Profundezas do Desconhecido

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 PROFUNDEZAS DO DESCONHECIDO

Escrito por Flávio de Souza



     Ossos cruzados. Uma imagem aterradora. Poucos viram um novo nascer do sol após um encontro com as criaturas mais abomináveis e temidas dos mares. Ele não era um soldado, não sabia manejar uma arma, era um mero servente. Sua função era ajudar nas tarefas diárias da nave inglesa, um mercante de velas redondas, que embora de grandes dimensões e moderno, era lento e extremamente vulnerável, sobretudo nas águas quentes e nocivas daquela parte do Atlântico.

    O ataque fora repentino, o marujo na gávea mal teve tempo de dar o alarme. O espesso nevoeiro parecia conspirar a favor dos ratos. O grito tardio ecoou simultâneo ao estrondo causado pelo impacto da primeira peça da artilharia inimiga contra o casco do Queen Elizabeth I.

    Estilhaços de madeira envernizada voavam pelos ares, enquanto novas esferas metálicas traziam o inferno em fogo e destruição. Em meio ao caos, o rapaz percebeu, através da escotilha da cozinha, a aproximação e o emparelhamento da embarcação agressora. Era um brigue de velas adaptadas. Em seu mastro principal tremulava o símbolo de suas intenções, a mensagem era clara: Renda-se ou morra! O fundo negro estampado por um crânio quebrado entre uma adaga e um fêmur era inconfundível!

    Cordas moviam-se como tentáculos ornados pela essência da crueldade. Em questão de minutos o convés estava tomado por uma horda sem escrúpulos, a qual impunha sua vontade com o poder da pólvora e a frieza da lâmina. A disciplina britânica acabou por revelar-se insuficiente para conter a selvageria cultivada a sal e sol. Logo, toda a área do sobrado superior do navio estava lavada pela barbárie explícita de nuanças rubras.

    Os olhos do garoto estavam vidrados naquele espetáculo de violência crua. A julgar pelo turbilhão de sensações que experimentava, seria possível afirmar que não conseguiria se mexer, mesmo que suas pernas estivessem livres do pavor absoluto que as dominava. Se o fio de esperança que fazia morada em seu peito pudesse se converter em líquido, não seria capaz de preencher sequer a reles caneca amassada que ele costumava usar para sorver o rum surrupiado da despensa.

    Uma chuva fina começou a cair no justo instante em que o capitão inglês colocava sua vida a disposição dos invasores. Ele não perdeu sua imponência nem por um instante, mesmo com a perplexidade da cena a seus pés e com a morte a lhe oferecer um aceno zombeteiro. Diante dele estava o líder dos bucaneiros. Apenas três dedos lhe adornavam a mão direita, mas estes não pareciam sentir falta de seus irmãos mortos. Os remanescentes abraçavam o cabo da lâmina com um desejo mórbido, uma vontade doentia, algo que beirava a insanidade.

    A ação contínua da pilhagem cessou por alguns segundos. Os homens, que se refestelavam com os troféus conquistados, pararam para observar o momento mágico: a execução do comandante inimigo. A representação máxima da conquista.

    O prisioneiro não verteu uma só lágrima diante de seu algoz, o que não era uma tarefa fácil. O homem com a espada na mão intimidaria até o mais valente dos seres. Em meio à profusão de fios espessos e negros, o brilho do ouro roubado escapava num sorriso dissimulado. Cicatrizes e sulcos se mesclavam no rosto moldado pelas dores do tempo e do aço. A cavidade negra, registro nítido de sua mutilação, não era ocultada por um pedaço de pano. Ele fazia questão de provocar a repulsa alheia, gostava de ver o medo e o nojo estampados no semblante de suas vítimas.

    O metal afiado cortou o ar. Gritos de escárnio e insulto ressoavam de todos os cantos. Um impacto e a cabeça rolou pelo piso manchado. Um filete quente e vivo alcançou o vidro da pequena janela, provocando um sobressalto no rapaz que assistia, perplexo, a tudo.

