Berenice

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BERENICE

Escrito por EDGAR ALLAN POE

 


A desgraça neste mundo é variada; uniforme é a miséria. Dominando o vasto horizonte como o arco-íris, como ele as suas cores são diversas, distintas e todavia intimamente fundidas.

Dominando o vasto horizonte como o arco-íris! Como pude de um exemplo de beleza tirar um tipo de feiúra? De um emblema de paz e aliança tirar uma semelhante dor? É que, assim como na ética o mal é a conseqüência do bem, na realidade, é da alegria que nasce o desgosto: se a lembrança da felicidade passada produz as amarguras de agora, as amarguras que existem têm a sua origem nos prazeres que podiam ter existido.

A história que vou contar é, por essência, uma história de horror. De boa vontade a suprimiria, se não fosse mais uma crônica de sensação do que uma crônica dos fatos.

O meu nome de batismo é Egaco; do nome da minha família guardarei segredo. Não há em todo o país um castelo mais carregado de anos e de glória do que o velho e melancólico solar dos meus avós. Desde tempo imemorável, chamavam nossa família de raça de visionários. De fato, em muitos pormenores notáveis, no tipo do nosso castelo, nas pinturas do enorme salão, nas tapeçarias dos aposentos, nas cinzeladuras das colunas da sala de armas; porém, mais especialmente, na galeria dos quadros antigos, na decoração da biblioteca, e, também, na natureza muito particular do conteúdo dessa biblioteca, há de sobra por que justificar aquela denominação.

A recordação dos meus primeiros anos está intimamente ligada àquela sala e aos seus livros, dos quais não mais falaria. Foi lá que morreu minha mãe. Foi ali que eu nasci (se é que não vivia antes; se é que alma não tem existência anterior). Mas não discutamos agora este assunto. Estou convencido, não procuro convencer. Na minha memória, há uma reminiscência de formas etéreas, de olhos intelectuais e expressivos, de vozes harmoniosas e melancólicas; uma reminiscência que não quer me deixar; uma espécie de lembrança como uma sombra vaga, variável, vacilante. Sombra essencial, da qual não poderei separar-me enquanto o meu cérebro fulgir a luz da razão.

Foi naquele quarto que eu nasci. Emergindo assim das longas trevas, que pareciam ser, mas que não eram, o nada, para cair subitamente num país maravilhoso, num palácio fantástico, nos estranhos domínios dos pensamentos e da erudição monástica, não é para admirar que tenha lançado, em torno de mim, um olhar surpreso e ardente que consumiu a minha infância lendo livros e a minha juventude em devaneios. Mas o que é peculiar, (passados os anos e no auge da vida, ainda me encontrar na mansão dos meus antepassados) o que é estranho, é a inércia que me paralisou os órgãos essenciais da vida; é a inversão total que ocorreu nas características dos meus pensamentos mais simples. As realidades do mundo não me impressionavam senão com visões, enquanto as idéias loucas do país dos sonhos eram, não uma preocupação com a minha vida, mas seguramente a única razão da minha existência.



Berenice e eu éramos primos e crescemos juntos na casa da família. Mas crescemos diversamente. Eu, doentio e envolvido na minha melancolia; ela ágil, graciosa e exuberantemente ativa. Para ela, os passeios pela colina, para mim, os estudos do claustro. Eu, encerrado em mim mesmo, dedicando-me de corpo e alma à mais intensa, à mais penosa meditação; ela, divagando descuidada através da vida, sem pensar nas sombras do caminho, nem na corrida silenciosa das horas. Berenice! Berenice! Quando invoco o seu nome, mil lembranças tumultuosas ressurgem sombrias da minha memória! Ah! Vejo-a ainda risonha, diante de mim, como nos seus dias de felicidade e alegria! Oh! magnífica e fantástica beleza! Oh! sílfide dos bosques de Arnhein! Oh! Náiade das fontes! E depois... e depois tudo é mistério, terror! uma história que não quer ser contada.

Um mal, um mal funesto soprou forte, como o vento africano, sobre a sua compleição; de um momento para outro passou sobre ela o espírito da metamorfose e arrebatou-a, penetrando-lhe o espírito, os hábitos, o caráter e, do modo mais sutil e terrível, perturbando-a, metamorfoseando-a radicalmente! Ai o destruidor vinha e voltava, mas a vítima, a verdadeira Berenice, que era feito dela? Aquela não era a mesma; pelo menos eu não a reconhecia mais por Berenice.

Entre a numerosa série de males, carreados pelo ataque principal, que fizera uma transformação tão horrorosa no ser físico e moral de minha prima, é preciso mencionar, como o mais aflitivo e o mais teimoso, uma espécie de epilepsia que muitas vezes terminava em catalepsia perfeitamente semelhante à morte, da qual ela despertava quase sempre de modo brusco, repentino.

