Os Contos "Góticos Sulistas" de Eudora Welty

(1 voto, média de 5.00 em 5)

 Curiosidades: 

O famoso programa de emails Eudora foi batizado deste modo como uma homenagem a autora.

Em um fato raro, A Curtain of Green, sua primeira coletânea de contos, foi lançada antes de ter publicado romances.

A coletânea Os Frutos Dourados do Sol do autor americano Ray Bradbury, foi assim batizada como uma alusão e homenagem a sua coletânea de contos interligados The Golden Apples.

 A tradição literária do sul dos Estados Unidos que ficou conhecida como Southern Gothic produziu na primeira metade do século XX alguns dos mais interessantes e originais escritores da literatura americana; porém como acontece em outros meios, rótulos definem e limitam nas mesmas proporções, quando não distorcem e reduzem.

Existe uma lamentável tendência em generalizar artistas de uma mesma época ou movimento (talvez por uma necessidade mercadológica), e como consequência ocorre uma alienante “guetização” e marginalização, afastando-os assim de potenciais leitores de gênero (pelo menos aqueles que enxergam o Stephen King, por exemplo, apenas como um escritor de horror tradicional, sem atentar para outros aspectos tão ou mais interessantes como sua visão aguçada ou habilidade em construir personagens humanos e verossímeis por meio de diálogos coloquiais).

Infelizmente essa mesma tendência nos cega para o fato que alguns dos melhores textos fantásticos brotam de mentes do chamado “mainstream literário” (que definição horrível!) e quando críticos, leitores e autores insistem nessas delimitações e reducionismos, todos perdem.

Os contos Uma Rosa para Emily do sulista William Faulkner e Death in the Woods do Sherwood Anderson, não são estranhos aos editores de antologias de horror. Os textos brutalmente satíricos e realistas da Flannery O’Connor foram vistos nos anos cinquenta por alguns críticos “sérios” como obras menores (quem adivinhar o motivo ganha um doce).

E eis que chegamos aos contos de uma autora que, enquanto considerada uma das maiores escritoras americanas, é frequentemente ignorada por críticos e leitores do fantástico (sim, aquele mesmo desdém [às avessas] do mainstream que tanto criticamos), mesmo com um verbete exclusivo na prestigiosa enciclopédia The St. James Guide of Horror Writers (O quê? Opa! Uma intrusa no nosso Clube do Bolinha!!).

Se eu fosse defini-la em uma palavra, classificaria como uma autora “inquieta”.Em seus soberbos contos encontramos os mesmos fanáticos religiosos, inválidos, suicidas, maltrapilhos, intolerantes, esquecidos, vagabundos, loucos, alcoólatras, pervertidos, corruptos, solitários e outros tipos tão emblemáticos e importantes para a identidade e estilo sulista, mas é em seu modo de expressão e riqueza estilística que ela difere radicalmente de seus contemporâneos. Calma, não estou dizendo que originalidade e identidade literária sejam artigos de luxo no sul (longe disso!), mas nenhum escritor gótico buscou com tanto afinco novos meios de expressão, ninguém experimentou tão incessantemente com estilo e forma como ela (um aspecto inexplicavelmente esquecido por críticos e leitores!). Claro que experimentações não fazem de ninguém um bom autor, mas sabemos também que é na habilidade e cuidado na mistura dos ingredientes que são feitos os melhores pratos, e os seus, ainda que preparados com temperos nem sempre típicos da culinária sulista, são exoticamente deliciosos e “inquietamente Welteanos”.

Seus contos são uma síntese de tudo que a literatura sulista produziu de melhor: quando não nos deparamos com textos que mais se aproximam da prosa poética que do conto tradicional (The Whistle), encontramos comovedores e penetrantes retratos psicológicos de suicidas (Clyte) ou impressões paisagísticas e autobiográficas ousadamente experimentais (A Memory), pertubadores suspenses psicológicos (A Piece of News), fábulas enigmáticas (A Curtain of Green), humor sutilmente inquietante (Why I Live at P.O.), tocantes alegorias bíblicas com simbolismo religioso tipicamente Hawthorneano (A Worn Path).

Quando Welty não constrói textos com muitos diálogos ou como [quase] monólogos (Lily Daw and the Three Ladies), os elaboram como exercícios puramente descritivos com a precisão linguística de uma Katherine Anne Porter, o lirismo melancólico da Carson McCullers e (às vezes) os sobretons soturnos e melancólicos do William Faulkner, porém sem cair no realismo cru e ríspido da Flannery O’Connor.

Para quem a leu, talvez seja desnecessário ressaltar sua desenvoltura e graça em situações incômodas e desconcertantes, ou uma sutil inquietação em meio ao humor tipicamente sulista; surrealismo discreto, atmosferas poeticamente nebulosas, imagética intensa, descrições vagas, oblíquas e (deliberadamente) imprecisas abundam em Welty (por vezes passam a impressão de um proto-realismo mágico). Quando necessário, sua prosa se torna mais direta e objetiva, pois sabe que um bom estilo é um estilo adequado ao fim a que se destina.

Não existem limites para sua sede de experimentação e imaginação poética, nem para a minha verbosidade prolixa e incorrigível mania de tentar definir o indefinível; por fim basta dizer que amem ou odeiem (e não são poucos os leitores que resmungam quanto ao seu estilo enigmático e finais abertos), lê-la (caindo naquele horroroso clichê!) é uma experiência única: única, inquietante e inclassificável.

Eudora Welty não é uma escritora, é o pacote completo.

Comentários   

#5 stefany rodrigues ro » 09-06-2013 02:45

ops me desculpe,mas falei errado :-* :-* :-* :-*
0 +−

stefany rodrigues ro

#4 stefany rodrigues ro » 09-06-2013 02:43

eu acho que se pedi historias deviria aparecer :zzz :zzz :zzz :zzz
0 +−

stefany rodrigues ro

#3 Tânia Souza » 26-12-2011 17:33

Citando Ramon Bacelar:
T,

A Welty pode não aparecer nas listas mais tradicionais de literatura fantástica, mas é uma escritora obrigatória para quem gosta do lado mais aventuroso e avant-garde do fantástico.

Duas dicas:

A maravilhosa e fascinante série da HBO Carnivale tem algo da Welty em sua atmosfera e fotografia.

Aqui tem um belíssimo curta baseado em The Worn Path:

www.youtube.com/.../

www.youtube.com/.../

Abs!



opa, valeu, vou conferir :roll:
−1 +−

Tânia Souza

#2 Ramon Bacelar » 26-12-2011 16:49

T,

A Welty pode não aparecer nas listas mais tradicionais de literatura fantástica, mas é uma escritora obrigatória para quem gosta do lado mais aventuroso e avant-garde do fantástico.

Duas dicas:

A maravilhosa e fascinante série da HBO Carnivale tem algo da Welty em sua atmosfera e fotografia.

Aqui tem um belíssimo curta baseado em The Worn Path:

www.youtube.com/.../

www.youtube.com/.../

Abs!
−1 +−

Ramon Bacelar

#1 Tânia Souza » 26-12-2011 16:33

Ramon, e a cada dica dessas, aumenta minha lista dos desejados o/
0 +−

Tânia Souza

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