Trilhas do Tempo

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Calor. O suor molhava os cabelos grudados no pescoço e um murmúrio de protesto escapou dos lábios femininos. Em algum lugar, um carro freou bruscamente e o motorista gritou algo obsceno. As notas de uma canção chegavam aos ouvidos sensíveis, mas não interrompiam os sonhos que a atormentavam. A mulher enrolada nos lençóis se moveu na cama, presa a um universo desconhecido, não conseguiu despertar.

O ar da mata não refrescava o calor, mas intensificava os aromas. Em pé a beira de um rio, ela observa quando eles chegam. O sentimento que a consome é profundo, assim como a urgência em avisá-los: cuidado com a fera. Ela tenta correr, eles precisam saber. Cuidado com a fera. Pela janela transparente, alguma claridade das ruas se insinua, mas não ilumina as sombras que a envolvem. A moça observa quando a menina ri e mergulha nas águas turbulentas. Do outro lado, o garoto sobe em um galho e pula no rio, submergindo a seguir. Inocência. Mas a poucos metros, uma fera espreita. Os olhos do monstro ferem de vermelho sanguilonento a paz do local. Ticia deseja ir até eles, enquanto o suor escorre entre seus seios e o ar lhe falta, entretanto, as pernas não se movem, a voz está presa na garganta, e lentamente, ela vê a fera se aproximar. As sombras vêm junto e a envolvem, não há nada que possa fazer. Haverá sangue e dor. As crianças gritam. Cruelmente, a fera destroça suas vítimas. 

O grito que tanto guardou enfim explode num urro selvagem e Ticia desperta. Presa entre o mundo do sonho e o da realidade, a mulher-lobo não controla a ferocidade. Em poucos segundos, o corpo que estremecia na cama salta.

 Curvada no meio do quarto, a metamorfose tem início. As unhas arrancam lascas do assoalho e a dor é intensa enquanto ossos e pele se dilaceram, os pelos crescem e o aposento se torna pequeno para contê-la. Um rosnado feroz se espalha e as criaturas insones que percorrem a cidade estremecem de pavor, enquanto alguma nova lenda urbana nasce. Os móveis sofrem o impacto da transformação, mas aos poucos, o controle entre a mente humana e os mais ferozes instintos se estabelece.

Fora apenas um sonho.

Lentamente, a transformação retrocede.

Apenas um sonho.

 

I

 

A bicicleta se desviou de um carro ao cruzar a avenida, ignorando as buzinas. A ciclista murmurou um palavrão, irritada consigo mesma. Atrasos estavam se tornando rotina. O ar esfumaçado e a ausência de chuvas, somados a poluição que envolvia a cidade ameaçavam sufocá-la. Quando chegou a escola de idiomas, eles já estavam lá, mas a reunião ainda não havia começado. Os alunos que frequentam o curso no dia a dia e os comerciantes da vizinhança não sabem, mas a escola de idiomas é na verdade um dos pontos de encontro dos membros do Green Death, uma das mais cruéis organizações que não se tem notícia. E sabem menos ainda que entre os pacatos professores, homens e mulheres de várias partes do mundo, escondem-se criaturas lupinas.

 

Ticia sentiu os olhares curiosos dos companheiros, consciente de que as noites tomadas por pesadelos marcaram seu rosto delicado. Sentou-se numa cadeira vazia ao lado de Paolo. 

– Você está bem, querida? – a pergunta vem em tom discreto.

Com um sorriso triste, a moça murmurou uma resposta, quase para si mesma.

– Os sonhos voltaram... – havia medo na voz. – Cada vez mais eu sinto, mas não entendo. Não sei se é uma lembrança... uma visão do futuro, mas é tão real.

– A fera novamente? – ao vê-la assentir, ele prossegue, – e as crianças?

– Elas também estão lá, e não há nada que eu possa fazer para salvá-las. Não há mais vida para eles depois que... –, a garota vira-se e o encara diretamente.  – Eu os amo sabe, posso sentir isso, mas e se.. se eu fiz aquilo, eu..

– Suas lembranças estão perdidas há muito tempo, há algo guardado que nem mesmo você, cara mia, deseja lembrar-se. Nós não poderemos te ajudar, precisa encontrar-se consigo mesma, eu temo por você. E por nós todos. – a voz é firme e carrega, junto ao carinho, uma advertência.

Ela entendeu o implícito; ali, todos precisavam um dos outros, não havia espaço para falhas.

– Eu vou ficar bem, Paolo, acho que uma nova missão é tudo que preciso.

– Não sei se uma missão seria bem vinda agora, talvez precise apenas descansar.

A resposta que daria ficou perdida no silêncio. Paolo era o mais próximo de um pai para Ticia, quando a menina sem memórias apareceu no circo onde ele vivia com a irmã Sophie, logo foi adotada pelos irmãos. Por muito tempo, cada transformação fora marcada pelo descontrole e pela ferocidade, mas com o tempo e orientações recebidos, Ticia encontrou um razoável equilíbrio. Mas Paolo sabia, os sonhos a perturbavam além do desejado e sob a aparência de calma e tranquilidade, pulsava uma criatura de poderes imensuráveis. E quando livres, extremamente cruéis. Quando a morte levou, de forma natural, a bela Sophie, Ticia manifestou o desejo de se estabelecer em São Paulo, e Paolo permaneceu na cidade com ela.

Os slides apresentados por Nikos mostravam imagens impressionantes de crueldade e devastação da natureza. Na platéia, o grupo aprendia o máximo possível sobre a região da próxima missão. Todos os pensamentos alheios a causa desapareceram frente a seriedade do que estava sendo exposto. No primeiro vídeo, uma criança coberta de fuligem e dentes cariados, vestida com um minúsculo short sorri para a câmera quando um homem armado se aproxima. Antes da câmera ser desligada, ainda conseguiram registrar os fornos; pequenos vulcões ardendo escuridão e fumaça na paisagem árida.

Em seguida, a imagem de um homem preencheu a tela. O rosto quase oculto pelo chapéu. Nas mãos, um chicote de montaria. Botas. Um visual comum de um fazendeiro. Nas outras fotos, pilhas de couro de jacaré e outros bichos, coleções de armas de caça com alta potência. Crianças magras e sujas de carvão trabalhando até o anoitecer. Homens e mulheres roubados em toda sua dignidade. Escravidão. Tortura. Casas de pau-a-pique, cabanas, barracas, condições subumanas.

