Olvido anjo da luz

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Nota: Talvez a única expressão que possa explicar essa história seja a mágica frase “O mínimo de sugestão”, cuja também majestosa autoria Henry James assina. A demora, creio, até que o último ponto tenha sido pressionado, é explicada única e exclusivamente pelo hiato de tempo necessário para sua completa criação, só assim é que foi possível dar-lhe vida, e de nenhuma outra forma mais.

LNN

 

 

 

É como se um anjo tivesse descido do céu, fazendo daquela casa sombria, um lar alegre e confortável. Não seria triste se o anjo os abandonasse, voltando para o lugar donde veio?

A Casa das Sete Torres – Nathaniel Hawthorne

 

 

Parece-me que a vida, hoje, não possui aquela magia, quase sobrenatural, que existia há setenta anos, aproximadamente. Não tenho parâmetros para analisar, afinal naquela época não vivi; sou dos anos oitenta, época ‘inda melhor do que a atual, mesmo atrasada em tecnologias. Quem poderia afirmar o que digo seria o meu avô, não fosse sua súbita morte. Perdi-o há quase três anos, um pouco menos. Tinha ele quase noventa, um verdadeiro baú de conhecimento e histórias que quase nada aproveitei. Hoje guardo as poucas conversas que tivemos em um lugar especial em minha lembrança, e que vez ou outra tenho o prazer de revisitar. Conversas alegres na grande maioria, mas também conversas em tom melancólico, sempre evitadas. A história que tenho para narrar aconteceu justamente com meu avô, n’uma das oportunidades em que ele teve para viajar Brasil afora. Posso afirmar que marcou profundamente em seu âmago, também psicologicamente, sem jamais esquecer um segundo sequer daqueles tempos.

O ano foi o da graça de 1940, quando ainda completaria seus tão poucos vinte anos e deixava sua mocidade de lado para adquirir experiência e responsabilidade adulta, na ocasião em que chegara a “Paris dos Trópicos[1] e se instalara n’uma já antiga pensão que abrigava apenas três pessoas, duas das quais em idade já bastante avançada e a terceira ‘inda no frescor da idade (em sua face, aparentemente, a paixão pela vida). Reparou sem dificuldade tratar-se dos donos daquela pensão e imediatamente achegou-se a eles.

O casal de velhos respondia pelos nomes de Horácio Fontes e Guilhermina Fontes de Barros. A moça, por sua vez, a que estampava paixão pela vida na face e que também recebera meu avô, respondia pela graça de Maristela Fontes. Vovô, tão logo pegou as chaves de seu quarto, dela despediu-se. Para ele, aquela antiga casa, provavelmente d’um antigo barão, passava uma horrível sensação ao simples olhar. Era-lhe forçoso respirar aquele ar desgastado. Os cantos mais escuros pareciam esconder qualquer cousa de ominoso, e não se surpreenderia se soubesse tratar-se d’um lugar mal-assombrado tamanho mal-estar que sentia. Em sua imaginação foi possível reconstruir as histórias por que passara aquela velha pensão, bem como as energias negativas que absorvera desde que firmaram-na ao solo. Deduziu ser este um dos motivos de há muito estar praticamente desabitada. Talvez tenha sido melhor assim.

Já em seu quarto, custou a pegar no sono. A noite veio acompanhada por uma enorme borrasca, alongando-se com uma tormenta. O amanhecer do dia seguinte provou que a chuva havia sido forte, mas também que havia dado uma boa trégua; isso facilitou muito as coisas. Em meio às nuvens, o sol sorria e abençoava, beneficiando desta forma os homens que arrumavam os estragos provenientes da tempestade. Meu avô, muito prestativo, ofereceu-se para auxiliar no conserto de algumas janelas da pensão que haviam quebrado. Foi assim que conquistou a simpatia dos vizinhos, e assim aproveitou para desfrutar de algumas amizades, segundo ele, muito boas.

Vovô, quando sua parte do serviço foi terminada, e, por isso, dispensado – creio que o pessoal que arrumava os estragos não queria que o jovem visitante se machucasse; voltou para o seu quarto. Antes disso, porém, encontrou o senhor Horácio Fontes escorado no balcão, e com ele resolveu versar uma charla.

— Algo o aflige – disse meu avô, afetuoso.

