Chacal, o Cão do Inferno

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      Dirigir pela estrada escura e deserta não era nada para mim. A chuva poderosa que irrompeu do céu carrancudo, com seus trovões retumbantes e seus relâmpagos de fogo, não me assustavam. Aguentar as lamúrias de minha esposa no banco do passageiro por toda a viagem era o que me consumia por dentro. Reclamações, lamentos, e queixas sem fim. Meus ouvidos pareciam sangrar. Minha cabeça ao ponto de explodir a qualquer momento. Altas horas da madrugada e eu mal sabia onde estava. Apenas seguia as linhas da estrada. De súbito surgiu logo à minha frente, uma leve ondulação avermelhada. O carro foi se aproximando com velocidade e de longe identifiquei um hotel acanhado. Ali estaria minha salvação. Por poucas, mas preciosas horas, meu espírito poderia descansar sem o infernal gralhar da minha mulher.

    Sinalizei saindo da estrada sem antes ouvir o crocitar da megera:

    — Vai parar pra dormir? – perguntou o óbvio – Você está ficando velho mesmo – emendou a dama, antes que eu pudesse respirar.

    Hotelzinho barato de beira de estrada, mas para mim serviria como um cinco estrelas.

    — Dois quartos, por favor – pedi ao velho taciturno que saiu da penumbra de onde se via um pequeno cômodo com uma televisão de imagem chuviscada.

    O velho buscou as chaves nos escaninhos de madeira, e as jogou no balcão com má vontade. Num prego torto e enferrujado na parede, pendia um quadro com moldura envelhecida e coberta de pó. Na foto, um enorme cachorro negro me encarava com olhos fulminantes e ameaçadores. No rodapé da gravura, lia-se o nome do nada amistoso cão: Chacal.

    Estendi o cartão de crédito sem sequer perguntar o preço das estadas.

    — Obrigado – respondi para o silêncio do velho.

    Nem quis saber de tirar as malas do carro. Olhei no relógio e constatei que já se aproximava das duas horas da manhã.

    — Vê se acorda ás seis horas – a cobra sibilou às minhas costas. – Do jeito que você é lerdo, é bem capaz de perder a hora e chegarmos atrasados ao casamento da minha irmã – prosseguiu, mas não lhe dei atenção.

    Entrei no quarto escuro que recendia a mofo e perfume barato. Não me importei. Tirei as botas e abandonei o corpo sobre a cama de colchão fino. Adormeci quase que instantaneamente.

    Meu sono não foi suficientemente pesado quanto eu desejava. Abri os olhos e verifiquei no rádio relógio que ainda eram três horas. Não notei o que havia me acordado e quando estava quase voltando a cochilar, ouvi os primeiros latidos.

    Inicialmente pareciam vir de longe, mas aos poucos foram se aproximando cada vez mais do hotel, e o maldito cachorro parecia que não iria parar tão cedo com a barulheira. Tive a impressão de que alguém estava instigando o cão, pois este parecia alucinado, e seu latido aumentava na mesma proporção em que seu rosnado raivoso se tornava mais intenso.

    Não aguentei e acabei levantando. Observei pelo olho mágico, mas nada vi. Esperei mais um pouco, e então os latidos cessaram por um momento. Voltei a deitar e cochilei de novo.

    Despertei novamente por causa dos latidos furiosos do cão, que agora estavam muito mais próximos. Certamente ele estava bem mais perto da porta do meu quarto dessa vez.

    O rosnado grosso e cheio de cólera do animal, começava a me incomodar de verdade. Não só pelo fato de não me deixar dormir, mas eu estranhava toda aquela fúria do bicho, que, entretanto, não atacava de uma vez quem o estava provocando.

    Por poucos segundos o barulho cessou. Mirei outra vez pelo olho mágico e nada. Encostei o ouvido na porta e pulei de susto, pois uma batida forte veio de encontro à porta, e os latidos e rosnados recomeçaram. Sons de patas arranhando a madeira com força. Comecei a chutar a porta e gritar em resposta para que o animal se assustasse. Novamente o som parou. Então esperei. Pacientemente aguardei alguns poucos minutos. Me enchi de coragem e resolvi abrir a porta. Dei dois ou três passos vacilantes e me apoiei na barra de ferro que cercava o corredor dos quartos do hotel, olhando para a frente. A porta do quarto da megera permanecia imaculada, mas a do meu quarto estava parcialmente destruída. Pelo tamanho do estrago o cachorro devia ser um monstro. Imaginei o bicho pesando uns cinquenta quilos e com garras maiores do que minhas próprias mãos. De repente, senti aquela estranha impressão de estar sendo observado. Olhei ao redor e não vi nada. Não esperei para saber se havia algo à minha espera. Bati a porta do quarto e passei o trinco na fechadura enferrujada. Sentei na cama e fiquei tentando ouvir alguma coisa. Meu sono já havia passado.

