O Milharal - Pâmela “Andhromeda” Cardoso

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Escrito por Pâmela “Andhromeda” Cardoso


 

 

                     - JEREMIAS -

     Era um homem, de mais ou menos 40 anos, e havia perdido tudo para o banco. Com poucas coisas que ainda lhe restavam, mudou-se para o campo e tornou-se um tipo de fazendeiro. Com alguma vontade de prosseguir e viver como fosse possível, conseguiu arrendar um trecho de terra árida à margem de uma estrada rural. Alugara um trator vermelho caindo aos pedaços e sozinho tratou de cultivar aquele lugar, desconhecido para ele.

     Ele não sabia, mas outros já haviam tentado fazer aquele solo estranho produzir e ninguém conseguira. Os fazendeiros locais chamavam-no de Couro do Diabo e nada seria capaz de vicejar sobre ele.

     No entanto, Jeremias era persistente. Diariamente era visto rodando com o trator para lá e para cá. Parecia tão decido e confiante que alguns diziam que desta vez alguma coisa iria nascer naquele chão. E eles tinham razão.

    Na época propícia, Jeremias semeara o milho. Fizera covas rasas e despejara sementes de boa qualidade dentro delas. Talvez, as sementes não fossem lá de tão boa qualidade assim, visto que não germinaram nem a pau. Nem uma sequer.

Jeremias ficou muito abatido, já não contava com o ferro-velho vermelho, pois não tinha como pagar o aluguel atrasado do implemento. E passou a fuçar a terra com uma enxada emprestada, solitário e cabisbaixo debaixo do sol escaldante, comendo a poeira varrida dos pneus dos automóveis que passavam por perto, na estrada.

     Fosse do trabalho ou não, o fato foi que ele definhou pouco a pouco. E começou a cheirar muito mal.

     O cheiro que o impregnava lembrava carne em decomposição e o pior era que ele já sabia como adquirira tal cheiro repugnante. Fora da terra.

     Não quis acreditar no início da coisa toda, mas tornou-se óbvio. E perturbador. O vento soprava-lhe no rosto aquele fedor, fazendo os cabelos do corpo inteiro arrepiarem-se. Quando chovia, parecia piorar. Ele via o vapor infecto subir em espirais quase invisíveis, mas ele via e temia, cada vez mais.

     Adormecia à noite na casinha velha no meio daquele terreno vazio e despertava muitas vezes durante o sono, com frio e trêmulo, pensando na sua mal remediada solidão. Só ele e o cheiro que parecia rastejar para dentro da cela onde dormia. O cheiro podre esgueirava-se através das frestas na madeira e Jeremias permanecia acordado até o amanhecer.

     E um dia , quando o sol nasceu, ele viu os dedinhos verdes despontando do chão. Os pés de milho finalmente nasciam. E não era milho, de jeito nenhum o que se desenvolvia ali. Ele imaginou o que haveria sob a superfície.

     O cheiro. De decomposição.

     Dias depois, milagrosamente, o milho atingira a altura da cintura de um homem e o arrendador fora parabenizar o responsável por tal proeza. Milho fora de época! Um milagre!

     — Não entendo- explicava o arrendador para a platéia no bar local.

     A maioria já conhecia uma dúzia de histórias a respeito daquele trecho à margem da estrada.

     — Não consigo compreender. Ele conseguira, não? O milho cresceu que é uma beleza e nunca pensei viver para ver isso naquelas minhas terras.

     Os homens entreolharam-se significativamente por cima de suas cervejas geladas. Eis um bacana da cidade.

     — E ele se mata. O pobre devia estar sofrendo de alguma perturbação mental. Só podia estar.

     Ele tomou um longo gole de sua lata, preparando-se para entrar em detalhes sórdidos:

     — Quando senti aquele cheiro de podridão, fiquei gelado e entrei na casa. Ai, meu Deus! Ele devia ter morrido há dias! Acho que não vou conseguir dormir sem ter pesadelos pelo resto da minha vida!

     Jeremias se enforcara e o arrendador o encontrou pendurado por uma corda desfiada no meio do único cômodo da casa, ao lado de uma poça escura de excrementos e de uma cadeira tombada. Ele quase tivera um troço. Os olhos do morto estavam abertos e opacos, uma camada pululante de larvas passeava sobre eles. O resto estava intumescido e exibindo uma cor doentia, a língua pendia da boca como um pedaço negro de borracha velha.

