Insania

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“O palco da insanidade, amigo, não apresenta  espetáculos de beleza ou epifania. Quando a peça monstruosa da decadência humana se revela, tem cuidado. Os tentáculos do insano estão mais próximos do que se pode imaginar.”

Carlos Fuentes olhou para os colegas, que disfarçavam a apreensão em risos nervosos. A experiência única no centro de tratamento era de imenso valor para seu currículo, não seria  a morbidez poética do orientador um problema.

A tela em frente revelava uma moça em uma cela acolchoada, as mãos estavam livres, mas lera no relatório que as vezes, era preciso atá-las.

“Apresento-lhes Micaela! Filha. Linda. Apaixonada. Rica. Escultora. Mãe. Acordou certo dia e matou o pai, a mãe e a avó, os corpos foram encontrados espalhados no salão de festas da família.  A policia encontrou ainda três empregados, sua antiga babá e no quarto do casal, o marido e o filho de sete meses. O sangue escorria pelas escadas e ela se entregou com a docilidade que, segundo os que lhe conheciam, sempre lhe fora peculiar!”

Na imaculada maciez da cela, ela murmurava, os cabelos soltos, em movimentos tão suaves como uma dança. As mãos segurando firmemente um objeto que somente ela conseguia ver. Na mente entorpecida por drogas diversas, o nada. Nada. Absolutamente nada.  Então, Micaela apenas dançava e murmurava a solidão de sua prisão.

**

Carlos Fuentes olhou para a moça sentada a sua frente. Diminuíra a dose do medicamento e finalmente, ela parecia consciente.

Micaela olhou para o jovem médico. Mais um fascinado por sua tragédia.  Quando os remédios eram em doses maiores, ela apenas vagava num mundo opaco, mas por culpa dele, da paixão que revelava em querer entendê-la, os pesadelos estavam voltando.

A dor. A pele ardendo.  O anel e a pedra queimando entre seus seios nus. E então, ela era outra. Contou a ele, mais de uma vez, como gritava para que as vozes fossem embora, mas elas voltavam e com elas, como num caleidoscópio insano, criaturas tentáculosas e olhos tão nefastos cuja densidade era impossível suportar deslizavam ao seu redor. 

Os sonhos seria reais? O que era aquelas névoas de dor e sombras tão intensas das quais levava dias e dias até despertar? Ela implorava pelo abençoado esquecimento.  Pela graça do nada. Mas então, os sonhos voltavam e com eles, as lembranças encobertas em neblina vermelha.

Havia algo. Algo que não contara a ele.

Mas ela também não sabia. O que era? Na vastidão de uma memória maculada pela loucura, ela via-se gargalhando, feliz por ter em mãos, um anel e uma pedra sagrada. E então, hieróglifos moviam-se e figuras monstruosas criavam vida.  E por fim, os sussurros que dariam início a sua irreversível insanidade.

Ele dorme.

Ele sonha.

Ele virá.

Não sentiu quando rasgou a própria pele, nem seu sangue e sua carne sob as unhas.  Tomada por sensações que ardiam como o fogo, dançou e dançou enquanto suas mãos dilaceram sem pudor os que ousavam seu caminho. E finalmente sozinha, chamou por ele.  Em um rio de sangue, esperou por ele.

Mas somente as vozes cantam:

Ele dorme.

Ele sonha.

Ele virá.

                                                      **

Boa noite! Um crime chocou a população da pacata Tirvina. Carlos Fuentes está morto. O diretor do Instituto de Pesquisa Regional foi assassinado na tarde de ontem. Vários internos desapareceram e a policia ainda não apresentou suspeitos...

A moça apertou o botão do controle remoto e a escuridão cobriu a tela da tv. Satisfeita, encolheu os pés sobre o sofá puído. A voz suave cantarolava.

Ele dorme.

Ele sonha.

Ele virá

Comentários   

#4 Tânia Souza » 13-06-2013 18:15

Valeu pela leitura, personas! Minha singela homenagem ao mestre!
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Tânia Souza

#3 Victor Meloni » 21-05-2013 14:50

Tão bem escrito que me foi possível ver a poesia transindo cada linha, cada parágrafo, numa espécie de luxúria literária.
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Victor Meloni

#2 Luiz Poleto » 17-05-2013 13:41

A sutileza e a beleza desse conto fazem dele uma das mais belas homenagens ao mestre que já li.
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Luiz Poleto

#1 Flávio de Souza » 16-05-2013 19:31

Tentáculos, loucura e sangue, uma bela homenagem ao mestre! Beijocas, T!
:lol: :lol: :lol: :lol: :lol: :lol:
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Flávio de Souza

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