A mesmo tempo, a minha doença também aumentava rapidamente e, agravando-se os sintomas pelo uso imoderado de ópio, tomou finalmente o caráter de uma monomania totalmente nova e extraordinária. De uma hora para outra, de um minuto para outro, ganhava forças até que chegou a adquirir sobre mim um domínio singular e desconhecido. Aquela monomania (se devo servir-me deste termo) consistia numa irritabilidade mórbida das faculdades do espírito que a linguagem filosófica denomina: faculdades de atenção. É muito provável que não me compreendam; e temo realmente que me seja absolutamente impossível dar ao comum dos leitores a idéia exata da nervosa "intensidade de interesse" com a qual a minha faculdade meditativa (para evitar a linguagem técnica) se aplicava e se absorvia na contemplação dos objetos mais comuns do mundo.

Meditar infatigavelmente horas e horas perdidas sobre qualquer citação pueril escrita à margem ou texto de um livro; ficar absorto, a maior parte do dia, na contemplação de uma sombra estranha, projetando-se obliquamente ao longo do assoalho ou da tapeçaria; esquecer-me uma noite inteira a observar a luz da lâmpada ou as brasas do fogão; sonhar dias inteiros com o perfume de uma flor; repetir, sem variação, alguma palavra vulgar, até que, à força de repetida, deixar-se de representar ao espírito a menor idéia; perder inteiramente o sentimento do movimento ou da existência física, para cair numa aquietação absoluta, obstinadamente prolongada, tais eram as mais comuns e as menos perniciosas aberrações das minhas faculdades mentais; aberrações encontradas em casos similares mas que não têm, por certo, explicação ou estudo.

Para ser bem claro, devo dizer ainda que aquela atenção intensa e mórbida, assim excitada pelos objetos mais comuns, era de natureza basicamente diversa da tendência que a humanidade tem pela meditação e à qual se entregam, principalmente, a divagações ardentes. Também não era, como poderia parecer à primeira vista, um excesso ou exagero dessa tendência, mas era radicalmente diferente dela, até pela sua natureza. No primeiro caso, o pensador, o homem imaginativo, interessando-se por um objeto (geralmente não banal) perde-o de vista, pouco a pouco, através da variedade de dedução e sugestões que lhe inspira, a ponto de, quando chega ao fim de um desses sonhos, por vezes com grande prazer, ter se afastado e esquecido o "incitamentum" ou causa primária das suas reflexões. No meu caso, o ponto de partida era "invariavelmente frívolo", uma vez que revestido pela minha imaginação doentia como de suma importância. Fazia poucas ou nenhumas reflexões e, quando as fazia, voltavam obstinadamente ao objeto central. As meditações não eram agradáveis e, no fim do sonho, a causa primária, longe de estar esquecida, atingia um interesse sobrenatural, que era a feição dominante do meu mal. Numa palavra, a faculdade de espírito mais particularmente excitada em mim era, como já disse, a faculdade de atenção, enquanto no pensador normal a faculdade mais desenvolvida é a da meditação.

Os meus livros, naquela época, se não contribuíam positivamente para ativar o mal, participavam fortemente, pela sua natureza imaginativa e irracional, das qualidades características da própria doença. Lembro-me, entre outros, do tratado do nobre, Coelius Secundos Curio, "De amplitudine Beati de Dei"; da grande obra de Santo Agostinho, "A Cidade de Deus", e do "Carne Christi" de Tertuliano, cujo estranho pensamento: "Mortuus est Dei Filius; credibili est quia ineptum est; et spultus resurrexit; certum est quia impossibile est", absorveu totalmente toda a minha existência, durante muitas semanas de laboriosas e infrutíferas investigações.

A minha razão, assim desequilibrada por coisas insignificantes, fazia lembrar aquela rocha marítima de que fala Ptolomeu Hephestion, a qual resistia imutável a todos os ataques dos homens, e até ao furor dos ventos e das tempestades, mas que tremia só ao contato da flor chamada asfódelo. Ao pensador desatento, parecerá evidente que a alteração terrível produzida no estado moral de Berenice, pela sua doença deplorável, devesse me fornecer um grande assunto para exercer a meditação anormal, cuja natureza acabo de explicar. Pois bem! não aconteceu assim. Nos intervalos lúcidos da minha enfermidade, a desgraça de Berenice realmente me causava dor. Enternecia-me profundamente a ruína total da sua vida alegre e doce. Meditava muitas vezes e com amargura sobre as causas terríveis e misteriosas que tinham produzido tão estranha e repentina transformação. Mas essas reflexões análogas ao homem comum não funcionavam com a idiossincrasia do meu mal. Durante os acessos, a minha monomania, fiel ao seu caráter frívolo, preocupava-se apenas com as alterações menos importantes, se bem que mais evidentes, que se manifestavam no sistema físico de Berenice; na incomum alteração da sua identidade.