O palestrante mostrou outro vídeo, o mesmo homem empunhava o chicote com violência contra um empregado. O trabalhador corria descalço pelo chão aquecido e coberto de carvão, desviando dos fornos e das madeiras empilhadas enquanto seu perseguidor, a cavalo, seguia atingindo-o com o chicote. Os homens armados ao redor gargalhavam enquanto a família chorava, pedindo clemência. Quando se cansou da diversão, ele mesmo apanhou uma arma e atirou. A munição especial estourou a cabeça do perseguido. O som do tiro calou o choro, mas as risadas prosseguiram. De cabeça baixa, os carvoeiros voltaram ao trabalho. Menos a família do morto, a jovem esposa foi agarrada e levada pelo patrão. A última imagem focalizou-se na expressão sombria do dono das carvoarias. João Carcará. Os olhos, mesmo parcialmente cobertos pelo chapéu, eram frios e Ticia arrepiou-se com a maldade que pressentiu ali.

A voz de Nikos alterou-se ao mostrar a enorme clareira onde antes a mata virgem reinava. Rios minguados pelo assoreamento. Fornos, animais mortos, em fuga ou em extinção, aumentam a sua revolta. A mata nativa estava sendo devastada para transformar-se em carvão vegetal. No longo ciclo, a madeira era cortada, transformada em carvão que alimentaria as usinas espalhadas pelo Brasil, para a produção de ferro-gusa e aço. A lei, mais uma vez, caminhava em passos lentos demais. Algo precisava ser feito e este trabalho já começara em vários outros pontos do país e regiões de fronteira. Onde antes os bichos andavam soltos, os fornos pipocavam como uma erupção maligna e estendiam-se por longas extensões.  Era hora de detê-los.

O grego que apresentava os slides é o líder desta célula. Um poderoso alfa, que deixou Pátras ainda adolescente e desde então, percorre o mundo lutando por um ideal marcado com sangue. Os membros ao seu comando já realizaram grandes feitos. Os brasileiros Ticia e Carlos são betas, a espanhola Rubia é a única ômega do grupo. Paolo é italiano e Raul, português. Juntos, formam uma das equipes mais letais da organização ecoterrorista, lutando de forma constante em regiões onde a devastação da natureza já começou, entretanto, ainda há muito a ser preservado. Sob o disfarce da escola de idiomas, conseguem dar apoio a membros de várias partes do mundo, assim como manter um ponto de encontro e seguir uma rotina fora de suspeita, quando não estão em missão. Em comum, o amor pela natureza, a fúria lupina e a crença que não há inocentes quando se trata de destruidores da natureza. Chefes, proprietários ou meros empregados, todos devem ser punidos pelos pecados contra a vida.

Naquela manhã, a inquietação de Paolo e Ticia logo é identificada pela ligação mental do grupo, os demais percebem que há algo errado, mas sob a firme declaração de que estava preparada, além de nunca ter falhado antes com o grupo, a moça convenceu-os de que estava apta.

Mais uma missão lupina tem início.

 

II

 

O micro ônibus parou em frente ao hotel fazenda. Ali, turistas não eram novidades, e a algazarra de línguas, sotaques e etnias logo se tornava parte da paisagem. O trio recém chegado partiria para um acampamento menor. Pescar, preparar a própria comida, fotografar ou simplesmente descansar com privacidade. Um walkie-talkie para manter contato e o retorno em dez dias foi combinado. As bases estavam localizadas em partes mais isoladas da região, tecnologia aliada a rusticidade, um pacote indispensável a turistas modernos e dispostos a pagar o preço por alguns dias em ambiente “selvagem”. Palafitas protegiam a construção das cheias e, ainda que no momento fosse período de seca, era possível ver as marcas de até onde as águas poderiam chegar.  Pássaros diversos e multicoloridos enfeitavam a paisagem deslumbrante. Sobre os assoalhos suspensos, as barracas estariam protegidas.

            A moça soltou os cabelos e suspirou, enlevada. No entanto, uma tensão repentina causou-lhe um arrepio e ela espreitou a mata que os cercava, desconfiada, mas logo, seus sentidos avançados absorveram a pureza do ar. Do outro lado, Paolo sorriu, satisfeito, enquanto se preparava para uma breve excursão na mata. Nikos apenas observava a mata ao seu redor. E em cada um deles, se reforçou a necessidade de combater os destruidores daquele patrimônio natural. Na mesma noite, o grupo entrou em ação, partindo em busca das carvoarias. A distância era razoável, mas não para a velocidade lupina.

 

 

III

 

Os passos rápidos na mata cerrada cessaram abruptamente. A fumaça e o cheiro da madeira armazenada turvavam os aromas naturais e anunciavam que estavam próximos.  Essa mistura de odores invadiu os sentidos da mulher-lobo e a criatura hesitou. Uma sensação antiga e humana a fez estremecer. Por alguns instantes, sentiu-se prestes a ser atacada e uivou. Medo? A ordem do alfa e as indagações de Paolo a fizeram calar-se. A poderosa loba quase entregara a chegada do grupo. Tentando controlar o sentimento de origem desconhecida, prosseguiu. Finalmente, chegaram ao centro da clareira. O  que viram ali confirmou a imagem que já traziam. Os pequenos fornos pipocavam e os barracões, seguidos por casas de pau-a-pique e um galpão completavam a paisagem desolada. A decadência humana, o cheiro da podridão e a natureza devastada estavam por todos os lados.

A lua clareava os vultos das três criaturas monstruosas que avançavam. Saltando entre os fornos, carvão e pilhas de madeiras, os lobisomens, guiados por Nikos, atacaram. O único sentinela acordado não viu o que o atingiu, com força descomunal, a criatura arrancou-lhe a cabeça por trás e jogou no meio da clareira. Destruíram o que encontravam pela frente, primeiro os fornos, e depois, o galpão onde o capataz dormia, o depósito de mercadoria que servia ao propósito de escravizar os trabalhadores e finalmente, cada um dos que se abrigavam nos barracões. A um dos homens armados que dormiam no galpão foi permitido a fuga. Era preciso que a fúria lupina se espalhasse e o medo impedisse que um novo acampamento fosse montado.

A mulher-lobo mais uma vez estremeceu. Uma coisinha linda assim no carvão? Não pode não... A voz, de onde viera essa voz? Buscou desesperadamente entender, mas... Controle-se! A voz de Nikos explodiu em sua cabeça e ela recuperou a razão momentaneamente perdida. Em cada cabana, famílias inteiras foram destruídas, restando ao final uma paisagem de carne e sangue sobre madeira e carvão destroçados. Pela primeira vez, Ticia questionou a sana que sempre a guiara. Aquela gente era tão vítima quanto os elementos da natureza que foram destruídos.