— Muitas coisas – respondeu-lhe o dono da pensão – Minha saúde não está nada boa, bem como a da minha esposa, Guilhermina. Meu peito dói quando respiro, e minha esposa sofre de dores agudas nas costas, logo acima da cintura.

— Meu caro senhor, sinto muito que esteja sentindo dores no peito, e também sinto por sua digna esposa. Não sou médico nem botânico, mas, por intermédio de meus pais, conheço o poder de muitos chás. Se quiser, faço-lhe imediatamente.

— É você um jovem riquíssimo. Conserve contigo este espírito receptivo e bondoso, isso basta para uma boa vida. Não é necessário comigo se preocupar. Vá fazer o que tem de fazer. O café será servido em meia hora.

Despediu-se então e foi para seu quarto. Lá, o que deveria ser alegria, conhecer lugar e pessoas novas, passou a ter um valor invertido, soava como um espectro que assombrava a vida de todos. Talvez tenha sido o destino que lhe pregara aquela troça, de mau gosto por sinal, colocando-o como simples espectador de algo que possuía autômata força e tirando-lhe qualquer poder de reação. Viu ele a ascensão da pensão e a queda – tendo visto de perto esta última; nos olhos dos donos mais velhos. Algo triste por demais, que foi incapaz de esquecer, e ainda o seria caso pudesse mais dez anos viver.

Seu quarto, lúgubre, resguardava muito de um passado enterrado, porém há pouco apodrecido. Tais quais os corpos dos nossos sepultados, que em minúsculo tempo viram comida dos vermes, aquele era o quarto, talvez, mais desvantajoso da pensão. Não perguntei ao meu avô o motivo de tê-lo escolhido, mas acho que foi ao acaso. De qualquer forma, nada iria lhe acontecer. Ele olhava para as sombras dos móveis e percebia que elas eram mais profundas e definidas, provavelmente pela posição em que o quarto estava em relação ao sol. Uma pequena parcela de toda a pensão, resguardando para si um pouco de conforto e aconchego. Nos móveis, dependendo do horário, espalhavam-se as sombras de tal forma que seria impossível distinguir seus contornos, fazendo cair, ainda que auxiliado por pequeno lampião, qualquer um em que lá dormisse n’uma escuridão sem limites. Em certos momentos do dia, era a – pouca – luz que o quarto recebia que vinha com outra pequena dose de negridão, impossibilitando a completa iluminação; isso quando a espessa cortina não filtrava ainda mais a luz. Negrume esse acentuado pela fraca luz elétrica amarelada, que mais causava irritação aos olhos do que iluminava. Talvez a única parte do quarto que a luz com força penetrava era a janela, mesmo que não de forma consistente, nem clarão ou vislumbre, antes uma imagem que se destaca do resto do quarto por possuir cores; uma iluminação direcionada mais ao chão, como que envergonhada ao chegar em lugar desocupado, e quando um ou outro fio de luz batia no lado oposto ao da janela, eram como olhos que se abriam repentinamente, tímidos. Quando no auge da escuridão, qualquer ruído, ou o próprio tiquetaquear do relógio de meu avô, era ferozmente engolido. No instante de treva, “mergulhamos no caos, devemos escutar o ruído dos furacões que suspiram e murmuram à procura de um mundo![2] Quanto aos momentos em que o quarto ainda tinha uma esmaecida iluminação, os ruídos, o tiquetaquear do relógio, o cantar dos pássaros possuíam, mesmo que audíveis, uma estranha fraqueza sonora incapaz de ser explicada.

Era assim o quarto em que meu avô viveu aqueles dias. Não o melhor quarto do mundo, talvez ainda o pior; tenho certeza que era um lugar que conheceu novas vidas e viu velhas vidas serem ceifadas. O quarto e a pensão. Vovô não soube explicar direito, tentou usar de todos os subterfúgios e adjetivos de seu conhecimento à-toa, mas o caso era que o quarto exercia um estranho fascínio sobre ele, provavelmente pelo passar do tempo em que lá ficou – admitiu que cuidava para não mergulhar inteiro nas sombras do quarto, de modo a não se deixar levar pelo pesar que vagava pela pensão.

