Um Coração de Metal

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Havia uma fábrica abandonada naquela colina. Os ventos, carregados de neve, castigavam toda a estrutura. Produzia um estrondo forte, devido ao metal estar retorcido, em conjunto com o terrível assobio produzido pelos ventos. Não havia ninguém para presenciar isso. Lá dentro se encontravam maquinários bem conhecidos que visavam um único objetivo: construir autômatos. E foi nesse ambiente, depois de muitos anos do desligamento completo e desgaste das ferramentas, que a última de suas criações despertou. Seu número de série era L-4-T-4-0-0. Mais conhecido por “Latão” pela geração passada. Seu corpo era baseado nas características humanas, apesar de um pouco desajeitado.

Latão sentou-se a mesa e olhou ao redor. Ajustou o foco de suas células fotorreceptoras e estudou os braços mecânicos enferrujados. Havia muitas peças sobressalentes em todos os cantos. Pilhas de pernas, torsos e outras partes de corpos robóticos o circundavam. A produção havia parado a um bom tempo segundo seus cálculos. Levantou. Dirigiu-se à luz que provinha da porta da estrutura, que mais se assemelhava a um hangar e não uma fábrica. Sem muito esforço empurrou a porta de ferro.

Ventava muito. O chão estava completamente branco e uma névoa espessa permanecia sobre todo o horizonte. Não havia nenhum raio de sol, apenas nuvens cinzentas que anunciavam um tempo nublado, quase eterno. Ainda permanecia um pouco confuso. Suas diretivas não explicavam qual eram suas funções ou para que objetivo havia sido criado. Estava sozinho. Resolveu caminhar um pouco. Nesse meio tempo esbarrou em um corpo metálico enterrado. Retirou a terra que estava por cima e carregou o corpo de modelo feminino até a fábrica. Através de seus conhecimentos consertou os circuitos lógicos daquele corpo inerte, utilizando ferramentas precárias. Não estava mais só.

Sentiu profunda satisfação ao caminhar ao lado daquele modelo desconhecido. Alguns circuitos que estavam desconectados em seu lado esquerdo do peito encontraram o caminho correto e geraram novas conexões. Não havia explicação. Apenas sentia-se bem.

Desceram a colina. Certamente haveria outros como eles lá embaixo e, se tivessem sorte, conseguiriam encontrar seus criadores. A nevasca continuava castigando o ambiente. Para eles não fazia diferença. Chegaram ao local onde havia inúmeros destroços e prédios com metade das paredes em pé. Carros virados e muita destruição completavam o cenário. Alguma coisa havia acontecido ali há alguns anos.

Foi então que avistaram uma sombra maior, saindo do interior da névoa. Era um modelo de construção, de braços fortes e torso largo. Logo em seguida apareceram outros como ele. O modelo feminino o reconheceu e correu para abraçá-lo. Não era um comportamento típico de máquinas de construção. Aquele era um modelo materno – criado para auxiliar na criação de filhos e dotados de uma característica incomum, a qual os humanos chamavam de “carinho”.

Um deles empurrou Latão para longe em um gesto atípico. Depois de tantos anos sem cuidados específicos, aqueles modelos tornaram-se agressivos. Estendeu a mão em direção a sua companheira. Ela o olhou de cima a baixo e virou o rosto. Uma faísca surgiu em seu peito. Algumas conexões se desfizeram.

A “gangue” o cercou e iniciaram a diretiva ensinada pelos humanos: a sobrevivência do mais forte. Utilizaram tudo o que havia em suas mãos: chaves, martelos e pedaços do que um dia foi uma porta de carro.

Carregaram seu corpo inerte até um lixão que havia ali perto e o jogaram sem cerimônias. Desapareceram em seguida. Que mundo era aquele? Não sabia, mas o fato é que os autômatos haviam tomado conta daquela região e poucos modelos “comuns” (como ele) eram vistos. Estava com um olho queimado, um braço amassado e uma das pernas em curto-circuito. Sentiu algo inexplicável no lado esquerdo. Algumas de suas peças foram retiradas. Era dor o que sentia. A dor comum aos seres humanos, a dor de perder a companheira, a dor de sentir-se excluído, a dor de sentir-se só... A dor de não ter mais um coração.