     O arrendador não pôde deixar de compará-lo a um espantalho. A semelhança era inacreditável. Só que o milharal estava lá fora.

     — Agora, não sei o que fazer com todo aquele milho. Por bem, acho que vou deixar que colham e aceitar um pequeno pagamento. O que me dizem?

Ninguém disse uma palavra.


                     - A LAGARTA DO MILHO -

     Só por curiosidade, as pessoas foram ao milharal. E ficaram pasmas.

     Ficaram à beira da estrada e admiraram os corredores verdes e altos, sem nenhum pé de mato entre eles. As espigas eram gordas e enormes, eram as mais graúdas que haviam visto na vida.

     Um grupo dessas pessoas intrigadas resolveu mexer no milharal. Ver se o milho era tão bom quanto parecia. Ou tão assustador, talvez.

     Umas espigadas foram abertas e atiradas para longe. Todos que viram o que havia dentro delas fugiram gritando horrorizados.

     Não era milho o que havia sob a palha verde. Em vez de um sabugo incrustado de grãos dourados, havia um tipo de lagarta aterradora enrolada em seu próprio corpo recoberto por uma estrutura óssea amarronzada e provido de pernas múltiplas. A cabeça, se fosse isso, tinha apenas um olho e uma porção de dentes pontiagudos sob ele.

     Felizmente, aquelas lagartas não estavam prontas para despertar.


 
 
                     - CADA UM CUIDA DOS SEUS ASSUNTOS -

     Eduardo dirigia tranquilamente pela pista, seu conversível chique voava suavemente pela zona rural e ele se regozijava olhando a paisagem tranquila dos campos cultivados.

     Acelerou mais e viu um vasto milharal aproximar-se.  O mais vistoso milharal do mundo.

     Eduardo recordou-se do tempo em que sua avó preparava deliciosos bolos de milho no forno à lenha de uma fazenda que ele não visitava há muito.

     Os pés de milho estendiam-se ao seu redor convidativamente, bem cuidados...

     Ele não resistiu.

     Parou no acostamento e saiu sorridente do carro, batendo a porta e resolvendo dar uma aliviada na bexiga, aproveitando que estava absolutamente só.

     Após terminar, ajeitou as roupas e preparou-se para apanhar uma braçada daquelas espigas graúdas. Mas, assim que se aproximou:

     — Minha nossa, que cheiro é esse?

     Imaginou se alguém teria atropelado algum bicho e jogado o cadáver por ali mesmo. Ignorando (pelo menos tentando ignorar) o cheiro, entrou no meio do milharal e iniciou a colheita.

Já tinha um bom tanto de espigas acomodadas na camisa, quando viu uma delas abrir-se e um bicho estranho saltar da palha em direção ao seu rosto.

     — Jesus Cristo!

     A lagarta aderiu com seus dentes afiados à bochecha de Eduardo.

O
     utras iguais a ela saíam das espigas que ele jogou no chão. Um esguicho de sangue despontou diante dos seus olhos.

     — MEEEEEEEEEEERRRRDAAAAAAAAAA!!!!

     As criaturas subiam-lhe pelas pernas, mordendo e guinchando, devorando a carne junto com as roupas. Uma delas fê-lo ajoelhar-se de dor ao arrancar um naco de uma de suas nádegas.

     Quase cego de terror, tentou arrastar-se para o carro. Uma lagarta especialmente gorda pousou em seu nariz, fitando-o com um olho grande e preto.

     — Aaaaahhhhh...

     Olhando para a pista com o seu binóculo de longo alcance, o delegado falou para o secretário:

     — Ele pegou mais um.

     — Droga, chefe!

     — Ligue para os rapazes tirarem o carro de lá. Já está ficando tarde.

       Certo.

     Quando o secretário saiu a fim de chamar o grupo de homens que iriam buscar o carro do infeliz cidadão, o delegado recostou-se em sua cadeira e olhou pela janela para o estacionamento atrás da delegacia.

     Havia uma porção de carros, antigos e novos, abandonados. Os donos deles tinham tido a brilhante ideia de meterem-se no milharal.


