Carona Indesejada

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Imagem retirada da Internet

 

I

  

Walter Campos estava ficando atrasado. De madrugada, tinha dificuldades de se acomodar no Chevrolet LUV 1982 duas portas de seu pai, que ameaçava apagar a qualquer momento por problemas na velha bomba de gasolina. Dirigindo a miseráveis 55 Km/H, acabara de deixar para trás a BR-369, e precisava chegar ao amanhecer no Crystal Palace Hotel, pois teria uma reunião às 9 horas em Londrina, norte do Paraná.

Aquela noite de dezembro de 2010 exibia os sinais da chegada do verão. Fazia 29 graus e estava agradável dirigir enquanto a brisa entrava pela janela e lhe batia no rosto. Ele adorava a sensação que este período do ano causava, pois trazia lembranças boas da infância, de quando começavam as férias escolares e todas as suas obrigações de criança desapareciam. Era sem dúvida a melhor época do ano.

Com as mãos firmes ao volante, Walter dirigia rumo a um importante compromisso, que teria de manhã com a Prime Car, uma rede de produtos automotivos com 4 lojas e mais de 100 fornecedores. Ele acabara de conseguir um emprego na ESolutions, uma organização especializada em desenvolver sistemas e que atendia principalmente a empresas de médio e grande porte – inclusive multinacionais –, e a notícia de que conseguira o emprego foi-lhe dada no dia de seu aniversário de 21 anos. Para ele, o trabalho era uma grande realização, pois a paixão pela programação começara cedo, e aos 16 anos já devorava os livros de Lógica de Programação enquanto os seus amigos jogavam futebol na rua de trás da sua casa, com aquelas bolas vendidas em supermercado que se comportam como verdadeiras bexigas. E agora, crescido, Walter passava noites inteiras na solidão de seu quarto, mergulhado no trabalho enquanto seus mesmos amigos levavam as namoradas ao cinema para fazerem sacanagem na última fila.

Dirigindo ao som de The Unforgiven II, do Metallica, ele se lembrava das palavras que ouvira no dia anterior, pelo telefone: “Precisamos de um sistema de controle total... de pedidos, de fornecedores... de tudo! Um programa supimpa!”. Era assim que falava o Sr. Ricardo Lourenço, o dono da Prime Car, como se tudo fosse tão simples quanto acender um Lucky Strike do maço que carregava consigo no bolso da camisa. 

Walter ainda pensava sobre como o trabalho era simples até mesmo para um novato como ele, enquanto ajeitava o cabelo que fora ligeiramente bagunçado pelo vento. A reunião começaria depois de chegar ao hotel e descansar um pouco, e encontraria o senhor Lourenço bem cedo, trajado do terno Giorgio Armani preto com listras grafite que comprara justamente para a ocasião, portando uma pasta com canetas, folderes e outros brindes da ESolutions – “Cortesia barata” – como costumava dizer. Basicamente, ele tinha apenas que ouvir o homem explicar tudo sobre seu negócio e o que esperava do tal sistema. Depois, eles iriam almoçar em algum restaurante caro (para Walter) – mesmo se a reunião terminasse cedo – onde a conversa mudaria de rumo, provavelmente para mulheres, carros e futebol. E no fim, depois de um forte aperto de mãos, ele iria embora prometendo ao senhor Lourenço uma proposta por e-mail na segunda-feira. 

James Hetfield mal terminara de cantar pela segunda vez o refrão quando a bateria do celular de Walter acabou. A picape não tinha CD Player, apenas um velho toca-fitas que não conseguia mais sintonizar qualquer estação FM com clareza. Então, nem música mais ele tinha para se entreter enquanto dirigia. “A primeira coisa que vou fazer é comprar um carro decente”, esbravejou, enquanto escutava os engasgos do motor, que clamaria por socorro se pudesse falar. O carro era uma herança deixada por seu avô, que foi também o primeiro dono. O velho, apaixonado por carros, dava mais atenção à picape importada do que à própria mulher, e passava todos os fins de semana enfiado na garagem lavando, lustrando e fazendo reparos (des)necessários, numa rotina que durou até a tarde de 16 de maio de 1992, na qual morreu de infarto fulminante. Ele jamais trocara de carro, e por isso o pai de Walter sentia grande apego, tornando a picape o “automóvel do ano” por quase três décadas na família Campos, e essa era uma das coisas que mais irritava Walter. Porém, uma coisa nem mesmo ele podia negar: por fora a LUV estava em perfeito estado de conservação, em um branco polido que sob a luz da lua brilhava como pérola, fruto das constantes lavagens que seu pai mandava fazer uma vez por semana. Então estava tudo bem, pois não passaria vergonha ao chegar no hotel, e muito menos na reunião com o Sr. Lourenço. 

Já passava das quatro e meia, e aquela madrugada quente exibia um céu límpido e estrelado, bem diferente da grande São Paulo, onde é carregado por densas nuvens cinzentas de poluição. A lua cheia iluminava bucolicamente a estrada, que era desprovida de qualquer luz artificial que não fosse dos faróis em movimento, e que era cercada em ambos os lados por um matagal que sumia da vista e produzia um som inquietante ao ser balançado pelo vento. Enquanto dirigia, algo em seu interior anunciava que aquela seria uma madrugada que ofereceria muito mais do que a incômoda sensação por trafegar numa estrada deserta na escuridão da noite. 

Um pouco mais atrás, vários caminhões haviam buzinado em sua traseira, por causa da humilde velocidade que a LUV conseguia alcançar, e ele havia ficado muito irritado com tamanho constrangimento. Mas agora ele estava dirigindo tranquilamente pela estradinha deserta, que entrara ao virar à direita, e não mais havia nenhum carro, nenhuma luz, nenhuma presença. O sossego era bom, mas ao mesmo tempo assustava um pouco, pois Walter tinha a sensação de que todo o vestígio de vida tivesse sido varrido dali, e quando ele se deu conta disso, ficou assustado. 