Nunca havia amado minha prima nos seus dias de fulgurante e incomparável beleza; mesmo porque, na estranha anomalia da minha existência, os sentimentos me vinham mais do espírito que do coração. Muitas vezes, através das nuvens do crepúsculo e ao meio-dia, pelas sombras da floresta, ou de noite na minha biblioteca, vendo-a passar diante de mim, contemplava-a, não como a Berenice viva e palpável, mas como a Berenice de um sonho, não como um ser terrestre, carnal, mas uma abstração da realidade; não como uma criatura para admirar, mas uma coisa para se analisar; não como um objeto de amor, mas como tema de meditação, indefinida e irregular. Mas agora, tremia na sua presença, empalidecia à sua aproximação. Contudo, lamentando amargamente a sua lamentável decadência, lembrei de que me amara durante um tempo e uma vez lhe falei de casamento.

Aproximava-se a época do nosso noivado quando numa tarde de inverno, calma, enevoada, inesperadamente quente, sentei-me, na biblioteca. Pensei estar só, mas erguendo os olhos vi Berenice, em pé, diante de mim.

Ou a minha imaginação exaltada, ou a influência nevoenta da atmosfera, ou o crepúsculo incerto do cômodo, ou o vestido negro que trajava, lhe emprestou aquela imagem trêmula e insegura? Não sei dizer. Ela não proferiu uma palavra e eu, naquele instante, não teria podido pronunciar uma sílaba sequer. Pelo meu corpo correu um tremor gélido. Senti-me oprimido por uma sensação de agonia incontrolável e a minha alma foi subitamente invadida por uma crescente curiosidade. Mas permaneci imóvel, recostado na poltrona, sem fala e respiração, com os olhos nela. Ai! a sua magreza era espectral! Nem um vestígio do ser primitivo, nem um só dos seus contornos havia sobrevivido! Meu olhar ardente fixava-se no seu rosto.

 

Tinha a fronte erguida, muito pálida e estranhamente plácida. Os cabelos, outrora negros como carvão, caíam-lhe sobre as fontes encovadas, em anéis de um loiro forte, caracterizando uma imagem que discordava cruelmente com a tristeza dominante da sua fisionomia. Os olhos sem vida, nem brilho, pareciam não ter pupilas. Desviei involuntariamente a vista do seu olhar envidraçado e observei seus lábios finos e tesos. Estes entreabriram-se num sorriso estranho e os dentes da nova Berenice surgiram lentamente à minha vista. Quisera Deus que nunca os houvesse visto, ou que, ao vê-los, tivesse morrido!

De repente ouvi o som da porta se fechar e levantei os olhos para ver que minha prima deixara o aposento. Mas o espectro horrível dos seus dentes brancos tinham ficado no meu cérebro desordenado e não queria sair. Não havia uma depressão na superfície, uma pequena diferença no esmalte, um bico nas suas arestas, que aquele sorriso passageiro não me tivesse deixado forte impressão na memória.

Via-os agora ainda mais distintamente que os vira antes. Os dentes! os dentes! Estavam ali, acolá, por toda parte, visíveis diante de mim; compridos, estreitos e excessivamente brancos, circundados pelos lábios pálidos e horrivelmente esticados.

Então, chegou a fúria da monomania. Em vão lutei contra a sua influência estranha e irresistível. No número infinito dos objetos do mundo exterior, só os dentes me preocupavam. Desejava-os freneticamente! Todos os outros assuntos, todos os interesses diversos foram suplantados por aquela única visão. Eles, só eles estavam presentes aos olhos do meu espírito e a sua individualidade exclusiva tornou-se a essência da minha vida intelectual. Via-os a todas as horas e a todos os instantes. Estudava-lhes as características. Observava-lhes os sinais particulares. Meditava sobre a sua conformação. Refletia na alteração da sua natureza. Estremecia, atribuindo-lhes na imaginação uma faculdade de sentimento, de sensação e uma capacidade de expressão, mesmo sem o auxílio dos lábios. Dizia-se, com razão, de "mademoiselle" de Sallé, que todos os seus passos eram sentimentos. De Berenice acreditava eu intimamente que todos os dentes eram idéias. Idéias! ah! eis o pensamento absurdo, que me perdeu, Idéias ah! aí está a razão pela qual eu os invejava tão loucamente! Sentia que só a posse me podia restituir a paz e a razão.

E assim a noite desceu sobre mim! Vieram as trevas, instalaram-se e tornaram a fugir! E um dia novo apareceu! E em redor de mim amontoaram-se as sombras de uma segunda noite. E eu, sempre imóvel naquele quarto solitário, sempre sentado, sempre envolvido na minha meditação! E o fantasma dos dentes mantinha sempre a sua terrível influência, a ponto de flutuar, continuamente, aqui e lá, com a mais espantosa nitidez, ora através da luz, ora através das trevas do aposento. Enfim, no meio dos seus sonhos, retumbou espantoso grito de horror, ao qual sucedeu, depois de breve silêncio, o ruído de vozes desoladas, entrecortadas de gemidos surdos, de suspiros, de choro e de dor. Levantei-me e, abrindo uma das portas da biblioteca, encontrei na antecâmara uma criada, em lágrimas, que me disse que Berenice deixara de existir! De manhã fora atacada de epilepsia. E agora, ao cair da tarde, o túmulo esperava sua próxima moradora; todos os preparativos do enterro estavam terminados!


