O Demoníaco Rosto Indiano

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O Demoníaco Rosto Indiano

 

O Demoníaco Rosto Indiano

 

Ao amigo Paulo Soriano cujo nome foi inspiração

para batizar um dos personagens deste conto.

 

Amo a Psicologia, entretanto nunca mais atuarei como psicólogo. O que aconteceu há alguns meses ainda reverbera em minha mente e confunde meus sentidos. O psicólogo agora é paciente.

Isto é um manuscrito que não tem destinatário. Nem sei porque estou escrevendo-o. Agora que percebi que não tenho para quem enviar este relato. Afinal, já contei tudo a meu psiquiatra. Mesmo assim vou escrevê-lo.

Primeiro, quero dizer que tremo muito. Mesmo passados esses meses, ainda tremo muito.

Foi numa quinta-feira que minha secretária recebeu o telefonema cujo interlocutor tencionava marcar uma consulta. Até aí tudo normal. Quando soube que o paciente queria ser atendido em sua casa continuei sem ser surpreendido. Eu atendia em domicílio. Mas ao saber que o paciente morava em Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, e meu consultório era situado no centro carioca, eu achei loucura. Minha secretária rechaçou prontamente a consulta a domicílio. Porém o homem continuou a ligar por duas semanas, insistentemente. E sempre por volta das 21h, último horário de consultas.

Eu atendia os pacientes às terças e quintas. E numa terça-feira eu falei com ele ao telefone. Falava muito baixo e tinha um sotaque. Disse que se chamava Amadeus Paim e que precisava de um tratamento psicológico. O homem garantiu que era muito rico e que pagaria a quantia que fosse para eu visitá-lo em sua residência, no interior do Estado. A pessoa do outro lado da linha chorava efusivamente.

Eu afirmei que iria não pelo dinheiro, mas pelo sofrimento que constatei na conversa ao telefone. Aquilo, realmente, era algo angustiante para mim. Assim, marquei a consulta para a quarta-feira seguinte. Anotei o endereço, o telefone e o horário da consulta. Sob o olhar assustado de minha secretária, eu escrevia as informações. Quando desliguei, ela disse:

“Doutor, o senhor vai a Campos?”

“Vou. Algo angustia demais esta pessoa. O homem está desesperado.” - Afirmei.

“Eu não percebi isso.”

“Eu percebi, Sofia. Por favor, marque para quarta-feira da próxima semana. Vou na quarta porque não tenho pacientes marcados para esse dia e o utilizo para estudos. Ah, já ia me esquecendo: você achou estranho eu ir a Campos consultar um paciente?” - perguntei com ar misterioso.

“Sim” - ela respondeu, bem sincera.

Eu ri e disse assim: “Então anote o horário da consulta: 22h. E anote o endereço. Faça uma reserva de passagem de ônibus para mim no dia da consulta, às 18h.”

Creio que o diálogo com Sofia fora esse. Não posso garantir, mas se errei foi por pouco.

A viagem seguiu bem tranquila. Cheguei a Campos por volta das 21h30. O clima no norte do Estado estava bem agradável, a não ser pelo forte vento sul que soprava na planície Goitacá e a chuvinha fina que caía na cidade.

Cheguei à casa do senhor Amadeus pouco antes das 22hs. O taxista, que ficou quieto durante o trajeto, parou o carro em frente a uma cancela que estava aberta, empertigou-se um pouco e disse o valor da corrida. Eu reclamei que queria ser deixado mais perto da casa do paciente. Ele se virou e com olhos sérios disse:

“Se não quiser pagar a corrida, não tem problema. Mas não vou levá-lo além deste ponto. E também não venho pegá-lo.”

“Por quê?”

“Existe um boato que esse homem que o senhor vai ver hoje é amaldiçoado. A maldição mostra fantasmas ao velho. E tenho certeza que ninguém vai querer fazer essa corrida quando o senhor for para a rodoviária. O senhor me paga, desce aqui e eu – quando receber sua ligação – venho lhe buscar aqui, nesse exato lugar. Nem mais um metro para dentro. Segure meu cartão.” - informou o motorista, que em seguida olhou para frente, decidido.

“Ok. Eu desço aqui. Mas peço que o senhor fique me esperando.”

“Exatamente aqui, eu ficarei. E o taxímetro continuará funcionando!” - lembrou o taxista.

“Tudo bem.”

“Combinado.” - garantiu o motorista.