A estradinha não parecia ser muito longa, embora estivesse dirigindo nela há mais de cinco minutos. O trecho em que estava era um pouco esburacado, e o mato alto que havia dos dois lados do asfalto precário só lhe permitia olhar para frente – como num corredor – torcendo para que nenhum animal surgisse de repente em seu caminho sem que ele pudesse parar. 

Foi então que, depois de andar mais alguns metros, ele começou a sentir que o interior da picape estava ficando gelado, contrariando o calor agradável que fazia naquela noite. Ele levantou o vidro e apertou mais as mãos contra o volante. Por algum motivo começou a ficar inquieto, desconfortável e com aquele forte pressentimento ruim cada vez maior. 

Quando voltou a se concentrar na estrada, já era tarde demais. Uma mulher pálida e de vestido preto estava parada bem a sua frente, com os olhos completamente brancos. Walter não conseguiu sequer pisar no freio, e o carro bateu forte contra ela. O choque foi inevitável, tão forte que rachou o para-brisa da velha picape e tirou-a da pista, com um estrondo fortíssimo como numa batida contra um muro. 

Assim que o carro mergulhou na mata, o silêncio tomou conta do ambiente. 

Enquanto se recuperava do acidente, ele olhou para trás e viu o corpo da mulher caído na estrada. Ela estava deitada de lado, e sua pele era pálida como a lua. Junto do corpo havia uma poça de sangue que aumentava lenta e viscosamente, e o vestido esfarrapado balançava sob o vento, movimentando-se lentamente diante de seus olhos. 

O corpo dele começou a tremer, e as mãos molhadas pelo suor frio pressionavam o volante com muito mais força agora. Walter lembrou-se de como ela apareceu do nada, com uma expressão morta, como se quisesse ser atropelada, e aqueles olhos brancos quase que denunciavam que ela não era deste mundo (pelo menos não mais). A garganta dele se fechou de medo, pois o pensamento martelava, por mais ridículo que pudesse ser, mas na verdade Walter não sabia se havia atropelado uma moça de verdade ou se aquilo era a visão de um fantasma. 

Ele não acreditava muito em assombrações. Só havia passado por uma experiência que podia ser chamada de sobrenatural: certa vez acordou durante a noite, sentindo que alguém estava em cima do seu corpo, lhe enforcando com as mãos. Podia ouvir tudo o que acontecia a sua volta – os carros passando pela rua, alguns vagabundos ouvindo música alta em uma casa próxima à sua, e seu pai assistindo televisão na sala – mas ele não conseguia abrir os olhos ou tampouco se mexer. Apenas depois que começou a rezar a sensação passou e tudo voltou ao normal. Na hora ele sentiu muito medo, mas depois de pesquisar um pouco descobriu que o fenômeno é muito comum, conhecido como paralisia do sono, e pode acontecer quando os mecanismos do cérebro que ativam os nossos sonhos e deixam o corpo imóvel – para evitar que nos movimentemos de verdade enquanto sonhamos – continuam ativos, mesmo quando acabamos de acordar, e impedem qualquer movimento físico e real. É uma sensação horrível, e o medo que ela causa faz com que a pessoa pense estar sendo atacada por alguém que não existe. Fora isso, as inúmeras histórias de medo que havia escutado não eram dignas de crédito... Haviam acontecido com o primo de um amigo do vizinho, com um novo detalhe acrescentado em cada vez que a história era contada. 

Mas a situação de agora era diferente, a aparição era real demais. 

Tentando manter o bom raciocínio, Walter se lembrou da lanterna que seu pai guardava no porta-luvas, e abriu o compartimento para pegá-la. Foi então que uma voz feminina, fria e cheia de rancor, pôde ser ouvida por ele: 

– Você pensa que me esqueci do que fez comigo? Vou te arrastar para o Inferno esta noite! 

Sua garganta se fechou e imediatamente ele começou a chorar. Naquele instante, era muito mais fácil jogar tudo para o alto e partir com o carro pela madrugada adentro, deixando a suposta “cena do crime” para trás o mais depressa possível. Mas o corpo dela ainda estava lá, imóvel. Ele era real, e por isso a cabeça de Walter se bombardeava de perguntas. – E se eu estiver apenas alucinando? – questionava-se, atordoado. Havia ainda o medo por causa de seus pais, da polícia e, caso ela fosse real e estivesse viva, da culpa por ter omitido o imprescindível socorro. 

Ele sabia que não tinha escolha. Por mais absurda que fosse a ideia, teria que verificar o corpo. Descer do carro e ir lá. Essa constatação o fez ficar paralisado dentro do carro por minutos, encarando aquele corpo imóvel que ali continuava. Ele só queria que tudo sumisse de repente, igual aos pesadelos que acabam quando se acorda. 

Mas o corpo não desapareceu. 

Com a lanterna nas mãos, ele desceu do carro e começou a andar lentamente em direção à ela. A adrenalina deixara os seus sentidos completamente aguçados, e a cada passo que dava, tentava vê-la melhor. O vestido negro estava bem maltratado, sujo, e aparentava ter décadas. (Mais alguns passos...) Viu também que estava descalça, e suas pernas estavam muito machucadas e cheias de sangue. (Mais alguns passos... “Meu Deus, o que estou fazendo aqui?”). Finalmente se aproximou o bastante com a lanterna e lhe iluminou o rosto por entre os cabelos negros. Seus olhos estavam arregalados e a boca completamente aberta, como se tivesse sufocado, numa expressão de imensa agonia. Ela estava morta. 

Walter entrou em choque. Tornara-se um assassino, e alucinação nenhuma poderia mudar isso. Ele caiu de joelhos na frente do cadáver, tomado por imensa agonia e torpor. Não acreditava que tudo aquilo pudesse estar acontecendo com ele. 

A lanterna, então, se apagou. Na completa escuridão, ele tinha apenas a defunta como companhia. O medo, que aparentemente não poderia ser maior, aumentava. Walter sacudiu a lanterna um pouco e lhe deu algumas pancadas com a palma da mão. Ela acendeu novamente, brilhando forte contra os seus olhos, fazendo a vista doer. Desviou a luz para frente novamente, e foi neste momento que o fato maligno aconteceu. A mulher de vestido negro estava em pé, parada diante dele, com os olhos brancos arregalados e uma expressão cruel. Da sua boca escorria um sangue negro e purulento. 