* * * *


Aflito e gelado de terror, dirigi-me com repugnância para o quarto da morta. O quarto era grande e muito escuro. Os meus pés esbarravam a cada passo com o preparos do sepultamento. Sob as cortinas do leito (disse-me um criado) estava o caixão e naquele caixão (acrescentou em voz baixa) jaziam os restos de Berenice.

Quem me perguntou se não queria ver o corpo? Não vi que nenhum dos lábios se movessem, contudo a pergunta havia sido feita. O eco das últimas sílabas ressoava ainda pelo aposento. Era impossível recusar. Com um sentimento de terrível pressão, caminhei para o leito. Levantei lentamente os cortinados e deixei-os cair por trás de mim, ficando por dentro deles, separado do mundo dos vivos, na maior intimidade com a morta!

Toda a atmosfera do quarto exalava a morte e o ar em torno do ataúde sufocava-me; era como se o cheiro deletério já saía do cadáver. Naquele momento teria dado qualquer coisa para fugir daquela influência depressiva da mortalidade, para respirar, ainda uma vez o ar puro do céu infinito. Mas meus movimentos estavam paralisados, vacilavam os joelhos, meus pés enraizados no solo e os olhos não queriam despregar-se daquele corpo rígido, estendido de comprido no caixão ainda aberto.




Justo céu! É impossível! Foi a alucinação do meu cérebro ou moveu-se mesmo o dedo da defunta dentro do tule que a envolvia? Trêmulo de inexplicável terror, voltei o olhar para a fisionomia do cadáver. O lenço, que lhe segurava o queixo, desatara-se, não sei como. Os lábios lívidos torciam-se numa espécie de sorriso, e naquela moldura lúgubre, os dentes de Berenice, brancos, luzidios, terríveis, pareciam me olhar como se fosse algo vivo! Desviei-me do leito compulsivamente e, sem pronunciar uma palavra, saí correndo como um maníaco, daquele quarto carregado de mistério, horror e morte!


* * * *


Achei-me sentado, outra vez só na biblioteca. Era meia-noite. Parecia-me ter saído de um sonho confuso e agitado. Sabia que Berenice fora enterrada depois do pôr do sol, mas não guardava nenhuma lembrança clara ou visão definida do que havia se passado naquele intervalo lúgubre. No entanto a minha memória se revolvia de um terror dúbio e vago e por isso mais perturbador. Era como uma página horrorosa do registro da minha existência, escrita em caracteres estranhos, medonhos e ininteligíveis, que em vão me esforçava por decifrar. De vez em quando, semelhante ao eco de um som abafado, vibrava-me nos ouvidos um grito fraco e agudo, uma voz de mulher. Que tinha feito eu? perguntava a mim mesmo em voz alta. E os ecos do aposento me respondiam murmurando: "Que tinha feito eu?"

Em cima da mesa, ao meu lado, havia um abajur e junto dele uma caixinha de ébano. Aquela caixa não representava nada de especial, já a tinha visto muitas vezes porque pertencia ao médico da família. Mas como tinha ela vindo parar ali, em cima da minha mesa? E por quê tremia eu ao contemplá-la? Realmente, não valia a pena pensar nisso. Entretanto, os meus olhos, encontrando as páginas de um livro aberto, fixaram-se numa frase sublinhada. Eram as palavras singulares, mas muito simples, do poeta Ebn Zaiat, sobre chefe militar que, ao morrer, autoriza os soldados a saquearem o próprio túmulo. - Por quê, ao lê-las, se me arrepiaram os cabelos? Por quê me gelou o sangue nas veias?

De repente, bateram de manso à porta da biblioteca e um criado, pálido como um habitante do túmulo, entrou na ponta dos pés. Tinha os olhos esgazeados de terror e a sua voz trêmula e abafada falou-me em tom quase imperceptível. Que me disse? - Não ouvi senão algumas frases truncadas. Creio que me contou sobre um grito horroroso que perturbou o silêncio da noite e que todos os criados tinham corrido na direção do som. Então a sua voz baixa se tornou exageradamente clara, ao falar da violação de uma sepultura, de um corpo desfigurado, despojado da mortalha, mas respirando ainda, palpitando ainda, "ainda vivo!"

Então olhou para a minha roupa e ela estava manchada de sangue! Sem dizer uma palavra, pegou-me na mão e ela tinha as marcas de unhadas humanas! Depois apontou para o objeto que se encontrava encostado na parede; era uma enxada!

Soltando um grito medonho, precipitei-me sobre a mesa e agarrei a caixa de ébano; mas minhas mãos trêmulas não tiveram força para segurá-la. A caixa caiu no chão, espalhando, com um tinir de ferragens, alguns instrumentos de cirurgia dentária e, ao mesmo tempo, trinta e duas coisinhas, brancas como marfim, se dispersaram por aqui e acolá, no solo do aposento...



