Resenha de conto: Enterro Prematuro

(1 voto, média de 5.00 em 5)

Curiosidades:

Conto publicado pela primeira vez em 1844 no The Philadelphia Dollar Newspaper.

O filme Enterro Prematuro do diretor Roger Corman é considerado a melhor adaptação do texto original.

 

Sinopse:

Cataléptico desenvolve medo e obsessão de ser enterrado vivo e se isola, temendo que o tomem como morto em meio a um ataque. Confuso e atormentado recorre ao auxílio de amigos, mas sua obsessão intensifica a ponto de construir um caixão equipado com dispositivos mecânicos a fim de protegê-lo de algum ataque ou acidente.

 

Crítica:

Não é novidade para o leitor assíduo e o connoisseur que o Poe - assim como Maupassant, Grabinsky, Michaux etc. - escrevia sobre ele mesmo: medos, ansiedades, traumas e obsessões são uma pequena fração dos temas e repertório tipicamente poeanos. Porém, enquanto sua personalidade idiossincrática o impulsionava a escrever o que lhe desse na telha, ocasionalmente ele tentava – por necessidade financeira ou mera curiosidade intelectual – a se “moldar” (e de certa maneira seguir) as modas e o gosto do público, à sua maneira.

Catalepsia e o medo de ser enterrado vivo foram, durante algum tempo, assuntos em voga, com muitos debates e casos documentados. Fotos, charges, ilustrações e até alguns textos ficcionais – mais tarde explorados pelo cinema e quadrinhos – apareciam em profusão, mas sua sacada de gênio foi se apropriar de duas formas distintas – o relato ficcional e o ensaio filosófico-científico – e amalgamá-las em um todo, se não inteiramente coeso, no mínimo curioso e interessante o bastante para inflamar a imaginação e desenferrujar as dobradiças do cérebro habituadas a modos e abordagens ficcionais mais tradicionais.

A primeira parte, com suas realistas descrições de enterros prematuros, narradas pelo cataléptico em estilo sóbrio, pseudo-factual e (quase) jornalístico, na verdade prepara o terreno para a segunda metade onde ele relata sua experiência pessoal; e aí é que o bicho realmente pega.

Dentre as muitas qualidades deste texto primoroso, destaco a sequência de sonhos-visões “vividas” pelo protagonista que, pela sua beleza poética e intensidade alucinatória, pode – e deve – figurar entre as mais pertubadoras e potentes passagens da literatura. Nem o final racional e a transição abrupta entre ensaio e relato minam a força das linhas finais, carregadas do mais puro e caótico horror existencial. 

Nota: 9,5

Comentários   

#2 Ramon Bacelar » 06-11-2011 14:01

Olá Lucas,

Uma curiosidade: Ao contrário das outras adaptações do Poe feitas pelo Corman nos anos 60, essa tem o Ray Milland no papel principal. Concordo que sua atuação careça da flaboyance e dimensão trágica e skakespereana do Vincent Price , mas o filme é excelente e certamente o mais subestimado da série.

Não é difícil encontrar este conto em português.
+1 +−

Ramon Bacelar

#1 Lucas Maziero » 17-10-2011 15:21

Interessante esse tema, procurei e descobri que o filme é de 1962, só falta achar o conto para ler. Vai ser uma boa pedida :-)
−1 +−

Lucas Maziero

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