Walter quase morreu de susto, de forma literal. Seu coração saltou com tanta força que a dor no peito tornou-se insuportável, impedindo de conseguir gritar. A lanterna caiu no chão e apontava diretamente para a silhueta espectral dela, que com o braço direito tentou puxá-lo para si. Com um grito de desespero, o rapaz caiu no chão. Ela vinha em sua direção, e o coração batia cada vez mais forte, como se tentasse escapar pela boca. Com as pernas anestesiadas e cambaleantes, ele conseguiu se levantar e começou a correr em direção ao carro. O medo já havia tomado conta de cada músculo, tendão e nervo de seu corpo. 

Ele não ousava olhar para trás, enquanto corria sem rumo. Embora tentasse localizar a picape, era praticamente impossível por causa da escuridão e do pavor que o dominou. Sentia que ela o perseguia de perto, e que iria puxá-lo pelo pescoço a qualquer momento, embora isso não tivesse acontecido. 

Walter conseguiu chegar até a picape, e a pegou a chave para dar a partida no motor, mas suas mãos tremiam tanto acabou derrubando-a no assoalho, fazendo que fossem parar debaixo do banco. Ele apalpava desesperadamente o chão do carro, e a cada segundo que passava sentia aquela presença se aproximando mais. 

Uma risada baixinha e de tom sádico podia ser escutada, cada vez mais próxima. 

Finalmente ele sentiu as chaves com os dedos e as pegou. 

A picape ligou na terceira tentativa, e Walter pisou fundo no acelerador, de ré, fazendo-a sacudir violentamente pelo mato enquanto voltava para a estrada. Depois de engatar a primeira marcha, saiu cantando os pneus e fazendo subir uma fumaça negra acompanhada de um forte cheiro de borracha queimada. Os faróis proviam a pouca iluminação que ele dispunha, enquanto o carro era envolvido pela escuridão daquela estrada amaldiçoada. 

Embora a velocidade do veículo não fosse grande coisa, ele nutria esperanças de que conseguisse sair daquele lugar e deixar todo o pesadelo para trás. Mas, a sensação de que não estava sozinho continuava forte. Porém, ele olhou para o banco do passageiro e viu somente sua mala de dois eixos e a pasta da empresa que trazia consigo, para a tão esperada reunião que talvez jamais aconteceria. 

Com os olhos de volta na estrada, ele dirigia o mais rápido que podia, aguardando ansiosamente o fim dela e, consequentemente, daquele tormento. 

Walter estava um pouco mais calmo. Alguns minutos se passaram e o pesadelo estava acabando, ele estava se distanciando de toda aquela cena terrível! Logo ele deixaria de uma vez por todas aquela estrada maligna e... 

A picape começou a perder velocidade. O motor repentinamente apagou. 

O pavor que tomou conta dele ultrapassou os limites do que pode ser suportado. O carro simplesmente desligou e nada fazia com que ele funcionasse. Faltava pouco para tudo terminar – conseguia ver uma curva que delimitava o fim da estrada, à esquerda – e, de repente, ele estava em perigo novamente. 

Diante daquela situação, ele tinha que tomar uma única decisão. Ou ficava no carro, onde talvez estaria mais protegido, ou saia a pé mesmo e, por conta própria, andaria até chegar naquela curva, mesmo não sabendo se sair da estrada era a solução. Nenhuma das duas escolhas era boa o bastante para salvá-lo, e ele sabia disso. A solidão e o confinamento em que estava eram amedrontadores. Walter só pensou em seu celular como última forma de conseguir ajuda, mas ao pegá-lo se lembrou de que a bateria ficou descarregada. Ele contava somente com uma da duas opções: esperar no carro pela chegada daquele espectro infernal, ou tentar a sorte a pé e ser alcançado de qualquer jeito. 

Com aquela expressão demoníaca e os olhos brancos, a morta estava agora em pé, diante de seu carro. Aqueles olhos traziam a morte consigo, e Walter estava petrificado pelo susto. Acuado, ele apenas chorava de tamanho que era seu medo. 

A morta começou a se mover, cambaleando em direção ao carro. Seus pés descalços raspavam no asfalto. Ela rosnava e ainda tinha sangue escorrendo pela boca. Enquanto caminhava, suas unhas riscavam profundamente o vidro da picape, fazendo um barulho estridente e assustador. 

Ela parou junto a porta em que fica o banco do passageiro, e com um movimento rápido sentou-se ao lado de Walter, atravessando a porta. Ele quase enfartou ali. Apenas movendo os olhos, conseguiu contemplar aquela visão mórbida perfeitamente. Viu o rosto ensanguentado e notou-lhe a expressão ainda jovem, percebendo que ela devia ser muito nova quando morreu. Os olhos esbranquiçados eram tão tenebrosos que causavam-lhe tontura. Foi por isso que ele desviou o olhar e viu, na altura do peito, um colar de prata com pingente de borboleta, sobressaindo sobre o vestido negro empoeirado. Ele era brilhante e passava uma sensação de tristeza e solidão, e o que mais chamava atenção era o fato de estar num estado impecável, lindo, totalmente diferente de sua portadora. E por um longo momento ele ficou hipnotizado pelo brilho frio como a lua daquele colar com o pingente de borboleta. 

Mas a visão mais aterradora da vida de Walter estava ali, sentada ao seu lado, como uma fera antes do abate. O sangue negro de sua boca respingava no banco. Ela estendeu uma das mãos em direção à cabeça dele, e o cheiro podre que lhe saia da carne quase o fez vomitar. Ele tentou abrir a porta e correr, mas era inútil. Seu corpo continuava paralisado de tanto medo. 