 

As imagens que ilustram este conto foram feita por Jerry Grandenetti para revista em quadrinho norte america Erie na sua edicão de setembro de 1967

 

Este texto foi baseado nos personagens do livro de contos “Histórias de Alexandre”, de Graciliano Ramos, publicado em 1944. Fazendo referências às histórias coletadas do folclore alagoano, o escritor Graciliano Ramos reuniu neste livro contos e fanfarronices de Alexandre, um típico mentiroso do sertão, e a sua esposa Cesárea, que validava os exageros do marido. Neste conto fiz uso dos personagens e suas relações de amizade. A narrativa em questão nada tem a ver com o folclore alagoano, e esclareço que, apesar de fazer referência ao “cramulhão da garrafa”, me distancio bastante da lenda trazida para o Brasil, oriunda do folclore português, do qual se contava que São Cipriano ensinava como se criar um diabinho dentro de uma garrafa.
Afonso Luiz Pereira



Seu Alexandre e o causo do Negro Damião

    — Meus amigos, esse causo que eu vou escorrer agora é um dos poucos que aconteceu comigo antes de me casar com Cesárea. Pra dizer bem a verdade, nunca contei a ninguém. Vossemecês, então, terão de confiar somente nas minhas memórias. E aí, o seu Firmino, que tem a pachorra de botar dúvida nas minhas conversas, há de ter fé na minha palavra porque é como eu sempre digo: eu moro nesta ribeira há um bando de anos e sou homem traquejado nestas andanças do sertão. Já passei por poucas e boas, viu? Não carece de um cabra feito eu sair por aí inventando desconchavos! Detesto exageros! Só digo o que ocorreu, nem mais nem menos. O povo daqui me conhece bem.
    — Ora, seu Alexandre, não se aperreie com um velho cego como eu, viu? Não é por querer que lhe apoquento os nervos, não! Apenas fico matutando, curioso que nem coruja, as “novidades” que aparecem nos causos afamados do senhor.
    — Seu Libório, me diga lá, do que é, diacho, que o cego preto Firmino está falando?
    — Sei não, seu Alexandre. Só sei que o senhor é um bicho de contar estórias e a palavra do senhor vale mais que mil patacões de ouro. Eita, se vale!
    — Seu Firmino, o que o senhor está querendo destampar?
    — Nada não, seu Alexandre. Perdoe a rabugice de um velho cego. Sou turrão de nascença. É a idade, seu Alexandre. Perdoa, é a idade!
    — Capaz que seja mesmo! Cesárea, vossemecê se lembra do aparecimento do Diabo lá nas terras do coronel Idelfonso?
    — Claro que me lembro, Xandu!
    — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Alexandre, o senhor viu o cão de perto, é?
    — Vi, sim, seu Libório. Não foi com este olho torto, que melhor ficou depois que eu o perdi no espinheiro, quando me aboletei no lombo daquela onça, porque o caso da onça lazarenta aconteceu uns tantos anos depois,  mas vi, sim! O próprio capeta em pessoa!
    — Nossa senhora, meu padrinho, cruz credo!
    — É isso mesmo, Das Dores! Vossemecê pode fazer o sinal da cruz mais uma vez aí, porque é a mais sacrossanta verdade. Cesária, me traga lá o meu rolo de fumo porque hoje eu não estou enfastiado. Acho que os meus amigos vão querer ouvir esta estória, não é não, seu Libório?
    — Claro, é capaz que daí venha boa cantoria.
    — Ora muito bem. Isso se deu lá nos idos da minha mocidade, quando eu ainda era um cabra desconhecido por estas redondezas, antes até de me enfiar nas vaquejadas, casar com a Cesárea e fazer muito dinheiro. Naquele tempo, eu, galo novo, tinha pouco juízo e entrei no bando de Virgulino Ferreira, daí...
— Seu Alexandre, Vossemecê não me leve a mal não, sem querer ofender... já lhe conheço e escuto suas estórias há muito tempo, mas jamais ouvi nas conversas do povo, e do senhor também, que o amigo lá tenha tido presença no bando de Lampião, então...
— Seu Firmino, criatura de Deus, o Xandu não faz gosto de falar sobre esta passagem da vida dele não, viu? Meu marido é um santo. Vê-se logo que o amigo não é traquejado nos deslizes da juventude. Pois lhe adianto que se ele abre o coração pra vossemecês em contar coisas de segredo, que lhe é do particular, é porque ele gosta muito e respeita as pessoas que entram por aquela porta para lhe fazer ouvidos nos causos que conta. Escuta quem quer!
    — Ôxe, dona Cesária, desculpe aí o mal jeito. Não quis trazer ofensa ao seu Alexandre, é que...
    — Firmino, homem de Deus, tome tento. O meu compadre é cabra sério! Não gosta de falar do passado no cangaço.