Criei coragem para enfrentar a chuva e desci do veículo com minha pasta sobre a cabeça. Contemplei a paisagem noturna e pensei nos espectros que o taxista falara há pouco. “Coisas do interior” - afirmei sem medo algum. O lugar, a residência de meu novo paciente, era uma espécie de sítio. E, após uma porteira, havia um caminho iluminado debilmente por duas lâmpadas incandescentes, dispostas nas extremidades de um túnel de árvores. O trajeto me conduziria a uma pequena casa incrustada na frente de uma montanha.

O trecho cercado por várias árvores, umas atrás das outras em fila indiana,  não era muito longo. Achei interessante a disposição das árvores, pois suas copas abraçavam-se e eram o teto do corredor, cujo piso era – naquele momento – um misto de terra e lama. Mas confesso que estaquei com um pouco de medo quando percebi a profundidade da escuridão que pairava no local. Era o terrível intervalo entre uma lâmpada e outra. Passei pela porteira e iniciei a caminhada rumo à casa do senhor Amadeus.

No meio do túnel eu já estava vacilante pelo farfalhar das folhas que davam um clima realmente fantasmagórico àquele lugar. Mas quando as árvores de repente pareceram fazer movimentos hostis com seus galhos enormes, eu olhei por cima do ombro direito e vi algumas folhas caindo, as lâmpadas balouçando ao sabor do vento e num desses balanços eu juro ter visto algo diáfano, de um matiz entre o preto e bronze, que se movera de um lado do caminho para outro, num trecho que eu já havia passado. Foi um verdadeiro flagrante. Em todo lugar um flagrante surpreende quem foi flagrado e não quem flagrou, porém naquele dia o oposto ocorreu.

Assim, eu comecei mesmo a correr em direção ao casebre. Quando saí debaixo das árvores, minhas forças pareceram-se renovar e o medo dissipou-se. Olhei para trás e nada vi. “A mente humana”, pensei.

Recompus meu traje sob a fraca chuva que, renitente, ainda caía, mas meus sapatos estavam sujos de lama. Aproximei-me e bati à porta. O local era tão isolado e rústico que a todo olhar causava espanto.

Julguei estar impressionado pela estória que o taxista me contara. Isso me acalmou mais um pouco.

De dentro do casebre soou a mesma voz que eu ouvira ao telefone. </p>

“Doutor?”

“Sim. É o doutor Saulo Poriano.”

“Ótimo.”

A porta mostrou um homem alto e esguio que usava um sobretudo. O senhor Amadeus Paim tinha a pele bem morena, característica dos indianos. Ele estacou na soleira da porta e olhou-me, demoradamente.

Estiquei a mão a fim de cumprimentá-lo. O paciente retribuiu o aperto de mão. Senti sua mão gelada. Em seguida num movimento rápido puxou-me pela mão, assustando-me, e disse com os olhos arregalados:

“Doutor, se você veio até aqui é porque teve interesse no meu caso. Contudo, preciso adverti-lo que é um caso ímpar, único. Tenho certeza que meu problema lhe causará um efeito devastador. É preciso ter sangue frio. Quero saber se você concorda em ir adiante? Se não quiser pago-lhe uma boa quantia e você pode ir embora.”

“Senhor Amadeus, sou um profissional da Psicologia. O seu problema não me afetará em nada porque não tenho os mesmos medos que você, não tenho os motivos intrínsecos que lhe deixam feliz ou infeliz, enfim somos diferentes.”

“Tudo bem, doutor. Mas que fique registrado que eu lhe avisei e você foi corajoso o suficiente para seguir em frente.”

Enquanto eu assentia, escutei um murmúrio abafado, que não pude precisar a origem, entretanto asseverava que estava muito perto de nós. Parecia um ronco.

“Ok. Registrado! O senhor ouviu isso?”

“Isso o quê?” - perguntou meu interlocutor, assustado e, estranhamente, com as duas mãos pousadas sobre o ventre, em forma de x.

“Um sútil ronquejar! Há mais alguém aqui, senhor Amadeus?” - eu inquiri.

Ele hesitou e claramente mentindo disse que não e que morava sozinho, enquanto fechava a porta. Realmente, eu nunca imaginaria onde estaria a outra pessoa, se é que posso chamar aquilo de pessoa.

Antes de o paciente fechar a porta, eu ainda pude ver as árvores que havia deixado para trás. Senti um calafrio correr meu corpo, porém não estava mais com medo. Talvez um desconforto emocional. E por último me lembrei do taxista.

“Pode ter sido esse vento.”