Mais uma carvoaria clandestina estava desfeita. Em três noite diferentes, três fazendas sentiram o ataque de uma força desconhecida e levaria um bom tempo para que pudessem se reestruturar. Mas não era o suficiente. Os ataques sistematizados destruíram a estrutura das carvoarias, mas o chefe, João Carcará, era o homem cuja crueldade impressionara a todos, este que enriquecia a cada dia por meio da miséria e da corrupção humana, este ainda estava protegido pela mesma natureza que danificava constantemente. Paolo foi em busca da última presa, enquanto os demais voltavam ao acampamento.

Ticia sabia que colocara o grupo em risco. Desde que chegara  a este lugar, seus instintos estiveram confusos. Não conseguiu explicar como os sons oriundos das carvoarias, a fuligem e o até mesmo, os movimentos furtivos da mata podiam afetá-la tanto e Nikos fez-lhe duras advertências, oferecendo mesmo que retornasse a base se preferisse assim, não passaram despercebidas ao grupo as dúvidas que a tomaram depois do ataque. Mas sua fé no grupo, o amor pela causa falaram mais alto e assim, quando o sol chegou e com ele, a volta de Paolo, ela estava pronta.

 

 

V

 

O homem acendeu o cigarro e a brasa iluminou o quarto. Sorveu lentamente e expeliu a fumaça. Havia algo lá fora, um novo inimigo o esperava. Mas isso não lhe trouxe medo. Assim como os malditos sobreviventes, delirando sobre lobisomens, foram punidos, também assim seriam os que estavam ousando atacá-lo. Em todas as suas fazendas, onde outras carvoarias funcionavam, a segurança fora redobrada, mas os ataques continuaram. Era preciso reagir, os prejuízos estavam sendo enormes e principalmente, o medo estava se espalhando. Agora, armadilhas estavam por todos os lados, pois não era homem para ser caçado. As armas que trazia consigo garantiriam sua sobrevivência.

– Eu não sou a presa, crianças... – o murmúrio perdeu-se na noite escura que rondava a fazenda. 

Perdida no meio da mata cerrada, escondia-se a grandiosidade da mansão luxuosa. Aquela era apenas uma das moradas de João Carcará. Ao contrario de muitos outros exploradores da mata nativa, ele preferia estabelecer-se próximo as fontes do seu lucro. Na imponência do casario, rusticidade e luxo, jardins e animais de estimação exóticos davam o tom. Uma pista e um avião permitiam que ele partisse quando assim desejasse, e homens armados cercavam o local. Mas a sensação de estar encurralado começava a dominá-lo. Com ódio no peito, gritou para a noite:

– Eu sou o caçador, meu nome é Carcará..

A uma pequena distância, olhos avermelhados observavam o fiapo de luz na janela no alto. A mulher lobo, com as quatro patas no chão, preparava-se para avançar e concluir sua missão, quando o desafio chegou aos seus ouvidos. Primeiro veio a angustia. Aquela voz doía-lhe de um jeito desconhecido. Depois, o cheiro que veio no ar, havia um aroma conhecido naquelas terras, ela já estivera ali, podia sentir, mas a memória não deixava saber mais. Uivou descontroladamente quando a dor das lembranças humanas abalaram a fera. Sentiu nos braços a força de uma prisão antiga e uma dor lancinante, de uma vida que já não lhe pertencia. Os uivos atraíram a atenção dos guardas e luzes foram acesas em torno do local. Mas nada importava para ela, presa em sua dor, a cabeça parecia-lhe que iria explodir e num processo extremamente angustiante, sentiu que a transformação estava acontecendo.

A loba uivava enquanto a mulher nua renascia do horror que lhe consumia. Encolhida em posição fetal, não viu quando os seus companheiros foram atacados por centenas de homens armados. Logo, os ataques chegaram até ela e um golpe de machete a atingiu, quase dilacerando a perna direita, quando o atacante se preparava para um novo golpe, um lobisomem gigantesco saltou sobre  ele e, com um safanão, jogou a arma longe, com os dentes, arrancou o braço que o empunhava. Era Paolo, mas ela não reagiu, apenas arrastou-se no solo, arranhando a pele e deixando sangue pelo caminho, enquanto a luta prosseguia. Os uivos dominaram a noite e homens e lobos derramavam seu sangue pelo chão, enquanto, lá do alto, o Carcará gargalhava, vendo a luta feroz que se desenrolava no pátio, carregou um rifle, fez a mira e acertou. Lobisomens. Então não era apenas uma lenda. O homem uivou enquanto as balas ricocheteavam nas criaturas, ocasionalmente, atingindo os homens que ali lutavam. João trocou a munição, usando as reservadas para caçadas e tiro ao alvo nos jacarés. O primeiro tirou ricocheteou na pele dura do lobisomem, mas as outras, uma a uma, foram abrindo caminho na pele rústica. Paolo grunhiu e o sangue do homem lobo se derramou. Ainda assim, ele avançou em direção a casa, num salto, o lobisomem estava no piso superior, muito ferido, não resistiu aos últimos tiros que o aguardavam e caiu novamente no pátio, inerte. Estavam sendo derrotados. Do outro lado, Nikos lutava bravamente com mais de vinte homens, sendo caçado por mais outros, mas não resistiria por muito tempo. Olhando a sua volta, chamou por Paolo e Ticia, mas não obteve resposta.

Ticia havia desaparecido e o corpo de Paolo, já sem a transformação, jazia no solo. Nikos, gravemente ferido, recuou.

 

VI

 

– Vai se alembrar, aí de dentro as lembrança têm vida, elas quer contar da dor. – a mulher escondia o rosto nos cabelos lisos e negros enquanto passava o unguento sobre a pele ferida. Ticia resmungou, tentando afastar a moça que a arrastara, mesmo machucada, da beira do rio até aquela cabana escondida.

– A loba quer reinar, mas a menina não deixa. Por isso, precisa lembrar.

O canto choroso prosseguiu e a voz hipnótica da cabocla a envolveu.

– Eu te devolvo menina, as dores que são tuas, lua já vai alta e tá na hora de despertar...

Um toque mais firme fez Ticia encolher-se e, aos poucos, a mente recuperava o que o tempo havia apagado. A dor dos ossos fraturados com o golpe do machado estava aos poucos diminuindo, o aroma de ervas na pasta acalmava o ardor na pele ferida que se recuperava, a melodia e o ambiente místico da cabana a envolveram, enquanto vozes e lembranças de outra manhã distante voltavam como uma tempestade de imagens e sentimentos. Como num passe de mágica, viu-se novamente no mesmo cenário do sonho que muita vez a perturbara, mas desta vez, não havia nada nublando suas atenções, era apenas ela, em algum miserável lugar, perdido no tempo/espaço daquele mesmo cerrado onde se encontrava agora.