    — É verdade, seu Libório. É verdade! Como disse a minha Cesária, não faço gosto de prosear estas coisas. Quem nunca teve pecado, que atire a primeira pedra. E tem mais! Agora, já me aperreei de novo com o seu Firmino, que é cego e quer enxergar mais longe do que a gente que tem a vista boa. Assim não dá!
— Oxente, peço, mais uma vez, o perdão. Não quero fazer desfeita na casa do amigo.
— Pois já fez, seu Firmino, pois já fez. O senhor está achando, por acaso, que eu sou um mentiroso de marca?
— Arre égua, seu Alexandre! Não. Deus me livre e guarde!
— Não, meu padrinho. Não fique aperreado não. É que o seu Firmino, por ser cego, não sabe se expressar no seu falar. É isso! Não é isso não, seu Firmino?
— É verdade, Das Dores, é verdade!
— Continue o causo, padrinho.
— Não continuo não! Agora já me arreliei.
— Seu Alexandre, perdoa aí, vai homem? Se o amigo não me perdoar, vou ficar numa gastura sem tamanho.
— Pois será bem feito. Eita criatura pra me tirar o prumo!
    — Perdoa a desfeita do seu Firmino , meu padrinho, o homem é cego!
    — Xandu, meu bem, deixe de melindres e conta logo o causo.
    — Olha aqui, seu Firmino, o senhor acredita que o diabo existe? Hein...? Não adianta vossemecê ficar fazendo esta cara de empalamado não. Estou muito arreliado com o senhor e, se o amigo tem dúvida que o capeta existe, eu tenho como provar. Não tenho não, Cesária?
    — Tem sim, Xandu.
    — Valha-me nosso Senhor Jesus Cristo, mas como?
    — Não tenha medo, seu Libório. E fique calma, Das Dores, que o teu padrinho sabe o que está fazendo. Tenho o capeta preso dentro de uma garrafa, viu, seu Firmino? É o que lhe digo. Prendi o cramulhão nela quando topei com o maldito. O senhor duvida?
    — ...não... não... não duvido...
    — Pois é. O senhor está aí se cagando de medo porque sabe que não sou cabra de contar lorotas. E vou lhe dizer mais uma coisa: o diabo quando vem na terra é pelo corpo dos outros. Ele só ganha este mundo é no corpo da gente, ele entra na gente, comanda a nossa cabeça, fica poderoso no corpo da gente, porque fora do nosso espinhaço a criatura é que nem vento leso das manhãs na caatinga, vai daqui, vai de acolá, mas tem pouco préstimo pra fazer medo, viu? O diabo tem que entrar no couro do cabra, na nossa carne, esgaravatar os nossos miolos. Daí, sim! Ele fica poderoso e apronta das suas.
— É mesmo, seu Alexandre?
— Pois eu lhe digo, seu Libório. É assim mesmo.
— Bom... me perdoem a desfeita. De minha parte, desculpas eu já pedi, mas já que o amigo se arreliou comigo e não quer mais contar o causo, vou-me embora. É tarde da noite e a caminhada é longa, eu...
— Não senhor, seu Firmino. Agora é que o senhor vai ficar. Vossemecê tome assento aí em qualquer canto, porque o amigo vai ter que  ouvir o causo da vez que topei com o Diabo. Ah, vai sim! Dou um boi pra não entrar numa encrenca, mas dou uma boiada pra não sair. Não quero que vossemecê saia por aí espalhando pelos quatros cantos do mundo que eu sou um mentiroso de marca. Topei com o Diabo, prendi o pôrquera numa garrafa, eu vou provar. Ah, se vou!
— É isso mesmo, Xandu!
— Boa, meu padrinho, solte o bode.
— Mas claro que vou soltar o bode.
— Senta aí, seu Firmino. O compadre Alexandre vai contar o causo e faz questão que o senhor ouça. Depois eu lhe acompanho até a sua casa.
— É justo. Estou curioso também.
— Hum... ora muito bem. Como estava dizendo, quando moço, eu furava o sertão pra cima e pra baixo no bando de Lampião. Foi um tempo que não faço gosto de lembrar. Virgulino Ferreira era um cabra da peste, macho que só, e disso ninguém há de duvidar, mas eu lhes digo que quando o negócio era enfrentar as coisas do além, o homem se cagava de medo. Muito bem. Como sabem, Lampião tinha uns combinados lá dele com alguns coronéis do sertão. Um deles era o coronel Idelfonso, do Engenho da Pedra Torta. Numa noite quente dos infernos, o coronel Idelfonso apareceu no acampamento querendo favor de Virgulino. Dizia ele a Lampião que Dona Emerenciana, sua esposa, estava com um quebranto forte, trabalho de sustância da mandinga dos negros alforriados. O velho Idelfonso, então, nos segredou que Dona Emerenciana havia se apaixonado por um negro de nome Damião. Ora pois, o coronel não deu nem tempo do tal de Damião se explicar e mandou açoitar o infeliz até a morte. Dizem que, enquanto o chicote lhe comia o couro, o negro berrava dentro da noite dizendo que a culpa não era dele, que era coisa do capeta, que o diabo tinha, no corpo dele, enfeitiçado a sinhá e dela se fartara aos beiços e outras coisas mais. O coronel só foi acreditar no negro quando este, às portas da morte, revirou os olhos, mudou a voz e gargalhou dizendo que sinhá Emerenciana tinha gostado, e que ela seria dele para sempre.
