiras) acho que consegui transmitir minhas intenções, o que que me deixa satisfeito pois textos subjetivos em primeira pessoa são (para mim) sempre difíceis e esse foi especialmente complicado por abordar um tema contundente. :roll:

Regina: Você não imagina o rebuliço que foi o processo de escrita e revisão . :-x :sigh: :roll:

Barão: Obrigado pelas palavras e observações!
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Ramon Bacelar

#3 Paulo Soriano » 30-07-2011 07:25

Parabéns, um texto lírico e pungente!
E que bela passagem:
...olhos de brasa vitrificados, vazios e carentes: abismos espiralados, incrustados em pupilas dilatadas, sugando inexoravelmente para seu vórtice meu temor e assombro...
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Paulo Soriano

#2 Regina Amaro » 29-07-2011 14:54

Eu fiquei comovida, um texto desse faz um rebuliço com a gente
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Regina Amaro

#1 Elsen Filho » 29-07-2011 11:59

Meu irmão, o texto é angustiante, parabéns!

É o tipo de estória que temos que ler com o devido cuidado para apreciar o foco na percepção e nas sensações do personagem narrador, sem corrermos o risco de mergulharmos demais no pesadelo.

Muito bom, camarada.
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Elsen Filho

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