 

– Chora mais não... – a voz sussurrada era quase um pedido e duas crianças esfarrapadas se esgueiravam entre as árvores. A menor, uma menina de uns nove, dez anos, soluçava, olhando algumas vezes para trás. O garoto, um pouco maior, segurou sua mão, guiando-a pela trilha no meio do mato, em direção ao rio de águas escuras que descia logo a seguir. Devagar, caminharam até a areia cheia de pedregulhos. Nas pedras maiores, ele ofereceu. – Senta ai... vou lavar pra você.

 A menina sentou-se na pedra e ele, com as mãos em concha, derramou a água sobre os cabelos escuros. No rosto escondido pela sujeira, grandes olhos amendoados estavam vermelhos e inchados, lágrimas se misturavam ao sangue que havia descido do corte no supercílio.  O menino tirou a camiseta e molhou no rio, enquanto tentava limpar o machucado.

Ela não viu, mas ele trazia os olhos úmidos, divididos entre a raiva e a piedade. 

A mata estava silenciosa e uma brisa suave anunciava o entardecer. Em meio à solidão quase absoluta, a água fria e o gesto carinhoso afastaram os soluços. Brincando, ele apertou a pontinha do nariz delicado...

– Vai acabar virando uma muie-onça, sua brigona! Ou comida dela.

 A menina sorriu e ele sorriu de volta. Não estava ficando mais limpa, mas ao menos, o choro havia passado. – Vem cá, – ela disse, puxando-o pelas mãos, enquanto se levantava, entrando no rio.

– Não por aí, tem poço.

A menina sorriu, desafiante.

– Tenho medo não Dinho, você tem? – e mergulhou nas águas. O garoto ergueu os braços e as costelas apareceram no tórax magro. O menino gritou:

– Eu sou o caçador, meu nome é carcará! Foge mulé-onça – E se jogou na água, alcançando-a e, na outra margem, subiram juntos.

Entre risos e mergulhos, quase não viram quando a noite desceu. A volta pra casa foi lenta. A madrinha haveria de brigar, mas não importava. Em meio a natureza, ela se sentia viva, limpa. O vento secou as roupas molhadas enquanto caminhavam e os cabelos, agora dourados, secavam soltos. O menino segurou a mão pequena da garota e sorriram.

Naquela noite, não haveria sopa para ela. Mais uma vez, enfrentou o capataz e o golpe seco foi a punição. Mas isso não bastara, alguém já contara a madrinha e agora deitada no escuro, não eram os mosquitos zumbindo e sim a fome que a incomodava, e a lembrança do tapa. Ela não se importava, não iria ao galpão com ele, Dinho sempre dissera que não fosse. A mão rude doeu-lhe na face e quando caiu, alguns adultos desviaram o olhar, mas outros gostaram. Quanto mais cedo a criança aprender seu lugar, melhor. Virou-se na cama, quando alguém tocou seu rosto e silenciou seus lábios.  Entretanto, ela já o esperava, ele sempre viria. Nunca entendera o porquê do olhar da mulher não trazer o carinho da mãe, apenas raiva e rispidez. Mas havia ele, os olhos negros e tristes do menino magrela que tornara sua dor um pouco mais suportável. Sob um fraco claro de luar, goiabas frescas e um pedaço de pão endurecido, assado no forno no dia anterior, surgiram a sua frente. A menina agarrou o pão com vontade, enquanto sorria. O menino saiu do quarto tão silencioso quanto entrou. Quase adormecendo, pensou na mãe e de como era doce estar com ela. Na cama ao lado, a madrinha roncou. Sonhou com as águas calmas do rio e o silêncio cheiroso da mata.

 

Ticia despertou do mundo de lembranças, sentindo ainda o aroma da mata, sentou-se na cama, deixando o poncho cair. A dor que a consumia não se originava apenas dos ferimentos recebidos. Dinho. Soluçava, balançando os cabelos, duvidando de si mesma. Como pudera esquecer Dinho, como pudera esquecer-se de quem era?

A mulher que a observava se aproximou, tocando-lhe os cabelos, prosseguiu na cantoria mística, oferecendo-lhe um pouco mais do chá, aumentando a chama para que o cheiro das ervas queimadas se tornassem mais fortes na cabana.

 

Uma mulher tocava os seus cabelos... mas não era a mulher-onça. A voz era cruel, quase debochada.   

– É bonita, a danada. Quando tá limpa os cabelo brilha que só vendo. Se vai cair na vida, que não seja no desperdício. Alguma paga tenho que ter dos pratos de comida que já me levou.

– Novilha fresca?

– Pois se te garanto home, fresquinha.

 Ticia moveu-se, angustiada, novilha fresca, tentou se lembrar do homem, mas as vozes sumiam e voltavam, quando outra cena surgiu, ela era então menina, uma trouxa sendo arrumada e um adeus frio. Cê vai simbora. O que via agora era uma criança agarrada em pernas indiferentes, implorando para ficar... na cabana turvada por ervas, ela estendeu os braços, implorando, como a criança das suas memórias fizera, perdendo-se novamente no universo das lembranças.

– Coração cheio de orguio esse, guria, precisa de tento.

– Mas eu prometo comportar, madrinha, prometo. Ele queria me levar pro galpão, não pode, Dinho mesmo disse pra não ir.

– Você vai pro mundo, minina, vai trabaia, já tá tudo arranjado, o seu Zé vai fazer uma viage e levar você pra uma casa de família do patrão.

Uma casinha miserável, um homem grosseiro e duas notas grandes que a mulher que se dizia sua madrinha guardou no sutiã...

Ticia soluçou e um suor frio cobriu sua pele quando imagens de uma viagem sacolejante vieram a sua mente, pedras raspavam o fundo da caminhonete enquanto ela empurrava mãos nojentas em suas pernas. O cenário deu lugar a um casarão luxuoso, um peão encurvado que lhe recebeu e mais notas sendo trocadas de mãos. O cheiro bom de comida, olhares desconfiados e o silêncio... um quartinho e alguns momentos de paz enquanto não trabalhava na cozinha. Um açude azulado, um pomar gigantesco e cães que rosnavam. A casa enorme, circundada por varandas e flores. E a distância de seu único amigo.

– Dinhoo! – O grito escapou da garganta de Ticia, como se com isso, pudesse deter as lembranças, mas elas seguiam voltando, cada vez mais claras. João Eduardo... como pudera esquecê-lo, Ticia não compreendia, e a mesma dor a sufocava junto com as lembranças dos sonhos que tivera então. Aquela menina maltrapilha em suas lembranças não era ela, o nome, havia um nome... aquela criança cometera um erro, ela conhecia seus pensamentos e o erro foi o de pensar que teria paz, livre dos fornos e do carvão que lhe impedia a respiração. Novamente, outras vozes surgiam dentro dela.