Walter sentiu as unhas pontudas deslizando pelos seus cabelos, e o cheiro podre ficava cada vez mais insuportável. Quando a mão dela tocou em sua nuca, sentiu um choque percorrer seu corpo inteiro. Aos poucos seus músculos ficaram relaxados. Ele viu o rosto demoníaco dela, mas já não sentia tanto medo... a sensação de dormência apenas aumentava. Sua visão começou a ficar turva, e tudo parecia estar mais distante. O terror praticamente tinha ido embora, e enquanto sentia estar em seus últimos momentos, finalmente ficara aliviado. 

– Pelo menos acabou – foi a última coisa que pensou antes de perder a consciência.

 

...  


Uma buzina de caminhão. Foi a primeira coisa que ele ouviu depois de ficar algum tempo desacordado. 

Aos poucos, Walter estava recobrando os sentidos, e seu corpo estava completamente duro. Os braços estavam doloridos como se tivesse carregado um piano. As luzes que passavam diante dos seus olhos tinham um aspecto abstrato e embaçado, mas ele já estava consciente o suficiente para ver que a assombração não estava mais ali. Não havia nenhum vestígio daquela mulher. 

Pela primeira vez, respirava aliviado. 

Aos poucos foi notando que as luzes que vinham rapidamente e em pares, pela frente e por trás de seu carro, eram os faróis de inúmeros outros carros que transitavam pela estrada. Ele percebeu, por isso, que não estava naquela horrível estrada deserta. Mas não conseguia discernir o que havia acontecido. 

Quando a visão retornou totalmente, tomou um susto quando percebeu que seu próprio carro também estava em movimento.  Os braços estavam firmes ao volante, o pé direito abandonou o acelerador e o pé esquerdo pisou na embreagem. Trocou da terceira para a quarta marcha, e o pé direito voltou firme ao acelerador. 

O desespero voltou com toda a força quando ele percebeu que seu corpo se movia sozinho, como se tivesse vontade própria! 

Foi então que sua boca começou a se movimentar, e ele começou a ouvir sua própria voz, que lhe trouxe a terrível constatação que estava acontecendo. 

– Peguei o seu corpo emprestado, espero que não se importe tanto – disse ela. Walter poderia urinar nas calças se seu corpo ainda fosse seu. Ele estava preso dentro de si próprio. Não podia se movimentar ou falar, mas ouvia e sentia tudo perfeitamente. O gosto amargo que tinha na boca era insuportável. Se sentia invadido, violado. E a possessão começava a criar um vínculo entre o espírito dos dois, o que permitia que ele sentisse parte do ódio que ela carregava dentro de si – um ódio infernal. 

– Eu não sou um demônio, sou apenas mais uma maldita alma atormentada que vaga por esse mundo. Aliás, eu já fui visitada algumas vezes pelos demônios... Eles têm um cruel senso de humor. Preciso confessar que eles são criativos. Digamos que eles contribuíram muito para que a minha aparência ficasse do jeito que você viu quando me sentei ao seu lado – explicava. Ele sentia o quão atormentado estava o espírito dela, a um nível que não podia ser definido pela percepção humana. 

– Faz décadas que não falo com alguém... Desde que eu era viva. Estar em seu corpo é como se eu pudesse voltar a viver! Estou até aproveitando suas habilidades de dirigir. Se eu não tivesse um motivo tão forte para estar aqui, apenas de passagem, poderia ficar dentro de você para sempre. O que você acha disso? – brincava, assustando cada vez mais seu hospedeiro. 

Walter queria chorar, mas era impossível. Seu pavor estava quase deixando-o louco. 

– Eu sinto o seu medo, moleque, e está uma delícia! Mas você parece uma menininha. Nem eu fiquei assim antes de morrer... E você nem sabe o quanto eu sofri ante de morrer – dizia ela, enquanto ria em tom sádico. – Eu vou te contar como eu morri, você vai gostar de ouvir. E se você for bonzinho, até o amanhecer tudo isso vai terminar, seu ratinho imbecil... 

...Mas por enquanto, de você só quero uma carona.

  

II

  

Naquela madrugada de sexta-feira, André Mendes estava sentado no banco do bar, com o chapéu de feltro sobre o balcão, e tomava mais uma de suas doses de cachaça, exatamente como fazia em cada dia dos últimos 32 anos. A expressão dura que lhe estampava a face fazia com que parecesse ter mais do que seus 55 anos de idade. Homem de poucas palavras, acuava a todos da vizinhança com seu jeito ríspido, além de possuir uma estatura intimidadora, quase atingindo os 2 metros. 

– Me dá mais um rabo-de-galo, seu infeliz de merda. 

– Já te falei que se continuar falando assim comigo, não te sirvo mais, seu velho doente! 

Mas o dono do bar sempre servia. E enquanto despejava o vermute sobre a pinga, pensava sobre o que poderia lhe acontecer se recusasse a servir o velho Mendes – uma surra na melhor das hipóteses, mas um tiro seria mais provável –. O homem não fazia questão de esconder o calibre 38 que carregava na cintura, nem mesmo das crianças. Ele gostava de intimidar a todos e fazia questão de afastar moleques atrevidos e vendedores inoportunos. Ganhara até dos moradores locais o apelido de “Coração Gelado”, mesmo que todos soubessem que o seu coração ardia em ódio, na verdade. 

Mas nem sempre o coração de Mendes fora assim tão gelado. Afinal, ele era um jovem de futuro promissor. Filho de belo-horizontinos de ascendência lusitana, o pai tomava conta de um restaurante, cujo nome levava o sobrenome da família, e a mãe dava aulas de História na Escola Estadual Governador Milton Campos. 

André tinha apenas 23 anos, e estava ansioso em ajeitar a própria vida. Aprendeu o ofício de mecânica com o avô, que acabara de se retirar do trabalho e deixou para ele toda a oficina para administrar. Desde pequeno ele gostava de carros, e assistia atentamente enquanto o avô consertava câmbios, motores, radiadores e trocava peças, sonhando em um dia ser ele a fazer isso. Aprendeu cada lição, cada artimanha do ofício, e sua grande recompensa finalmente havia chegado. O próspero negócio do amado avô era todo seu. 