Exatamente após meia hora o café foi servido. Sem atraso, vovô já se abancara com uma boa xícara à sua frente. O café no ponto, o pão já cortado e sobre um prato, a geléia de Camu-Camu, tudo conforme o gosto dos três donos da pensão. Meu avô não tinha do que reclamar. Além de ter sido recebido muito bem, era tratado como se pertencesse à família. Acho ainda que, caso alguém chegasse desavisado, pensaria que ele realmente fazia parte da família, um primo vindo do sul provavelmente. Tenho certeza que faria o maior gosto.

Outra meia hora se passou e um novo hóspede chegou. Era mulher. Uma linda mulher. Ainda garota em seus trejeitos, mas passava a sensação de ter mil anos de experiência. Estava faminta, por isso o café da manhã foi servido novamente. Vovô ficou a observá-la da escada. Disse-me que um estranho brilho desprendia-se dela, era uma luz que emanava de algum lugar superior, sendo ela uma espécie de ligação dos céus com a terra. Logo ele subiu ao seu quarto com esta latejante sensação no peito. Por várias vezes perguntou para si próprio se o que vira desprender-se dela era uma luz ou uma pequena ilusão. E essa dúvida passou a incomodá-lo pelos três dias que se seguiram, mormente quando passava por ela sempre que se dispunha a ajudar nos afazeres que muito bem lhe cabiam.

Foi aos poucos que a transformação aconteceu. A bela mulher, sempre mantendo seus trejeitos juvenis, parecia ser a responsável por colocar um sorriso mais colorido nos lábios dos anciões Guilhermina e Horácio. Meu avô foi o primeiro a perceber esta sutil mudança, mas resolveu por ora não comentar, apenas sondar o porquê desta mudança para melhor. Perguntava para um e para outro como se sentia naquele momento, todos os dias desde então, sempre envolto de perguntas acerca de outros afazeres para não dar bandeira, recebendo resposta cada vez mais animadoras. Percebeu então que não era uma ilusão, que a bela mulher realmente trouxe consigo uma luz capaz de abençoar, ou como vovô disse: “Uma vida nova para todos daquele lugar, um sopro de felicidade que alumiou cada canto escuro daquela pensão.” Inevitável foi não pensar na incrível coincidência da relação da chegada dessa bela mulher com a nova fase, o novo momento, esse mais alegre do que o seu passado recente, pela qual a pensão vivia.

Meu avô apenas fechava os olhos para lembrar-se de tudo o que lá ocorreu. Com grande facilidade pôde transportar-se até o longínquo ano de 1940 e voltar a respirar aquele ar mais puro, bafio apenas dentro da pensão. Pena que não pude ir junto, eu iria gostar; mas as lembranças de uma pessoa pertencem apenas a ela. Compete a mim tão-somente imaginar.

A presença da bela mulher, a alegria e a luz que dela exalava foi, enfim, percebida por todos. Quando antes de sua chegada a pensão era um lugar praticamente asqueroso, evitável, tornou-se – com sua abençoada presença – um lugar habitável, vivo. Pulsante. Nem Horácio nem Guilhermina sentiam dores, ou se sentiam não passava de lembrança. Rostos corados, pareciam novamente crianças. Para Maristela, um milagre (ou quase), a completa realização de seus sonhos – vê-los felizes era sentir-se também feliz. Vovô apreciou essa mudança, e sentiu junto a luz infiltrar-se na pensão e no coração de cada um deles. Até novos hóspedes receberam, coisa que pouco acontecia nas últimas três décadas, pelo menos.

Meu falecido avô iria gostar de me ver contar esta história. Uma triste história, mas muito rica, sobretudo em seus pormenores. E o pormenor que desencadeou a desgraça não tardou em acontecer. Assim como, de repente, a garota chegou, também de repente uma estranha doença acometeu-a. Eu nunca me preocupei em perguntá-lo exatamente quando, durante o período em que lá passou, isso aconteceu, e a julgar pelo fato dele não ter mencionado a data exata, posso muito bem concluir que, para meu avô, isso não fazia a menor importância.