– Seja boa, menina. Não teima, não deixa o patrão com raiva.

– Tome tento do teu lugar... tudo passa logo nessa vida.

As vozes do passado mostravam uma outra Ticia, feliz em um vestido com babados. Pouco se importando com advertências que não compreendia. Uma criança que atendia pelo nome de Janaina.

– Pra morte não tem saída menina Janaina, pra viver, sempre tem caminho. Se alembra disso.

Ticia se lembrava, assim como se lembrava de sorrir e prometer que jamais teimaria com o patrão. Depois, o estrondo na porta do quartinho. Parado a sua porta, um homem cheirando cachaça. Escadas, degraus que subiu quase sem ver, arrastada pela mão cruel, seguindo-o até um quarto grande e colorido, o tapete macio sob seus pés. O gosto da cachaça que o patrão obrigou que ela tomasse... Os olhos do patrão. O medo e a raiva.

– Uma coisinha linda assim no carvão? Não pode não, vamos menina, dá uma voltinha. A onça comeu sua língua, foi?

A força de um braço de aço lhe prendendo, a boca esmagando a sua. A cama onde foi jogada sem nem saber como. A corrida pelo quarto e de novo, a prisão. O homem dentro dela e uma dor tão grande, tão imensa e cruel que pareceu-lhe que morreria.

Ticia gritou quando as lembranças voltaram, gritou, uivou e soluçou, mas a mulher-onça, a curandeira das matas, já não estava lá com ela, apenas a fumaça e o cheiro de ervas queimadas. Os soluços vieram com força, junto com a memória familiar dos sons de carnes e ossos sendo destroçados em suas mandíbulas. Da forma como cada um fora destroncado, atirado contra as paredes e o sabor do sangue alimentando o ódio. E de certa forma, Ticia agora sabia, naquela noite, ela morreu.  Foi o nascimento da mulher-lobo.

 Primeiro, o dor de um estranho que lhe rasgara o corpo e alma, em seguida, uma dor maior, que esmigalhou seus ossos e músculos. Novas imagens do homem que arfava sem notar o que acontecia com o corpo frágil sob ele sendo jogado para longe, vestido somente com a camisa, se arrastando pelo tapete. Os seus gritos de menina e fera enquanto se transformava em algo que nem nos piores pesadelos, imaginara. A criatura lupina que se levantou, uivou ferozmente para a noite, e avançou sobre o monstro encolhido no chão.

Naquela noite, seus urros estremeceram a casa e dois homens armados invadiram o quarto. A visão horrenda do lobisomem, erguido sobre duas patas e devorando as partes destroncadas do patrão foi o suficiente. Atiraram quase sem pensar e apenas uma das balas acertou de raspão. Mas não deteve a fera, ela avançou e um dos capangas tentou ferir-lhe as costas com uma faca. Não bastou, a loba quebrou o pescoço do outro num só golpe, e virou-se para quem a atacara pelas costas. Os braços foram arrancados, enquanto os dentes cravaram-se no ombro, jogando o naco de carne para longe.

Quando o lobisomem com cerca de um metro e meio, bípede, saltou as escadas com os pelos de tom caramelado cobertos por sangue e carne destroçada, não houve tempo para fuga. As mulheres que estavam encolhidas na cozinha não foram poupadas. Cada uma delas foi destruída. Unhas, força, dentes e sangue espalharam vísceras pela casa, o que a jovem e furiosa loba não devorava, rasgava nas garras poderosas. Naquela noite, a morte chegou para cada alma que ali perambulava. A dor havia ido embora, mas o ódio, a fúria e o desejo de vingança, ah, estes estavam fervilhando dentro da jovem loba. Curvada sobre as duas patas, ela uivou, enquanto farejava cada suspiro de medo que emanava da região, as casas dos moradores ao redor não foram poupadas, e logo, uma trilha de sangue e carne estraçalhada indicava o caminho percorrido. Aquela que deveria ter sido a sua passagem para o universo lupino, seu destino desde o nascimento, se tornara um gesto de liberdade dos anos de dor e sofrimento na forma mais violenta possível. Janaína nunca mais existiria.

            Ticia lembrou-se vagamente de percorrer as matas, uivando e rosnando a sua dor, deixando nas árvores as marcas de suas garras, até que, finalmente, encontrou-se a beira de um riacho, onde matou a sede e lentamente, deixou a forma lupina. Vomitou e cercada por sangue coagulado e carne, ela encolheu-se. Do alto de uma árvore, uma onça pintada observava a garotinha nua e ferida, deitada e chorando a beira de um rio. A criança mais sentiu que viu a onça se aproximar, em olhos semicerrados, pensou ainda, que se este fosse o seu fim, não importava, não haveria razão para viver. Como num sonho, as quatro patas foram se transformando e felinamente, uma mulher nua surgia da pele da onça.  A paz da transformação contrastava com a fúria que a tomara há pouco. A moça se aproximou e ajoelhando-se, ergueu a nos braços. Antes de perder a consciência, Janaina pensou que, finalmente, seria devorada pela mulher-onça.

            – Ela me salvou... naquela noite, foi ela. Mais uma vez, ela me acolheu.– o corpo febril cobrava o preço de tantas emoções e dominada pelas poções mágicas, finalmente, Ticia adormeceu.

  De fato, a sabedoria de tribos antigas e magias ocultas no tempo que acalmaram a dor da criança. Entre cânticos místicos e preces, untadas por poções desconhecidas, as lembranças foram aos poucos sendo anuviadas, a mente infante não suportaria a dor da realidade e a cabocla sabia disso. Por ela, fizera uma escolha. Depois, houvera apenas o silêncio, dias e dias na cabana minúscula, sendo alimentada pela mulher calada. Quando enfim se recuperou, a moça a pegara pelas mãos e andaram por muitos dias pelas matas cerradas até que, finalmente, a mulher-onça parou. Era o circo. Paolo e Sophia e, desde então, toda a paz e tranqüilidade que precisara.

A mulher onça usou de uma magia ancestral para absorver-lhe a dor e as lembranças cruéis. Este fora o momento de devolvê-las. Ainda que mais uma vez, estivesse nua e encolhida, sofrendo as piores dores enfim reveladas, finalmente ela dormiria em paz, sabendo quem realmente era.  

 

VII

 

– O menino veio te busca. Mas o que ele viu, destruiu a pureza e liberou a fera.

– Ele é como eu? – enrolada no poncho gasto, sentia o corpo recuperando-se aos poucos da última batalha.

