O Interrogatório de Muir

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Penso que meu ilustre desconhecido tenha tido mais que uma inspiração para seu interrogatório, mais do que as simples e, às vezes, insuficientes palavras expressam, quiçá até mais do que queria dizer. Nas entrelinhas, creio, estão as dúvidas e os anseios do ser vivente, daquele cuja morada está tão vilipendiada e cujo tabernáculo está fadado ao pó.

Ter hesitado em cruzar a estrada, a meu ver, é justamente as escolhas que deixamos de fazer ao longo de nossas vidas, e também as escolhas – erradas – que eventualmente (quase sempre) fazemos. Indiferentes são as consequências de nossas escolhas mal-feitas. À espera, parados, do interrogatório, nada mais é do que malograr-se frente aos enganos, que é, também, a própria vida (e também a que levamos).

Diante do fracasso (mesmo que mascarado de êxito) sempre nos perguntamos: quem somos ou de onde viemos. Não adianta negar o que somos, não quando (somos) raças: a mais inteligente, a mais cruel. A mais prejudicada (por um e por outro [inteligência e crueldade]). Então ficamos parados e respondendo dia-a-dia, para a vida, o porquê de nossas batalhas. E do fracasso (sobretudo como ser vivente, pulsante).

Ver, pela estrada, pares amantes é observar a todos, sim, na estrada da vida, felizes e bobos. Claro, descuidados. Andantes, errantes d’outras estrelas e d’outros pensamentos, estes distantes da verdade absoluta. Com sonhos na cabeça nada evolutivos, simplesmente passantes, mas com rumos certos iguais ao de todo o mundo. Tão perto, tão longe. Iludidos. Simplesmente iludidos, com tantos desvios, achando-se donos de respostas e ações, quando vem a vida e os tolhe feito mão pesada e resoluta.

O homem tente a continuar seu errante destino arrogante, um vagamundo manipulado. O campo, o seu lar tão desprezado, impassível e nem um pouco distante, sabe que logo tudo reiniciará – novo ciclo, coisas velhas, força inalterada. E em seu limite, estando o homem sem imaginar está-lo, o fio da paciência, sabedoria, quase se esgotando, nada faz para tentar corrigir seus erros, nem se preocupa em deixar de cometê-los, e então vem esta força primeva e destrói e reconstrói. Passa feito areia no deserto, ou o ar que respiramos, não vemos, mas poluímos. 

Creio que para o distinto poeta Edwin Muir, que também conheceu dois séculos (o fim d’um e o início d’outro), o interrogatório é o transcorrer desta vida, seus fracassos e fracassos travestidos de sucessos, conquanto o seu continuar seja a própria vida, seus desgostos e desgostos disfarçados de sabores e talantes.

 

EDWIN MUIR, POETA, 1887, 1959.

Comentários   

#2 Elsen Filho » 29-09-2011 12:36

Fantástico.
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Elsen Filho

#1 Tânia Souza » 25-09-2011 19:56

Uma leitura que me apresentou Edwin Muir e por esse texto, busquei o Interrogatório, um poema que merece ser mais lido e conhecido, com certeza, gostei. E quem quiser conferir o poema, aqui neste link, uma versão em língua espanhola. Leo, gostei da leitura.

lamajadesnuda.com/.../...
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Tânia Souza

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