Mas isso não era o tesouro mais precioso da vida de André. O que ele mais amava nesse mundo atendia por um nome: Célia. Ele conhecera a jovem na oficina do avô, quando um homem foi com sua filha deixar o Fiat 147 para realizar reparos nos freios. Foi paixão à primeira vista, e em pouco tempo ambos começaram a namorar. A linda Célia tinha acabado de completar 20 anos, e era uma das mais belas mulheres de toda a cidade, talvez até mesmo do Estado. A pele branca, os lindos olhos azuis e os lisos cabelos negros faziam com que qualquer varão parasse para admirar a bela vista da moça.

Tudo parecia perfeito na vida de André Mendes, e talvez assim continuasse, se a sua incapacidade de resolver problemas sérios não o tivesse atrapalhado. E atrapalhou terrivelmente. 

Era 5 de julho de 1978 e André havia saído da festa de casamento de Ulisses, seu melhor amigo. Ele não havia levado Célia pois a avó dela estava muito doente, e sua mãe pediu que ela ajudasse a tomar conta da velha. Os pais dele também não foram. Por causa do grande movimento do Restaurante Mendes, o pai de André trabalhava duro, e sua mãe havia ficado para ajudar. E a falta de alguém para monitorá-lo fez com que exagerasse demais na bebida. Bebeu até não conseguir diferenciar uma jovem moça de um senhor de sessenta e cinco anos. 

– Dirija com cuidado homem, você está embriagado demais... Quer que eu peça pra alguém dirigir pra você? – perguntou Ulisses. 

– Eu não... não pre... ciso que ninguém me le.... ve – respondeu André, enquanto tentava achar os pedais, com as pernas amolecidas. 

Ulisses também sabia que nenhum dos convidados morava próximo a André, e assistiu com certa preocupação os pneus do Passat levantando poeira enquanto sumiam na estrada. 

Com a visão completamente embaralhada, André sabia que havia exagerado demais na bebida e, principalmente, passado do horário de chegar em casa. Seu pai nunca permitia que voltasse após a meia-noite, e já eram duas da manhã. Sabia também que levaria uma bronca inesquecível de seu velho quando adentrasse na casa, pois de jeito nenhum eles conseguiriam dormir enquanto o filho não chegasse são e salvo. E como ele nunca chegava tarde de seus compromissos, com certeza a agonia deles e a bronca seriam ainda maiores. 

E ele acelerava cada vez mais pelas estradas que atravessava. Apenas por imaginar a cara de seu pai quando sentisse o cheiro da bebida fazia com que ele suasse frio, mesmo sem conseguir pensar direito por causa de bebida. Ele havia corrido tanto que em pouco tempo estava perto de casa. 

Sua desgraça, porém, estava ainda por vir. Ao virar à direita e entrar em uma estradinha espessa, ele não percebeu a silhueta de um transeunte. Se ele porventura estivesse sóbrio, teria conseguido parar, mas bêbado nem pôde perceber. A pancada contra o para-brisa foi muito forte, e o corpo voou por cima de seu carro.

Ele rezava para que fosse apenas um animal. Mas quando desceu cambaleante, fez a constatação mais horrível de sua vida... Era uma pessoa. Mais do que isso, era Célia! 

Ela estava muito machucada, porém consciente. André chorava e ao mesmo tempo ria de desespero, não sabia o que fazer. Perguntou a ela como poderia estar andando sozinha, em uma hora tão tarde da noite. E ela explicou, com terríveis dificuldades para falar, que ficou sozinha cuidando da avó e que iria dormir na casa dela, mas que a senhora havia piorado demais, obrigando-a a sair correndo pela cidade para contar a seus pais e chamar um médico. E André gritava de tamanho que era seu sofrimento. 

Célia quebrara os dois braços, e não conseguia mover ou sentir as pernas. Ela clamava para que seu amor a levasse a um médico. E André foi mergulhando em suas emoções e temeridades. A bebida ajudava mais ainda a confundir seus pensamentos. Começou então a imaginar a cidade em revolta contra ele por ter deixado a doce e adorável Célia inválida. Imaginou seu futuro desmoronando... Sua oficina, seus negócios e sua vida. Imaginou-se preso, ou pior, assassinado caso algum dos abastados e influentes familiares portugueses cde Célia resolvesse fazer justiça com as próprias mãos. Ele estava enlouquecendo com tais pensamentos. E assim, embriagado pelo coquetel do desespero e da covardia, chegou à conclusão de que ninguém poderia saber do desastre que havia causado. 

Em meio a sua insanidade temporária, correu para o carro e pegou seu casaco, que estava no banco do passageiro. Ele estava alucinado ao ponto de ficar excitado para se livrar daquela situação. Não havia mais o que pensar. Célia perguntou se iria ficar bem, e ele respondeu que a dor e o sofrimento eram apenas temporários, pois iria abreviá-los para ela com todo o seu amor. Ela só entendeu a insanidade de tal afirmação quando sentiu que ele passava o casaco em volta de seu pescoço. Ela tentou evitar, mas era impossível com o corpo naquele estado. André chorava, esperneava e gargalhava em seu desespero e enquanto apertava bem o tecido contra a garganta de sua amada. Soltou apenas quando percebeu que ela não mais respirava. 

Foi então que se deu conta do que havia feito e enlouqueceu de vez. A culpa o deixou em um estado de sofrimento indescritível. Queria se matar também, queria morrer ali, ao lado de sua... Mas sua covardia jamais o permitiria assumir qualquer consequência pelo que fez a sua doce Célia. Ele era fraco, sabia muito bem disso, e por este motivo tirou a vida de sua futura esposa e desgraçou a si próprio. 

Sem conseguir raciocinar mais, carregou o corpo dela mata a dentro e ali mesmo o abandonou, depois de vários metros. Deixou para trás a carne sem vida da mulher por quem jurara todo o seu amor, uma moça cheia de sonhos, dons, ideias e vigor. Trocou a vida dela pela sua própria paz mental, sem se dar conta de que, com isso, criara um trauma irreparável em sua vida. 

Enquanto cambaleava em direção ao carro, envolvido em suas lamentações e ainda sob os efeitos da embriaguez, e chutou, sem perceber, o belo colar de prata com pingente de borboleta que deu a ela no dia em que a pediu em casamento. 

