Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E prometo, você vai gostar. - Tânia Souza

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       Ana. Um nome simples para uma garota comum, passos ecoando pelas ruas de uma cidade esfumaçada e suja. Ao mundo, a imagem de uma garota que vaga na noite escura e conta outra sina: menina de família, comportada. Ana se arriscando por lugares obscuros. A quase inocência costuma ser um atrativo interessante... Você me olha e vê uma moça que estudou, mas não muito; deduz que vou me casar com um bom rapaz e viver em tédio, que devo ser apenas mais uma Ana e, quem sabe um dia, esposa, mãe, avó. Talvez o que veja seja apenas uma boa menina, com vontade e desejo de se arriscar. Ana quase pecadora.

       Os seus olhos e os olhos do mundo não me vêem: não como uma andarilha; não essa criatura perversa, lasciva, sedenta de sangue e vingança; não como uma moça que se esconde nas sombras; não uma arma. Não como de fato sou.

       Mas é agosto. E devo pagar minha dívida. Agosto tem cheiro de sangue, de carne e desejos inconfessos. Quando agosto chega, desperto em minha sina ancestral. Sinto então os sonhos mais secretos de cada um e meus seios estremecem na ânsia de uma missão que outrora me causou tanta dor. Quando agosto chega, é hora de caçar.

       Meus saltos ecoam na calçada e os olhos mortiços da noite me seguem. Essa cidade tem cheiro de fuligem. Eu gosto do cheiro infecto destas ruas. Mas não devo ficar aqui por mais tempo. Vejo a cidade uivando entre as luzes e sombras... Os passos dessa gente carente, perdida entre concreto e metal retorcido, olhos embaçados com tanta sede e vicio me buscam e ainda que não saibam, me imploram a cada dia. No entanto, você foi o escolhido. Sinto sua alma percorrendo-me e suas paixões me renovam. Eu sou a faca, a arma apontada para seu peito, a lâmina que vai dilacerar sua carne. Mas ainda assim você sorri e vem a mim. Entregue. Dócil.

       Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E depois, bem, depois verei por onde vou... Não é minha escolha matá-lo. Nunca escolho e aprendi a não negar, a dor é muito forte. Eu não gosto da dor. Bem, talvez goste, um pouco. Afinal, é agosto e para meu gosto, o seu. É o tempo de caçar e pagar a minha divida. É agosto.

       Você tem os olhos do mundo, agora fixos em meus lábios e, olhando para minha boca, ri quando digo que sou perigosa. Sim, já lhe disse que sou perigosa. Não gosto de mentir. Você sorri e não acredita, acariciando minha face. Você vê apenas a beleza que Ele me deu. Toca em meus cabelos vermelhos, tão preso em meus olhos verdes, bonita sim, quase nem creio no espelho. Bonita e letal.

       Eu bebo seus gemidos quando minhas unhas rasgam sua pele e ainda assim, me implora por mais. E quando minha língua lasciva sorve suas lágrimas, seu sangue sacia minha sede em sua carne morena. Enfim, por alguns dias você é meu, totalmente meu. Pois Ele espera por você.

       Quem eu sou? Não importa baby, sou um anjo de asas dilaceradas. Alguns me chamam infâmia, insanidade, epidemia, desgraça, peste, raiva, desgosto. Mas meu nome é Ana. E carrego comigo paixões das almas incautas dos que cruzam meu caminho. Almas que Ele escolhe e cabe a mim, arrebatá-las. Vago pelas noites de cidades que nunca dormem, entre canções e baladas desesperadas, criaturas enlevadas por substâncias tão surreais quanto os mundos de pesadelo onde vivi. O tempo não existe. De uma pequena vila em um século perdido quando degustei pela primeira vez a hóstia rubra de demônios insanos até o ultimo dia da existência da humanidade, sereia serva fiel de somente um senhor. E por Ele sou Ana, a imortal, por Ele, meus passos arderão pela eternidade. É tão breve e doce o pagamento para tão longo legado.

        Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E prometo, você vai gostar.

 

 Fim

Comentários   

#18 André Ne77o » 23-06-2014 04:01

Bianca Correa de Menezes, eu te amo pra sempre! Eu vou me suicidar hoje,mas sempre vou levar comigo todosos momentos bons que vivemos juntose o quanto eu ja consegui ser feliz! Fiqurm com Deus,perdao oor isso. Amo todos voces. Rezem por mim.
−1 +−

André Ne77o

#17 Olavo Berquó » 22-03-2013 16:25

Gostei!
Ana é um instinto selvagem e permanente.
+1 +−

Olavo Berquó

#16 R. Lovato Lovato » 19-03-2013 20:01

Li pelos comentários, e não gostei. Vazio. Vazio no sentido de a protagonista não me cativar em nada. :oops:
−1 +−