Vovô novamente foi quem pressentiu primeiro uma estranha apatia desta hóspede, ainda que aquela luz que dela desprendia-se nem por um só segundo apagou. No fim, Horácio e Guilhermina dependiam dela. Talvez a garota não tivesse percebido o bem que fazia para o casal ancião e para toda a pensão – uma vez que toda aquela escuridão parecia ter desaparecido quase por completo; ou se tivesse, não fazia disso uma vantagem. Ela passou a ser considerada um anjo dos céus, que trouxe consigo luz e alegria de viver. Além de ter sido o primeiro a ter percebido uma apatia, foi vovô também o primeiro a constatar: “A morte desta garota é a morte de Horácio e Guilhermina.” Vovô, embora jovem, era astuto. Percebia as coisas muito rápido, sempre foi assim. Sábio também, apesar de tudo. E durante a sua narrativa, recordo-me bem, olhou direto para os meus olhos e, incisivo e judicioso, utilizando o que lhe ocorreu como experiência, avisou-me algo que sou incapaz de esquecer: “Não podemos aceitar que o sopro repentino de alegria seja gratuito. Algo por detrás disso se esconde. Na maioria das vezes é bom. Entretanto, um intento, ainda que divino, mas que para nós tem o peso da morte, cheio de pesar pode esconder-se. E quando é mostrado sua face, ou será tarde demais, ou todos estarão impossibilitados de reagir.” Com vovô ocorreu especificadamente este último – impossibilitado de reagir. Mas é mister afirmar que ambos aconteceram com todos, sem exceção.

A saúde da bela garota começou a declinar. Foi percebido quando, n’uma manhã qualquer, ela sequer se levantou de sua cama. Preocupados todos ficaram, e Ananias, o médico, às pressas foi chamado. Depois de alguns exames feitos ali mesmo no quarto, nada mais Ananias pôde dizer senão que o sangue no corpo da moribunda estava acabando. Não havia o que fazer. Guilhermina, consternada pela resposta desanimadora e estéril do médico, não parou de chorar pelos cantos da pensão, ora confortada pelo marido, Horácio, ora por sua filha, Maristela, ora também pelo meu avô, o único que aparentemente conseguia acalmá-la.

Quando a garota, enfim, parecia reanimar-se, o abalo final aconteceu. Conseguir sair da cama tinha o mesmo significado de uma melhora, comer por ter apetite era o sinal de sua vagarosa recuperação, mas isso só fez piorar sua precária situação. Alarme falso. Ela voltou a ficar de cama, desta vez com febre um pouco mais alta do que dantes. O doutor Ananias receitou um chá que deveria ser tomado três vezes ao dia, preparado pelo meu avô. A partir daí, era uma questão de horas a sua partida. Assustados, alguns hóspedes saíram, fugindo da pensão, mas os que lá ficaram logo prontificaram-se a fazer uma vigília, revezando inclusive com vovô e com Maristela, no quarto em que a garota estava.

A morte se achegou quando um dos hóspedes cuidava dela. Não foi a falta de cuidado que tirou sua vida, foi simplesmente a sua hora que chegou. Sua saúde piorou de vez. Um pequeno burburinho formou-se, e do quarto distante dava para ouvir os prantos de Dona Guilhermina, bem como, de qualquer lugar de dentro da pensão, o choramingo dos poucos hóspedes que não haviam fugido. Saber que em instantes a garota morreria, fez a tristeza preencher os cantos onde antes, com sua chegada, estava a alegria. Foi a primeira cousa a retornar ao seu lugar de origem.

Vovô fez questão de segurar a mão da moribunda, que, apesar disso, parecia tão ou mais bela do que antes. A bênção divina estava sendo confiscada. Horácio passava – a passos lentos – diante da porta, aspecto fechado, compenetrado, sisudo, carrancudo, certamente carregando um grande peso às costas (uma cruz insuportável, considerando sua idade), segurando com vontade sua Bíblia Sagrada em mãos e, com o indicador da destra, separando uma página talvez escolhida ao acaso (não foi possível reconhecer qual).

Foi estranho, para meu avô, e também um impacto tremendamente forte, vê-la morrer. A ‘inda bela garota sofreu até o último momento de vida, não haveria como negar. Vovô, movido pelo puxão que dela recebeu (praticamente rosto colado a rosto), abraçou-a com força, fraternalmente, ouvindo não suas últimas palavras – para isso já não tinha mais forças; mas seu último suspiro, este vindo do fundo da alma.