Ele só chegou em casa às três e meia da manhã. E após levar a maior bronca de sua vida, mentiu a seus pais dizendo que bateu o carro em uma árvore, por conta da embriaguez. Como tinha um corte na testa, devido ao impacto do atropelamento, o usou para justificar o sangue em sua roupa. Seu pai havia ficado inconformado com a irresponsabilidade dele. Como podia ter ficado bêbado, chegado tão tarde e, ainda por cima, batido o carro? Isso renderia uma boa surra, se não fosse pela alegria que ainda existia por ver que seu filho tinha chegado são e salvo em casa. 

Ninguém havia desconfiado da real história. No entanto, André não compareceu a nenhuma missão de busca junto aos parentes, amigos e vizinhos. Ele ficou o tempo todo trancado em seu quarto, sem se comunicar com ninguém. Enquanto isso, a polícia trabalhava duramente nas horas que se seguiam, à procura de qualquer pista que pudesse leva-los à garota desaparecida. 

Dois dias depois, acharam o corpo de Célia na mata. 

Não demorou muito até que as circunstâncias daquela noite e o comportamento estranho durante as buscas colocassem André como principal suspeito do terrível homicídio que chocou o Estado de Minas Gerais. Então, por medo de ser preso e sem nenhuma escolha, ele fugiu para o lugar mais longe que pudesse ir, e assim foi parar no Paraná. 

André enfrentou muitas dificuldades. Não conseguia emprego digno e levantava as mãos aos céus quando conseguia ao menos uma refeição decente por dia. Com o tempo conseguiu um emprego de cobrador para agiotas da região, onde suas principais atribuições eram saber quebrar dedos, cortar orelhas ou até mesmo fazer a dívida morrer junto com o caloteiro. O jovem rapaz de futuro promissor agora não passava de um fugitivo da lei, assassino de sua amada, e cuja vida amaldiçoada o condenava a viver vagando sozinho com sua dor, por todos os dias, até que o alívio viesse líquido, descendo pela garganta a cada dose, ao entrar por quaisquer bares onde suas pernas o levassem. 

Mas ele nunca se esqueceu quando os olhos de Célia se apagaram, quando em sua insanidade havia dito a ela que lhe tiraria a vida por amor.

  

 III

  

Já fazia um bom tempo que estavam na estrada, e Walter não fazia ideia de para onde iam. Preso em seu próprio corpo, a única coisa que o assustava mais era não saber o que ainda podia esperar daquela antemanhã amaldiçoada. Ele queria que tudo não passasse de um sonho, porém estava plenamente acordado. 

– ... E foi assim que o maldito me matou – concluía a história, que contou a ele durante a última hora, enquanto dirigiam. – Me enforcou com sua própria roupa e ainda falou que isso era uma demonstração de amor – sua voz se transformou: – Pois agora sou eu quem vai amá-lo um pouco!!! – vociferou, com um tom demoníaco. 

– Está pensando como eu sei onde o maldito está? É bem simples. Almas penadas como eu vivem sendo perturbadas pelas coisas maléficas de lá de baixo, os demônios. Eles nos arrastam, nos machucam, fazem coisas terríveis conosco... Mas são bons de barganha! Disseram que eu ainda vou acabar como um deles, mas se eu quisesse poderiam me ajudar. Ofereceram-me que vendesse a minha alma aos desejos pervertidos daquelas criaturas horrendas, e em troca me ajudariam a encontrar aquele que me causou isso, o amor da minha vida, ou melhor, da minha morte! – gemia ela, com o júbilo contrastado pelo tormento. 

– Só eu sei o que passei na mão daqueles malditos! Mas eles cumpriram a promessa. Pena que eu estou fraca demais para ir até ele sozinha... Bem, espero que entenda porque peguei o seu corpo emprestado. Eu vou pro Inferno depois, mas acho mesmo que hoje o jovem Walter vai se tornar um assassino! – dizia ela, rindo do desespero a que Walter era submetido. 

Após mais alguns minutos na estrada, eles dobraram à esquerda, parando o carro em frente a um bar que ficava aberto durante toda a madrugada. 

– Chegamos. É nesse bar que o miserável fica. 

Assim que entraram no velho bar, “Walter” (ou melhor, Célia) perguntou ao dono se ele conhecia certo homem chamado Mendes. A resposta foi curta e seca: 

– Quem não conhece o maldito? Adora beber sem pagar e ameaçar as pessoas daqui. Ele está ali no banheiro mijando, cara. Mas por que está perguntando, ele é seu amigo? Porque se for, me faz um favor, LEVA ELE EMBORA DAQUI! 

– Não se preocupe, vou leva-lo. Vamos descer juntos, muito abaixo do que você imagina – respondeu “Walter”, e o dono do bar ficou sem entender o teor de tal declaração. 

André Mendes saiu do banheiro, e se sentou em um banco exatamente ao lado de sua amada falecida, sem reconhecê-la, obviamente. 

– Me dá mais uma, seu filho da puta inútil – esbravejou Mendes, enquanto se debruçava sobre o balcão. 

Mais uma vez, sob protestos (mas com medo de levar um tiro), o infeliz homem serviu a bebida ao seu velho desafeto. 

“Walter” encarou Mendes com grande fascínio, notando como a vida o castigara. Célia percebera que, mesmo saindo vivo daquele dia, parte dele havia morrido junto com ela. Nesse momento, o velho mal encarado percebeu que estava sendo observado e gritou com “Walter”, colocando a mão na cintura para ameaçar puxar a arma: 

– O que é que você tá olhando, imbecil. Por acaso é bicha? Presta bem atenção, maricas, eu não compartilho do seu gosto, viu?! Então some logo daqui antes que eu enfie o cano da minha arma no seu rabo e faça o tiro sair pela boca! 

“Walter” chegou perto dele, sem se intimidar com a arma. 

– Puxa André... Quanto tempo. Quase não te reconheci. Você está mesmo muito acabado... Até uma moça morta há mais de trinta anos aparenta estar mais inteira do que você. 