R. Lovato Lovato

#15 Thasyel Fall » 08-04-2012 05:07

Estou vendo aqui, que eu não comenteiiiiiiii i.... o.O... engasga.... e eu que sempre babo nos escritos da T.... pq ela mata neh... jesus.... T poderosa... Ana é fabulosa... não só pela poetica do texto, Ana tem vida propria... e um certo poder de persuasão... eu realmente fiquei prontinha pra ana me devorar... Ela assume tão bem seu papel que vc consegue vê-la como uma jovenzinha inocente e ao mesmo tempo fatal.... adoro isso.... :lol: :lol: :lol: :lol:
+1 +−

Thasyel Fall

#14 Emerson Pimenta » 26-02-2012 01:54

lol Não acredito que ainda não havia comentado nesse conto ainda,
apesar de já ter parabenizado a mestra T. pelo trabalho.
Mas é melhor tornar isso público, parabéns T. esse conto é realmente uma obra de arte! ^^
+2 +−

Emerson Pimenta

#13 Tânia Souza » 12-01-2012 03:56

Valeu personas, pelos elogios e pelas criticas.

marcosbadboy, vomita não moço, bora ler outras coisas que você goste mais ^^

Thato, ainda quero descobrir o ponto exato entre poesia e prosa, sem ficar cansativo, que bom que vcs gostaram do efeito aqui neste conto.
0 +−

Tânia Souza

#12 marcosbadboy » 26-12-2011 20:02

essa merda ai eu vou e vomitar sobre esse lixo :-x essa merda :oops:
−4 +−

marcosbadboy

#11 Márcio Bordin » 13-12-2011 00:25

Nunca soube dizer se esse é um conto com linhas poéticas, ou um poema em forma de conto. é em simples textos que surgem grandes obras primas. Este com certeza é sua grande obra prima T.
0 +−

Márcio Bordin

#10 Ramon Bacelar » 12-12-2011 22:38

Faço minhas as palavras do Alexandre.Não me canso de lê-lo :lol:
0 +−

Ramon Bacelar

#9 Tânia Souza » 12-12-2011 22:07

Citando Alexandre Ribeiro:
Bela inspiração, a personagem é convincente, apesar de suas vítimas não acreditarem na sua predileção pela morte. Um dos seus melhores contos, Tânia. Já li muitos dos seus, esse aqui ficou soberbo. Vim retribuir as palavras de incentivo e fiquei feliz por esse, brilhante. Grande abraço. ;-)


Poxa, muito obrigada Alexandre, sabe que já pensei em retomar a personagem em outras aventuras, mas bate uma insegurança, quem sabe né.
0 +−

Tânia Souza

#8 Alexandre Ribeiro » 17-10-2011 01:58

Bela inspiração, a personagem é convincente, apesar de suas vítimas não acreditarem na sua predileção pela morte. Um dos seus melhores contos, Tânia. Já li muitos dos seus, esse aqui ficou soberbo. Vim retribuir as palavras de incentivo e fiquei feliz por esse, brilhante. Grande abraço. ;-)
0 +−

Alexandre Ribeiro

#7 Tânia Souza » 30-08-2011 01:34

hahaha, ok Emerson, eu avisarei a Ana sobre o seu pedido :eek:

Elsen, Regina, Emerson, gracias por terem gostado ^^
+2 +−

Tânia Souza

#6 Regina Amaro » 22-07-2011 20:27

Quando eu crescer quero fazer personagens assim :lol:
+1 +−

Regina Amaro

#5 Elsen Filho » 08-07-2011 17:50

O misto entre o sutil e o direto encanta tanto quanto a beleza das palavras. Gostei bastante do estilo.
+3 +−

Elsen Filho

#4 Ramon Bacelar » 05-06-2011 22:39

Direto, intimista, cortante e visceral; um noir contemporâneo febril com veia poética e um controle autoral que beira a heresia.Já era fã do teu texto (e estilo) e lendo-o pela segunda vez só solidifica minha opinião.
+1 +−

Ramon Bacelar

#3 Luiz Poleto » 05-06-2011 14:02

É supreendente a capacidade de transformar uma prosa em poesia sem qualquer esforço. Isso que eu chamo de dom! ;-)
+2 +−

Luiz Poleto

#2 Tânia Souza » 04-06-2011 16:05

Obrigada Victor, Ana foi o conto mais rápido que já escrevi, mas gostei do resultado, valeu^^
+2 +−

Tânia Souza

#1 Victor Meloni » 04-06-2011 15:30

As palavras unem--se num turbilhão de sensações para nos entregar Ana, uma poesia sombria e ardente! Grande, T!!!
+3 +−

Victor Meloni

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