Dessa vez não levantou. Ficou pensando durante um tempo. Foi então que olhou para o lado e notou um broto de uma pequena planta que surgia do chão castigado. Girou seu corpo em direção a ela. Se continuasse ali no meio daquela tempestade iria morrer. Ajeitou-se, cavou ao redor com as mãos e retirou a planta com boa parte da terra junto. Abriu seu peitoral e a colocou dentro. Ali ela estaria aquecida, protegida do vento e receberia luz indireta. Um sistema até então adormecido começou a funcionar. Não sabia onde estava, mas pôs-se de pé e partiu. Mancando e com apenas um olho funcionando seguiu em frente.

De repente, uma luz iluminou seu peito. Não estava delirando. Olhou para cima e notou que um tímido raio de sol surgiu entre as nuvens espessas. Ainda havia esperança para o planeta. O horizonte permanecia turvo, mas viu alguma coisa. Tentou andar mais rápido. Conforme ia se aproximando, o cenário ao redor ia mudando.

Sentiu algo diferente sobre seus pés. Era grama. Um vulto esguio veio ao seu encontro. Já estava perdendo as forças, mas foi capaz de abrir o compartimento do peito e mostrar a relíquia. O outro ser fez o mesmo. Antes de desligar por completo seus sistemas, procurou o número de série naquele corpo fino e de aparência suave. Estava escrito L-4-T-4-0-0-F. Era uma versão feminina de sua espécie. Levou-o às pressas para a área de manutenção.

(...)

Acordou um bom tempo depois. Estava escorado em uma árvore remanescente. Ao seu lado estava sua salvadora. Esboçou um sorriso ao notar que ele estava em funcionamento. Abriu seu compartimento e mostrou outra planta. Apontou para o extenso gramado que estava ao redor. Finalmente entendeu qual era seu objetivo: reconstruir o planeta. Esta era a diretiva perdida em seu subconsciente.

Ela apontou para o lado esquerdo de seu corpo e mostrou que lhe faltava um pedaço de certo item muito raro. Latão fez o mesmo e notou que o restante das peças que faltavam em sua companheira, agora estava com ele. E fazia um barulho estranho. Novos circuitos se formaram ao redor e pôde sentir um pulsar até então adormecido.

Deram as mãos em um gesto sem significado, mas a ocasião parecia pedir que fizessem isso. Permaneceram observando o raio de sol banhar aquelas pequenas e ínfimas flores que ganhavam uma segunda chance através de mãos não humanas. A Terra se recuperaria.

Mas isto seria apenas conseqüência, um ato da natureza. O que realmente importava é que ele havia encontrado seu lugar, a companheira de sua espécie, seu objetivo. Finalmente, depois de muito tempo, Latão possuía um coração.

Comentários   

#5 Ewerton Guimarães » 17-03-2015 18:07

Realmente, lembrou muito W.A.L.L.E como a Jéssica disse.
Gostei bastante. Bem fluída a leitura.
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Ewerton Guimarães

#4 jeff junkhead » 27-04-2014 00:36

Muito bom, gostei. ;-)
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jeff junkhead

#3 Brian Oliveira Lancaster » 25-11-2013 13:08

Quando escrevi este conto, estava em um dia depressivo. Então saiu meio "meloso", sem querer.
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Brian Oliveira Lancaster

#2 Jessica Borges » 24-11-2013 22:37

Nossa, gostei bastante! Muito fofo. Lembrou um pouco W.A.L.L.E.
Parabéns! :D
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Jessica Borges

#1 Fábio Silva » 19-11-2013 21:24

eu gostei.
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Fábio Silva

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