    Despertando do transe no qual estivera submetido, o servente percebeu que precisava sair da embarcação o mais rápido que pudesse, pois certamente esta seria incendiada logo após o término do saque. A cozinha da nave ostentava um corredor estreito até a popa, onde havia um pequeno alçapão que os cozinheiros utilizavam como uma entrada de ar para amenizar o calor dos trópicos. A passagem era mínima, mas talvez o corpo esguio, quase desnutrido, do garoto, pudesse atravessá-la.

    Com urgência, ele seguiu pela última chance de salvação. Panelas e sacos de batatas opunham-se à sua vontade. Com esforço, ele conseguiu se esgueirar pela abertura. A turba entoava palavras de ordem em celebração à vitória recém conquistada. O desprezo pela coroa britânica ficava evidente no coro: “Deus salve a Rainha!”. Mas a ironia parecia converter-se em inflamada auto-afirmação mediante a analogia encontrada nos entalhes da madeira enegrecida da embarcação inimiga. A tinta escarlate lembrava lágrimas hediondas no batismo do brigue: “La Reina Sangrienta”.  

    A plataforma com o bote, seu passaporte para a fuga, ficava a poucos metros de onde estava. Com a benção da sorte alcançaria a liberdade. Por um momento, ele achou que realmente conseguiria escapar. Mas seu sonho de poder tocar novamente a terra firme desmoronou com o ruído esganiçado e característico de uma ave tropical. Havia sido descoberto.

    Uma bofetada o lançou ao chão. O golpe fora desferido por uma mulher cuja força extrapolava, e muito, a aparente fragilidade que seu corpo sugeria. Penas verdes se desprendiam do corpo do animal empoleirado em seu ombro, a ave parecia compartilhar da agitação experimentada por sua dona.

    Com um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca, o rapaz caído vislumbrava a morte no sorriso vazio oferecido pelo demônio de contornos femininos. A cobiça estava em seus olhos, ele podia ver. Instintivamente sua mão tocou o próprio peito, a medalha de sua mãe.

    O simbolismo do sentimento representava, para ele, muito mais do que a preciosidade das micro-pedras incrustadas na pureza da esfera dourada. Não! Tamanho tesouro não poderia ser maculado pelas garras fétidas daquela corja!
A mulher deslizou a ponta afiada de sua lâmina pelo tronco da indefesa vítima, abrindo caminho pelos botões do uniforme. A arma metálica içou a fina corrente, revelando a jóia em sua totalidade. O medo dava lugar à raiva no coração do jovem, mas a ameaça em sua garganta o impedia de reagir. Entretanto, as intenções da agressora não seriam atendidas de imediato. Um anão robusto e de expressão carrancuda impediu que ela tomasse para si o que deveria ser entregue ao capitão. Mesmo contrariada, ela obedeceu. Não era sábio opor-se às leis dos mares, sobretudo às da pirataria.

    O garoto foi arrastado pelos cabelos até a presença da figura mais respeitada do bando. Sem o menor pudor foi deixado na poça rubra ao lado do corpo decapitado do seu antigo chefe. Os homens gargalhavam ao ver o rapazote mergulhado no desespero, talvez ele implorasse por uma morte rápida, ou quem sabe, clamasse ingenuamente pela piedade que não viria, pois não havia espaço para humanidade, ética ou clemência na vida daqueles homens.

    A mente do jovem flertava com lembranças remotas; memórias de uma época distante, as quais o transportavam até a mais tenra infância, onde sua mãe acalentava-lhe o sono com cantigas, histórias e lendas dos mares desconhecidos, de terras virgens, de conquistas e sonhos. Promessas e sacrifícios. Ofertas e trocas. A certeza da morte preencheu sua alma.

    “Prancha! Prancha! Prancha!” O pedido era uma ordem, algo que o código de honra não poderia negar. O garoto deixou correr uma lágrima pelo rosto ferido e gritou quando lhe tomaram o cordão. A dor de ter um braço arrancado não teria doído tanto.

    O “Queen Elizabeth” ardia em chamas, mas o ar no “La Reina” parecia queimar mais do que o fogo assassino que consumia o navio saqueado. A tempestade desabava com uma fúria nunca vista naquele ponto do golfo. O condenado percorria um caminho atravessado por muitos, rumo a um destino certo e irremediável. Seus braços estavam amarrados. Suas costas eram chicoteadas. Seus desejos estavam voltados para um só foco.