“Preciso alertá-lo que a partir de agora sou seu psicólogo e não é salutar para senhor me esconder nada. Tudo deve ser revelado.”

Eu disse aquilo com um certo temor de que ele confirmasse alguma possível revelação de maior vulto. Os sintomas do medo brotaram claramente quando ele concordou sob um longo e angustiante suspiro. Isso me abalou de tal forma que eu não conseguia mais me concentrar no tratamento. Eu procurava provas da existência de outra pessoa naquela casa.

Resignado, o homem me abalou de vez com a frase: “A revelação virá. Venha por aqui, doutor.”

Amadeus me conduziu por um casebre. Ele havia me recebido numa pobre cozinha, cujos pratos, dentro da pia, ainda jaziam a espera de alguém que os lavasse. Havia, também, uma pequena mesa redonda que sustentava dois pratos sujos com farelos de pão e duas xícaras, uma com um líquido escuro – que julguei ser café – e outra com leite.

Depois, alcançamos uma espécie de sala que ostentava dois sofás e uma antiga televisão. O vento assoviava por uma janela e dava um ar fantasmagórico àquela sala.

Segui por um estreito corredor, passei por um banheiro o qual perscrutei rapidamente e não vi nada intrigante, a não ser duas toalhas de rosto. Ambas dispostas desorganizadamente ao lado de um pequenino espelho retangular. E duas escovas de dentes dentro de um copo de vidro.

Enquanto avançava pelo corredor,  sentia um cheiro de mofo invadir meu nariz de forma lancinante. Sob a luz incandescente, vi o salitre que se formava nas paredes da casa. O próximo cômodo era o quarto em que ele dormia. A porta estava fechada. Pedi para ver o quarto. Eu esperava encontrar duas camas e comprovar minha ilação de que ali viviam, no mínimo, duas pessoas. Entretanto, o quarto só possuía uma cama. Havia um armário pequenino e uma cômoda também. Agradeci e ele me reconduziu à sala. No retorno, eu senti que algo incomum iria acontecer, mas como era profissional não poderia simplesmente pedir para ir embora. Isso deflagrou um pânico em mim. Mas me contive. Os sintomas do medo eram menos severos do que possuo agora: mãos trêmulas, suadas e frias. A voz já estava um pouco embargada.

Sentamo-nos no sofá. Ele em frente a mim. O senhor Amadeus Paim fitou-me por alguns segundos. O silêncio era tumular até que meu paciente começou a chorar copiosamente. O homem soluçava desesperadamente. Não fiz nem falei nada por uns dois minutos até que o homem levantou-se. Então eu perguntei:

“Aonde vai, senhor Amadeus?”

“Já volto.”

Ele havia seguido pelo corredor. Algo me dizia que ele matara sua companheira e escondera o corpo em algum lugar daquele casebre. Em poucos segundos o homem regressou com uma sacola de couro. Pousou-a ao meu lado, em cima do sofá e disse.

“Abra. É o seu pagamento. Aí tem bastante para um ano de tratamento.”

Ele girou nos calcanhares e voltou-se para a porta enquanto falava.

“Sabe, doutor Saulo, eu havia fechado esta porta, mas vou abri-la e deixa-la tão somente encostada.”

“Por quê?”

“Porque o que vou falar agora pode causar horror no senhor. E esse horror pode impeli-lo a sair correndo por esta porta. Então, ela estará destrancada.”

“Não, senhor Amadeus. Eu nunca faria isso. Sou profissional. Lembra-se?”

Eu havia controlado mais um pouco o medo que estava sentindo, contudo agora ele voltara com força redobrada.

Amadeus Paim trajava um hobby azul marinho e uma velha calça jeans.

“Lembro-me sim. Peço a Deus que o senhor entenda o que está acontecendo comigo e possa me ajudar.” - falou o paciente enquanto sentava-se outra vez no sofá, agora um pouco mais calmo.

“Claro. Comece falando do senhor.”

“Sim, mas antes quero esclarecer que existem dois motivos de eu ter escolhido o senhor para tentar me tratar. O primeiro é que o senhor mora muito longe daqui. E o segundo é por sua experiência. Estou tão angustiado com o mal que padeço que serei breve. Nasci na Índia há cinquenta e dois anos. Tornei-me médico há vinte e cinco anos. Mas por não conseguir salvar a vida de um jovem que havia se envolvido num acidente automobilístico, fui amaldiçoado por seu pai, um ocultista indiano chamado Enéas Singh.”

