O Ser Gotejante

(2 votos, média de 5.00 em 5)

 

 

     Vivi a maior parte de minha vida no Jardim da Esperança.  Mas, apesar da  poesia e da  pieguice que tal nome sói evocar, não cuidamos de um sítio tranqüilo e bucólico. Jardim da Esperança é a alcunha  que algum político piedoso – e sobretudo  irônico -  forjou,  há mais de setenta anos, para eufemizar  um lugar de horror e sofrimento.  O Jardim da Esperança é um manicômio público.

      Quando me deram alta,  fizeram-no contra a minha vontade. É bem verdade que eu, sob o jugo de drogas poderosas, curvara-me docilmente à  candura da lucidez.  Mas eu temia que esta submissão fosse temporária.  Receava que os delírios tenebrosos retornassem. Foi por isso que implorei ao Dr. Khan para ficar.  Mas o médico apenas abanou a cabeça e sorriu.  Ele já  me dissera, várias vezes,  que há muitos anos  eu não decaía aos horrores da loucura.  E era verdade.

      Os primeiros anos longe do Jardim da Esperança foram felizes.  Parecia-me que  as vozes que se me irrompiam os ouvidos, ordenando atrocidades, haviam-se diluído em  débeis ecos nas paredes da Ala Amarela, onde eram confinados os psicopatas mais arrebatados. E que os seres noturnos, que se esgueiravam e se  prolongavam a partir da superfície das paredes sombrias, teriam finalmente encontrado a imobilidade rígida, eis que  para sempre contidos e sufocados  pela espessura do reboco e pela frieza da cal.

      Bem distante  dos muros do Jardim da Esperança, eu vivia, satisfeito, com a minha mulher e um filho solteiro. Retomei o trabalho com grande alegria.  Vivia uma vida tranqüila e produtiva.

      Mas, certa noite, após despertar de um sono atribulado,  tive a infelicidade de ouvir o gotejamento. O som vinha do lado de fora. Pude sentir que a coisa  estava junto à janela, olhando-me  e chocalhando avidamente os maxilares protuberantes. De todos os entes que habitavam o espectro de  minha insanidade, aquele era o mais repugnante e  cruel.  Em meus delírios, aquela entidade medonha, de fuças e presas porcinas,  suava e gotejava uma substância purulenta. E era capaz de cometer os crimes mais atrozes com suas garras vultrinas.  Não foram poucas as mortes – aquelas mais hediondas e cruciantes - , ocorridas no hospício, que eu, em minha sandice, atribuí a ele. Para a minha mente doentia, a sua presença na  Ala Amarela era um aviso de morte certa.

      O susto que tomei, ao ouvir o peculiar gotejamento – um som gosmento,  que eu tão bem conhecia -,   foi como uma descarga elétrica, que me fez entrar, imediatamente, em convulsão. O desfalecimento veio como ato de providência divina.

      No dia seguinte, a minha mulher, percebendo o meu espírito perturbado, perguntou, com um olhar preocupado, o que se passava comigo.  Naquela época de tanto contentamento e de tanta  felicidade, eu não mais queria retornar ao hospício. Por isso hesitei, e acabei por nada responder. Mas ela insistiu:

       — Foi o Ser Gotejante?

       — Foi – respondi, pondo-me a arrumar as malas.

       — Não vá.  Tente mais um pouco. Apenas uma semana. Se ele retornar, você volta para o Jardim.

       Devo dizer que o Ser Gotejante somente me afluía à imaginação em estados de profunda atribulação. Um pesadelo foi suficiente para que ele assomasse. Ordinariamente, o Pequeno Duende e o Homem-Treva-que-Saía-da-Parede eram as entidades mais assíduas. A Voz Autoritária, nem tanto assim, malgrado  muito mais  perigosa.  Havia outras entidades secundárias, menos ou quase nada ofensivas. Por isso, pouco me assustavam. Mas o Ser Gotejante... Este... Este me deixava em pânico.

       — Prefiro voltar. É necessário.

       — Foi somente ele? Os outros retornaram?

      — Não. Não retornaram. Foi somente ele.

       Então Mauren desarrumou as minhas malas. E me disse que se eu fosse, seria para nunca mais voltar.

       Dois meses após esse incidente, quando eu me preparava para uma viagem a serviço, percebi que algo deixava-se cair, no banheiro, gota a gota. Não era o burburinho alegre da água que se acumula nos canos e desliza em gotas para o chão. Era um som pesado, abundante,  de coisa pútrida. Um som grave e pestilencial.
 

      Então ouvi um grito. Era o grito dela. Corri ao banheiro. Mas era tarde demais. O Ser Gotejante mastigava um dos olhos de  Mauren.  O outro era uma gosma,   a escorrer das fuças que  coisa arreganhava. Com suas garras medonhas, produziu uma profunda incisão no ventre de minha querida, enquanto sorria para mim. Quando ele levou aos dentes escarpados um bocado das entranhas  da doce Mauren, intuí que ia desmaiar.  Mas fui colhido no braço do filho que me restara, e  que acorrera em nosso socorro. Pobre Henry! O seu depoimento, articulado  em meu favor, por evidenciar  uma proteção grotesca e inverossímil, selou-lhe uma amarga sorte. Hoje ele está encarcerado, acusado de falso testemunho. E eu retornei, completamente lúcido, à Ala Verde do manicômio. Decerto levarei ao túmulo a fama de louco homicida. Mas não quero estar atado por uma camisa-de-força quando, no corredor,  o som gotejante se tornar cada vez mais audível, manifestando a crescente aproximação da coisa abominável.

 


Comentários   

#3 SanWolf » 27-03-2014 06:09

Muito bom mesmo!
0 +−

SanWolf

#2 Olavo Berquó » 10-10-2013 16:22

Muito bom conto. Um vocabulário rico e bem colocado que dá clima e elegância ao texto.
História boa e que atrai o leitor.

Gostei muito.
0 +−

Olavo Berquó

#1 Fábio Silva » 28-09-2013 23:45

Apesar do conto ser curto ele tem bastante mobilidade. Apesar do curto tempo que o conto corresponde, se passa várias cenas de uma forma bem interessante . Um belo conto.
0 +−

Fábio Silva

Você está aqui: Contos Terror O Ser Gotejante