Olhos Sedentos - Carolina Mancini

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Olhos Sedentos

Conto e Ilustração

Carolina Mancini

 

 Seus olhos tinham sede, é isso que digo. Olhos voláteis, bruxuleantes, titubeantes como lábios sedentos, sempre à espera e à procura. E do que eram sedentos? Podem me perguntar. Lábios tem sede de água, de álcool, de beijos. Alguns lábios têm sede de sangue. Outros têm sede de mentiras. Mas os olhos?

 Seus olhos eram sedentos de vazios. Ela piscava freneticamente ao encontro de muitas coisas, quadros complexos, paisagens movimentadas, móveis em excesso, luzes coloridas. Seus olhos queriam calmaria, como a calmaria quer tempestade, por isso, nos apaixonamos. Eu era uma HQ risível ao seu contexto, e ela me amava e me odiava. Detestava cada tatuagem, cada desenho feito com tanto afinco por diferentes artistas.

 Como nos cruzamos? Curiosidade.

 Cada desenho em mim fazia com que os olhos de Jéssica me devorassem buscando entender e desvendar. Meu colorido lhe inquietava enquanto ela procurava um espaço em mim sem cor, sem informação, sem arte. E me perguntava sobre cada desenho e significados a fim de fazer daquela confusão, razão que fosse... E eu fui me apaixonando por ser desvendado como um quadro.

 Era noite estrelada e passeávamos, ainda apenas amigos, pelas ruas da cidade iluminada de luzes amarelas e estrelas furtivas. Nos encostamos na grade de um parque segundos antes do assunto morrer entre nós. Já acostumada, assim eu acreditava, com meus desenhos, seus olhos foram do céu para os meus e dos meus aos céus repetidamente.

 “Sabe o que é etéreo em ti? Seus olhos são poços de isolamento e espera. Veludo, algodão...”

 Jéssica era poetisa. Dessas tão humanas que poucas palavras satisfazem todos os sentidos.

 Seus olhos sedentos gritavam desejando o branco dos meus. E a beijei. Beijei infinitas e inúmeras vezes.

 Então ela descobriu:

 “Me preenche com seus beijos, e me faz tão inteira que ao fechar dos meus olhos, vejo o maior vazio que eu poderia desejar: porto de silêncio e calmaria.”

 Eu me apaixonei por Jéssica, e isso não me fez ver o quanto era doentio o desejar daqueles olhos.

 Começamos a namorar e nossas noites de amor só existiam no escuro profundo, e nas tardes em que nos encontrávamos, seu corpo só encontrava o meu na penumbra de uma cortina escura. Ela deixava de me olhar com atenção nos dias de calor, em que regatas e bermudas não escondiam meus desenhos. Jéssica já conhecia todos os meus riscos, e toda aquela confusão perdeu o encanto.

 Mas ela AINDA olhava para meus olhos, e desejava meus beijos, e isso mantinha-me cego das suas escolhas e vontades. Roupas tampando minhas pernas e braços eram cada vez mais frequentes no meu guarda-roupa, e me acostumei a ter suas carícias apenas no escuro, talvez o mesmo que escondia as novas estranhezas de suas propostas de amor.

 Jéssica levou uma lanterna para nossas noites de luxúria, e com ela iluminava meus olhos à fim de ver o quanto eram brancos.

 “Amo seus olhos, como amo a placidez de tardes de sol que cegam pela luz e empalidecem as árvores e muros.”

 Talvez eu devesse ter dito, no começo desse relato, que quando nasci um grave problema na pigmentação de meus olhos fizeram deles tão claros que se vistos de relance, era possível crer serem totalmente desprovidos de cor, feito nuvem, feito papel em branco: a pérola de Jéssica. Já minha pele, mar de cor, tornava-se a angústia entre mim e ela... Então, talvez eu devesse ter dito que algumas vezes despertei com ela arranhando uma de minhas tatuagens, como se brincasse ali, de me imaginar sem elas.

 E talvez eu devesse ter achado estranho quando ela se propôs a tomar banho comigo, e depois de examinar cada risco, resolveu esfregar-me tão forte, ao ponto de me fazer sangrar.

 Curiosamente o vermelho de meu sumo sobre a doce e branca espuma, não lhe causava tanto mal-estar quanto as artes em mim.

 Eu amava Jéssica. E não vi - estava cego - o seu plano.

 Estávamos bêbados, quando ela confessou me amar pelos olhos, que adoraria se tudo em mim fosse como os algodões de minha face. No entanto, se contentaria com o que em mim lhe fazia matar aquela sede de quietudes e vazios.

 Acordei da embriaguez posto numa cadeira, amarrado pelos seus lençóis brancos, e na boca mordaças. Atordoado vi a navalha em suas mãos.

 “Um corte para livrar o mal e as trevas que lhe circulam.”

 Ela balançava a navalha num ritmo doentio e infantilizado que criava, e eu, confuso e atordoado, tentava entender o estado em que me encontrava.

 “Dor que dilacera, cria na seiva da beleza morada. Deixai o algodão livre.”

 E brincava com versos de outros...

 “Seus olhos tão belos, tão belos seus olhos, que se escondem nos riscos da morte a sorrir.”

  “Olhos tão belos, algodão em sangue, que eu limpo a sorrir...”

 O pavor ganhou meu rosto e nervos, quando percebi o que ela planejava.

 “Não há que se preocupar meu bem. Eu os limparei, eu os guardarei.”

 

 Eis que suas mãos frias tocaram minha face pela última vez. Seus dedos longos e finos a pressionar meu rosto, enquanto a mão destra segurava a navalha.

 Eu havia sido dopado, provavelmente com seus calmantes, e não sabia de onde achar forças para enfrenta-la.

 O gelo da navalha sob minha pálpebra inferior. A pior dor. A indescritível dor gelada da navalha a entrar na pele e jogar em suas mãos meu globo ocular. O sorriso dela, a satisfação, e seus olhos tão sedentos encontrou o meu em sua mão.

 “Finalmente.”

 Desmaiei.

 

 Hoje, na cama do hospital, disseram-me que fui socorrido graças a uma ligação anônima, voz de mulher. Foi ela. Sei que me deixou vivo por um resquício de desejo, pois lembro, quase como a lembrança de um sonho, do seu beijo enquanto desacordado, e o aviso de que ela ainda voltaria, caso não encontre outro vazio como o que levou de mim.

Comentários   

#1 Miguel Viegas Leal » 06-02-2016 20:35

Gostaria de entender por que Jéssica esfaqueou o namorado.

De resto, tecnicamente só tenho a acrescentar que em vez de " Jéssica era poeta. Dessas tão humanas que poucas palavras satisfazem todos os sentidos.", ficaria melhor "Jéssica era uma poeta tão humana que poucas palavras satisfariam todos os sentidos."

Mais nada a dizer. :D :D
+1 +−

Miguel Viegas Leal

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