“Uma maldição?” - perguntei incrédulo - “Por um acaso o senhor consegue ver fantasmas?”

O homem tornou a chorar. Desta vez mais comedidamente. “O povo que mora nessa cidade acha isso.”

“É uma terrível maldição, mas não se reflete assim. O doutor imagina algo mais angustiante?”

Olhei baratinado e, lacônico, disse:

“Não.”

“Pois bem, doutor Saulo. Vou lhe mostrar o rosto de um demônio. Quer ver?”

“Demônio? Não acredito nisso. Mas mostre-me, senhor Amadeus.”

O indiano se aproximou enquanto exortava: “Faça silêncio agora. E peço que não se assuste, se isso for possível não acontecer. E se tomar susto, não grite. Pode acordá-lo.”

Ele abriu o hobby e mostrou a barriga. Havia o que julguei ser um tumor protuberante que continha uma cicatriz medindo aproximadamente vinte centímetros. A deformação era composta por dois cortes na horizontal divididos por um círculo ovalado de cor violácea. Abaixo, um pequenino orifício e mais abaixo outro corte tosco no sentido horizontal. Aquele tumor parecia pulsar lentamente. E quando associei aquele pulsar com uma respiração, gritei de horror. Foi quando os rasgos superiores se abriram e descortinaram olhos negros que me fitaram, iracundos. O orifício nasal puxou o ar com violência e o último rasgo, uma horrível boca, disse em inglês com voz abafada e demoníaca: “Quem é você, maldito?”. Minha visão turvou-se e eu me senti no sétimo círculo do inferno de Dante.

Deixei a bolsa e empurrei o paciente para trás, que gritava assustadoramente “Eu carrego um demônio no corpo. Ajude-me, ajude-me. Você o acordou!” Saí pela porta num átimo. Percorri o corredor de árvores impulsionado pelo terror de testemunhar uma maldição em forma de rosto no bojo de um homem. Nem me lembrei do espectro plúmbeo que pairava sob as copas das árvores. Talvez ele nunca houvesse existido. O taxista ainda me esperava, então tomei o táxi e segui para a rodoviária, a fim de voltar para a capital. O motorista revelou que estava assustado com meu estado e me perguntou o que acontecera no casebre, pois eu estava extremamente pálido e nervoso. Eu nada disse. Ainda estava sob os lençóis da ética profissional. Ou talvez não conseguisse dizer mesmo.

Nos dias posteriores fechei o consultório e comecei a fazer psicanálise. Hoje vivo de um benefício da previdência social que foi autorizado por eu sofrer de uma doença psíquica. Pelo menos quatro vezes por semana tenho pesadelos com rostos que me olham de dentro de vestidos femininos e ternos masculinos querendo me amaldiçoar. Nos outros três dias da semana eu não consigo dormir.

Comentários   

#8 Luciano Barreto » 20-02-2013 18:30

Flávio e Poleto, agradeço também por seus comentários. São sempre relevantes para mim.

Este conto foi publicado em 2009 no www.contosgrotescos.com.br do nosso amigo Paulo Soriano.
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Luciano Barreto

#7 Luiz Poleto » 20-02-2013 03:19

Barretão, belíssima narrativa, como estilo que lhe é peculiar. Parece-me que o tempo afastado não afetou em nada a sua habilidade. ;-)
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Luiz Poleto

#6 Flávio de Souza » 19-02-2013 22:36

Barretão! Mais uma prova da tua habilidade na escrita! Abração!
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Flávio de Souza

#5 Luciano Barreto » 19-02-2013 17:41

Grande Victor. Obrigado pelo comentário, parceiro. Também fico feliz que o amigo tenha rememorado Arthur Conan Doyle. Um abraço.
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Luciano Barreto

#4 Victor Meloni » 19-02-2013 15:46

Luciano, irmão, este conto é um primor de narrativa! Lembrou-me Conan Doyle!
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Victor Meloni

#3 Tânia Souza » 19-02-2013 03:26

ahahaha, resgatando o apelido :oops:

Das coisas boas de ser escritor de terror " fico feliz por vc ter se angustiado com o texto :-*
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Tânia Souza

#2 Luciano Barreto » 18-02-2013 22:15

Titânia, fico feliz que você tenha gostado, digo... se angustiado com o texto. :lol:
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Luciano Barreto

#1 Tânia Souza » 17-02-2013 17:25

Muito bom esse conto, nossa, quando parei e pensei na dimensão de tal maldição, é muito angustiante, gostei heim.
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Tânia Souza

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