    Os latidos recomeçaram, mas desta vez não tão agressivos. Entretanto, foram suficientes para aturdir a outra fera presente naquele hotel. Acima do som dos latidos, ouvi a voz de minha estimada senhora que abria a porta no quarto ao lado:

    —  Alguém vai fazer este maldito vila-lata calar a boca de uma vez por todas? – questionou aos gritos com sua doce voz de gralha.

    A resposta foi rápida. Um som seco como uma batida na porta chegou aos meus ouvidos. Depois disso, apenas os berros enlouquecidos de minha esposa, entrecortados pelos guinchos e rosnados enfurecidos do cão, que invadira o quarto ao lado e a atacava sem piedade. Consegui identificar perfeitamente o ruído de carne sendo rasgada e ossos sendo triturados sem dó. Os gritos da mulher finalmente cessaram por completo depois de alguns minutos.

    Abraçado a um travesseiro não conseguia me mover. Sentia o suor descer por meu pescoço e o ar saia com dificuldade da minha garganta. Não tinha coragem de levantar e constatar o óbvio. Depois do ataque não percebi mais sinal do cão assassino. Aparentemente o animal já tinha saciado sua fome e ido embora. Era o que eu esperava.

    Permaneci desta forma até o dia começar a clarear. Levantei da cama e com passos indecisos me aproximei da porta. Nenhum som. Destranquei-a e a abri inseguro. Pela fresta, notei a porta do quarto ao lado entreaberta. Aos poucos fui tomando coragem para atestar o estrago que a fera havia feito. Parei na metade do corredor quando ouvi um rosnar baixo às minhas costas. Voltei correndo para meu quarto, bati a porta sem trancá-la, e pulei na cama tentando me proteger, mas já era tarde demais. A porta abriu-se rangendo sombriamente. Eu ouvia o rosnado raivoso se aproximando, mas não conseguia enxergar o monstro. Encostado na parede, tentava me proteger com um inútil travesseiro. Percebi perfeitamente o movimento do cão subindo no colchão. As marcas das patas afundavam no lençol, e o rosnado assustador se aproximava cada vez mais de mim. Estava na presença de algo sobrenatural. O hálito quente e úmido da fera achegava-se a mim, e eu o sentia na pele, mas não havia nada físico naquele quarto. Nada que meus olhos pudessem reconhecer. O rosnado grave e selvagem do animal estava tão perto que pensei que aqueles seriam meus últimos segundos de vida. Quando o ataque iminente parecia fatal, as marcas de patas no colchão começaram a se afastar. A respiração ofegante da besta foi ficando mais longe, e a porta moveu-se vagarosamente, indicando que o cão infernal havia se retirado.

    Minha camisa estava colada ao corpo pela transpiração. Senti meus cabelos molhados na testa, e fui surpreendido por um arrepio quando um gélido vento entrou pela fresta da porta. Não poderia mais esperar. Cheguei à entrada do quarto e saí pelo corredor deserto. Parei por poucos segundos em frente ao quarto de minha esposa. Sangue por toda parte. Chão, cama, móveis, teto e tudo mais banhado em vermelho, e nem sinal do corpo. A refeição fora completa.

    Cheguei ao carro e tive dificuldade em colocar a chave na fechadura devido ao tanto que minhas mãos tremiam. Arranquei com o veículo, cantando os pneus e deixando um rastro de fumaça para trás.

    Não parei de dirigir desde então, apesar de vez ou outra, ter a impressão de ouvir um rosnado baixo no banco de trás.

 


Comentários   

#5 Flávio de Souza » 15-09-2011 12:27

Apesar do susto, acho que o sujeito deixou escapar um sorriso no canto dos lábios...muito bom, Linão!
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Flávio de Souza

#4 Rodrigo Maia » 14-09-2011 15:05

Gostei da forma despretensiosa da narrativa,deixo u o texto bem fluido. Show de bola !!! 8)
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Rodrigo Maia

#3 Alexandre Ribeiro » 10-09-2011 11:58

Excelente, Lino, a afeição do cachorro pelo marido incauto faz todo o sentido, uma questão de gratidão, já que o aliviou de um peso morto (a megera). Brilhante a idéia, e o legal, é que não tinha uma forma corpórea, era um espectro. Muito visual o texto. Excelente. :lol:
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Alexandre Ribeiro

#2 Emerson Pimenta » 08-09-2011 02:34

(...)acho que ele saiu ganhando nessa :-* [+1]

Hahahaha Verdade!
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Emerson Pimenta

#1 Tânia Souza » 07-09-2011 15:45

Nossa, que angustiante, mas de certa forma, acho que ele saiu ganhando nessa :-*
+1 +−

Tânia Souza

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