– Não menina, a fera dele é costura em pano de sombras. Eu tava lá quando ele chegou, os pés em sangue da andança, trazia de arma um canivete e muita coragem no peito ossudo. – A mulher calou-se quando um sorriso miúdo surgiu no rosto de Ticia. – É verdade, tu haveria de rir, valente mais que ele como sempre foi. Chegou ao entardecer, os corpos dos cães, as poças de sangue espalhadas no terreiro, os olhos brilhantes do jacaré no lago. Foi se achegando e indo em frente. O menino não tinha medo não. Tinha era amor.

Ticia levantou os olhos úmidos... o riso sumiu e as lágrimas agora caiam sem controle.

             – A moça sabe o que o guri viu.

            Ela assentiu. Sangue nas paredes, carne e ossos espalhados pela casa. E no quarto, os restos de sua roupa miúda, rasgada e coberta por sangue. Em meio a toda gente morta e irreconhecível, imaginou o que ele sentira. Pensou ainda nos móveis quebrados, nos pedaços de ossos e carnes no quintal, nos cães mortos e na trilha de sangue que deixara.

            – Ele gritou. Verdade que foi um urro de bicho morrendo. Ódio do mais puro quando cravou as unha no terreiro. A noite tremeu duas vezes e as criaturas da mata se acoitaram na escuridão. Era uma noite de feras... Certas dor coração de home não guenta não.

– Ele... o que aconteceu com ele depois?

– Ele morreu menina, – vendo o ar confuso da garota, a mulher onça ergueu umas das sobrancelhas. – Corpos podem viver sem alma. Mas a morte por vezes é paga melhor.

– Ele que sempre foi meu anjo, meu guia...

– Pois duvido que o anjo tenha sobrevivido.

– Dinho não está morto, eu sei.  Eu sei onde ele está. João Eduardo... João Carcará.  

O rosto da mulher-onça era um mistério para Ticia, que meneava a cabeça, negando a afirmação da mulher a sua frente.

– O corpo, ainda anda... mas alma se foi com a fera.

O silêncio das duas criaturas prevaleceu.

– O que é você?

– Eu sei não. Sei que venho de mundos mais antigos menina, mais antigos que os sonhos pode contar... mas inda assim, os anos não falam quem sou, os caminhos dos outros, eu vejo, mas o meu é uma noite sem lua.–  a mulher levou as mãos aos seios, –  indomada já buliu muito aqui dentro de mim, mas dia e noite foro chegando de manso, rio de água calma e tranqüila. A onça dorme no coração da mulher e só nasce quando quero...

–  Há outras como você?

–  Como eu, vi poucas, trilha de onça é de solidão...

– E por que me ajudou? Por que não me deixou morrer na beira do rio? – a pergunta não trazia ingratidão, apenas a curiosidade pelo ato da criatura solitária.

– Conheço tua missão, menina. E também conheci sua mãe.

Mãe. Por muito tempo, a família ausente havia sido uma obsessão para Ticia, mas os longos anos com Sophie e Paolo curaram a dor, acalmarem a curiosidade. Mas naquela noite de magia, perdida no meio da mata, seu passado estava inteiro de volta. Vendo o olhar aflito da jovem, a mulher prosseguiu.

– A mãe-loba também buscava solidão. Chegou sem alcatéia e outro de vocês aqui não veio não. Ela lhe tinha muito amor, menina, a loba dourada era bonita por demais.

– Você eram amigas? Como ela era? Onde ela foi? – As perguntas surgiram todas juntas, inesperadas. 

– Havia muito mato, água e bicho, muito espaço para nós. Território marcado deu conta. Ela queria era a paz.

– Era carinhosa, eu me lembro, mas tão pouco... o que houve com ela?

– Foi os home, menina. Quando os carvoeiro chegaro invadindo a mata, machado e fogo, ela tentou impedir. Esse teu coração rebelde vei dela. A dor da mata ferida, você bem sabe... duas vezes a mulher-lobo atacou e foi bem sucedida.  Foi na terceira vez, saindo no meio da noite para caçar os monstros que lhe fizero a emboscada. Ela lutou foi muito, mas sozinha, conseguiu não. Muitos caçadores a perseguiram, mas ela escapou e mesmo ferida, vei até mim. Morreu aqui, e suas últimas palavras foram para que sempre olhasse por você. E olhei. Quando a moça do governo te levou até a madrinha, pareceu coisa acertada, mas tempo provou contrario. Também eu lutava com minha fera. Quando te procurei, era tarde, segui trilha de destruição, de morte. Depois, fiz o que deveria ter feito antes, levei você até seus iguais. Pra que nascesse de novo, menina. Até que as noites trouxeram você de volta ao chão onde nasceu. É trilha escrita em dor e sangue, mulher-lobo, mas é tua.

 

VIII

 

A loba esgueirou-se silenciosamente pelo acampamento, os trabalhadores ressonavam nos barracos, para ela, não havia mais novidade na respiração ruidosa dos doentes do pulmão, o cheiro da picumã e da cachaça usada como remédio, na sujeira e no abandono. Até os dez anos, vivera numa vila junto a carvoaria e nas mais de 12 horas que trabalhavam diariamente, era comum a presença de baratas, percevejos e carrapatos, assim como a tosse e as doença do purmão. O cheiro de madeira e queimada ardiam em suas narinas. Na produção do carvão vegetal, quase sempre clandestina, não só a mata nativa sofria, os trabalhadores vivenciavam a super exploração, devendo mais do que recebiam, a mercê de qualquer abuso. Uma criança tossiu na barraca ao lado e a mulher lobo retornou ao abrigo da mata. Naquela noite, a morte estivera muito perto de cada um deles, mas outro destino aguardava a justiceira. Um outro caminho a aguardava.

Dinho. Ou ainda, João Carcará, o Caçador.

            Mas esse mesmo João Carcará conhecia a lenda dos lobisomens, por muito tempo, quando ainda tinha sentimentos, temera essa e outras criaturas cuja magia desconhecia, mas respeitava. Depois, a vida, ou a morte, passara apenas a ser um esporte a mais. Porém, uma única noite ficara marcada em sua mente. E não pela primeira vez, João questionou quem teria sido o responsável por aquela noite de pesadelo e crueldade. O ataque presenciado na sua fazendo trouxe de volta estas lembranças. E um novo ódio nascia no peito do Carcará. Era hora de caçar. De punir. De vingar-se mais uma vez.  

No escuro, o homem ergueu um brinde solitário. A cachaça desceu amarga pela garganta, num só gole. Levantou-se, atravessando os cômodos pouco iluminados, caminhou em direção aos fundos, até chegar a um aposento afastado da casa. Por alguns instantes, observou a mata que o cercava. Em seguida, entrou. O homem nu, caído dentro da cela improvisada estava amarrado com correntes, o corpo ferido se recuperava com certa rapidez, mas as torturas renovadas impediam sua recuperação. Aquele era Paolo. Ferido, faminto, feroz. Infelizmente, indefeso.

