O Demônio do Redemoinho

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           A situação já estava passando dos limites. De uns tempos para cá, o caos havia se instalado na pequena propriedade rural. A princípio, apenas coisas fora do lugar eram notadas, como as porteiras dos animais que eram abertas, obrigando o fazendeiro a correr pelos campos para recapturá-los, em seguida, vários produtos produzidos na fazenda começaram a ser encontrados estragados ou destruídos, como o leite que aparecia derramado pelo chão ou que era azedado sem se saber como. O proprietário não conseguia entender a razão pela qual as frutas e as hortaliças colhidas apareciam retalhadas e amassadas nos cestos. O prejuízo com a reconstrução das cercas era imenso, e, para ele, pior ainda era ficar ouvindo o lengalenga de sua velha tia, que repetia a todo o momento que aquilo seria obra do pequeno demônio, cujo principal propósito era atormentar a vida de todos os que viviam naquela região. Segundo ela, o melhor seria fazer uma troca justa com o dito demônio, garantindo assim a paz para trabalhar e seguir com a vida. O homem não queria nem saber sobre isso, e se irritava profundamente quando o assunto era mencionado. Apesar de ser uma pessoa do campo, sempre fora bem prático e objetivo, para ele, tratava-se claramente da obra de algum concorrente.

            O que o fazendeiro não sabia, no entanto, era que dentro de sua própria família estava o responsável, ou melhor, os responsáveis por tudo, e eles gargalhavam às escondidas de toda a situação.

            - É Miguel, parece que o tio vai ficar maluco logo, logo – falava um dos sobrinhos do fazendeiro, os quais eram da cidade e estavam passando as férias no campo.

            - É verdade Ricardo, mas não acha que estamos pegando pesado? Ele já está perdendo dinheiro com isso...

            - Vai desistir Miguel? A graça está aí! Você acha que se ele não estivesse tendo prejuízo, ele ligaria? É claro que não! As estórias sobre o demônio o estão deixando mais louco do que o normal – gargalhava o garoto enquanto falava.

            - É, nesse ponto a tia avó ainda está nos ajudando...

            - Então, tenho uma idéia...        

         Naquela madrugada, os irmãos saíram sorrateiramente e foram até o celeiro. O fato de a fazenda não ter muitos empregados facilitava o serviço, e contar com a total confiança do tio, também. Lá chegando, Ricardo, que era o mais velho, e também o mais perverso, propôs o plano, o qual fora aceito prontamente pelo irmão. Em seguida a dupla recolheu e quebrou todos os ovos das galinhas, mas não se deram por satisfeitos, começaram a quebrar, também, o pescoço delas, uma a uma, os irmãos mostravam satisfação com o ato, e riam das aves mortas, a certeza de impunidade era total. Porém, sem se fazer anunciar, apareceu uma figura na frente deles, e essa visão fez com que soubessem naquele instante que seria muito difícil a vida dali em diante. O ser era diferente, muito diferente do que a descrição que a velha tia avó fazia, e para o azar deles, muito pior. O demônio não era maior do que uma criança de dez anos, mas sua aparência era terrivelmente macabra. Sua pele deixava a tonalidade do ébano, opaca, em sua cabeça não se exibia um gorro ou coisa do tipo, fios longos saíam dela, e eram tão vermelhos quanto o sangue, pareciam pouco flexíveis e seu uniam em forma de cone, para o alto. Seus olhos eram vermelhos como brasa e transmitiam ódio, seus dentes eram curtos e afiados, como uma serra. Seu tronco curto era extremamente musculoso, e, ao contrário do que diziam, não lhe faltava uma perna, na verdade as duas eram unidas em uma só e terminava num pé caprino. Não pitava um cachimbo ou coisa do tipo, o que se notava, era que exibia uma protuberância óssea que rasgava a pele de seu queixo, apenas em um lado, e dali saía uma fumaça densa e fétida. Permanecia o tempo todo saltando, a perna única era maior que seu tronco, o som produzido pelo impacto do casco no solo era perturbador, balançava os braços de forma intimidadora, os dedos das mãos eram enfeitados por garras curvas e negras. Os irmãos, tomados pelo pânico, não emitiam uma só palavra, mas ao contrario deles, o demônio falou, e sua voz era rouca e sibilante.

            - Então, vocês querem fazer o meu trabalho? Vocês por acaso têm autorização do inferno para tal? -NINGUÉM FAZ O MEU TRABALHO!

            O silêncio permaneceu na boca dos garotos...

            - Os moleques faladores perderam a língua? Vocês verão o que é perder a língua...

            O pequeno demônio agarrou o primeiro pelo pescoço, e o forçou a abrir a boca, com as garras curvas de sua mão partiu a língua do garoto como se fosse uma folha de papel, o sangue jorrou farto. O segundo tentava escapar, mas fora impedido por um deslocamento de ar, e em seguida teve o mesmo tratamento do irmão. Ficaram ajoelhados, aos prantos, tentando pedir perdão, mas apenas grunhidos saíam de suas bocas, então, o ser endiabrado falou novamente:

            - Serei benevolente com vocês. Já que querem tantos ser como eu, então assim será...

            O ser abriu os braços e começou a girar em seu próprio eixo, logo um redemoinho se formou dentro do celeiro, tudo que ali estava começou a ser arremessado pelos ares, o redemoinho aumentava mais e mais de proporção, cresceu, até fazer voar as tábuas que constituíam o galpão. Os irmãos foram levantados do chão de terra e incorporados a massa de ar que seguia para o quintal da fazenda e que em poucos instantes desapareceu no horizonte.

            De dentro da residência principal, dois pares de olhos assustados acompanharam a partida do redemoinho. O fazendeiro olhou para a velha que estava a seu lado e disse:

            - É tia, parece que a sua idéia de deixar um pouco de fumo para ele funcionou, espero que esse tenha sido o nosso último encontro.

            - Deus te ouça querido, Deus te ouça...

Comentários   

#1 Tânia Souza » 22-11-2012 01:07

Este é um dos contos onde o folclore aparece em sua face mais sombria, muito fã do senhor Flávio.
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Tânia Souza

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