— Nossa senhora, meu padrinho, que coisa! Coitado do negro Damião!
— Pois é, Das Dores, naquele tempo o negro que não se botasse no lugar dele, era corrigido à força do chicote, viu seu Firmino?
— Eu acredito.
— O coronel mandou enterrar o negro Damião longe do engenho, em meio à caatinga. E daquela noite em diante, o velho Idelfonso não teve mais sossego porque dona Emerenciana, desconjuntada das ideias, deu pra perambular desembestada, toda noite, à procura do corpo do negro açoitado, morto e enterrado. Todos no engenho cuidavam para que a sinhá não arredasse pé pra muito longe, mas numa noite, depois de quase um mês do ocorrido, ela escafedeu-se no meio da caatinga. Vixe, foi um pandemônio! E procura daqui e procura de lá, até que o coronel matutou muito bem que a esposa, por obra de feitiço maligno, tinha mandado as canelas atrás do corpo de Damião. O coronel mandou chamar o velho Jeremias, outro negro desaforado, Deus que me perdoe, pedindo-lhe conselho de como fazer procedimento e ele, homem vivido, disse que Damião deveria ser desenterrado e queimado, pois enquanto houvesse corpo o Diabo tinha poder sobre sinhá Emerenciana. Só que nenhum homem do engenho, fosse preto ou fosse branco, queria meter as fuças na cova do endemoniado, nem o próprio Idelfonso, que era cagão que só. Então, o velho veio ter com Virgulino pra interceder por ele.
— E Lampião, cabra macho, orgulho do cangaço, decerto tomou questão e foi pras terras do Idelfonso.
— Qual o quê, seu Libório! Qual o quê! Em questão de assombramento e coisas do além, como já disse, Virgulino Ferreira era outro cagão de marca. E antes que ele fizesse vergonha ao bando, dando desculpas sem cabimento, eu olhei pra ele, cabra macho que sempre fui, e disse: “Lampião, deixa comigo que eu faço o serviço. Trago Dona Emerenciana pra casa e queimo os restos mortais do negro no meio da caatinga. Deixa comigo!” E, depois de assuntar bem o local da cova com o coronel Idelfonso, lá me botei na cavalgadura em rumo às terras do engenho da Pedra Torta
— O senhor foi sozinho, meu padrinho?
— Sim, fui sozinho... quer dizer... sozinho, sozinho, não, viu? Porque fui eu e mais nosso Senhor Jesus Cristo, na retaguarda.
— E o senhor encontrou a Dona Emerenciana, compadre?
— Sim, seu Libório, encontrei. E a criatura dava pena de olhar, sabe? Depois de cavalgar por mais de uma hora eu achei a pobre da Dona Emerenciana cavoucando o solo bem no meio do mato rasteiro da caatinga. Era uma noite de lua cheia, bem fornida pro caboclo se incomodar com o lobisomem no cangote, bicho que também não me faz medo. A coitada, com o vestido todo rasgado, estava com os peitos de fora, e não me perguntem o porquê da sem-vergonhice, que pra isso não tenho resposta não. Ela já tinha aberto a cova com as mãos e puxado o defunto pra cima. Era uma cena tão medonha de ver que até hoje, depois deste tempo todo, me azeda o dia e me provoca uma gastura no estômago. Então, apeei do meu cavalo, puxei a peixeira e me encaminhei pra conferir o negócio mais de perto.
— Oxente, meu padrinho, o senhor não ficou com medo não? Não ficou leso das pernas, não deu tremedeira?
— Qual o quê, Das Dores. Quem sai na chuva é pra se molhar.
— Meu Xandu sempre foi cabra de coragem. Dá gosto de vê ele contar estas bravuras dele.
— Quando cheguei perto dos restos mortais do negro, fiquei assombrado com o que vi. Tenho pra mim que os homens do coronel enterraram o Damião em cima de um formigueiro porque do defunto as carnes apodrecidas se tinham ido há muito, pois que só vi o esqueleto do infeliz. É verdade. E dona Emerenciana abraçada naquele monte de ossos. Só podia ser coisa do demônio mesmo, só se vendo! E, olha, meus amigos, que ele não se custou muito a aparecer. De repente, aquela ossarada toda começou a se tremer que nem folha de bananeira em vento de trovoada. Dei um pulo pra trás, de peixeira na prontidão, porque do meio do esqueleto enfumaçou-se uma criatura do inferno meio esverdeada, que parecia um enorme cachorro com uma bocarra infestada de dentões de todos os tipos e tamanhos, os olhos chispavam o fogo do inferno, e duas enormes garras, parecidas com as de um lobisomem, ousaram me fazer frente! Parti desembestado pra cima do diabo, cutucando a peixeira por tudo quanto foi lugar, mas não consegui furá-lo de jeito nenhum porque como se pode furar uma criatura feita de fumaça? Aí, meus amigos, é que atinei com os pensamentos certos: o diabo só podia causar estrago quando entrasse no corpo de alguém. Foi por isso que ele ora olhava pra mim, ora olhava pra Dona Emerenciana, decerto matutando lá na cachola dele qual de nós dois lhe era de maior serventia tomar posse. Mas o que o Coisa-ruim não contava era com a minha astúcia. Antes do capeta se decidir o que fazer da vida, abri a boca e dei um bote pra cima dele.