Ele ficou atônito, não entendia se aquela declaração era uma simples coincidência, ou se aquele moleque sabia de seu passado sombrio. 

Então, “Walter” chegou lentamente perto do ouvido dele e falou, dessa vez, com a voz real e inconfundível de Célia: 

– E será que você ainda estrangula suas namoradas por amor... como fez comigo, querido? 

O susto fez André Mendes cair do banco com as costas no chão. A arma que segurava com tanta firmeza estava agora esquecida debaixo de um dos bancos. Ele ficara desesperado, com os olhos arregalados e encarando “Walter”. 

– Não... não... não pode ser? – gritava o velho, babando e atônito. – Quem é você?!!! 

Agachando-se diante dele, Célia tirou do bolso da camisa de Walter o colar de prata com pingente de borboleta e o segurou diante dos olhos dele. Ele reconheceu imediatamente o presente que dera a ela e foi tomado de pavor imenso. Ela respondeu: 

– Ora, meu amor, o seu jeito de amar foi tão especial que eu voltei pra mostrar o quanto te amo também... 

O velho Mendes, conhecido como o ser mais macho e temido de todo o Estado do Paraná, agora estava ali, caído, com mais medo que uma criança que acredita no monstro do armário. Os demais clientes do bar ficaram admirados, e se perguntavam o que de tão especial tinha aquele jovem, que conseguia apavorar o homem que nem os policiais conseguiam fazer respeitar. O dono do bar, particularmente, se divertia com a situação. Sonhava a cada dia em ver alguém botar o “Coração Gelado” no seu devido lugar. E definitivamente o seu sonho estava sendo realizado bem ali. 

– Saia de perto de mim!!! Saia de perto de mim!!! – gritou ele, enquanto empurrou “Walter” com toda a força que ainda tinha e correu com suas pernas cansadas para fora do bar. 

Mendes correu o máximo que pode e atravessou a estradinha de terra, correndo sem direção para o meio do matagal. Atravessava pelas árvores sem enxergar praticamente nada, uma vez que o dia não tinha começado a clarear. Célia, na pele de Walter, ia atrás dele, alucinada e sedenta pela chegada de sua vingança. Sabia que, por ter se vendido para as “criaturas de lá de baixo”, iria para o Inferno eterno, mas estava decidida a levar seu “amor” consigo. 

Ele chegou ao limite de seu corpo frágil e avelhentado. Tentava tomar fôlego, pois o coração já não aguentaria mais nenhum esforço. Como toda gente mais antiga, acreditava com muito mais facilidade nas “histórias de fantasmas”. Mas não conseguia acreditar que Célia voltasse dos mortos para se vingar dele. 

Após vários minutos, ele ainda estava imóvel, se recuperando da corrida desesperada que fizera. Percebeu então que não escutou mais os passos que lhe perseguiam. “Talvez eu tenha conseguido despistá-la”, pensou ele. O ambiente já não estava totalmente escuro, os primeiros raios do sol começavam a aparecer. “Talvez a chegada do amanhecer tenha afugentado ela”, concluiu, enquanto tentava se acalmar. 

E foi quando Mendes virou para o lado e viu o rosto de “Walter” sorrindo para ele. Um sorriso mórbido e com o olhar cego de quem se diverte sem se preocupar com as consequências. Ele não teve tempo de fugir, e Célia o agarrou pelo pescoço, prensando-o contra uma árvore. Ela o apertava com força, enfeitiçada pelo prazer, enquanto Mendes olhava apavorado para os olhos de “Walter”, que repentinamente assumiram a cor vermelha. 

– Veja como eu esmago sua garganta, seu desgraçado, com essas mãos tão jovens e fortes de um homem, exatamente como aquelas mãos que você tinha quando me assassinou! – dizia ela, com a voz fantasmagórica que, embora para Mendes fosse novidade, para Walter já tinha virado um costume escutar.

 Walter, por sinal, estava tão desesperado quanto o velho. Não queria se tornar um assassino, e sentia suas mãos torcendo a garganta do infeliz. Foi nessa hora que ele criou coragem e conseguiu se concentrar. Começou rezar, como fizera para se livrar da paralisia do sono. Ela estava embriagada pela vingança e não pôde perceber. Assustado, invadido, possuído, mas consciente da prisão que sua alma vivia dentro do próprio corpo, ele finalmente conseguiu rezar. Foi uma reza rápida, curta, mas sincera. Sua mãe sempre dizia que uma oração pura é a arma mais poderosa de um homem, e tal afirmação se mostraria verdadeira. E então aconteceu. 

Como numa implosão, Célia foi violentamente arremessada para fora do corpo de Walter. Ele finalmente recuperara a si mesmo, e caiu de joelhos diante de Mendes. O tempo era curto e os dois começaram a fugir por direções opostas. Mendes se arrastava, pois estava sem fôlego, e Walter fugia quase que correndo, enquanto recuperava os movimentos do corpo. 

O dia amanhecia, mas André Mendes nunca enxergou a sua luz. Enquanto fugia, viu aparecer em sua frente uma grande silhueta negra, e sentiu as suas mãos tocarem em algo absolutamente frio, congelante. Quando percebeu que era um dos pés de Célia, soltou um grito desesperado. Walter olhou para trás, ainda tonto, e viu a aparição parada diante do velho. 

– Ah, meu querido, meu maldito... A minha morte nos separou, mas a sua morte vai nos unir. O que vou fazer agora também é por amor, vamos ficar eternamente juntos... Como deveríamos ter ficado antes de você me estrangular! 

Ela deu a volta enquanto ele se arrastava e chorava de pavor. Pegou a sua perna direita e, olhando para Walter, começou a arrastar Mendes para longe. O velho implorava por socorro, mas era em vão. 

Para Walter não restava nada além de correr. Correu com todo o seu fôlego, como nunca havia feito na vida. E sem perceber, ele fugia pela mesma direção pela qual perseguiu Mendes quando Célia estava em controle do seu corpo e, devido a essa coincidência, conseguiu encontrar o bar. 