            – Vai falar, homem lobo?  Onde estão os outros? O que querem aqui?

            Apenas o silêncio foi sua resposta, ele engoliu o resto da bebida e jogou o copo na grade que o separava do prisioneiro. João Carcará pegou o aguilhão pendurado no canto da parede e, com lentidão exasperante, encostou a ponta afiada nas costas do prisioneiro e um choque percorreu a vítima. Ali, muitas feras já haviam sido aprisionadas, mas aquele não era apenas mais uma. Um lobisomem. Por muito tempo, ouvira o povo murmurar sobre as criaturas, sobre a noite quando ela se fora. Ainda menino, lembrava-se da avó contando sobre os lobos que guardavam a mata. Não era crendice, afinal. A matança que os dois lobisomens realizaram entre seus homens e a destruição de várias carvoarias e trabalhadores, de uma forma nunca antes vista comprovava.  Porem, não havia lógica naquelas ações, não para ele. Nem perdão para as criaturas.

Com a garrafa na mão, na ausência do copo, bebeu do gargalo, em seguida, repetiu a dose. Da bebida e do aguilhão. A entrada do empregado interrompeu as divagações e os gemidos contidos de Paolo.

            – Licença... ta aí uma moça querendo falar com o patrão.    

            João considerou. Não imaginara jamais que um fantasma do passado esperava por ele, pensou sim que, talvez, uma caboclinha o distraísse dos pensamentos sombrios. Era comum ser procurado por moças da região. Algumas, em busca de dinheiro, outras, para selar a paz ou conseguir favores para as famílias. Mulheres casadas ou não, oferecendo o corpo em troca de alguma migalha. Algumas, em troca da vida de seus próprios familiares. Ele não recusava ofertas. Olhou o homem que torcia o chapéu nas mãos nervosas, parado na porta. Era um dos seus empregados mais antigos.

            – Deixa entrar Lito, deixa entrar.

            Haveria de chegar o dia de escolher um herdeiro, mas não desejava legar nada ninguém. O fruto amargo de suas escolhas não seria repassado.

            – Que o governo coma tudo –, resmungou. Vivia por viver, matar ou morrer lhe era indiferente, mas jamais se deixaria levar pelos enganos de algum afeto. Quase sem querer, a lembrança da menina de cabelos caramelados voltou a sua mente. Janaina. O homem gemeu na cela improvisada, e João se abaixou, com voz suave, falou:

            – Você há de uivar lobinho, eu espero, tenho pressa não.

A poltrona era macia. Havia cheiro de tabaco e cachaça no ar, e algumas peles faziam vezes de tapete. Ticia, sentada onde horas antes João bebia, tocou o tecido, pensativa. Ouviu quando ele se aproximou e a surpresa do seu anfitrião por encontrá-la tão a vontade.

            João observou a moça, os cabelos longos escapavam da proteção da poltrona, que ela girava suavemente. A visitante parecia confortável demais para seu gosto. Quando ela girou a poltrona, pondo-se de frente a ele, o passo que ele ameaçara dar paralisou-se no ar. A garrafa escapou das mãos trêmulas e o líquido sumiu no tapete felpudo. A moça se levantou.

– Você está... não pode ser você, ela. Você está...

– Viva. – não havia alegria na interrupção. – Estou viva.

João carcará firmou os olhos, algumas noites, sob o efeito de muita bebida, ele sonhara vê-la. Mas não conseguia acreditar. Aproximou-se e ergueu a mão, temendo tocá-la. Em resposta, ela o fez. Com lágrimas nos olhos, pegou a mão e a levou até sua face.

– Eu estou viva, Dinho.

– Esse nome não existe mais, como você... não consigo entender. – A mesma mão que instantes antes torturava, deslizou com suavidade pela pele macia. E de repente, ele se afastou.

– Mas eu vi os corpos, eu vi suas roupas e todo o sangue.

A moça caminhou ate a janela, sendo seguida por ele, João precisava ver a face dela, enquanto falavam. Para Ticia, cada palavra trazia agora um mundo de lembranças e dor.

– Eu estava ferida e... estive longe, muito longe.

– Sabe como eu fiquei, o que a sua morte... – ele engoliu a saliva e a dor, – o que a sua partida me fez? Eu quase enlouqueci Janaina, e você estava viva, o tempo todo. – A tristeza começou a dar lugar a raiva. – Por que voltou agora? Depois de tanto tempo...

Ticia não sabia por que voltara, talvez, por Paolo, por ela. E por ele. Por que precisava... Conhecera a alma pura do menino e vira a crueldade do homem. Mais que isso, sentia a culpa por tê-lo abandonado, a dor do esquecimento. Mas sentia também o grito da natureza destroçada, do sangue que a terra já bebera em nome do poder, da ganância e do simples descaso com a vida. A honra de não abandonar sua missão lutava contra as lembranças da menina Janaina, chorando a beira de um rio enquanto o seu único amigo procurava lhe dar consolo. Sentiu o ardor das lágrimas antes de caírem.

– Onde está o homem-lobo, Dinho?

– Eu já disse, Dinho não existe mais.

– Você precisa soltá-lo, ou então, outros virão.

– Os lobisomens. O ataque na fazenda, naquela noite, foram eles? Me diz, Janaina.

– Assim como Dinho, Janaina não existe mais. Meu nome agora é Ticia. Solte o homem-lobo João. Ele é da minha família, entende, precisa soltá-lo.

– Eles te levaram? O que houve Janaina, eu preciso saber. – Lia nos olhos dela a preocupação com os monstros, mas não permitiria mais aquela insanidade. Era hora de caçar, de vingar-se do destino mais uma vez. Se foram os lobos que destruíram o que uma vez, fora o melhor que vida lhe dera, teriam que pagar.

 – Logo a morte virá levá-lo, não haverá muito o que fazer. E os outros, eu esperarei por eles também. Você o quer, Janaina? Eu lhe darei ele de volta, tudo que deve fazer é esperar.

 – Espera, Dinho... João. – eu não quero que você se machuque, não mais, eu...

Uma gargalhada irônica foi sua resposta. Para João, somente uma única pessoa correria o risco de machucar-se ali, mas não permitiria. Gritou por Lito, enquanto tirou a arma da cintura, encostando-a no peito da moça. – Você fica, Janaina.

Ticia não queria nem tinha forças para lutar, a arma em seu peito impedia que reagisse. O peão ajudou a imobilizar a moça, prendendo-a com uma corda grosseira.