— Louvado seja nosso Senhor Jesus, seu Alexandre, o senhor teve a coragem de morder o satanás?
— Que nada, seu Libório. O que eu fiz foi o seguinte: puxei todo o ar em volta do excomungado, uma puxada forte de ar, sabe? Igual quando a gente puxa fôlego pra acender cigarro de palha com fumo de má qualidade e... e... O que foi, seu Firmino? Por que está aí, o senhor, com esta cara de empalamado, de incrédulo? Ora, eu era um cabra novo, homem! Não tinha os pulmões catarrentos de hoje, não. E foi uma puxada só, viu? Enchi a boca daquele fumaceiro dos infernos e antes que o capeta fizesse graça de se escarafunchar por minha goela abaixo, soprei o infeliz dentro de uma garrafa que levava à cintura pra matar a sede. Assim que tampei a garrafa, a Dona Emerenciana esbugalhou os olhos e entrou num berreiro que Deus nos acuda. “Onde é que eu estou? Onde é que eu estou? Quem é Vossemecê?” E ela foi gritando, e ela foi chorando, e foi me enchendo de perguntas, e foi tampando aqueles peitos desavergonhados. Bom, pra encurtar a estória, levei a pobre pra casa grande do engenho e a devolvi ao velho Idelfonso, que Deus o tenha.
— Nossa Senhora, meu padrinho, o senhor é um herói!
— Eita compadre corajoso, sô!
— O Xandu é homem valente, desses que não se criam mais no mundo de hoje em dia!
— Mas... seu Alexandre, o senhor não me leve a mal...
— Arre égua, Seu Firmino, o que foi agora?
— Bom, é que estou aqui encafifado com uma coisa que ainda não atinei bem dentro das minhas idéias.
— Pois me diga lá o que lhe causa gastura.
— O senhor há pouco dizia que o capeta só podia fazer morada no corpo da gente, não é não?
— Sim, é isso mesmo que eu falei.
— Então, como é que o cramulhão estava de pouso no corpo apodrecido do Damião, se corpo não havia? O pobre só estava no esqueleto... não é isso?
— Ah, não... mas era só o que me faltava. Seu Firmino ainda está duvidando das minhas palavras!
— Não estou duvidando do senhor não! Eu só quero entender esta parte da estória, só isso!
— Pois eu vou lhe explicar melhor esta parte da estória, seu Firmino.
— Muito agradecido, seu Alexandre.
— Cesárea.
— Que foi, Xandu.
— Vá lá no quarto e, de  dentro do baú, me traga a garrafa.
— Oxente, seu compadre, não precisa trazer a garrafa não? Que é isso? Cruz credo, deixa isso pra lá, homem?
— Meu padrinho, deixe disso, viu? Seu Libório tem razão, não carece de nós botarmos os olhos no capeta não.
— Cesárea, eu não vou te pedir de novo, mulher! Me traga logo a garrafa!
— Estou indo, estou indo, Xandu. Não precisa gritar!
— Eu vou-me embora... mas é agora! Seu Firmino que vá sozinho pra casa. Eu já me fui. Boa noite!
— Espere seu Libório, não se vá!
— Meu padrinho, o senhor me desculpe, mas hoje vou dormir na casa do seu Libório. Aqui não fico não.
— Cesárea... ô Cesárea... anda com esta garrafa, mulher. O seu Libório e a Das dores já se fugiram de medo. Se vossemecê demorar demais o seu Firmino vai dar no pé também. Ande logo.
— ...
— Cesárea... mas que diabo de barulho foi esse aí no quarto, mulher?
— Oooooxe... Deixei cair a garrafa, Xandu. Ela se quebrou em mil caquinhos.
— Ué, seu Alexandre, a garrafa quebrou? E cadê o capeta?
— Oxente, seu Firmino, não seja leso das idéias. Vossemecê não viu ele passar aqui na cozinha, bem nas fuças do senhor, e sair pela porta pra se fugir na escuridão da noite?
— hum...ora, como é que eu posso ver o capeta seu eu sou cego, seu Alexandre?
— Ah... pois, então, não duvide daquilo que o senhor não pode ver, seu Firmino.
— E agora, Xandu?
— Ah, aí está Vossemecê, minha querida. Me traga outra garrafa.
— Está aqui, Xandu.
— Agora, faça companhia pro seu Firmino, este cu de encrenca, até na casa dele, viu?
— Ué, aonde o senhor vai a esta hora da noite, seu Alexandre?
— Oxente, não me arrelie mais do que já estou, seu Firmino. Eu vou é sair à rua pra vê se eu ainda ponho as mãos naquele capeta de novo. Boa noite e passe muito bem!
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