André Mendes não teve a mesma sorte, e foi arrastado até desaparecer na escuridão junto da amada que assassinara em 1978. 

E Walter voltou para o estacionamento, chegando à velha LUV. Nunca ele havia ficado tão feliz de ver aquele carro. Após entrar, deu a partida e dirigiu o mais rápido que pôde. A direção não importava naquele momento, pois queria apenas desaparecer daquele lugar. 

Mesmo livre, ele não conseguia deixar a sensação de ter aquela alma cheia de ódio, desespero, terror e sede de vingança dentro de seu corpo. Ainda conseguia ver o rosto pálido e assustado de Mendes enquanto era arrastado floresta a dentro rumo ao Inferno. Mas o que ele nunca conseguiria esquecer, na verdade, era dos olhos brancos de Célia – os olhos da morte.

Sem conseguir dirigir direito e, enquanto lembrava daqueles olhos, ele perdeu o controle do carro, batendo de frente com uma árvore. O impacto o projetou para frente, de modo que sua cabeça se chocou com o volante. Novamente ele perdeu a consciência, mas finalmente estava livre daquela maldita noite.

  

IV

  

– Doutor, ele está acordando – disse a enfermeira. 

– Onde estou? – perguntou ele, ainda sonolento e enxergando tudo embaçado a sua volta. 

– Você dormiu ao volante e bateu o carro. Saiba que teve muita sorte, filho. Está no hospital, e foi um milagre sobreviver sem estar usando o cinto. Disseram-me que aconteceu alguns quilômetros depois da 369. Agradeça muito por estar apenas com esse corte na testa, lhe rendeu 16 pontos – explicou o médico. – Mande chamar os pais dele – ordenou à enfermeira. 

Walter havia ficado o dia inteiro desacordado, e seus pais vieram o mais rápido possível quando souberam do acidente. O pai se sentia bastante culpado por deixá-lo sair sozinho de madrugada. Por isso, a bronca por ter arrebentado com a picape não seria tão grande por causa da sua culpa e da preocupação que sentia com o filho. 

– Muito bem, vou deixar vocês a sós agora. A tomografia não acusou nada com que devam se preocupar, e ele vai ficar de observação apenas por esta noite, por precaução, e depois poderá ir para casa. Digo mais uma vez, filho: você teve muita, muita sorte. 

E os três ficaram sozinhos no quarto, com seu pai lhe dando as devidas broncas e a mãe, aos prantos, cobrindo-o de beijos e afagos. 

Walter pediu sinceras desculpas pelo susto. Mas tinha uma preocupação ainda maior – os acontecimentos que vivera na noite anterior, e que não sabia como contar a eles. 

– Pai, a polícia perguntou o que eram aquelas marcas de arranhões no vidro do carro, e do sangue respingado no banco do passageiro? – indagou com grande preocupação, afinal, ele sabia que não podia contar exatamente o que aconteceu. Não queria ser visto como louco. 

– Que arranhões? Que sangue respingado? Você sonhou enquanto dormia, moleque? Não tem nada disso no carro, só um puta amassado e um para-brisa quebrado porque você socou a picape do seu avô na árvore! Como pôde ter dormido ao volante? Não pense que, quando melhorar, não vai pagar o conserto. 

Sem arranhões no vidro, sem sangue respingado da boca dela no banco do carro. Walter começou a considerar algo que para si era inimaginável, mesmo que tudo aquilo tivesse sido tão real: será que realmente havia dormido ao volante? Durante toda a noite seguinte ele não conseguiu dormir. Ficou com tal ideia martelando na cabeça. Podia ser possível, afinal, atropelar um fantasma, ser possuído por ele e dirigir atrás de um velho criminoso não parecia nada sensato. Além de não existir nenhum vestígio na picape – excluindo os danos causados pelo choque com a árvore – o noticiário da TV também não informou nenhum sumiço de alguém chamado André Mendes. 

Ele tinha dúvidas, mas passou a considerar seriamente que tudo tivesse sido um sonho causado pela pancada, o que significava um alívio para sua alma. 

Walter foi para casa e, em poucos meses, sua vida voltou ao normal. Apesar dos pesadelos que tinha em certas noites, ele finalmente se convencera de que havia dormido ao volante e sonhado com Célia. Até procurou na Internet por crimes ocorridos no ano de 78 e nada encontrou sobre ela. Também, não se lembrava do caminho exato para voltar àquele bar e perguntar sobre o tal do André Mendes. Mas mesmo se soubesse o caminho, não teria coragem de tentar ir lá. A única explicação que sua cabeça assumiu era mesmo que tudo não passara de um sonho. Mesmo assim, jamais contou a história a seus pais. 

Algum tempo depois, com tais acontecimentos praticamente esquecidos, ele conseguiu uma promoção na ESolutions. E foi lá que também arrumou a primeira namorada, Camila, sua colega de trabalho. 

Na noite anterior a que fariam um mês de namoro, a mãe de Walter entrou em seu quarto, quando ele já estava deitado para dormir, para lhe dar a bênção. 

– Oi filho. Vim aqui dar boa noite pra você. 

– Boa noite, mãe – respondeu ele. 

– Olha querido, me desculpe. Eu esqueci de te devolver, até porque você não deu falta. Nem sei para quem você pretendia dar isso, mas acho que a Camila vai gostar muito. Encontramos no bolso da sua camisa no dia do acidente... 

E Walter gritou de pavor quando viu nas mãos de sua mãe... O colar de prata com pingente de borboleta brilhante como a lua.

Comentários   

#3 pamella » 07-08-2012 14:38

esse filme é´muito bom otimo mesmo
−5 +−

pamella

#2 Guilherme Araujo » 12-07-2012 16:12

Conto bem escrito, mesmo sendo grande o ritmo que você colocou a ele não tornou a leitura cansativa. A apresentação dos personagens, contando parte de sua história e a descricções dos locais dão uma certa veracidade ao conto. Gostei bastante
+4 +−

Guilherme Araujo

#1 Andre Luis » 12-07-2012 12:04

Achei muito interressante ,prendeu totalmente minha atençao realmente muito bom.
+4 +−

Andre Luis

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