Vovô conseguiu ver, o que lhe pareceu n’um movimento vagaroso, descer uma “nuvem” de escuridão que contaminou, novamente, d’uma treva insondável toda a pensão. Desta vez, porém, a diferença era que a negritude fazia-se pior do que dantes. Junto do último suspiro foi aquela luz que até então carregava a bela garota consigo. Quão difícil é suportar a perda, assimilar tanta desgraça, tanta tristeza n’um jovem e ‘inda insípido coração! Vovô, recém um rapazola novo, teve de agüentar tal partida alquebrado, demonstrando sobretudo coragem. Nos corações daqueles desafortunados um sentimento de profundo pesar, de agonia, tomou conta. O mundo havia desabado. Tombou de tal forma que o óbvio aconteceu: Guilhermina e Horácio foram os que mais sentiram o baque, tendo ela chorado copiosamente. “Horrível dor”, segundo as palavras de vovô.

Tendo recusado terminantemente o auxílio financeiro alheio, Horácio, junto da esposa, foi quem financiou as exéquias do funeral, do próprio bolso tendo pago inclusive o formoso e caro caixão, que tão logo chegou foi, com extremo cuidado e vagar, preenchido pelo corpo da falecida e levado até a sala principal, sendo, exatamente no meio dela, ali mesmo velado. E o corpo! Ah, que belo corpo. Parecia apenas adormecer. Sua face serena, os olhos meigos, a boca fina e, no canto dos lábios, algo parecido com um sorriso a enfeitar-lhe a face. Sua beleza não era natural de uma morta. Linda, parecia que se levantaria em instantes do caixão e poria fim aos choros, lágrimas e soluços. Só que, apesar de ali haver uma face serena e um sorriso gracioso nos lábios, nenhum ar por ela era respirado, e por isso despir-se-ia ela jamais de sua última mortalha.

Padre Gervásio chegou logo depois, a fim de dar a última oração de corpo presente e abrir os caminhos até o Céu. Combalido pela tristeza que tomava o lugar, decidiu que seria melhor levá-la de uma vez por todas à sua última morada. Foi o próprio quem conduziu o cortejo fúnebre ao cemitério, sob orações de Padre-Nossos e Ave-Marias repetidas com fervor por todos – ou pelo menos quase todos – que acompanhavam o caixão. Vovô foi um dos quatro que seguravam as alças de madeira do ataúde a carregá-lo.

Levou alguns minutos o trajeto entre a pensão e o cemitério, mas mais parecia ter levado séculos d’uma caminhada sem fim. Horácio e Guilhermina, o primeiro sempre acudindo a segundo, vinham logo atrás. Ela, chorona, ele, buliçoso. Bem da verdade, não havia ali quem não estivesse estressado com a situação. Vovô passara a sentir uma persistente dor de cabeça, e isso que era jovem; a doença de antes aos dois anciões reaparecera (e, pelo visto, mais intensa). Tudo muito rápido, aliás. Visível sobretudo em suas faces. Triste também. Doeu em meu avô no fundo da alma e no peito igualmente.

Lentamente o ataúde foi depositado em seu leito final: sete palmos do solo. Outro século demorou, desta vez junto de um estranho som – o da terra batendo no caixão quando jogada – até que, pelo menos, boa parte da cova fosse fechada. Retornaram para a pensão assim que a última pá de terra cobriu o caixão, dentro dele o belo corpo da garota. Em sua homenagem foi levantada uma lápide com os dizeres: “Aqui jaz um anjo, volvendo a seu lugar de origem”.

O retorno à pensão foi marcado pelo desmaio de Dona Guilhermina, nada grave porém. O médico foi chamado às pressas, por via de dúvida. Doutor Ananias, tendo diagnosticado nela fraqueza súbita, receitou um chá calmante, preparado por vovô, afirmando que um pouco mais calma deitaria e dormiria em breve. Não haveria como negar, todavia: era patente, assim como transparente feito o ar que respiramos, que a morte da vela garota, moça-mulher, anjo da luz, seria sentida como um duro golpe, seja do destino ou do divino. A pensão voltou a ser como antes da chegada da luz, bem da forma de como vovô a encontrou quando chegou. Trevas. Escuridão. Tristeza. Solidão e abandono. Foi possível perceber inclusive já na chegada, sem empregar demasiado esforço. O problema é que o retorno veio com uma dose a mais de negridão, o que piorava e muito as coisas. Mas o pior só viria a ser percebido nos dias que se seguiram; irrecuperável tornou-se a saúde de todos: Horácio e Guilhermina foram os que pagaram mais caro por toda essa desgraça – pagaram com a fraqueza, e também com a própria vida (uma constatação dura e fria da vida).