Comentários   

#12 Thasyel Fall » 15-05-2012 04:53

Sim, cada um que cuide dos seus assuntos.... kkkkkkkkkkkkk...mortal... não há duvidas... Pamela tem um pouco de King... ele sempre consegue essa questão das pessoas se acostumarem com o que não podem vencer (ou compreender) mesmo que isso custe vidas... brilhante... 8)
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Thasyel Fall

#11 Thasyel Fall » 15-05-2012 04:41

E eu não sei vocês mas eu tive um mix mental de A colheita maldita e o Apanhador de sonhos(eu acho o filme surreal e fantastico, rsrsrsrs)... muito bom Pamela... sim, Lovecraft ficaria orgulhoso (e cá entre nós eu não sou muito fã de ficar seguindo a risca a gramatica e tudo isso, assassino o portugues ever, kkkkkkkk, e adoro quem faz isso belamente)... :lol: :lol: :lol: :lol:
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Thasyel Fall

#10 F. P. Andrade » 04-12-2011 14:07

Um conto Lovercraftiano de otima qualidade! Show. Os melhores contos são aqueles que nos deixam com uma pulga gorda atrás da orelha. Quando bem trabalhados o insólito e o fantástico, é claro.
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F. P. Andrade

#9 Pamela Cardoso » 04-12-2011 12:14

Todos os comentários me fizeram muito feliz, mas o Flávio sabe que eu tenho uma bronca enorme desse conto por causa dos vários excessos (e erros) que cometi nele. Escrevi-o faz mais ou menos dois anos, quando eu nem sabia o que era um dicionário. Olhar para esse conto me dá calafrios... mas, enfim, agradeço a todos que leram, que comentaram, tentarei retribuir como puder.
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Pamela Cardoso

#8 Gustavo Aquino dos Reis » 21-11-2011 11:08

Faço jus aos colegas: é, realmente, um conto intrigante!
Parabéns!
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Gustavo Aquino dos Reis

#7 Márcio Bordin » 20-11-2011 13:25

Fantástico
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Márcio Bordin

#6 Tânia Souza » 19-11-2011 22:27

Nossa, eis uma coisa que me assusta, estas coisas que vou chamar de guardiões do milharal, haha, sombrio, deveras. Muito bom o conto.
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Tânia Souza

#5 Emerson Pimenta » 19-11-2011 16:45

lol da hora! curto muito essas histórias rurais e tal. esse tipo de coisa que se você olhar por uma perspectiva pode realmente acontecer ou estar acontecendo haha.

Só tenho mais medo de milharal, quando se trata de canavial. Já viram como é agoniante? aquelas arvores todas juntas, emaranhadas, da uma aflição!! :o
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Emerson Pimenta

#4 karin carteri » 18-11-2011 18:30

Muito bom!

Inovou o conceito de milharal assustador.

Adorei!
+1 +−

karin carteri

#3 Flávio de Souza » 18-11-2011 16:11

Interpretei as lagartas como seres demoníacos despertados pelo sangue do agricultor, e que o povo local não destrói a plantação porque, uma vez que tenha brotado algo depois de muita insistência, ela nasceria de novo. Acho que os locais fazem vista grossa para o que acontece no milharal porque as criaturas devoram os forasteiros ao invés de voltarem seu apetite para eles. Tipo: antes eles do que nós. Acho que essa é a ideia do parágrafo "Cada um cuida dos seus assuntos".
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Flávio de Souza

#2 Elsen Filho » 18-11-2011 15:17

Realmente muito bom. Intrigante também. Fiquei cheio de dúvidas no final e com muita vontade de ler mais sobre esse milharal amaldiçoado. Por que não o queimam? O que são as lagartas? hehehe Muito bom.
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Elsen Filho

#1 Flávio de Souza » 18-11-2011 12:34

Esse é um dos textos que mais gosto da Pamela. A perspectiva do milharal como uma criatura viva, cultivada com sangue e constantemente à espreita de novas vítimas, ao passo que os locais preferem carregar a culpa pelas mortes de inocentes, como um fardo menor, ao invés de verem o mal avançar pela cidade e devorar seus familiares e amigos. Parabéns!
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Flávio de Souza

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