E tão rápido como a sua ação, ele saiu. Ticia permaneceu presa na sala, por alguns instantes, não soube o que fazer. A corda não a deteria, mas sua mente vazia, sim. Lá fora, os homens se reuniram e gritaram, comemorando algo. O cheiro de morte, a dor lancinante que a atingiu quando se aproximou da janela e viu o que comemoravam. Ticia compreendeu que o fim havia chegado. A mulher-lobo mão suportou a dor que lhe consumia ao ver o que restara do amigo. Seu uivo percorreu a noite e as criaturas, mágicas ou não, buscaram os mais escuros recantos para se proteger.

Quando o lobisomem saltou pela janela, levando consigo parede e vidro, a primeira coisa que viu foi a cabeça decepada de Paolo, exposta no centro do pátio. Ticia urrou e atacou. Os guardas que observam a noite, revezando-se em armas, terços e preces silenciosas, pressentiam o terror que os aguardava, mas nada os preparara para a fera que saltou em suas costas. O lobisomem agarrou o primeiro homem e com força, bateu seu corpo no solo com se fosse feito de palha, jogando-o em seguida sobre um outro sentinela. Dois metros de ódio, garras, músculos e mandíbulas ameaçadoras atacavam.

            Ticia podia sentir o cheiro de Paolo, de sangue antigo, de morte. O cheiro do Carcará, ele estava ali, ela sabia, mas outros também estavam e era preciso passar por eles. Mas nada mais lhe importava além da raiva, do desejo de vingança. Paolo se fora, Nikos gravemente ferido. Dinho, Janaina, eles já não existiam, uma fera maior os havia devorado há muitas e muitas noites. Um novo ataque direto a atingiu e enquanto ela agarrava o homenzinho, mordendo o pescoço até arrancá-lo, os tiros começaram. A munição pesada, destinada a caça, foi distribuída entre os capangas. A criatura uivou e avançou, lutando bravamente com os homens que atiravam, mas as balas fizeram um estrago e logo, estava caída no terreno. O sangue se derramava e ela fazia força para manter a forma lupina. Arames e correntes foram passados em torno de suas pernas. Enquanto os homens gritavam, comemorando o feito, a criatura rosnava, os ferimentos foram tantos que ela não conseguiria recuperar-se. Ticia sabia.  A mulher-lobo fechou os olhos, cansada de puxar as correntes e sentiu quando ele se aproximou. Os homens que a cercavam abriram o cerco, afastando-se.  Ele encostou o rifle na testa do animal. Mas a metamorfose começara. A criatura que jazia com os pelos cobertos de sangue já não tinha forças para urrar, os olhos avermelhados se abriram e fitaram o seu opositor, depois, ela encolheu-se e começou a ganir baixinho. Os músculos retorcidos, os gritos de agonia. O corpo de moça se revelava aos poucos e os homens se benzeram. O Carcará apenas esperava.

A moça estava no chão, seu sangue derramava-se na terra. Mas ela não teve medo de encarar os que a haviam ferido mortalmente, levantando o rosto em direção ao luar. O assombro tomou os homens, mas o pavor que viram nos olhos do chefe quando ela o olhou os assombrariam por muitos anos. Descrença, medo, dor e por fim, lágrimas.

Dizem que a dor enlouquece os homens. João Carcará era rico, poderoso e principalmente, cruel. Há muito tempo, não sabia o que era a razão. Pensava ele mesmo que não lhe caberia mais nenhuma dor ou insanidade naquela alma destruída. Mas sua maior caça fora sua maior desgraça. Ali, com ela nos braços, ferida. Sob os seus joelhos, a terra que tanto sangue já presenciara, ele soube que sempre haveria mais tempo e espaço para a dor e a loucura no coração dos homens. O sangue subiu aos lábios da moça em seus braços, quando ela disse:

– Eu sou a mulher-lobo sim, Dinho, sempre foi meu destino, mas quem é você, o que você se tornou?

O homem não respondeu, meneando a cabeça, enquanto tentava deter o sangue, cobrindo com as mãos, os buracos das balas.

– Ajudaaa, ajudem.

Ele gritou, mas nenhum dos homens se moveu para ajudá-lo, se afastaram horrorizados, a memória ainda presa a ferocidade da criatura.  João se levantou, mirando com o rifle os homens que se afastavam. Começou a atirar, gritando que buscassem ajuda. Logo, estavam cercados apenas por corpos, os poucos sobreviventes embrenharam-se na mata. João soluçou, e tentou explicar

– Janaina, eu me perdi quando você se foi, Janaina... é um pesadelo. – ele gritava e, em sua dor, as lembranças se sucediam. – Naquela noite, eu prometi, eu soube, não há nada de bom nesse mundo, há apenas dor e... você estava morta. Ninguém se importava, nem a madrinha, nem ninguém... Por que não me disse o que você se tornou, o que eles fizeram com vo... – a moça estendeu as mãos e tocou os lábios do homem desesperado ao seu lado.

– Você jamais entenderia. É o meu destino, Dinho, uma mulher-lobo sim...  como foi minha mãe, lobisomem como o meu pai. Sempre foi meu destino.

– Minha fé se foi com você Janaina, como você teve coragem... eu nunca mais tive paz nem pude dormir...

A moça ergueu as mãos e suavemente, tocou o rosto daquele que, por muitos anos, fora seu protetor e, quis o destino, sua última missão. Antes de fechar os olhos, murmurou.

– Eu sempre estarei com você, Dinho.

 Os poucos sobreviventes do ataque a Morada dos Tuiuiús não gostam de falar da dor, do desespero e dos gritos que homens e feras lançaram na noite, do Rei do Carvão, ajoelhado ao lado daquela a quem muito tempo, julgara morta. Tampouco, da mulher-lobo que chorou lágrimas de sangue e estendeu as mãos delicadas em direção ao mais cruel dos carvoeiros e dos tiros que ele disparou contra seus próprios homens. Depois, apenas o silêncio da mata, da fuga desesperada.

João Carcará depositou o corpo da moça sobre a terra lavada pelo sangue, suavemente, tocou-lhe o rosto e levantou-se. 

– Dessa vez, eu vou com você, Janaina.

No pátio solitário, um único tiro se ouviu.

Dos corpos nunca encontrados e do fogo que consumira a fazenda não falariam, contavam sim dos lobisomens que destruíram as carvoarias, que vingaram a terra e as árvores mortas. Conversas de beira de fogão, de estradeiros e comitivas. Dos mistérios da alma, dos amores e tragédias ali vistos, não poderiam jamais explicar.

            Nikos, o único sobrevivente do trio que chegara a região, terminou sua missão, mas jamais voltaria. Outros viriam... para o Green Death, a viagem ao Centro Oeste não seria a primeira, muito trabalho ainda haveria de ser feito na preservação de um dos mais ricos ecossistemas do mundo.

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