Vovô viu um novo momento para todos naquela pensão. Por um lado, foi um grande aprendizado de vida, por outro, uma tristeza inesquecível e praticamente indelével, pelo menos no sentido da amizade que lá deixou. Tendo passado uma semana, sem o que fazer exatamente, meu avô começou a dedicar-se nos afazeres domésticos, isso por não ter ninguém mais capaz de fazê-los. Cuidou dos dois nobres anciões, que perdiam forças rapidamente. Sim, um duro golpe mesmo. Primeiro sucumbiu Horácio. Dormiu na noite anterior e na manhã seguinte não acordou. Guilhermina chorou aos borbotões, pela perda do marido, por sobre seu ataúde, também velado na sala. Doutor Ananias constatou parada súbita do coração. A viúva anciã acompanhou o cortejo arrastada, queria ficar na pensão, pois era lá o lugar em que Horácio estaria. Mais uma vez vovô carregou o caixão até a cova, que, a pedidos da viúva, foi fechado rapidamente. Quanto a ela, a tristeza tomou conta e, depois de muito chorar, não deu chances para Maristela se acostumar com o falecimento e ausência do pai: deu seu último suspiro pouco mais de uma semana de diferença. A própria Maristela, sem entender o que acontecia, já não concatenava direito as ideias. Enterrar a mãe com uma semana de diferença do pai foi demais para sua cabeça jovem; vovô suportou o peso das mortes melhor do que ela, ainda que assustado com a repentina seqüência de mortes. Também levou o caixão de Guilhermina ao cemitério, que, da mesma rapidez que fora enterrado Horácio, foi coberto de terra em poucos segundos. Se para Horácio ainda não havia epitáfio, Guilhermina foi a “inspiração” para a frase que passara a decorar seus túmulos: “A coisa mais harmoniosa do ser é a beleza da experiência adquirida somada à pureza da juventude da alma, o verdadeiro significado da vida.

Não tinha mais motivo meu avô continuar a viver naquela pensão; então resolveu tomar seu caminho de volta, que seria a coisa mais sensata a fazer. Comunicou sua decisão primeiramente à Maristela, e posteriormente aos outros amigos que lá fez. Ninguém contestou seu juízo, muito menos Maristela, a única pessoa que vovô tinha medo de ferir os sentimentos. A bem da verdade, ela até apoiou, uma vez que não era sua obrigação permanecer na pensão ou ampará-la dali para diante. Antes de partir, entretanto, retornou ao cemitério para agradecer aos nobres anciões tê-lo recebido de braços abertos; pediu ainda bênção para o retorno à sua casa.

O retorno para o sul deu-se tão logo foi possível. Despediu-se de cada um prometendo levá-los consigo até o final de sua vida, cumprindo à risca tal promessa. Durante dias de viagem, qualquer cousa reminiscente de lembranças esquecidas estava na iminência de emergir dos campos enegrecidos do inconsciente, mas, incapaz de se recordar, se se possível célere fosse, ‘inda tomado por profunda tristeza, recordações de momentos mágicos de dias retrógrados, ficou apenas e tão-somente com as lembranças mais fáceis e doces de momentos vividos na “Paris dos Trópicos”, norte brasiliano, sempre sentindo a presença insinuante do pantasma de omissas recordações desmemoriadas. Vovô trouxe consigo uma enorme experiência de vida, muita saudade e muita tristeza. Nunca mais retornou ao convívio deles. Jamais se esqueceu da marcante presença que todos eles possuíam em seu coração, todavia, mesmo sem saber do que lhes acontecera após sua partida. Para meu avô, ninguém envelheceu ou adoeceu. A lembrança tornou-se eterna.

