Hemoglobina

(2 votos, média de 5.00 em 5)

Que estranha ilusão supor que o belo é bom” (Tolstoi)

Subi, reticente.
Não sabia o que esperava-me, conquanto o inescrutável sempre tenha, em mim, logrado assaz enlevo.

As vezes que, dela, pude a presença usufruir, questões mordazes me assaltaram. Estas, entretanto, não eram-me claras, apesar da sua natureza ser dolosamente explicita. Incongruências inatas da situação impar, concluía.

E assim, por tempo que já não me faz diferença, passei o cotidiano agora matizado de sua presença. Até o momento em que sou obrigado à este relato. Até os passos que tentam vencer os degraus a acessar-me o seu quarto.

As reticências, quando já estava a bater-lhe a porta, exortavam, como de costume. Se estes excertos nasciam dos lastros que havíamos construídos até então, não poderia dizer, de fato. Todavia, indicavam a penúria dos argumentos, pressentia.

Um, dois, três toques.

Em resposta, silêncio perturbador a demorar por instantes de recrescidas angustias.

A sinfonia entregue pela perda de contato entre porta e umbral, característica ignominiosa do som natural deste desencontro, avolumou sentidos meus, aguçados de antemão pela esperança sub-reptícia que dava-me as mãos, apertadas, desde o inicio da empresa.

Inspirou profundamente, pressionando as alvas pálpebras, até estas formarem fina linha de cílios negros encantadores. Premia os lábios carnudos e inchados de vermelho recrescido pela alvura da tez limpa, “porcelanada”, arrisco dizer.

Estendeu-me a educação, mesura encarnada em sua linhagem há priscos tempos, via-se desde o primeiro contato. Abria-se o horizonte das possibilidades encantadoras, ali, naquele simples gesto. Toda ansiedade, qualquer coisa a vaticinar incômodos, tudo a admoestar as reticências arcanas que me queriam algo dizer. Nada disso arrazoava suficientemente mais. Só os auspícios da beleza.

Que apenas ela, em sua augusta manifestação, regia os ditames do encontro.

Palavra não saltou-lhe a boca.

Indicou-me a poltrona, em estranha azáfama. No átimo da transição entre ordem e obediência, fixei olhar no colo transparente, que deixava a trama azul-esverdeada de veias e artérias em sintonia com desejos alhures procurados.

Vide o retrair e expandir em êxtase do torso artífice de vontades provocantes.

Prostrei-me e esperei a primeira sentença, construída em aforismos de peculiar penetração.

Nada.

Dois rutilantes olhos se aproximavam da minha alma, somente. Afundavam, macios, por entre os tecidos que constituíam esta matéria ignorada pela ciência.

Vi, enxerguei o gozo de mil prazeres amalgamados numa explosão incontrolável, que assaltar-me-ia iminente. Assim tratou-me até este dia. Assim tratar-me-ia novamente.

Céus. Infernos. Nada! O logradouro ao qual me dirigia era muito mais enlevante!

(...)

Lembro-me dos conselhos. Recordo-me do sentido apelado. Mas as reminiscências apagam-se neste exato instante. Tento invadir, ir mais longe no acesso as respostas, se é que elas existem.

Mas sou barrado por sensações muito mais atiladas. Estas prendem-me, mantendo o corpo ajoelhado e o espírito exposto.

O vampiro sorri, ao libar pelas fendas toda gota que escorre na fluidez dos espaços abertos. Os sulcos profundos dão permissão ao mergulho em arquejo estridente, arras da natureza lúrida desta e dos comensais que, agora, sentam, agacham-se, ao seu lado, no banquete.

Até quando?

Não sei.

Apenas que era agosto, mês ordinário, como seus irmãos.

Ainda o é? Pelo prazer em seus olhos, o gosto ainda é dos melhores.

Então, até quando?

Façamos assim, quando acabar, poderás ter a chance de saber, ao encontra-la. Ao encontra-los.

Para seu desgosto.
Comentários   

#4 Olavo Berquó » 24-01-2014 14:41

Remete ao século XIX.
O modo de escrever, o trato da ambientação e o vocabulário traz a sensação de estarmos na confeitaria Pascoal, na rua do ouvidor no final dos anos 1800, entre amigos e comparsas da transgressão, a discutirmos textos insurgentes.
Embora prosa, salta aos olhos... e ao coração, uma proximidade gostosa com a figuração sensual e o vocabulário culto de um texto parnasiano. E foi além... Pitadas bem colocadas de sinestesia, e o próprio tema, deixam um gostinho de movimento Simbolista.
É um texto diferenciado, mas que me deixou com uma sensação estranha: a história é boa, o passeio, contudo, foi muito melhor.
Ter uma oportunidade de caminhar por lugares que há muito não visitava, pelas ruas apinhadas de senhoras elegantes e moços de terno cinza... Passando pela rua do Ouvidor e chegando até a confeitaria Colombo, na Gonçalves Dias, para sentar com os amigos e discutir novas manifestações literárias foi um grande presente. Não passava por este lugar desde os tempos de preparação para o vestibular.
Notem que me marcou mais a forma do que o conteúdo.
Não sei se o autor teve esta intenção de fixar sua história no tempo através do modo como escreveu. Se for este o caso, foi brilhante.
Gostei muito do texto...
Só não sei onde coloquei o meu chapéu... rsrsrsrsrsr.
Belo trabalho, Victor.
0 +−

Olavo Berquó

#3 Déia Tuam » 23-01-2014 22:07

Perigosa erudição, maciçamente nos cercando.
Uma piscina de cimento a contrair toda nossa musculatura.

Simplesmente ao ler não dá pra respirar.
0 +−

Déia Tuam

#2 Luiz Poleto » 22-04-2013 14:42

Assustador, Victor... assustador.
0 +−

Luiz Poleto

#1 Victor Meloni » 16-04-2013 02:02

Às vezes, tenho medo de mim mesmo...
0 +−

Victor Meloni

Você está aqui: Contos Terror Hemoglobina