    Na extremidade da rampa de madeira maciça, ele aguardava. O brilho ameaçador do aço era um comando silencioso que lhe dizia o que fazer. O tempo se extinguia como o último fio de confiança em seu peito. Parecia não haver alternativa, até que ouviu as palavras que tanto ansiava: “Você tem um último desejo?”

    Ele sorriu e de seus lábios algumas palavras brotaram. Não era um poema, nem mesmo uma canção, tampouco uma verdade ou mentira, sonho ou ilusão. Uma oferta lhe fora feita, e a ela, retribuiria com uma troca. Uma permuta temida, poucas vezes permitida ou utilizada. Uma morte dolorida e sofrida, que se repetiria por toda a eternidade.

“O mar é azul...
Anil é a morte...
Um destino comum...
Para os homens de sorte...

Quero as lágrimas salgadas...
E o abraço escuro da deusa...
A ela ofereço minha alma...
E me livro de toda incerteza...

Meu sofrimento não importa...
Verdadeira é minha oferta...
Pouca coisa peço em troca...
Apenas que cure uma ferida aberta...

    Em cada um que eu tocar com os olhos!”

    Os homens, atônitos, observavam o mar se agitar em açoites indomáveis. Eles viram, mas não acreditaram, quando o prisioneiro saltou de encontro à morte com um sorriso espontâneo estampado no rosto. Um paradoxo incompreensível. Dor e agonia. Água nos pulmões. Um desespero fadado a lhe acompanhar como o vai e vem incessante das ondas. O preço que pagaria pela realização do seu último capricho.

    Ele olhou em cada semblante antes de se entregar aos braços salgados do oceano. O ronco dos trovões tentava, mas não conseguia concorrer com os estrondos ruidosos da voz das profundezas.

    A morte era um fato corriqueiro na vida daqueles homens, uma companheira fiel em cada desafio ao sabor das marés, mas assim como uma amante temperamental, suas atitudes eram imprevisíveis. Desta forma, eles se viram diante da face mais perturbadora daquela que costumavam provocar.

    A estrutura rígida do navio, armação tão acostumada às intempéries da natureza e às investidas da lei, não resistiu aos afagos violentos da deusa. Muitos permaneceram ao lado do capitão, pois este, como determinava a única norma que seguia, não arredaria os pés do moribundo convés, afundaria abraçado ao símbolo de terror que tanto amava. Entretanto, a maioria dos corsários se lançou ao mar, numa inútil tentativa de escapar do inevitável.

    Como as mãos de um carrasco, as ondas cortavam a carne, partiam os ossos, quebravam os crânios, derramavam o sangue dos náufragos. A cor da dor se espalhava pelas águas. Os que não foram brindados com a benevolência de uma morte rápida, encontraram seu destino enquanto tragados por um redemoinho de agonia e tormento. Um fim lento e torturante, onde o som de seus gritos não poderia ser ouvido.

    O “La Reina” sangrava, como estava escrito em seu destino. Um cordão de ouro se perdia na imensidão escura do azul, as correntes marítimas trataram de levá-lo às mãos de um morto, um alento mediante a danação eterna para a qual escolhera partir.

    O mastro principal descia lentamente. No topo da haste de madeira, tremulando sem nada a temer, um rosto sem carne exibia seu derradeiro sorriso. Aquelas órbitas vazias testemunharam inúmeras mortes com incontido prazer. Mesmo em seus últimos instantes, a satisfação estava ali, no desespero de seus antigos companheiros. Resignada, a bandeira negra tocava suavemente as águas, rumo ao descanso eterno nas profundezas do desconhecido.



Comentários   

#2 Lucas Maziero » 12-11-2011 14:10

As águas são inexoráveis para quem nelas se ousa aventurar, seja qual for a marujada. Muito bom esse conto!
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Lucas Maziero

#1 Elsen Filho » 07-11-2011 15:28

Muito boa estória de piratas, camarada, gostei particularmente do final.
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Elsen Filho

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