Acho que vovô, só muito recentemente, entendeu o que foram aquelas lembranças esquecidas ao seu retorno. Provavelmente tudo ficou mais claro, e entendê-las certamente foi um bálsamo para sua alma. Eu havia percebido, não muito tempo antes de sua partida, que ele ostentava uma certa alegria no rosto, embora não comentasse sentimentos tão profundos e tão-somente seus. Não facilmente, digo. Revelou-me, por fim, e só depois q’eu disse ter entendido sua história, que as tais lembranças não lembradas eram da presença magnífica que ele sentia e às vezes via dentro daquela pensão antes do falecimento de Guilhermina e Horácio, o anjo tão belo e vivo quanto durante aqueles dias em que irradiava reconfortantes luzes e abençoava com sua simples presença aquela velha pensão. Com algum propósito “provavelmente divino”, segundo vovô, esta presença por ele foi vista próxima de cada um à véspera de suas mortes, como a preparar um caminho todo especial para os nobres anciões. Uma presença difusa. E por isso impossível de ser recordada.

Só agora, tardiamente porém, entendo o que me aconteceu quando ao enterro de meu avô. Eu chorei, não pela morte em si, evento natural, mas pela minha distância dele. O funeral foi triste, a despedida, amarga.  Terrível gosto da derrota. Palavras silenciadas. Saber adormecido. Ali estava o corpo de alguém q’eu queria e muito bem, já sem animosidade. Vovô amado, cujas experiências reveladas ecoam em minha lembrança livremente. E ao término da homenagem final e fúnebre, quando todos já, e até o fim de suas vidas sem a calorosa presença de vovô, se retiravam do cemitério, uma súbita decisão me tomou de todo lá permanecendo por mais tempo. Recordações, desta vez, só minhas.  Rosto banhado pelo choro sagrado, custei ter visto um vulto próximo do jazigo. Olhava-me, um sorriso gostoso e meigo na face também igual àquela vista por vovô quando, pela última vez, visitara os nobres anciões Horácio e Guilhermina em sua última morada. E seu olhar transmitia segurança e também tristeza. O espírito do anjo protetor que, corporificado, era aquela bela moça-mulher que tanto deu vida sem exigir nada em troca, senão amor e compaixão. A alma que viera dos Céus para conduzir vovô diretamente ao descanso eterno. A certeza de que não haveria sofrimento no porvir. E seu olhar também me dizia: em breve, quando tudo acabar, eu virei e pegarei suas mãos com meu amor eterno e o conduzirei para perto de vovô.

A tristeza, que era muita, cedeu lugar a dois sentimentos distintos em meu coração: a estranhez da visada, e por conseqüência o não entendimento da mensagem, e outro, o do contentamento puro e simples. Vovô se sentiria feliz ao saber, e até creio que saiba, que finalmente compreendi o porquê de tudo que lhe aconteceu. E se naquela brevidade pude vê-la, posso muito bem reviver as memórias de vovô que também são minhas.

Fato obumbrado, sombrio, o de afirmar a não-existência da magia dantes, uma vida estéril em meio a tanta tecnologia frieza, fleuma d’uma época cujos sentimentos humanos, à exceção da excitação, são obliterados. Não à-toa as belas e sedutoras, conquanto nelas haja tristezas e amarguras, lembranças de vovô, todas elas e eternamente vívidas. O anjo morreu, mas não simplesmente morreu, aqui adormeceu. Se a história que contei pareceu acelerada em alguns pontos e minuciosa n’outros, digo ser tão-somente lembranças gostosas que carrego de meu avô e de suas narrativas. E se um ou outro fragmento me pareceu importante, talvez trivial tenha soado para vovô, mas, garanto, tendo nada eu modificado, tudo que relatei é, e sempre continuará sendo, fruto de suas palavras por mim assimiladas.

 

 

 

 

FIM

 

 

 

 


[1] Cidade de Manaus.

[2] Citação de “A casa das Sete Torres”, de Nathaniel Hawthorne.

Comentários   

#1 Lucas Maziero » 13-11-2011 14:51

Escrito com esmero, detalhado a cada parágrafo, não deixando nunca de relatar as impressões que o avô teve de tão melancolica pensão, e ao mesmo tempo, por um curto tempo, teve uma presença benfazeja que, por ironia do destino, de tanta falta que deixou, acabou causando e imprimindo uma melancolia ainda maior à pensão.

Um ótimo conto, está de parabéns!
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Lucas Maziero

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